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sexta-feira, 18 de março de 2016

A força da Linhagem

Monge Genshô: A cerimônia de Zuise que eu fiz agora, início de julho 2015, no Japão, significa ir até os túmulos de dois mestres da Linhagem, Keisan Jôkin Daishô, 57º Patriarca, e Eihei Dogen Daishô, 54º Patriarca, nos templos Eihei-ji e Sôji-ji. Você vai até lá e você só pode ir lá uma vez na vida. Então sobe a escadaria e vai lá estender seu zagu completamente, e faz prostrações para eles. Então, é a partir desse momento que você pode receber o título de Rikishô, professor internacional. Para tanto você tem que ir até lá e fazer isso.

Isso é profundamente simbólico. Então os rituais, os ritos são de um lado coisas que poderiam ser sem sentido, de outro são coisas que falam ao nosso inconsciente porque a linguagem do inconsciente é simbólica, nós sonhamos com símbolos, não com o nosso consciente. Vocês não podem dizer que os seus sonhos não têm significados, os sonhos têm grandes significados se vocês interpretam corretamente. Você sabe, ele significa isso, e através da prática do zazen você pode trazer para o consciente o inconsciente como eu falei recentemente.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

BODHIDHARMA

Monge Genshô: Bodhidharma chega em frente ao Imperador Wu e o Imperador pergunta - eu construí muitos templos e mosteiros para o Zen na China. Que méritos eu acumulei nos céus por causa disso? Bodhidharma responde - mérito nenhum, Majestade. Imperador pergunta então qual é a grande verdade da sagrada doutrina? E Bodhidharma responde - vazio ilimitado. Vazio quer dizer shunya em sânscrito. Quer dizer vazio de um eu. A grande verdade da sagrada doutrina é que não existe um eu inerente em coisa alguma, nem em vocês que estão sentados aqui agora. Vocês são só construções de memórias. Por isso ele responde que a grande verdade da sagrada doutrina é vazio e que não há nada que possa ser chamado de sagrado. É o que Bodhidharma responde. Não há nada disso de sagrado. Ou tudo é sagrado ou nada é sagrado. Esse ar é sagrado ou não é sagrado, é tudo a mesma coisa. Sim e não. É uma resposta profunda. O rei não sabendo o que fazer pergunta para ele - então me responda: “quem é que eu tenho na minha frente”? E Bodhidharma responde o que? “Não faço a menor ideia”. Não faço a menor ideia, é essa a resposta de Bodhidharma! E dá meia volta e vai embora.

Imperador depois escreve um poema no qual diz  - “eu o vi sem ver”. Eu o vi, mas não enxerguei. Isso é a coisa mais comum, você vê mas não enxerga. Então chegamos à resposta de Bodhidharma tão difícil de entender. Quem é que tenho na minha frente? Não faço a menor ideia. Significa que ele, Bodhidharma, está livre desta noção aqui (eu). Ele se livrou disso, essa é uma resposta iluminada. Ele demonstrou sua iluminação naquele momento, mas ninguém viu.


Aí Bodhidharma vai para Shaolin. Lá passa 9 anos meditando numa caverna. Vão aparecendo pessoas querendo aprender com ele. Depois de 9 anos surge um rapaz chamado Taisô Eka, em chinês Hui-K'o. Ele fica na frente da caverna de Bodhidharma durante três dias. Bodhidharma, como sempre, não dá bola para ninguém. Sai, entra, senta, medita. Até hoje em Shaolin mostra uma sombra no fundo de uma caverna. Essa é a sombra que ficou de Bodhidharma de tanto tempo que ele ficou de frente para a parede. Aí os turistas pagam para ver a sombra de Bodhidharma. Aí, na terceira noite nevou e a neve cobriu as pernas de Hui-K'o que ficou desesperado. Então ele cortou seu braço para jurar pelo seu sangue que estava ali sinceramente. Vendo o sangue pingar na neve, Bodhidharma foi até ele achando que havia alguém ali que estava a sério em busca da verdade e perguntou: muito bem, então que você quer? Hui-K'o disse - Mestre, minha alma não tem paz. Pacifique a minha alma. Bodhidharma diz: “me mostre sua alma que eu a pacificarei”. É como perguntar, “quem é você”. Me mostra! - Não consigo. - Pronto. Já pacifiquei tua alma. Nesse momento, com essa resposta, para quem já tinha cortado o braço, passado três dias em jejum, Hui-K'o acordou de suas ilusões. E ele é o sucessor de Bodhidharma. Na minha linhagem, Bodhidharma é o vigésimo sexto patriarca e Hui-K'o é o vigésimo sétimo. Shakyamuni Buddha é o primeiro. 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

BODHIDHARMA


Monge Genshô: Bodhidharma chega em frente ao Imperador Wu e o Imperador pergunta - eu construí muitos templos e mosteiros para o Zen na China. Que méritos eu acumulei nos céus por causa disso? Bodhidharma responde - mérito nenhum, Majestade. Imperador pergunta então qual é a grande verdade da sagrada doutrina? E Bodhidharma responde - vazio ilimitado. Vazio quer dizer shunya em sânscrito. Quer dizer vazio de um eu. A grande verdade da sagrada doutrina é que não existe um eu inerente em coisa alguma, nem em vocês que estão sentados aqui agora. Vocês são só construções de memórias. Por isso ele responde que a grande verdade da sagrada doutrina é vazio e que não há nada que possa ser chamado de sagrado. É o que Bodhidharma responde. Não há nada disso de sagrado. Ou tudo é sagrado ou nada é sagrado. Esse ar é sagrado ou não é sagrado, é tudo a mesma coisa. Sim e não. É uma resposta profunda. O rei não sabendo o que fazer pergunta para ele - então me responda: “quem é que eu tenho na minha frente”? E Bodhidharma responde o que? “Não faço a menor ideia”. Não faço a menor ideia, é essa a resposta de Bodhidharma! E dá meia volta e vai embora.

Imperador depois escreve um poema no qual diz  - “eu o vi sem ver”. Eu o vi, mas não enxerguei. Isso é a coisa mais comum, você vê mas não enxerga. Então chegamos à resposta de Bodhidharma tão difícil de entender. Quem é que tenho na minha frente? Não faço a menor ideia. Significa que ele, Bodhidharma, está livre desta noção aqui (eu). Ele se livrou disso, essa é uma resposta iluminada. Ele demonstrou sua iluminação naquele momento, mas ninguém viu.


Aí Bodhidharma vai para Shaolin. Lá passa 9 anos meditando numa caverna. Vão aparecendo pessoas querendo aprender com ele. Depois de 9 anos surge um rapaz chamado Taisô Eka, em chinês Hui-K'o. Ele fica na frente da caverna de Bodhidharma durante três dias. Bodhidharma, como sempre, não dá bola para ninguém. Sai, entra, senta, medita. Até hoje em Shaolin mostra uma sombra no fundo de uma caverna. Essa é a sombra que ficou de Bodhidharma de tanto tempo que ele ficou de frente para a parede. Aí os turistas pagam para ver a sombra de Bodhidharma. Aí, na terceira noite nevou e a neve cobriu as pernas de Hui-K'o que ficou desesperado. Então ele cortou seu braço para jurar pelo seu sangue que estava ali sinceramente. Vendo o sangue pingar na neve, Bodhidharma foi até ele achando que havia alguém ali que estava a sério em busca da verdade e perguntou: muito bem, então que você quer? Hui-K'o disse - Mestre, minha alma não tem paz. Pacifique a minha alma. Bodhidharma diz: “me mostre sua alma que eu a pacificarei”. É como perguntar, “quem é você”. Me mostra! - Não consigo. - Pronto. Já pacifiquei tua alma. Nesse momento, com essa resposta, para quem já tinha cortado o braço, passado três dias em jejum, Hui-K'o acordou de suas ilusões. E ele é o sucessor de Bodhidharma. Na minha linhagem, Bodhidharma é o vigésimo sexto patriarca e Hui-K'o é o vigésimo sétimo. Shakyamuni Buddha é o primeiro. 

quinta-feira, 14 de março de 2013

Renascimentos


Pergunta – Nós somos obrigados a passar por todos os Reinos?

Monge Genshô – Não. Se você tem a oportunidade de um precioso nascimento humano pode tornar-se um Buda diretamente. Essas são só situações cíclicas. Se você tiver uma vida muito generosa, com muita bondade, acumular muitos méritos, você pode ter um nascimento num Reino Divino de grande felicidade e vai viver assim no Reino Divino até que esse carma se esgote e você recaia. Você tanto pode subir quanto descer. Você tem um precioso nascimento humano agora. Mas você pode executar atos de grande violência e ter um renascimento numa condição infernal. Você pode nascer numa família de terroristas e ser educado para ser um homem bomba, esse seria típicamente um renascimento infernal.
Pergunta – Como estaria nossa caminhada hoje como ser?
Monge Genshô – Essa pergunta não é respondível. Essa seria uma pergunta injusta. Uma pergunta injusta, por exemplo, seria – Já que todas as coisas tem causas, qual é a causa primeira? – então você aponta uma causa e já que todas as coisas tem causa, qual seria a causa dessa causa?
Um imperador perguntou para um mestre Zen onde estava apoiado o mundo. E o mestre respondeu – Sobre os ombros de um grande elefante. E este elefante, onde está? A resposta foi – Em cima de quatro grandes colunas. E essas colunas? Essas colunas estão sobre as costas de uma grande tartaruga. E essa tartaruga? Bom, rei, vamos parar por aqui, daí em diante são só tartarugas! Na realidade essas perguntas não tem resposta filosófica, não são objetos de investigação no budismo, como outra pergunta – Qual era o tempo antes do início dos tempos? – são perguntas não respondíveis.
Pergunta – Existe a possibilidade de antes de ser humano, ser animal, por exemplo?
Monge Genshô – Com certeza. Dei todas as explicações sobre os reinos, mas isso não significa que os reinos sejam assim. Quer apenas dizer que como meio hábil, que se diz em sânscrito, upaya, foi criada uma maneira alegórica de explicar. Não podemos confundir as palavras ou a própria mitologia budista com a verdade em si. O budismo não pretende ensinar uma verdade sobre o universo alem da lei do carma. O budismo é somente um método e não se diz o único método, ou “a verdade”. Mesmo a escola (Yogachara), é uma perspectiva do sistema, uma forma filosófica de explicar. Nela é a mente que produz o universo, simultaneamente, mas para a escola citada existem tantos universos quanto os observadores. Então mesmo dentro do budismo vamos encontrar diferentes apreciações desse tipo. Talvez a escola filosófica mais sólida, que resistiu a todos os embates até agora, é uma escola de 1900 anos, do patriarca da nossa Escola Nagyaharajuna, que é o criador da Escola Madhyamika, a Escola do caminho do meio. E ela não aceita nenhuma afirmação como absoluta. Ele diz – Eu não digo que é, ou que não é, nem que é e não é ao mesmo tempo e nem que nem é e nem não é simultaneamente, e se em algum momento for entendido que eu afirmei alguma coisa, trata-se de um engano. Eu recomendo a vocês que assim que se sentirem mais preparados, leiam atentamente Nagyaharajuna. Temos dois livros publicados em português de Nagyaharajuna, Carta à um Amigo e A Guirlanda Preciosa.