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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Como desligar os impulsos negativos?


Aluno: A necessidade de mudança só se tornou consciente em mim há pouco tempo, quando algo acontece e eu percebo que poderia estar reagindo de uma forma diferente. Mas mesmo percebendo isso, ainda existe um primeiro impulso negativo que não é consciente. Como eu faço para desligar esses impulsos negativos?
Monge Genshô:
Todos esses impulsos reforçam os sentimentos que surgiram, sejam eles bons ou ruins. Eu fico irritado, então manifesto a minha irritação e nesse momento ela se reforça. Uma vez eu estava sentado num banco de avião muitos anos atrás e nunca gostei de gente que bate na minha poltrona. Eu estava sentado e um homem começou a batucar na mesinha que era ligada à minha poltrona. Na época eu não era Monge Zen e sim praticante de karatê, então me levantei disse: “você sabe que está batendo na minha cadeira e que quando bate na minha cadeira bate em mim?”, o homem me pediu desculpas e bateu logo em seguida. Foi sem querer, eu entendi. Ele estava tão condicionado que não percebeu e logo depois parou. Agora recentemente eu me sentei novamente numa poltrona de avião e a pessoa de trás colocou os joelhos nas costas da minha cadeira e eu pensei “como posso tratar essa situação?”, então me lembrei que meu genro tem uma cadeira que faz massagem, fechei os olhos e pensei que na realidade eu tinha um massagista gratuito na poltrona de trás, me acomodei bem e deixei. Ele foi massageando e eu usufruí. Então qual a diferença? A diferença é todinha no mecanismo da sua cabeça que é capaz de transformar aquilo que era ruim em bom.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Devemos nos direcionar para o que é bom



Aluno: O senhor estava falando para a gente tomar cuidado com o que come e eu quero saber se isso vale também para outras coisas, como a televisão. É certo a pessoa se abster de ver televisão, já que a mídia publica tanta coisa ruim? Assim como procurar conviver com pessoas que transmitem algo melhor.
Monge Genshô:
Sim, é certo, mas tenho várias considerações a respeito. Eu fui diretor do Zero Hora na época em que ele era o quarto maior jornal do País e conheço a mídia por dentro. Muitas vezes vejo essa consideração a respeito de como a mídia trabalha, mas a verdade é que a mídia vive de audiência. Se tem notícia de violência é porque as pessoas adoram ver isso. Se você fizer um jornal e colocar: “grupo de 30 pessoas se reúnem para meditar” será uma notícia sem audiência, só ganharia atenção pela estranheza. Então se todas as pessoas desligassem a televisão quando vissem notícia de violência, essas notícias desapareceriam em 24 horas de todos os canais. O que ocorre é que estão sempre medindo o que as pessoas mais assistem, não adianta criar um programa que fale de outros esportes se todos querem ver sobre futebol, não adianta colocar um concerto de Brahms se todos vão mudar de canal. Mas se você quiser ver isso poderá pagar um canal específico e assistir. Hoje existem coisas maravilhosas disponíveis na televisão, só que é necessário pagar por isso. Semana passada eu assisti um documentário de três horas sobre o barroco europeu, mas tive que pagar para assistir porque essa é a demanda. Vi pelo Philos, um canal que tem como lema “penso, logo assisto”. Lá acho aulas, concertos, documentários, coisas ótimas, mas que não estão na televisão aberta. A televisão aberta se formou justamente colocando no ar o que atrai a maioria e isso não é de nível alto. Se você chega em outro país, no Japão mesmo, e liga a televisão aberta vai ver grandes porcarias, talvez até piores do que as que vemos aqui. Isso significa que há uma massa de povo inculto que procura o que é escandaloso, esse problema é bem antigo.

O sangue, a violência e o crime atraem o público por um fenômeno cerebral, as pessoas se sentem atraídas pelo que é assim porque apela ao perigo e existe uma parte do cérebro programada para prestar atenção no que é perigo. Usamos isso também quando colocamos o jisha sempre à frente do professor, porque se vier um tigre o jisha é comido e o professor se salva.

Mas, indo para a segunda parte da sua pergunta, o que nós devemos fazer é sermos cuidadosos e nos direcionarmos para o que é bom. Se você assistir algo traumático, isso fica na sua mente com muito mais força do que se você assistir algo belo. Nosso cérebro funciona assim. É por isso que a televisão chama a atenção das pessoas justamente com o que é ruim. Não é culpa da mídia, ela reflete a sociedade e se a sociedade muda, então a mídia muda. Por isso eu faço propaganda desse canal para que as pessoas vejam e ele sobreviva. Há um outro também chamado Arte 1. Então selecionem, tomem a decisão de procurar e isso vale para revistas, leituras e tudo mais na vida. Em algumas situações nós não podemos fazer isso, eu, por exemplo, trabalho como consultor então tenho que ler certas coisas. Se chego numa empresa e me perguntam sobre algum fato, eu preciso estar informado para responder. Mas isso não significa que vou ligar a televisão e vou me comprazer com os crimes mais horrorosos, eu não preciso fazer isso, já sei que eles existem, mais importante que ver é saber as estatísticas de como está a criminalidade, saber se ela cresceu, onde e por que diminuiu, se é possível mudar a mente de um presidiário, etc. Nós temos uma líder zen budista fazendo um trabalho assim numa penitenciária de Joinville e esse é um exemplo de trabalho que pode mudar o mundo. Se você direcionar a mente para um outro sentido poderá mudar o mundo.

O budismo já existe há 2600 anos e tem pouca gente ainda. Sempre que houve conflitos ele saiu perdendo. Infelizmente a invasão muçulmana na Índia contribuiu para destruir o budismo lá. A Universidade de Nalanda, na época era a mais antiga universidade do mundo, muito anterior às universidades europeias, foi destruída, com dez mil alunos, só sobrou os alicerces e havia uma preferência inclusive de matar as Monjas, porque achavam absurdo os budistas terem dado às mulheres autoridade religiosa. A linhagem feminina desapareceu no século XIII e por isso as mulheres são ordenadas hoje na linhagem masculina em muitos lugares. Na China o budismo também foi perseguido e destruído, renasceu das cinzas, mas foi destruído principalmente porque ele era ruim para o império. Havia uma acusação de que os homens, para fugir de serem soldados, iam para os mosteiros. No Japão, no século XIX, houve uma campanha contra o budismo. Para que o imperador fosse considerado Deus, assim como acredita o xintoísmo, o budismo precisava ser eliminado. A campanha feita em 1872 influiu até na minha vida, porque foi quando o imperador assinou uma lei permitindo que os Monges casassem para que assim o budismo fosse desmoralizado e perdesse o prestígio. Essa estratégia não deu certo e inclusive facilitou ter mais Monges, porque pessoas casadas também se tornaram Monjas e Monges. Apenas no budismo japonês os Monges casam. Mas é importante saber que isso foi uma tentativa de destruir o budismo, porque ele era pacifista e o império queria guerras. O Japão fez guerras horríveis nessa época e hoje escondem, diferente dos alemães que têm museus e ensinam toda a história para as crianças para que elas não cometam o mesmo erro. No Japão não há um único museu das atrocidades cometidas.

Infelizmente isso em parte aconteceu porque o budismo foi reprimido. Mas o que eu quero dizer é que pelo budismo nunca reagir, muitas vezes ele acaba desaparecendo. É o que aconteceu no Tibete, por exemplo, mas foi por isso que o budismo tibetano se espalhou pelo mundo. Hoje a maioria dos moradores do Tibete é chinesa, a etnia tibetana se tornou minoritária no próprio país. Seis mil templos e monastérios existiam, hoje existem apenas oito. Todos os outros foram incendiados.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Bem e mal, bom e ruim, visões duais




Aluno: Ao se tornar um buda simplesmente a onda cármica deixa de existir?

Monge Genshô: Não tem força suficiente para uma nova manifestação.

Aluno: Seria bom construir “carma bom” e diminuir a força da onda até que se elimine?

Monge Genshô: Depende do que você está falando como bom. Por exemplo, você tem um carma bom de generosidade. Isso produz tradicionalmente vipaka, um fruto de facilidade em obter coisas, elas vêm facilmente para você. Como você sempre foi generoso, outras pessoas são generosas com você. Isso retorna. Isso é um carma bom? É, em um certo sentido, mas no sentido de aprisionamento, continua aprisionando você aqui. Na realidade, extinguir o carma é uma tarefa mais profunda, muito mais profunda. Tem que ser generoso, sem que a outra pessoa saiba da sua generosidade. Aí sim a probabilidade de retorno é muito menor. Não estou dizendo que o agradecimento foi ruim, foi bom.

Temos que distinguir bem isso. Existe o bem e o mal. Mas isso é uma visão dual. Há o bem e há o mal, isso é visão dualista, pois na realidade estão misturados. Pois quando você diz  - bom e ruim -  esse bom e ruim também são julgamentos comparativos. Como julgamentos de comparação eles também vivem dentro da dualidade. E a dualidade pode ser um excelente instrumento da nossa linguagem e muito bom do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista de compreensão espiritual, bem e mal são pares de opostos que nos levam à discriminação, conceituação, julgamento e nos amarram à pensamentos dualistas. É portanto um pensamento instrumental,  típico da linguagem, mas não um pensamento de compreensão absoluta.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Você cria seu mundo


Aluno - E quem controla essa manifestação? Se não sou eu quem controla, de onde vem esse controle?

Monge Genshô – Quem controla a gravidade, a chuva e os ventos? Nós sempre desejamos um “quem” por trás de todas as coisas, mas nem em você existe um “quem”. Quem dentro de você pensa? Você saberia me dizer? Quem é essa dentro de você que pensa?

Aluno – A mente.

Monge Genshô – E quem é essa mente? Quem controla essa mente?

Aluno – Eu ou aquilo que a gente pensa que é.

Monge Genshô – Você pensa que controla sua mente. Mas se é sua mente que pensa, que mente que pensa e que mente que controla o pensamento? Você tem duas mentes? Uma controladora e outra pensadora?

Aluno – Não. Penso que seja uma manifestação maior que eu, que está por trás e que criou...

Monge Genshô – E quem controla essa manifestação?

Aluno – Deus?

Monge Genshô – E quem controla esse Deus? Se ele parar e pensar, “Eu penso, mas quem me controla”? Qual seria a resposta que ele encontraria?

Aluno – Não, ele é a expressão de tudo.

Monge Genshô – E por que você não é a expressão de tudo?

Aluno – Eu quero ser a expressão de tudo, mas tenho que me livrar desse “eu”.

Monge Genshô – Mas então por que você atribuiu esse “eu” a alguém fora de você e por que esse “eu” fora de você não tem o mesmo problema que você? Ele teria, não é mesmo?

Aluno – Não vejo dessa forma. Ele é, logo já sabe tudo...

Monge Genshô – Mas então por que você não é?

Aluno – Alguma coisa aconteceu que mudou tudo isso...

Monge Genshô – Você está querendo atribuir isso a uma definição. Existe alguém atrás de mim que sabe tudo, pensa tudo e que sabe o motivo de tudo.

Aluno – Não acredito que ele, por exemplo, fosse criar o sofrimento. Se eu soubesse que sou parte dessa célula, não iria criar sofrimento para eu própria sofrer...

Monge Genshô – Mas então por que esse ser atrás de você criou o sofrimento?

Aluno – Não sei se foi ele quem criou. Pode ter sido algo...

Monge Genshô – Ah, então existe outro além dele capaz de criar e que criou o sofrimento?

Aluno – Não sei, é o que eu gostaria de saber.

Monge Genshô – A resposta é não. Isso é uma regressão sem fim. Se eu criar alguém extremamente bom atrás de nós, precisarei criar alguém extremamente mau para poder explicar a existência do mal.

Aluno – E sobre o véu de Maya, o véu da ilusão?

Monge Genshô – O véu da ilusão é que cria todas essas armadilhas. Nós criamos soluções através de regressões, por exemplo, como não sei como isso surgiu, eu crio algo atrás de mim para explicar o surgimento disso. Veja bem, os gregos não sabiam o que era o sol, então criaram o deus do sol que era Apolo e guiava o carro do sol todos os dias. Dessa forma, eles atribuíram à Apolo a solução do sol. Mas alguém poderia perguntar: “Mas e Apolo, de onde surgiu”? Para resolver esse problema, Apolo é filho de Zeus. Mas Zeus é filho de quem? Então criaram um Deus que era pai de Zeus a quem Zeus matou. E assim por diante.

Quando você cria uma explicação, tem que criar uma regressão para explicar o surgimento da explicação. Para resolver esse problema o Budismo nunca fala sobre essas coisas. Nós estamos raciocinando para ver como é a historia do pensamento, mas o budismo não tem esse tipo de respostas ou perguntas, “quem foi que fez isso”? Ninguém controla sua mente, ela é sua. Você tem o poder de ser senhora de sua mente, completamente, não existe ninguém comandando sua mente do lado de fora. Você pode induzir sua mente a se sintonizar e trabalhar com outras coisas, por exemplo, você falar palavras boas e criar um mundo bom ou pode viver a reclamar e insultar e criar um mundo semelhante a isso, atraindo pessoas com energia semelhante. Você cria seu mundo. No budismo o mundo não é criado de fora para dentro, mas sim de dentro para fora. Não atribuímos nada a uma força externa.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Um criador e o agora


Pergunta – Eu vi um vídeo de uma palestra sua juntamente com um grupo espírita em que o Senhor dizia que o budismo é uma religião sem Deus, o senhor poderia esclarecer isso?

Monge Genshô – O budismo não fala em deuses, mas tão pouco se dedica a negar sua existência, apenas não pensa que seja útil ficar se referindo a coisas não verificáveis. A idéia de um deus criador é completamente absurda para o budismo. O deus criador tem três grandes atributos, veja bem, isso é uma discussão e visão minha para responder sua pergunta, pois o budismo não se dá a esse trabalho.

Um deus criador é onisciente, onipotente e infinitamente bom. Se ele é onipotente poderia ter feito um mundo perfeito e bem feito. Não fez. Algumas pessoas poderão dizer: “mas há o livre arbítrio”. Mas veja bem, se eu colocar um cachorro, uma criança ou um macaco dentro de uma loja de cristais eu não sei o que irá acontecer? Então ele coloca um homem e uma mulher num local e avisa que daquele fruto é absolutamente proibido comer. Ele sabia o que iria acontecer, pois ele é onisciente, conhece passado, presente e futuro. Agora, ele fez algo sabendo qual seria o resultado, pois é onipresente e onisciente, então provavelmente não seja infinitamente bom. No caso deste Deus criador esses atributos são paradoxais, de modo que esse deus criador é uma contradição que filosoficamente é inaceitável. 

Esse assunto é extensamente discutido no livro de um Jesuíta que abandonou a fé, Tomás Antônio da Fonseca, “Doze Provas da Inexistência de Deus”. Ele se refere a este Deus, com um plano, um ser pensante, com uma intenção e que fez algo. Essa idéia desse tipo de deus é completamente estranha para o budismo. Mas se pensarmos como uma inteligência que perpassa todo o universo, não interferente, não criador e sem planos, então é uma idéia admissível e não contraditaria o budismo. O budismo não chega a ser ateu, não se dedica a negação, mas é “não teísta”, ou seja, não fala sobre deuses. Falar em um deus criador é diminuí-lo em razão das contradições, pois lhe damos responsabilidades que mostram que obviamente algo não deu certo. Não adianta colocar a culpa no homem e no livre arbítrio, isso é uma tentativa de jogar no homem a culpa de algo que o antecede. Nós somos imperfeitos, mas quem nos fez dessa forma?  Mas o budismo não perde tempo com isso, o que preocupa o budismo é a mente, o sofrimento e o agora.

Pergunta – Essa nossa criação para o bem e para o mal tem a ver com passado e futuro?

Monge Genshô – Não, essa questão de passado e futuro faz parte de nossas imaginações sobre coisas que nós mesmos criamos, são falsidades. O passado sobre o qual pensamos é uma construção e não aconteceu exatamente como pensamos. Um bom exemplo disso é esse exato momento. Se amanhã alguém perguntar sobre o que foi dito na palestra, teremos vários relatos diferentes e a medida que o tempo passa a memória também será alterada. O futuro é imaginação. Não adianta ficarmos pensando em como resolver hoje os problemas de amanhã. Os problemas de amanhã só serão resolvidos amanhã. Faz sentido imaginar o futuro frente à um tabuleiro de xadrez, posso pensar na probabilidade das quatro jogadas seguintes e calcular suas conseqüências, mas esse é um jogo de informação perfeita e muito simples se comparado com a vida.

A vida está sempre cheia de “cisnes negros”. Cisne negro é um evento que ninguém previu. Em 1986 estava na Alemanha e perguntei para um amigo sobre o muro de Berlim e se ele nunca iria ser derrubado. Sua resposta foi que não, isso sempre fora assim e nunca iria mudar. Três anos depois o muro foi demolido. Três meses atrás quem imaginaria que o povo brasileiro sairia às ruas para fazer reivindicações? Esses eventos são chamados “cisnes negros” porque em geral os cisnes são brancos, mas de repente aparece um cisne negro. Então, o futuro é imprevisível, mas sentamos para meditar e ficamos fantasiando sobre o futuro. O Zen sempre fala sobre isso, temos algo com o que lidar que é extremamente importante - o agora. Omar Kayyãm dizia, “dois dias me são particularmente indiferentes, o ontem e o amanhã”. É isso que o Zen ensina, olhe para o agora, é isso que você está perdendo.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Estava escrito


Pergunta: A pessoa deseja mudar seu destino através de sua vontade, mas às vezes a gente ouve falar que nascemos com um destino e assim será até morrer. A simples vontade é suficiente para mudar isso? Não falo só da iluminação, mas de tudo. Como fazer para que essa vontade modifique verdadeiramente sua situação?

Monge Genshô - Primeiro temos que compreender que destino não existe. Essa coisa de que “está escrito e assim será”, não existe. É frequente ouvir as pessoas dizerem quando alguém morre, que quando chega a hora não tem jeito ou então “foi Deus quem quis”, todas essas idéias são profundamente erradas. Se algo estivesse escrito e houvesse destino, não haveria responsabilidade alguma por parte das pessoas. Por exemplo, um criminoso poria a culpa no destino pelo seu crime e diria não ser possível evitar o ato cometido, pois já estava escrito. Não haveria culpa. Por outro lado também não haveria o mérito, por exemplo, alguém que faça algo muito bom, também estava escrito que ele faria isso, mérito zero. Não existiria nada de bom ou ruim, seríamos como autômatos seguindo uma peça já escrita por alguém, na verdade escrita muito mal, não é verdade? Pois este mundo está cheio de sofrimentos.

O que existe nas pessoas é carma, mas o que é carma? Carma são as energias de hábito e o acúmulo das consequências dos nossos atos pregressos, ou seja, aquilo que causamos. Eu tendo a agir em uma determinada situação de acordo com meu carma. Uma pessoa que seja muito brigona e que nada possa ser dito que ela já começa a se exaltar, o que é isso, destino? Não, é carma. Ela tem esse impulso e acredita que essa seja a maneira de resolver seus problemas, é possível mudar? Essa é tua pergunta. Claro, basta que mude sua mente. É fácil mudar a mente? Não, para mudar a mente precisa um treinamento, por exemplo, meditação. Para que praticamos meditação? Para perceber o que surge em nossa mente. Por isso não desperdicem todo o sofrimento de ficar sentados durante quarenta minutos de frente para a parede. Percebam o que surge em suas mentes, isso que surge é o retrato de seus condicionamentos mentais. Querem mudar suas vidas? Mudem suas mentes. Mudando suas mentes, seus sentimentos e ações mudarão, até mesmo o mundo muda, pois interpretamos o mundo de acordo com nossa mente. Como no exemplo do ciúme, porque uma pessoa sente ciúme e sofre? Por um condicionamento mental, porque dentro de sua mente existe a crença num “eu”, existe a crença de posse e desejos. É muito trabalhoso e difícil, mas toda mente pode ser mudada. Se alguém transformar totalmente sua mente e passar a ter sentimentos de alegria, compaixão, paciência e equanimidade, será um Buda. Terá condições e comportamento de um Buda.

A primeira idéia então, é que destino não existe, tudo é causa e consequência. Tudo tem um motivo ou uma causa anterior. Vocês estão bebendo chá porque alguém colocou água no fogo e fez chá, chás não surgem do nada. Na minha vida aconteceram grandes sofrimentos, mas quando olho para trás não enxergo culpados, eu fiz por onde me meter em situações das quais surgiram aqueles sofrimentos. Ninguém, além de mim, tem culpa. Temos que ter vontade de mudar nossas vidas e somos capazes de fazê-lo. Esse é o ensinamento do budismo, não existem Deuses lá fora ajudando os homens,   se houvesse um Deus ajudando os homens na Terra seria necessário pedir? Se ele fosse um onipotente e se fosse bom, não haveria miséria ou sofrimento. Então mesmo que exista um Deus uma coisa é certa: ele não interfere no mundo. Só quem pode mudar nossas vidas somos nós mesmos. O budismo está baseado nesse tipo de raciocínios e não em crenças.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Certo e errado existem para operar neste mundo



4) Em minha mente, não existir bom ou ruim é muito difícil de entender. Qual o principal objetivo então, destruir a dualidade ou compreendê-la e saber de sua existência?

Saikawa Roshi – Nossa mente precisa de dualidade para entender as coisas. Para entender sua vida diária você precisa de sua mente dual. Sem usar a dualidade você não conseguiria operar nesse mundo, você precisa julgar certo ou errado, bom ou ruim. Para tentar explicar eu usei a metáfora do transplante, mas para realmente entender você vai precisar de uma experiência e é por isso que fazemos Zazen.

5) Como posso cortar a raiz do sofrimento se ela não é minha?

Saikawa Roshi – Na nossa vida diária dizemos “meu corpo, meu sangue, meu rim, minha mente e minha opinião”. Você precisa ver verdadeiramente a raiz dentro de você, por que você diz “meu sofrimento”. Estamos tão tenazmente agarrados ao nosso “eu” que não percebemos que se temos um sofrimento, este é só do ”eu”.

De qualquer maneira estamos sentados e podemos apreciar o zazen, mesmo que sentados não há julgamentos do tipo “gosto e não gosto”, podemos simplesmente apreciar o zazen. O zazen nos ensina. Por favor, participem dos retiros, façam zazen. A gentileza das pessoas que frequentam as Sanghas é muito importante porque faz com que outras pessoas que venham à Sangha encontrem um lugar de paz e harmonia. Para criar paz e harmonia, pratiquem zazen e tentem ser um com os outros. Essa atmosfera de paz e harmonia vindas de cada um de vocês é muito importante para a Sangha. Por favor, aproveitem cada momento de suas vidas. Muito obrigado

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O mal e o bem, o bom e o mau



P:  Uma vez foi dito que nossa prática começa no nível da virtude até atingir o nível da compaixão. Quais são as etapas desde o nível da virtude?

Monge Genshô – Essa é uma forma didática de divisão.

A primeira é a prática da virtude e por isso tem regras como não matar, não roubar, não causar sofrimento, não usar substâncias que alterem a consciência. Como não temos o conceito de pecado, no entendimento budista, esses preceitos ou regras têm como objetivo a diminuição do sofrimento, tanto seu como de outros seres.

Depois de praticar desta forma por muito tempo, temos o segundo estágio que é o desenvolvimento de uma mente compassiva. Quem tem  mente compassiva não precisa das regras, pois matar, roubar e causar sofrimento não lhe é natural, e quanto mais cresce sua compaixão mais ela se estende a todos os seres e até mesmo as plantas, pedras e rios.  Para ele não existe a opção de causar sofrimento, ele tudo faz para evita-lo, na verdade vai mais fundo do que as próprias regras agindo com desprendimento e sentindo a dor dos outros como se fosse sua.

O terceiro estágio é o da não dualidade, onde não existem julgamentos e há equanimidade. Porém, não se pode cogitar a equanimidade sem passar pelos estágios anteriores. Algumas pessoas conhecem o Zen, começam a praticar e ler livros e querem falar sobre a não dualidade ou declarar que não existe o mal e o bem, que não há pessoas más nem boas,  que é impossível ser bom ou mau. Isto é ter entendimento zero sobre o caminho budista. A não dualidade é o desenvolvimento de uma mente não classificatória nem discriminativa, mas ela engloba os passos anteriores e só pode surgir em uma mente que já foi tomada inteiramente pela compaixão a tal ponto que a distância "eu e os outros" desapareceu, é ainda mais profunda que a mente compassiva. Ninguém que não tenha passado pelos estágios anteriores pode falar sobre não dualidade.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O compromisso cria bom carma


P: A impressão que tenho é que antes de praticar eu não tinha muitas escolhas, parece que eu era conduzido...

Monge Genshô – Isso é verdadeiro. No brasão de São Paulo tem uma frase em latim, “Non Ducor Duco”, que significa “Não sou conduzido, conduzo”. Isso serve para nós. Temos que passar a conduzir. Isso significa ganhar a liberdade da escolha. Se somos escravos de nossos impulsos, nós só os reforçamos. Temos que criar condições para que eles mudem. Como estava falando para o Monge Tokushi, você “escolhe” ser Monge, então cria um carma que arrasta você, não pode mais fazer certas escolhas, se quiser fazer o que quiser, deixe de ser Monge. Agora que colocou o manto, tem obrigação de ir à Sangha, tem que assumir compromissos, tem que estar nos sesshins. Se falhar em seus compromissos eu o repreenderei, pois ele assumiu o compromisso, não pode falhar.

Essa é a maneira de criar o carma que ele pediu. O leigo que costura seu Rakusu é a mesma coisa, fez os votos, não fez? Então como você fala mal dos outros? Ou observa os defeitos dos outros em vez de olhar os seus próprios? Está lá, o voto diz explicitamente que você deve evitar falar das falhas dos outros, que você se comprometeu a ajudar a Sangha e seu professor nas dificuldades e não procurar erros e comenta-los,  você disse na frente de seu mestre, “eu me comprometo”.

Quando você faz os votos, cria carma, colocar o Rakusu, cria carma. Você pode ignorar, mas você se comprometeu.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Energias de hábito



Pergunta – Mas então eu poderia falar que a sabedoria seria uma forma de manipular o ego, pois mesmo após a iluminação ainda possuo um eu.

Monge Genshô – Sim, é claro, você o usa. Você precisa de seu “eu”, não é que ele seja ruim ou bom, ele é necessário, você precisa dele para transitar no mundo. O que você não pode fazer é confundir-se com seu “eu”. Você não é seu “eu”. O “eu” é uma fantasia que você veste para viver no mundo. Quando você tira a fantasia, pendura num cabide olha para ela e diz, “Ali estou “eu”?”, isso está errado. Vivemos pensando que temos identidades e fantasias. Usamos fantasias diariamente, bancário, advogado, monge, policial, capitalista, comunista etc., todas são fantasias que podem inclusive ser trocadas. Todas as coisas que formam o “eu” são como fantasias.

Pergunta – Então por que ou como se caracteriza uma experiência de kenshô onde essa natureza se manifesta...

Monge Genshô – Não, ela não se manifesta, você a vê. Ela está aqui, você só não a vê porque está com óculos coloridos de sua fantasia, sua fantasia inclui óculos coloridos que fazem com que você veja o mundo com aquela cor. Se em sua fantasia você vê os outros como inimigos é porque você usa óculos que torna os outros seus inimigos.

Pergunta – O que leva uma pessoa a ficar presa numa determinada fantasia?

Monge Genshô – Marcas cármicas. Energias de hábito. Você começa usar uma fantasia e ela cria energia de hábito, essa energia faz com que você volte sempre para a mesma fantasia. Quanto mais você repete, mais forte fica e mais difícil de sair daquela posição. Isso acontece tanto para o mal quanto para o bem. Quando você se torna monge começa a vestir a fantasia de monge, incorpora esse papel e começa a comportar-se como monge, quanto mais você acentua esse comportamento, mais ele o marca. O mal também é assim, se você começar a viver uma vida com maldade, ela também irá marcando você. Eu vi uma vez o testemunho de um assassino onde ele dizia, “Ah, a primeira pessoa que a gente mata sente sede, ansiedade. A segunda pessoa a reação muda um pouco, depois da oitava ou nona, não se sente mais nada”. Todos vocês são assim. Se você está habituado a sentar-se à mesa e colocar um bife sangrento no prato e corta-lo e comer, você em momento algum pensa no boi que sofreu, foi morto e arrancado um pedaço para que você pudesse comer. Você nem pensa sobre isso. Você não se dá conta que está envolvido num processo de sofrimento.

Essas energias de hábito podem ser mudadas. Como? Repetindo atos bons, evitando os maus, isso vai por si só mudando os hábitos, os hábitos me marcam, a marca me muda e é essa mudança que levo comigo. Mesmo após minha morte o carma que provoquei no universo continua e quando outra vida se manifestar levará consigo esses sentimentos, apegos e desejos. Para tornar-se monge precisa marca cármica, vocês estão aqui porque tem marca cármica, para ouvir o Dharma precisa ter marca cármica.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Para quem quer respostas



Aluno – Me vem uns pensamentos, por exemplo, antes de vir já começo a separá-los, o que seria bom, o que seria ruim e por que sentiria aversão ao teu inimigo, antes mesmo de ser inundado por essa maré incessante de pensamentos conseguir distinguir o que é bom e o que não é...

Monge Genshô - Enquanto houver essa distinção entre o que é bom e o que não é, ainda estou com aquela mente primeira, a mente classificatória. Aquela mente que aceita integralmente, que vê como no terceiro passo, as montanhas como montanhas e os rios como rios, ela não tem classificações. Se ela classifica em bom ou ruim, ela não é não-mente. É uma mente classificatória, discriminativa, normal, comum.

Aluno – O bom e o ruim, em parte é cultural, né?

Monge Gensho – Sim. Não podemos dizer que algo esta certo ou errado, toda situação é particular dentro de uma determinada circunstância. Se você perguntar – Em tese, o suicídio é certo ou errado para o budismo? – normalmente está errado. Daí contamos a historia do mestre se auto-imolando. As coisas não são bem assim como parecem. Tem uma célebre história, que se conta para crianças no budismo, que Buda era um príncipe no passado e encontra uma tigresa com seus filhotes morrendo de fome. Sem forças até para se levantar. Então ele corta seu braço e deixa que ela beba seu sangue, para que ela recupere suas forças, possa matá-lo, come-lo e alimentar seus filhotes. Essa é uma típica história budista de ato de bodhisatva. Em vidas passadas etc. e através de atos assim ele chegou ao seu carma de ser um Buda. São atos sempre compassivos. Então os julgamentos de certo ou errado, bom ou ruim é uma coisa que não podemos fazer no budismo. Eu estava no Vesak agora e tinha um fórum e uma mulher fez uma pergunta e queria uma resposta. Então o Lama Padma Samten deu uma resposta, outro mestre deu outra resposta e um terceiro deu outra resposta, quando o microfone chegou em mim eu disse – O grande problema no budismo é as pessoas quererem respostas.

O que estava acontecendo? Ninguém respondia, faziam-se considerações, mas ninguém respondia, nem eu podia responder sobre a situação familiar dela. Esse é um problema que ela tem que resolver e tem miríades de possibilidades. Então, se você tem um problema e vai falar com um bom professor budista, como os que falaram antes de mim, para que ele lhe dê uma solução, do tipo “faça isso ou faça aquilo”, você não obterá essa resposta. Você vai chegar com um problema e quando sair terá mais problemas. Porque essa é a tarefa do professor, colocar mais problemas para você – Considere isso, considere aquilo e considere aquilo outro - essa será sua resposta. As vezes dá uma chacoalhada para que a pessoa veja que há outras considerações a serem feitas.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O bem e o mal, o que é ser bom ou ser mau?



Os preceitos budistas, que são tomados no jukai, (cerimônia dos votos em que os praticantes recebem o rakussu), parecem cheios de nãos e tem a marca da virtude, característica do primeiro passo do caminho espiritual. Uma parte deles, que resume tudo, diz, “fazer o bem, evitar o mal e seguir o caminho de Buda”.

Vamos explorar essas três pequenas frases. O que seria o bem? Onde está o bem? O que seria o mal? E onde está o mal? Se nós penetrarmos profundamente nessa questão ficaremos confusos, porque aquilo que a uns parece o bem a outros parece o mal, e algumas pessoas crêem que ao fazer o mal, estariam praticando o bem. Crêem por exemplo que, um extermínio poderia ser bom, ou crêem que se fizerem determinada coisa ela irá gerar um bem automático, e muitas vezes quando pensam que estão fazendo o bem podem criar uma tragédia. Afinal o que é ser bom, o que é ser mau?

Na antiga União Soviética havia um grande lago. Esse lago, ao qual chegavam alguns rios importantes, chamava-se Mar de Aral. Mar com peixes, pesqueiros e cidades à beira, tão grande que tinha o nome de mar. Um projeto governamental resolveu irrigar terras com os rios que chegavam ao mar de Aral. O mar tornou-se salgado através de milhões de anos, porque a água que ali chegava tinha pequena quantidade de sal, mas com a evaporação o sal ia se concentrando, dessa forma transformou-se num mar como qualquer dos mares. Os projetos de irrigação foram criados para produção de grande quantidade de algodão e outras plantas, foi bem sucedido e começou-se logo a colher. Mas o Mar de Aral não recebia mais a água dos rios e começou a encolher, descer. As cidades a beira do Mar de Aral, que tinham barcos pesqueiros, perderam seus portos e a medida que o Mar recuava através dos anos, foi deixando atrás de si uma terra coberta de sal. O sol secou o sal, tempestades de vento começaram a espalha-lo nas plantações e um enorme desastre ecológico aconteceu na região em volta do Mar do Aral, porque algumas pessoas pensaram que fariam o bem. Hoje, foram desbloqueadas as barreiras para que parte dos rios voltem ao Mar de Aral, dessa forma, uma parte voltou a ter água. Está se tentando reverter o que se fez no passado.

Nosso país todo é um exemplo disso também, da mata Atlântica sobre talvez sete por cento. Com o objetivo de uso da madeira, criar plantações e pastos, a mata foi aos poucos sendo devastada. E todo o tempo parecia que isso era o bem. Podemos listar infinitas histórias parecidas nas nossas próprias vidas. Então quando o preceito diz, “Faça o bem”, devemos perguntar, “Exatamente o que é o bem?”. O bem seria não produzir sofrimento a longo prazo e estimando todas as conseqüências? Temos que compreender que é muito difícil definir o que é o bem. O mal também tem muitos aspectos. Há uma história budista que diz; - um jacaré come um pato numa lagoa, onde está o bem e onde está o mal? Para o pato uma tragédia, para o jacaré foi uma refeição, decida você onde está o bem e onde está o mal.

(continua)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Sentamos para esquecer


(continuação)
Aluno: - Mas é difícil esquecer de si mesmo.

Monge Gesnhô: – Muito. A primeira coisa para superarmos esse problema é sentar em zazen. Uma vez sentados, não devemos deixar que nossa mente faça comentários. Primeiro, sentamos para meditar. Mas para que? Para meditar sobre nós mesmos? Sobre nossa vida? Não. Sentamos em zazen para esquecer. Esquecer nosso passado e nosso futuro. Se treinarmos nossa mente para isso, começaremos a nos tornar livres. É por isso que fazemos zazen. Será difícil alguém aqui achar um sofrimento do qual não possa dizer, “vem do eu”. Qualquer sofrimento vem do eu, os sofrimentos dos outros que nos doem, vêm do eu, porque somos apegados a eles. O sofrimento do eu que se sente ofendido, vem da crença no eu. Tudo vem do eu, pois como temos um eu, ele pode ser ofendido, se não houvesse um eu, não poderia me sentir ofendido. Algumas coisas são fáceis, bem fáceis. Se esquecermos que as coisas são nossas, não tem problema que elas sejam danificadas, não é isso que é mais importante. 
Ontem - acho que isso está se tornando tradição - bateram no meu carro novamente. Novamente uma mulher. Saí do carro e, naturalmente, fiquei com pena dela. Já estava chorando, apavorada, “como irei pagar, são dois carros, ainda por cima!”, o carro dela não tinha seguro. Tentei tratá-la o melhor possível. Depois de alguma conversa com o outro carro envolvido, resolvemos que o carro do meio assumiria a culpa e tudo ficou resolvido. Então, de noite ela me ligou para agradecer a forma como tinha sido tratada. A grande pergunta é: “Porque isso é possível?” Porque o carro não tem importância. Mas isso é fácil, o carro não tem importância. “Ah, mas bati no seu carro e não tenho como pagar”. Bom se você não tem como pagar, uma coisa é certa, não vai pagar. Assim, esse problema já está resolvido.

Aluno: – Isso é bem difícil mesmo, pois toda pessoa que entra num carro se transforma.

Monge Genshô: – Mas, veja bem, o outro senhor cujo carro estava no meio - ela bateu atrás do dele e o dele bateu no meu - ele também foi muito gentil. Então, fomos todos à delegacia no dia seguinte para registrar a ocorrência num clima de grande amizade. 
A gente nunca sabe como as histórias irão terminar, pode uma coisa que parece muito ruim se transformar em algo muito bom. Quando acontece algo ruim, devemos parar e procurar onde está o lado maravilhoso daquela história. Pode estar na nossa frente e não vermos. Uma vez, eu estava no Paraná trabalhando em uma consultoria e o avião fez um pouso de emergência. Estávamos todos no aeroporto muito chateados, pois teríamos que esperar muito tempo até que o problema fosse solucionado. Olhei em volta e pensei, “Onde estará a boa sorte dessa situação?” Então observei um senhor. Aproximei-me dele e começamos a conversar. A empresa aérea pagou um jantar para todos e fomos juntos, conversando. Para resumir, ele era diretor de uma grande empresa de franquias e acabou me contratando para fazer uma consultoria, pela qual recebi bom pagamento. Assim, o que era uma situação de grande chateação e desconforto, transformou-se numa ótima oportunidade.

terça-feira, 17 de julho de 2012

As coisas tais como são



Título: Comentários sobre Teishos de Taizan Maezume Roshi
Tema: Kanzeon
Decupada da gravação, digitada, editada e revisada por Denkô.


 Tatághata é um dos nomes de Buda, significa aquele que é, assim como é. Este tipo de afirmação é bastante profunda. Aquele que é, assim como é. Talidade é uma palavra que pretende traduzir suchnessem inglês, que quer dizer as coisas tal como são, exatamente como são. Isso é um conceito um pouco difícil à primeira vista porque parece que as coisas  são como são, mas as coisas não nos parecem como são, nos parecem diferente daquilo que realmente são, por exemplo, quando eu não precisava de óculos, óculos era uma coisa que as pessoas velhas ou que não enxergavam bem usavam, depois, quando eu comecei a precisar de óculos, óculos passaram a ser  uma coisa maravilhosa porque me permitem ler, pois sem óculos está tudo fora de foco. Portanto, as coisas mudam de acordo com a nossa percepção delas. Então, é através da nossa maneira de ver que as coisas manifestam as suas qualidades, são impregnadas da nossa percepção e não são como realmente são. Por exemplo, esta madeira desta casa, para um cupim, é comida, e para nós não, então nem o cupim nem nós sabemos o que é realmente a madeira. Cada um de nós tem uma imagem da madeira de acordo com a nossa visão pessoal. Esta nossa visão pessoal altera o mundo que nós vemos, o mundo percebido.
E poderia dizer que ninguém nessa sala vê as coisas tais como são. Exceto num momento iluminado. Por exemplo...estou tentando dar muitos exemplos porque sei que o conceito é difícil e sem exemplos ele não é entendido. Um antigo mestre hindu disse que uma linda moça sem sua pele é como um coelho esfolado. Isso quer dizer que os homens olham para as moças e as acham lindas, apenas com aquilo que eles emprestam para elas porque na verdade o corpo delas é o corpo de um animal. Nós como homens nos encantamos com a beleza por causa de hormônios nossos e condicionamentos da nossa própria natureza que é automaticamente feita para ver a beleza e o atrativo na bela moça, e da mesma maneira a moça olha para um belo rapaz e tem a mesma percepção distorcida  porque empresta a ele qualidades que estão dentro dela, que ela quer ver, porque na realidade ele sem sua pele também é como um coelho esfolado. A madeira, que era o meu primeiro exemplo, na realidade é chuva, sol, carbono da atmosfera fixado, muitas coisas e quando nós olhamos a madeira nós só vemos  madeira. Nós não vemos as coisas tais como são porque vemos todo o tempo através do filtro da nossa consciência, conhecimento, experiência, gosto pessoal.

É isso que acontece, por isso talidade é um coisa tão importante porque a talidade é  olhar uma coisa e vê-la exatamente como é  sem mais nenhuma idéia, nem julgamento. Esse é um dos motivos porque nós treinamos tanto, ficar sentado, sem julgar e por isso que a instrução é: seja qual for o pensamento que se apresente na mente  não julguem certo ou errado, bom ou ruim, só deixe que ele vá embora, sozinho. Não o persiga, não goste dele, não cultive bons pensamentos e memórias, não se horrorize com maus pensamentos, para que treinemos uma mente capaz de algum dia ser capaz de ver as coisas sem opiniões.


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Tudo construímos


P. A consciência constrói a realidade o tempo todo, não a realidade, mas as relações,e sintonias...
R. Nada acontece que você de alguma forma  não esteja merecendo, as coisas acontecem porque de certa maneira construímos condições para isto, mas muitas coisas que nós interpretamos como negativas não o são, parecem ser naquele momento, mas são oportunidades maravilhosas que se abrem depois, você tem que esperar, parar para ver, agora isto é só da nossa ótica porque se a todo instante você tivesse uma mente clara, a todo momento você estaria apenas vendo a beleza, deste momento tal como ele é.

P. Qual é a orientação sobre a respiração na recitação do Sutra do Coração?
R. Como a gente não para na recitação, se você não toma ar então você vai ter que pular uma sílaba para tomar ar, mas o grupo todo está recitando, então você tem que confiar que o grupo continua, então confie no grupo e não em você, é mais um dos exercícios das recitações, prestem bem atenção, nós não sabemos prestar atenção, o ritual todo tem significados simbólicos e toda a maneira de fazer tem ensinamento incluso. O ensinamento não é expresso, não é explicado, eu explico muito e esta não é a maneira tradicional. Saikawa Roshi disse que ele se sente culpado por explicar demais e não dar oportunidade para o aluno descobrir por si mesmo. Façam um esforço para descobrir coisas por si mesmos e vocês vão descobrir coisas que vão me ensinar e vai ser muito bom.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Quem tem razão


Pergunta – Razão e emoção formam uma dualidade?

Monge Gesnho – Acho que devemos questionar a razão também. Aquilo que chamamos de “razão”, muitas vezes é governado por um sistema de crenças. Nós acreditamos que algo seja pior, ou melhor. Como temos um sistema de crenças, damos a ele razão. Mas podemos estar enganados.

Pergunta – Qual a conduta a seguir?

Monge Gensho – Muitas vezes também me pergunto isso. Seguidamente me questiono sobre o que fazer, sobre qual seria a melhor conduta em certa situação. Quando temos filhos ou netos, é comum nos indagarmos: “e agora, qual seria a melhor maneira de agir, o que dizer?” Muitas vezes não estamos tão certos. Mais tarde, anos depois, o filho nos diz: “tu deverias ter sido mais duro comigo”. E pensávamos estar sendo duros demais. É muito freqüente que um filho adolescente nos acuse de sermos muito severos e que anos mais tarde ele mesmo diga que deveríamos ter sido mais duros. É muito difícil saber o que fazer ou o que dizer. O melhor é cultivarmos uma mente mais livre, descondicionada, que realmente nos permita dizer “não sei.” São muito perigosas as pessoas que têm certezas e que sabem muito nitidamente o que é melhor. Às vezes, existe nas famílias aquela pessoa que tem razão e que quer impor sua vontade sobre a família inteira. Ela se considera sempre certa, tem seu conjunto de crenças, e quer, por força, que todos as aceitem. No fim, isso pode ser muito ruim. Como é que se sabe o que é melhor? Como você pode impor aos outros o que pensa ser o melhor? Você não sabe. Temos muitos exemplos de pessoas que se tornaram grandes em alguma coisa contra o que seus pais tinham se oposto acirradamente. Há pouco tempo, li na autobiografia de Elias Canetti que sua mãe lutou denodadamente para que ele tivesse uma profissão, que estudasse algo que fosse realmente útil, para que não ficasse em fantasias de literatura. Ele então se graduou, fez mestrado e doutorado em química, para obedecer a sua mãe. Elias Canetti foi prêmio Nobel de literatura; nunca foi químico. Mas sua mãe tinha absoluta certeza de que sabia o que era bom para seu filho e morreu em conflito com ele, de certa forma. Como podemos saber o que é realmente bom, o que é certo? Voltando à questão relativa a coração e razão, podemos dizer que o que pensamos ser a razão, pode estar errado. Uma mente aberta seria, portanto, mais conveniente.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

"Quando tudo se desfaz"


Quando Tudo se Desfaz
Texto de Pema Chödrön
extraído do livro "Quando tudo se desfaz"
Traduzido por Helenice Gouvêa

Assim é a vida. Não sabemos de nada. Dizemos que algo é bom, dizemos que algo é ruim mas, na verdade, simplesmente não sabemos.

Quando tudo se desfaz e nos encontramos à beira sabe-se lá de que, o desafio que se apresenta a cada um de nós é o de permanecer nesse limiar, sem buscar alguma ação concreta, O caminho espiritual não tem nada a ver com o paraíso, com chegar finalmente ao céu. Na verdade, esse modo de encarar a vida é que nos mantém infelizes. Pensar que podemos encontrar algum prazer duradouro e evitar a dor é o que o budismo chama de samsara, o ciclo inútil que gira e gira, infinitamente, e nos causa tanto sofrimento. A primeira nobre verdade que o Buda nos apresenta chama nossa atenção para o fato de o sofrimento ser inevitável para nós, seres humanos, enquanto acreditarmos que as coisas permanecem — que não se desintegram e que podemos contar com elas para satisfazer nossa ânsia de segurança. Sob esse ponto de vista, o único momento em que realmente sabemos o que está acontecendo é quando nos puxam o tapete e não encontramos nenhum apoio. Podemos utilizar situações desse tipo para despertar ou escolher dormir. Exatamente ali — precisamente no momento em que ocorre a experiência de faltar o chão — encontram-se as sementes que nos levarão a cuidar daqueles que precisam de nós e a descobrir nossa própria bondade.

Lembro-me muito claramente do dia, no início da primavera, em que perdi tudo o que considerava real. Embora isso tenha acontecido antes que eu tivesse qualquer contato com os ensinamentos budistas, representou o que alguns poderiam chamar de uma autêntica experiência espiritual. Ela ocorreu quando meu marido me contou que estava tendo um caso. Vivíamos na região norte do Novo México. Eu estava parada em frente à nossa casa de adobe, tomando uma xícara de chá. Ouvi quando o carro chegou e o barulho da porta batendo. Então, ele é caminhou até a casa e, sem qualquer aviso, disse que estava tendo um caso e que queria o divórcio.

Lembro do céu e de como ele era imenso. Lembro do murmurar do rio e do vapor que saía da minha xícara de chá. O tempo não existia, não havia nenhum pensamento, não havia nada — apenas a luz e uma quietude profunda e ilimitada. Então, eu me recompus, peguei uma pedra e atirei nele.

Quando me perguntam como acabei me envolvendo com o budismo, sempre respondo que foi porque estava com muita raiva do meu marido. A verdade é que ele salvou minha vida. Quando esse casamento desmoronou, tentei arduamente — muito, muito arduamente — encontrar algum tipo de consolo, alguma segurança, algum lugar que me fosse familiar e onde pudesse repousar. Para minha sorte, nunca consegui. instintivamente, sabia que a destruição de meu velho eu, dependente e apegado, era o único caminho a seguir. Foi nessa época que pendurei o tal cartaz na parede.

A vida é uma boa professora e amiga. Se pudéssemos perceber, veríamos que tudo está sempre em transição. No fim, nada é como sonhamos. Esse estado descentralizado e indefinido representa a situação ideal. Nesse ponto, não estamos presos a nada e podemos abrir nosso coração e mente além de qualquer limite. Essa é uma situação sem agressividade, muito frágil e aberta.

Ficar nesse desequilíbrio — com o coração partido, o estomago apertado, o sentimento de desesperança e o desejo de vingança — é o caminho do verdadeiro despertar. Ficar na incerteza, pegar o jeito de relaxar no meio do caos, aprender a não entrar em pânico — esse é o caminho espiritual. Desenvolver a habilidade de perceber-se, de perceber-se com suavidade e compaixão — esse é o caminho do guerreiro. Gostando ou não, temos de nos flagrar um milhão de vezes e mais uma, quando congelamos em ressentimento, amargura e justificada indignação — quando congelamos de qualquer modo, até mesmo em sentimentos de alívio e inspiração.

Todos os dias poderíamos pensar na agressividade que existe no mundo — em Nova York, Los Angeles, Halifax, Taiwan, Beirute, Kuwait, Somália, fraque — em todo lugar. No mundo todo, há sempre alguém lutando violentamente contra um inimigo e a dor está em franca escalada. Todos os dias poderíamos refletir sobre isso e pensar: "Vou acrescentar mais agressão ao mundo?’. Todos os dias, quando as situações se tornam tensas, poderíamos apenas nos perguntar: "Vou cultivar a paz ou me aliar à guerra?"