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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Eu não sou assim...



(continuação)  Monge Genshô: Uma vez, 20 anos atrás, um homem num posto de gasolina desceu do carro para brigar comigo por um lugar em uma fila, também desci para não ser agredido sentado mas disse, “não, tudo bem, o senhor pode ir na frente, eu troco meu carro de lugar”. Então peguei meu cartão de apresentação, fui até o carro onde ele havia voltado a entrar entreguei e disse: “vamos transformar isso numa coisa boa”? E ele se desarmou, apertou minha mão etc., passaram alguns minutos, ele abasteceu o carro dele e veio falar comigo, andando com os braços abertos e disse: “eu não sou assim, eu não sou assim, o senhor veja eu perdi meu filho único de 21 anos, morreu semana passada, nem minha família me aguenta mais”. Aí todo mundo que tinha visto a cena no posto, não entendeu nada, porque os homens prestes a se engalfinhar estavam abraçados e um chorava. Então a gente não sabe o que está acontecendo na cabeça dos outros, porque é que ele está falando palavrões, porque é que ele está agredindo, você não sabe.

E tendo essa compreensão mais abrangente da vida, você poderá perdoar tudo. Você não vai pensar: “é para mim”, porque não é para você. Ele está brigando com o mundo e, por acaso você estava ali. Aquele homem se sentia injustiçado pela morte do filho, é isso, e então ele queria brigar com o mundo.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Os deuses "explicação"


Perguntas: De forma geral, as religiões usam alegorias para explicar a existência de praticamente todos os fenômenos. Isso ocorreu, também, no caso da invenção de um deus antropomórfico?

Monge Genshô – É, isso é natural. Porque os homens sempre inventaram religiões para dar explicações. Por exemplo, os italianos viam lá o [vulcão] Etna. Dele saía fumaça e fogo. E o que os homens conheciam que saía fumaça e fogo? A forja dos ferreiros. Então Vulcano se tornou o grande ferreiro. Vulcano estava lá embaixo [do vulcão] e o Etna não passava da “chaminé” da forja de Vulcano. Então os homens tinham um deus para isso. Exatamente igual aos gregos, que olhavam para o céu e viam passar o sol. Mas quem conduzia o Sol? Então disseram que era o deus Apolo quem conduzia o Sol, com seu carro de fogo. Nós esquecemos estas coisas, mas por exemplo os índios daqui [do Tocantins] ainda têm o deus da chuva. Daí nós temos deuses para explicar tudo o que nos não entendemos.
À medida que nós vamos entendendo algumas coisas, os deuses vão desaparecendo. Zeus lançava raios de cima do Monte Olimpo, mas quando passamos a entender mais – e sabemos que os raios são fenômenos elétricos –, nós esquecemos os deuses da eletricidade e dos raios. Alguém aqui ainda acredita nos deuses dos raios? Ninguém, porque as crenças recuam à medida que o saber aumenta. Sempre digo em minhas palestras que o zen não é a religião de acreditar. Ela é a religião de “acordar” das ilusões. E os deuses fazem parte das ilusões, pois nós os criamos para nos socorrer. Embora o budismo não possa ser considerado uma religião ateísta, e sim não-teísta. Mas isso é tema para outra questão.
Esta resposta do zen pode ser terrível quando se vai ouvir uma palestra. Tenho até certo receio de dar estas respostas tanto alguém pode se sentir abalado. Mas a visão do zen é de que não adianta rezar para Buda, ele já morreu. Quem pode resolver todos os problemas do sofrimento “está aqui dentro”. Eu posso atuar para resolver os problemas dos meus sofrimentos, e você pode resolver os problemas do seu sofrimento. Mas para resolver estes problemas, você tem que se esquecer de “meu” e “eu”. Enquanto ainda acreditar em “eu” e “meu”, você não entenderá o universo.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Do que é verificável


(continuação  de palestra pública)
Pergunta – Mas a pergunta é mais assim: como encontrar a resposta dentro de nós mesmos? Já que a gente compreende que não está fora, nem em livro, nem em outra pessoa?

Monge Genshô - Boa pergunta. A meditação ajuda muito, por quê? Porque quando você senta para fazer zazen, senta para meditar, joga fora o passado, joga fora o futuro, fica no momento presente, isso estabiliza a mente, e você começa a ver as coisas com mais clareza. Aquilo que parecia complicado para você de repente não é mais. É complicado porque você está agregando àquilo uma série de considerações e coisas do passado. Você carrega um enorme passado junto com você, e esse passado emaranha tudo. Então, aprender meditação é essencial para dar lucidez e clareza. É para isso que você começa praticando meditação.  Então  surge sabedoria.

Mas, esse é um sub-produto inicial da prática. Você começa a praticar e chega um momento que não há mais motivo para você estar sentado, para fazer meditação, porque você pratica, porque você está sentado? - Não sei mais. Monge eu não sei mais porque eu sento. Ah, quando alguém me dá essa resposta, gosto muito. Quando não sabe mais, ficou bom. Quem sabe você começa a pensar nos outros? Porque até agora, você sentou só pra resolver o SEU problema.

Isso acontece com alguns monges. Ah, eu quero ser monge. Para quê? Monge é aquele que começa a trabalhar pelos outros. Está trabalhando,  trabalhando e é leigo. E a gente diz assim: “trabalha como monge”. “Bom, você deve ser monge”. Este é que é o monge. No Brasil há muita gente que diz assim: “O que eu faço para ser monge”? É a primeira pergunta que ele faz. Se  tudo o que ele quer é que as pessoas façam reverências para ele é tolo, ele deveria sentir vergonha quando as pessoas fazem reverencia, porque você sabe que você não merece reverências.

Pergunta – O Senhor tocou no assunto da fé, e a fé é um produto ligado à nossa cultura cristã, então às vezes fica um pouco difícil. O que é fé sob a ótica budista? Se é que existe fé.

Monge Genshô - Posso pegar a definição de Hebreus 11.  Paulo em Hebreus diz: “a fé é a firme crença nas coisas que não se vêem e não se ouvem”. Isso não existe no budismo. Nós estávamos sentados eu, um rapaz e Saikawa Roshi meu mestre. E o rapaz perguntou para ele: “E Deus”? E Saikawa Roshi respondeu: “Bom, isso é um assunto não verificável. Se você acredita, está bem. Se você não acredita,  está bem também”.

O budismo não trata de assuntos não verificáveis. Não dá pra verificar, não se coloca. O que se coloca é sabedoria. Você não sabe nada, e eu digo para você: “meditação é uma prática construtiva, que vai levar você a mais lucidez e clareza”. Tudo o que você precisa é confiar em mim. E aí você começa. Se tiver uma experiência positiva, pode continuar. Se você chegar e disser que acha que não funciona, não tem problema. Procure alguma coisa que funcione para você. Porque na realidade nós não temos uma fé pra oferecer. Só temos experiência para oferecer.
(Continua)

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Qual a bengala a que você está agarrado?


Então nós temos por exemplo, o altar budista. O altar budista é diverso do altar de outras religiões? Não. As flores representam a impermanência. A vela representa a luz. A água está ali porque Buda morreu com desidratação, e nós queremos dizer: “se eu estivesse lá eu lhe daria água”. A estátua poderia ser um pedaço de madeira, de pedra, cerâmica, qualquer coisa. É Buda? Claro que não é Buda. Ela só está ali, para me lembrar, que se ele realizou se libertar e era um homem como eu, então eu também posso me libertar. Ele é um exemplo de que eu posso me desfazer das ilusões e parar de me agarrar em crenças e partir para um pensamento mais limpo, sem me agarrar em nada externo.

Então Buda não era um deus, não era um salvador, um profeta e na realidade, eu posso tirar a estátua dele dali. Na verdade, não haviam estátuas de Budas, nos altares, durante os 300 primeiros anos da história do budismo. Ninguém se atrevia a colocar uma estátua de Buda num altar, o que se colocavam eram impressões de pés ou uma árvore, porque ele havia se iluminado embaixo de uma árvore e diziam: “ele passou por aqui”.

As estátuas de Buda só aparecem depois do chamado “Período Gandhara”, e este período aconteceu na região que hoje engloba o Afeganistão. Ela era um reino grego, e como os gregos haviam invadido a Índia e dominaram aquela região, os gregos influenciaram o budismo para que o budismo produzisse estátuas, e as primeiras estátuas de Buda são gregas. Nariz grego, feitio grego, etc. Então, a existência da estatuária budista, é uma influência do ocidente grego sobre o budismo, assim como a existência do estoicismo na filosofia grega  tem uma influência do budismo.

Essa conexão cultural entre o budismo oriental, o oriente e o ocidente normalmente é ignorada, porque nós na faculdade estudamos uma história que isola o oriente, é como se ele não existisse, e toda a história partisse da Grécia e de Roma, é a chamada “História Eurocêntrica”. E ninguém sabe quase nada aqui do que aconteceu na Índia, na China e no Japão, nesses séculos anteriores, quando nós sabemos que a civilização chinesa é mais antiga que a civilização grega, mais antiga que a civilização romana, só não é mais antiga que a civilização egípcia e babilônica.

Então, o que representa o altar para nós? É só um mecanismo de lembrança, porque as pessoas gostam de altares. Nós precisamos realmente de altares? Não, não precisamos de altares. Nós reverenciamos a lembrança do seu ensinamento e a verdade de que nós somos homens como ele, porque ele tem a água na frente dele porque morreu desidratado, mas morreu porquê? Porque comeu em casa de um ferreiro, passou muito mal, teve um enfarto agudo do mesentério, e teve uma diarréia sanguinolenta. Eu sempre pergunto nas minhas primeiras palestras: “vocês já tiveram diarréia?” Então vocês são como Buda! Vocês podem se iluminar.

Essa história passou através dos tempos para nos dizer isso: não era um ser sagrado que subiu aos céus numa nuvem. Era um homem como nós que morreu com diarréia. Essa é a mensagem fundamental do budismo, lógica, dura, na realidade. Às vezes eu estou falando e pessoas se queixam e dizem: “Monge Genshô parece muito cético, muito terrível, ele tira todas as coisas que nós nos agarramos”. Mas essa é a verdadeira tarefa do Mestre ZEN. O Mestre Zen quer dizer: “Qual é a bengala em que você está se apoiando? Qual é a crença, a ilusão em que você está se apoiando? Ah é essa? Estou tirando”.

Aí tirei a bengala, tirei a muleta, tirei o tapete debaixo dos pés e, quando não resta nada, e o homem olha pra baixo e vê que não tem mais chão onde pisar, então chegou um grande momento, porque só aí o homem pode ambicionar sabedoria. Enquanto ele estiver agarrado em crenças, ele não pode ambicionar sabedoria, porque a crença  é o contrário do saber. A crença é aquilo em que eu me agarro sem saber nada. Eu tenho apenas “fé” que é assim. Mas, se eu souber que é assim, se eu tiver a experiência, então eu não preciso de crença.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Por sabermos nos perdemos


1) De certo modo, uma ave que é simplesmente uma ave, está mais próxima de sua natureza búdica do que os seres humanos?

Monge Genshô – Por não saber de si mesma está.  Por sabermos de nós mesmos, nos perdemos. Imaginem que fôssemos pássaros. Se eu fosse um pássaro, chegasse à beira do ninho e pensasse, “nunca voei, mas posso voar”, teria um grande medo. Pelo fato de pensar no vôo e na queda, teríamos medo. Uma águia na beira do ninho não pensa, e por isso alça vôo.

Estava ouvindo um concerto de “Rachmaninof”, o concerto numero três, que é um dos concertos mais difíceis de ser executado, é uma espécie de terror dos pianistas. Extremamente complexo com uma tempestade de notas. Quando prestamos atenção no terceiro movimento e vemos as mãos voando no teclado, logo entendemos que não pode haver um pensamento por trás. Se em algum momento o pianista pensar na próxima nota, é impossível tocar.

Há uma piada Zen em que alguém pergunta para uma centopeia: “Qual é a perna que você mexe primeiro”? Desde então ela não conseguiu mais andar. Isso está presente em nossas vidas o tempo todo. Mesmo que não prestemos atenção, pode aparecer alguém com uma crise de ansiedade e dizer que tem medo de esquecer-se de respirar, coisa que uma pessoa sadia não pensaria. A mesma coisa acontece com uma pessoa que, ao deitar-se, deseja ficar bem atento ao exato momento em que irá adormecer. Há este momento em que acontece uma mudança no cérebro e a pessoa adormece, se você prestar muita atenção não irá dormir, porque para dormir precisa esquecer. Em geral estamos perdidos e não conseguimos viver completamente, em razão desta questão. Então a resposta é sim, o pássaro está mais perto porque não sabe.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Mais perto porque não sabe



P: De certo modo, uma ave que é simplesmente uma ave, está mais próxima de sua natureza búdica do que os seres humanos?

Monge Genshô – Por não saber de si mesma está. Por sabermos de nós mesmos, nos perdemos. Imaginem que fôssemos pássaros. Se eu fosse um pássaro, chegasse à beira do ninho e pensasse, “nunca voei, mas posso voar”, teria um grande medo. Pelo fato de pensar no vôo e na queda, teríamos medo. Uma águia na beira do ninho não pensa, e por isso alça vôo.

Estava ouvindo um concerto de “Rachmaninoff”, o concerto numero três, que é um dos concertos mais difíceis de ser executado, é uma espécie de terror dos pianistas. Extremamente complexo, com uma tempestade de notas. Quando prestamos atenção no terceiro movimento e vemos as mãos voando no teclado, logo entendemos que não pode haver um pensamento por trás. Se em algum momento o pianista pensar na próxima nota, é impossível tocar.

Há uma piada Zen em que alguém pergunta para uma centopeia: “Qual é a perna que você mexe primeiro”? Desde então ela não conseguiu mais andar. Isso está presente em nossas vidas o tempo todo. Mesmo que não prestemos atenção, pode aparecer alguém com uma crise de ansiedade e dizer que tem medo de esquecer-se de respirar, coisa que uma pessoa sadia não pensaria. A mesma coisa acontece com uma pessoa que, ao deitar-se, deseja ficar bem atento ao exato momento em que irá adormecer. Há este momento em que acontece uma mudança no cérebro e a pessoa adormece, se você prestar muita atenção não irá dormir, porque para dormir precisa esquecer. Em geral estamos perdidos e não conseguimos viver completamente, em razão desta questão. Então a resposta é sim, o pássaro está mais perto porque não sabe.

terça-feira, 19 de março de 2013

O conhecimento



Pergunta: - E o conhecimento? E universos paralelos?

Monge Genshô – O conhecimento em si, você tem sentado ao seu lado um professor de física, mas esse conhecimento não produz a realização espiritual, aliás Nem o conhecimento sobre o Zen produz a realização. A iluminação em si é uma visão que é produzida através da meditação, é sofrendo sentado na almofada que podemos obter a libertação. A realização puramente através de algum conhecimento, pode vamos dizer, aproximar, melhorar as visões da humanidade mas não produz realização espiritual.

 O conhecimento produz o poder do próprio conhecimento. E que, pode, sim, dependendo da mente que usou, ser maravilhoso ou não. Eu sempre explico isso, facas são armas, mas também instrumentos para passar manteiga no pão. Uma faca não é uma coisa ruim. Pode ser uma arma para a mente que a veja como arma e um instrumento de alimentação para a mente que a olhe dessa forma. O significado é produzido pela mente que vê. Então, a existência ou não de universos paralelos é irrelevante para nós. Buda responderia assim – Para nós agora do Dharma, como as perguntas de causas primeiras, esses conceitos não ajudam e o budismo se concentra naquilo que ajuda para diminuir o sofrimento. Por isso o budismo jamais se comprometeu com qualquer coisa como ideologias políticas, sistemas econômicos ou confessar e aprovar idéias científicas, isso é irrelevante para o budismo. O budismo tem um foco, a libertação dos homens.