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terça-feira, 21 de novembro de 2017
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
Ondas Cármicas (Parte 1)
No Cristianismo, Cristo, ao ressuscitar, venceu a morte. E então deu a todos os
homens a possibilidade de vencê-la, ressuscitando. Por isso, existem aqueles painéis na Capela Cistina, onde os
mortos estão saindo das tumbas no juízo final. Estão ressuscitando. Eles são julgados: uns
vão para o inferno e outros para o paraíso no painel de Michelângelo.
Isso quer dizer que as religiões vêm com a
oferta de vencer o medo fundamental. As pessoas têm medo de morrer, têm medo
de que seu "eu", tão precioso, tão bem construído, desapareça. Então, em geral, as religiões vêm sempre com uma solução para
esse problema. Isso é bem antigo - qual é o céu para onde você vai depois, etc.
Sempre a questão de vencer a morte, são raras as exceções.
O budismo tem uma outra ótica. Tem a
ótica de que o "eu" é ilusão, que uma alma eterna não existe, um
espírito assim não existe, que são todas construções do medo da morte. Porque
as pessoas têm medo da morte acreditam nas religiões. O que o
budismo quer dizer é que não existe ir nem vir, porque o próprio "eu"
é uma construção e, portanto, uma ilusão. Nós estamos aqui há muito tempo e não
temos como ir embora. Nós somos exatamente ondas cármicas se repetindo,
manifestando (continua)
segunda-feira, 4 de maio de 2015
BODHIDHARMA
Monge Genshô: Bodhidharma chega em frente ao Imperador Wu e o
Imperador pergunta - eu construí muitos templos e mosteiros para o Zen na
China. Que méritos eu acumulei nos céus por causa disso? Bodhidharma responde -
mérito nenhum, Majestade. Imperador pergunta então qual é a grande verdade da
sagrada doutrina? E Bodhidharma responde - vazio ilimitado. Vazio quer dizer shunya em sânscrito. Quer dizer vazio de
um eu. A grande verdade da sagrada doutrina é que não existe um eu inerente em
coisa alguma, nem em vocês que estão sentados aqui agora. Vocês são só
construções de memórias. Por isso ele responde que a grande verdade da sagrada
doutrina é vazio e que não há nada que possa ser chamado de sagrado. É o que
Bodhidharma responde. Não há nada disso de sagrado. Ou tudo é sagrado ou nada é
sagrado. Esse ar é sagrado ou não é sagrado, é tudo a mesma coisa. Sim e não. É
uma resposta profunda. O rei não sabendo o que fazer pergunta para ele - então
me responda: “quem é que eu tenho na minha frente”? E Bodhidharma responde o que?
“Não faço a menor ideia”. Não faço a menor ideia, é essa a resposta de
Bodhidharma! E dá meia volta e vai embora.
Imperador depois escreve um poema no qual diz - “eu o vi sem ver”. Eu o vi, mas não
enxerguei. Isso é a coisa mais comum, você vê mas não enxerga. Então chegamos à
resposta de Bodhidharma tão difícil de entender. Quem é que tenho na minha
frente? Não faço a menor ideia. Significa que ele, Bodhidharma, está livre
desta noção aqui (eu). Ele se livrou disso, essa é uma resposta iluminada. Ele
demonstrou sua iluminação naquele momento, mas ninguém viu.
Aí Bodhidharma vai para Shaolin. Lá passa 9 anos meditando numa
caverna. Vão aparecendo pessoas querendo aprender com ele. Depois de 9 anos
surge um rapaz chamado Taisô Eka, em chinês Hui-K'o.
Ele fica na frente da caverna de Bodhidharma durante três dias. Bodhidharma,
como sempre, não dá bola para ninguém. Sai, entra, senta, medita. Até hoje em
Shaolin mostra uma sombra no fundo de uma caverna. Essa é a sombra que ficou de
Bodhidharma de tanto tempo que ele ficou de frente para a parede. Aí os
turistas pagam para ver a sombra de Bodhidharma. Aí, na terceira noite nevou e
a neve cobriu as pernas de Hui-K'o
que ficou desesperado. Então ele cortou seu braço para jurar pelo seu sangue
que estava ali sinceramente. Vendo o sangue pingar na neve, Bodhidharma foi até
ele achando que havia alguém ali que estava a sério em busca da verdade e
perguntou: muito bem, então que você quer? Hui-K'o
disse - Mestre, minha alma não tem paz. Pacifique a minha alma. Bodhidharma
diz: “me mostre sua alma que eu a pacificarei”. É como perguntar, “quem é
você”. Me mostra! - Não consigo. - Pronto. Já pacifiquei tua alma. Nesse
momento, com essa resposta, para quem já tinha cortado o braço, passado três
dias em jejum, Hui-K'o acordou de
suas ilusões. E ele é o sucessor de Bodhidharma. Na minha linhagem, Bodhidharma
é o vigésimo sexto patriarca e Hui-K'o é o vigésimo sétimo. Shakyamuni Buddha é
o primeiro.
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sexta-feira, 3 de abril de 2015
BODHIDHARMA
Monge Genshô: Bodhidharma chega em frente ao Imperador Wu e o
Imperador pergunta - eu construí muitos templos e mosteiros para o Zen na
China. Que méritos eu acumulei nos céus por causa disso? Bodhidharma responde -
mérito nenhum, Majestade. Imperador pergunta então qual é a grande verdade da
sagrada doutrina? E Bodhidharma responde - vazio ilimitado. Vazio quer dizer shunya em sânscrito. Quer dizer vazio de
um eu. A grande verdade da sagrada doutrina é que não existe um eu inerente em
coisa alguma, nem em vocês que estão sentados aqui agora. Vocês são só
construções de memórias. Por isso ele responde que a grande verdade da sagrada
doutrina é vazio e que não há nada que possa ser chamado de sagrado. É o que
Bodhidharma responde. Não há nada disso de sagrado. Ou tudo é sagrado ou nada é
sagrado. Esse ar é sagrado ou não é sagrado, é tudo a mesma coisa. Sim e não. É
uma resposta profunda. O rei não sabendo o que fazer pergunta para ele - então
me responda: “quem é que eu tenho na minha frente”? E Bodhidharma responde o que?
“Não faço a menor ideia”. Não faço a menor ideia, é essa a resposta de
Bodhidharma! E dá meia volta e vai embora.
Imperador depois escreve um poema no qual diz - “eu o vi sem ver”. Eu o vi, mas não
enxerguei. Isso é a coisa mais comum, você vê mas não enxerga. Então chegamos à
resposta de Bodhidharma tão difícil de entender. Quem é que tenho na minha
frente? Não faço a menor ideia. Significa que ele, Bodhidharma, está livre
desta noção aqui (eu). Ele se livrou disso, essa é uma resposta iluminada. Ele
demonstrou sua iluminação naquele momento, mas ninguém viu.
Aí Bodhidharma vai para Shaolin. Lá passa 9 anos meditando numa
caverna. Vão aparecendo pessoas querendo aprender com ele. Depois de 9 anos
surge um rapaz chamado Taisô Eka, em chinês Hui-K'o.
Ele fica na frente da caverna de Bodhidharma durante três dias. Bodhidharma,
como sempre, não dá bola para ninguém. Sai, entra, senta, medita. Até hoje em
Shaolin mostra uma sombra no fundo de uma caverna. Essa é a sombra que ficou de
Bodhidharma de tanto tempo que ele ficou de frente para a parede. Aí os
turistas pagam para ver a sombra de Bodhidharma. Aí, na terceira noite nevou e
a neve cobriu as pernas de Hui-K'o
que ficou desesperado. Então ele cortou seu braço para jurar pelo seu sangue
que estava ali sinceramente. Vendo o sangue pingar na neve, Bodhidharma foi até
ele achando que havia alguém ali que estava a sério em busca da verdade e
perguntou: muito bem, então que você quer? Hui-K'o
disse - Mestre, minha alma não tem paz. Pacifique a minha alma. Bodhidharma
diz: “me mostre sua alma que eu a pacificarei”. É como perguntar, “quem é
você”. Me mostra! - Não consigo. - Pronto. Já pacifiquei tua alma. Nesse
momento, com essa resposta, para quem já tinha cortado o braço, passado três
dias em jejum, Hui-K'o acordou de
suas ilusões. E ele é o sucessor de Bodhidharma. Na minha linhagem, Bodhidharma
é o vigésimo sexto patriarca e Hui-K'o é o vigésimo sétimo. Shakyamuni Buddha é
o primeiro.
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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
A resposta iluminada de Bodhidharma
Monge Genshô: Mas qual é a sua essência? O que é você além de suas memórias?
Aluna: Não sei dizer.
Monge Genshô: Ninguém saberia dizer pois seu eu é essencialmente constituído por suas memórias. Por isso aquela que acorda sem memória responde - "não faço a menor ideia".
(continuação)
Agora estamos prontos para entender a resposta de Bodhidharma. Bodhidharma chega em frente ao Imperador Wu e o Imperador pergunta - “eu construí muitos templos e mosteiros para o budismo na China. Que méritos eu acumulei nos céus por causa disso?” Bodhidharma responde - “mérito nenhum, Majestade.” O imperador pergunta então “qual é a grande verdade da sagrada doutrina?” E Bodhidharma responde - “vazio ilimitado”. Vazio é shunya em sânscrito. Quer dizer vazio de um eu inerente. A grande verdade da sagrada doutrina é que não existe um eu inerente em coisa alguma, nem em vocês que estão sentados aqui agora. Vocês são só construções de memórias, ilusões de uma mente em operação. Por isso ele responde que a grande verdade da sagrada doutrina é “vazio” e que “não há nada que possa ser chamado de sagrado”. É o que Bodhidharma responde. Não há nada disso de sagrado. Ou tudo é sagrado ou nada é sagrado. Esse ar é sagrado ou não é sagrado, é tudo a mesma coisa. Sim e não. É uma resposta profunda. O imperador não sabendo o que fazer pergunta para ele - então me responda: “quem é que eu tenho na minha frente”? E Bodhidharma responde o que? “Não faço a menor ideia”. Não faço a menor ideia, é essa a resposta de Bodhidharma! E dá meia volta e vai embora.
O imperador depois escreve um poema no qual diz - “eu o vi sem ver”. Eu o vi, mas não enxerguei. Isso é a coisa mais comum, você vê mas não enxerga. Então chegamos à resposta de Bodhidharma tão difícil de entender. Quem é que tenho na minha frente? “Não faço a menor ideia”. Significa que ele, Bodhidharma, está livre desta noção aqui (eu). Ele se livrou disso, essa é uma resposta iluminada. Ele demonstrou sua iluminação naquele momento, mas ninguém viu.
Aí Bodhidharma vai para Shaolin. Lá passa 9 anos meditando numa caverna. Vão aparecendo pessoas querendo aprender com ele. Depois de 9 anos surge um rapaz chamado Taisô Eka, em chinês Hui-K'o. Ele fica na frente da caverna de Bodhidharma durante três dias. Bodhidharma, como sempre, não dá bola para ninguém. Sai, entra, senta, medita. Até hoje em Shaolin se mostra uma sombra no fundo de uma caverna. Essa é a sombra que ficou de Bodhidharma de tanto tempo que ele ficou de frente para a parede. Aí os turistas tontos pagam para ver a sombra de Bodhidharma. Aí, na terceira noite nevou e a neve cobriu as pernas de Hui-K'o que ficou desesperado. Então ele cortou seu braço para jurar pelo seu sangue que estava ali sinceramente. Vendo o sangue pingar na neve, Bodhidharma foi até ele achando que havia alguém ali que estava a sério em busca da verdade e perguntou: muito bem, então que você quer? Hui-K'o disse - Mestre, minha alma não tem paz. Pacifique a minha alma. Bodhidharma diz: “me mostre sua alma que eu a pacificarei”. É como perguntar, “quem é você”. Me mostre! -' Não consigo". - Pronto. Já pacifiquei tua alma. Nesse momento, com essa resposta, para quem já tinha cortado o braço, passado três dias em jejum, Hui-K'o acordou de suas ilusões. E ele é o sucessor de Bodhidharma. Na minha linhagem, Bodhidharma é o vigésimo sexto patriarca e Hui-K'o é o vigésimo sétimo. Shakyamuni Buddha é o primeiro. ( continua)
sábado, 30 de agosto de 2014
Minha construção diária
(continuação)
O budismo veio das vertentes das práticas indianas. Ele tem diferenças fundamentais em relação ao hiduísmo, sobretudo no que se refere à noção de “atman”, em que supostamente existe uma partícula fundamental dentro de mim que é permanente e continua. Deste conceito – atman – surgiu o conceito grego de alma. A linha budista é diferente. Buda ensinou que o que existe é “anatman”. Ou seja, não há uma partícula individual, separada dentro de você, que é você mesmo. O que Buda ensinou foi que nós todos somos um, e não há a noção de que eu estou separado de cada um dos outros. Aliás, este é o engano fundamental.
Diferentemente de setores da filosofia ocidental, em que Descartes começa o seu “discurso do método” dizendo cogito ergo sum – “penso, logo existo” –, para os zen-budistas as coisas ficam mais ou menos assim: - “eu penso, por isso penso que existo!”. Eu imagino que existo, e este meu “eu” é uma construção que eu faço diariamente.
Pensem, pela ótica budista, uma criança pequena sendo ensinada a ser um “eu”. Ela nasce, e quando ela começa balbuciar as primeiras diz simplesmente que “neném quer”. Neném não é um “eu”, mas nós ensinamos esta criança a assumir uma personalidade. – “Você é ‘eu’, é um indivíduo separado! Seu nome é este!”. A criança absorve isso, e assim começamos a criar a dualidade. Aliás, a nossa linguagem tem esta característica, sobretudo quando queremos entender as coisas. É daí que surgem as classificações, que fazemos questão de colocar na nossa “prateleira de conceitos”. – “Isto é isso ou é aquilo? Embaixo, ou encima? Certo ou errado? É direita ou é esquerda?”. Nós queremos entender tudo por classificações, colocando todas as pessoas em escaninhos. Não admira que algumas pessoas perguntem: - “Em que mês você nasceu? Ah, as pessoas que nasceram em tal mês, do dia tal ao dia tal, são isso...”. E aí colocam você naquele escaninho e dizem “você é assim, assim e assim...”. Isso ocorre porque a nossa maneira de conhecer o mundo é através da classificação.
Na verdade, e relativamente falando, nós somos todos sutilmente diferentes, e é daí que também surgem as diferentes correntes religiosas. E a dificuldade de existir um diálogo inter-religioso é exatamente a incapacidade de “abandonarmos os escaninhos”, as classificações que geram separação, distanciamento. Só ao abandonarmos isso é que a partir daí podermos dizer que todos nós temos similaridades, todos somos seres mergulhados em ilusões. E qual é o efeito da ilusão? É provocar sofrimento, a partir do momento em que eu acredito piamente numa única forma de interpretar o mundo, e tendo a qualquer custo encaixar todas as coisas e respostas nesta visão de mundo.
(continua)
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Sei como foi sua vida na manifestação passada
Pergunta – Se cada pessoa que morre e não se ilumina gera uma nova manifestação, como pode a população mundial aumentar, não deveria se manter estável, ou até mesmo diminuir, considerando que alguns se iluminem e se extinguem?
Monge Genshô – Existe muita vida na Terra. A oportunidade de nascer como ser humano é rara e existe muito carma tentando se manifestar como ser humano. Se observarmos, existem muitas pessoas que são não muito diferentes de animais e agem criminosamente e por instinto. No Budismo Tibetano há uma história de uma argola flutuando no oceano, de cem em cem anos uma tartaruga sobe à superfície para respirar. A oportunidade de nascimento humano é a mesma de que em uma das vezes que ela suba para respirar enfie a cabeça na argola. Não é obviamente uma questão de uma alma procurando um corpo pois, se assim fosse, poderia surgir a pergunta “onde está a fábrica de almas”? No catolicismo existe um Deus que faz uma alma para cada ser que nasce. Para o Budismo tudo é manifestação cármica.
Pergunta – Não sei se é assim que se fala no Budismo, mas dependendo da pessoa e de sua missão, a alma poderia se fragmentar?
Monge Genshô – Poderia haver manifestação múltipla, mas o conceito de missão não existe no Budismo tampouco o de alma.
Pergunta – Mas todo o carma que ela tem que cumprir na Terra, por exemplo...
Monge Genshô – Não existe um carma a ser cumprido. Somos apenas consequência. As coisas apenas sucedem naturalmente e todos os efeitos têm causa. Não é objeto de estudo do Budismo esse tipo de especulação sobre almas, o que veio antes, o que virá depois ou se existe uma missão ou não. Nada disso é verificável e o Budismo não perde tempo explicando coisas que não podem ser comprovadas. O que interessa ao Budismo? Que temos mente e sofremos e que existiu uma causa pregressa. Qual foi exatamente? Não sabemos e não temos como verificar logo não interessa. Toda religião que tenta dar respostas à esse tipo de perguntas acaba criando dogmas e essa não é a postura do Budismo. Mas eu sei como foi sua vida anterior e posso lhe revelar se você quiser saber.
Pergunta – Como foi?
Monge Genshô – Muito parecida com a vida que você tem agora. Você veio com os mesmos impulsos, mesmos desejos e apegos de que não se livrou em sua manifestação anterior.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
A vida é que nos vive
Pergunta – Esse abandono do eu e do ego e a vontade da vida, isso fica um pouco confuso...
Monge Genshô - É porque pensamos que o eu é que vive. Mas não é o eu que vive a vida. A vida é que nos vive. Nós somos a própria vida. Não é um eu que esta vivendo a vida. Não é uma folha numa árvore lá fora que está vivendo a floresta, é a floresta que produz folhas. Nós somos a própria floresta, não somos folhas. As folhas nascem e morrem. Seria muito tolo que uma folha se sentisse muito infeliz porque amarelece e cai, nós diríamos que a folha é tola, pois torna-se húmus, nasce de novo, ela é a própria vida, não há nenhuma tristeza nas folhas que caem das árvores. Ninguém chora as folhas que caem no outono, pois nós sabemos que a vida produz primavera, mas quando olhamos para nós mesmos, confundimos o eu com a vida, nós pensamos que é o eu que vive a vida, e não é isso. A vida é que nos vive. Somos a própria vida. É por isso, porque a vida está sempre continuando, que nascimento e morte também são ilusões. Não há como você ir embora daqui, você é a vida. Então desse seu eu temporário é só um evento extemporâneo da vida como um todo. É como o quebrar das ondas do mar, como as folhas que caem e viram húmus, é como as nuvens que chovem. Se uma nuvem vira água e chove ninguém diz – Coitadinha da nuvem, virou chuva - nós sabemos que a chuva cai, que as plantas crescem por causa disso, que nós vivemos por causa disso, um dia ela evapora e volta a ser nuvem. Não damos nomes às nuvens e dizemos que elas tem identidades e não dizemos – Lá vai a nuvem Joana, coitada, vai morrer hoje pois esfriou e ela vai chover até se acabar – mas fazemos isso conosco e isso mostra nossa cegueira.
Pergunta - Por que?
Monge Gensho - Porque o eu é muito nítido, muito forte, você abre os olhos e vê os outros. Você tem ouvidos e ouve sons. E você pensa “Ah, isso sou eu!” Isso não é você, isso são sons, é a visão, são cheiros. Por que você pensa que é o que ouve, o que vê, o que cheira, o que prova? Nós pensamos que nossa mente somos nós mesmos, essa conformação mental é nossa consciência. Esse que pensa como Descartes “Penso, logo existo”. Eu penso, logo eu existo. Não é isso. Eu penso, por isso penso que existo. Esse pensar não fez um eu. Assim como a chuva que cai não faz nada, não faz um eu. Nós pensamos, só pensamos. Esse pensar nos atrapalha, cria a ilusão de um eu. Por isso sentamos e tentamos fazer com que nossa mente se acalme. Porque quanto mais ela cogita, mais ela se agarra à sua identidade e tem medo que sua identidade desapareça. Tem tanto medo que a identidade desapareça que cria fantasias religiosas. Eu vou continuar para sempre, eu tenho uma alma eterna. Quem morre não sou eu, é só o corpo, eu continuo depois. Vemos isso nos desenhos animados. Tom o gato morre e a alma dele vai saindo do corpo, e ele consegue agarrar pelo rabo e puxa de volta. Nós criamos essas fantasias, mas não existe uma alma eterna. Nós somos movimento da vida. Nós somos eternidade. Nós temos continuidade sim, há continuidade, não há com ir embora. A morte é que é uma ilusão.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
O céu dos outros
Siddharta sentiu-se angustiado com um problema que todos sentem. O problema é: eu estou falando para uma platéia de pessoas condenadas à morte. Todos aqui tem uma doença terminal, que chama-se vida. Termina inevitavelmente em velhice, doença e morte. Nós tentamos fingir que não é assim, tentamos não pensar no assunto.
O que aconteceu com Siddharta foi que isto pareceu-lhe extremamente importante. Esse assunto tirava todo o sentido da vida. “De que adianta eu ser príncipe, ter concubinas, esposas, filhos, luxo, riquezas, vou ser Rei depois, mas, de que adianta tudo isso se essa historia toda termina com uma morte abjeta, esse corpo que a gente tem que sustenta a vida simplesmente apodrece’?
Vocês podem evitar que os vermes comam suas mãos, sua carne, sendo cremados. Aí a gente pega as cinzas e espalha. É tudo o que se pode fazer. Em qualquer das duas hipóteses, nós viramos adubo. Então, Siddharta disse: “Eu! Eu, Príncipe, vou virar cinza! Vou adoecer, envelhecer e morrer. Então, que sentido tem a vida?”
Isto foi o problema que angustiou Siddharta. Deveria angustiar todos os homens. Na verdade, só não angustia quem não pensa e à medida que a humanidade pensou, ela tratou de achar alguma solução para isso.
As soluções, normalmente se expressavam sob a forma de alguma crença, algum sistema, em que todas as pessoas começavam a acreditar ou eram convencidas pela sociedade e o entorno a acreditar. A civilização antiga mais conhecida é a egípcia. Temos 3.000 anos de história antes de Cristo na civilização egípcia e eles deduziram que a coisa seria conservar o corpo. Então pega-se o corpo, tira-se as vísceras, enche-se de alcatrão, enrola em bandagens, coloca junto com coisas para auxiliar a vida do outro lado, comida, carruagens, espadas, etc, quanto mais rico o homem mais ele levava. No início levava seus empregados também para ajuda-lo do outro lado. Então, não era um bom negócio você ser um empregado do Faraó, pois se o faraó morresse, você seria enterrado vivo, junto com o Faraó.
Mas assim, eles estavam garantindo uma vida no “pós-morte”, com o mesmo corpo. Tá certo que o corpo das múmias que a gente olha não está servindo pra grande coisa, mas, era uma “solução”.
Depois fomos partindo pra outras soluções, idéias sempre em caráter “não morte”. Por exemplo: eu posso quem sabe ressuscitar? Então, a promessa é: se você morrer dentro de determinadas condições, então você vai ressuscitar depois com um corpo novinho em folha. E aí, viveria numa terra perfeita pra sempre.
Os gregos gostavam muito de fazer o quê? Conversar na praça de cidades que se chamava “Ágora”. Então, os gregos pensavam, como seria o nosso Céu, depois da morte? Então os homens bons iriam para o “ Hades”, que era a terra dos mortos, os bons para um lugar que era uma ilha paradisíaca, onde as regras eram de que a comida viria pronta, caía das árvores, as roupas também, você não precisava trabalhar para fazer nada. Tinham regatos límpidos, temperatura maravilhosa e você podia conversar sobre filosofia. Não é um céu para gregos? Conversar , debater.
Os muçulmanos nasceram entre os árabes, os descendentes de Ismael, filho bastardo de Agar, escrava de Abraão, expulsa por Sara, quando Issac nasceu. Então, é uma história filha do ciúme, e os descendentes de Ismael, os árabes e os descendentes de Issac, os israelitas, estão brigando até hoje. Nós tínhamos que conversar com Sara, voltar no passado e dizer: “Sara, não faz isso”! Mas ela pediu a Abraão que expulsasse Agar e Ismael de sua casa. Os árabes estavam no deserto e acabaram criando uma sociedade que tinha um indivíduo que era o privilegiado total. O sultão. O sultão tinha uma coisa que todos os homens queriam, e ninguém tinha: um Harém! Então, pronto, resolvido: no céu islâmico, cada homem que morre bem, vai pra lá e ganha 72 mulheres! As huris, bonitas, sempre jovens, e não trazem sogras.
E assim vamos percorrendo a história. Os vickings: faziam guerras, eram conquistadores, como na tirinha do Hagar, o horrível. Então eles têm um céu especial, chama-se “Valhalla”. Se você for um homem valente, vai pro “Valhalla” e lá você vai poder guerrear e saquear para sempre.
Tão vendo como são os céus? A gente ri não é? A gente ri das crenças e culturas “dos outros”. Elas nos parecem ridículas. As nossas não.
(continua)
terça-feira, 14 de maio de 2013
Causalidade não é carma
E a cada vida nós esquecemos do nosso “eu”. Porque não existe uma coisa dentro de nós e que é o nosso eu e que carrega carma e que muda de corpo. Não é isso. Pode desaparecer a terra, o universo inteiro, mas os impulsos cármicos procurarão onde se manifestar em novo universo. É isso que acontecerá.
Então existe também um carma coletivo, você nasce em um país, tem um carma coletivo daquele país. Mas isso é determinado pelo seu carma individual. Você vai pra lá, sente-se atraído para nascer lá.
Já causalidade é outra coisa, não é causado pelo seu carma individual. É uma condição da vida humana, pode acontecer um terremoto ou qualquer coisa e não podemos dizer que isso seja culpa da pessoa ou carma, isso é causalidade, é outra coisa diferente. Você está sujeito a causalidades porque teve carma para nascer humano, e os humanos estão sujeitos a doenças, acidentes, etc.
De certa maneira, contudo, carma tem a ver com causa e efeito. Você tem uma ação que causa frutos, mas em geral estamos dizendo “carma individual”, ação intencional, você fez intencionalmente, isso gera carma individual.
As doenças podem ser as duas coisas. Porque se você tem uma conduta que gera aquela doença, você vai colher os frutos daquele mal. Se você fuma e tem câncer de pulmão, você vai colher os frutos de fumar. É lógico.
Então, existe ação e consequência sim, mas quando dizemos carma normalmente estamos falando de ação intencional, individual, que causa “marcas mentais” que modificam a mente e que portanto modificam a próxima manifestação. É este conjunto que interessa. Nós não chamamos de “alma” porque não há um “eu”, mas existe uma continuidade da onda cármica no mundo. O Budismo não diz que não existe uma continuidade.
Mas, para sua prática, nem precisa acreditar nela, porque o Budismo não pede que você “acredite”. Tudo é raciocínio lógico. Você não precisa aceitar nada.
À medida que você for fazendo boas marcas, sua energia de hábito mudando suas marcas cármicas, você muda seu carma e portanto muda o mundo e você mesmo. E determina a sua manifestação futura. Você muda já nesta vida. Você muda agora. Vai mudando. Na medida que você treina a sua mente de outra forma.
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segunda-feira, 8 de abril de 2013
Uma bola de ferro incandescente para ser engolida
Pergunta – Na recitação da linhagem Shakyamuni Buda não aparece em primeiro, por quê?
Monge Genshô – Os seis Budas que o antecedem são Budas míticos. Isso significa que Shakyamuni Buda não foi o único Buda, não é o único possível, não é um deus nem filho de deuses e tão pouco um salvador. Ele é apenas mais um Buda, o Buda de nossa era. Ele foi um homem e a história de sua morte é maravilhosa. Buda morreu com diarréia, comeu na casa de um ferreiro, teve uma indisposição intestinal em razão da idade avançada e dos problemas de saúde que já tinha e morreu desidratado. Nós colocamos água em frente à estátua de Buda com a intenção de lembrar esse fato e também é como se disséssemos, “Se eu estivesse lá eu lhe daria água”.
A pergunta que sempre faço é, “Vocês já tiveram diarréia?” Se já tiveram são como Buda e podem despertar. É a historia de um homem comum e é muito importante que seja assim. Nada de histórias miraculosas do tipo, subiu aos céus ou anjos vieram busca-lo no dia de sua morte. Essa história conservou-se assim durante dois mil e seiscentos anos o que quer dizer muito sobre o Budismo.
Um aluno perguntou ao mestre, “Mestre, no Dharma de Buda o que senhor pode me oferecer?” ao que o mestre respondeu, “Gostaria muito de lhe dar alguma coisa, mas no Zen só há uma bola de ferro incandescente pra ser engolida”. A primeira coisa a ser dita à um aluno é, “Você sabe que está condenado a morte? Eu posso salvá-lo desta angústia existencial, mas somente através da clareza e lucidez. Não através de alguma crença, fantasia ou promessa maravilhosa para depois da morte”. Como as pessoas estão atrás dessas promessas de reencarnações, espíritos permanentes, almas e paraíso, não ficam. Elas desejam crenças, não sabedoria. Por isso uma Sangha com mais de 20 pessoas é muito raro, altíssimo nível.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Budismo, reeencarnação e renascimento
Muitas pessoas confundem o budismo com uma doutrina que crê em reencarnação, mas isso não é verdade, porque não existe reencarnação no budismo, não da maneira como se entende reencarnação. Pois não existe nenhuma alma para reencarnar, nenhum espírito, nenhum eu. Há continuidade, mas não de um eu. Somente nosso karma ou nossos impulsos podem permanecer, como movimento que são. E como são movimento, tentarão se manifestar novamente e gerarão um novo ser muito semelhante a nós, com os mesmo desejos e tudo mais, que também olhará para si mesmo e dirá “eu sou”. Este ser até, na infância, pode ter recordações fugazes da existência anterior, mas a perde rapidamente com a idade, chamamos isto, no budismo, de renascimento, em tudo é semelhante ao conceito de reencarnação exceto pelo fato de não haver um eu pessoal que subsiste.
(Para os que perguntam sobre a tradição dos tulkus no budismo tibetano, o reconhecimento de renascimentos, ela não conflita com este conceito desde que está claro que não se trata de continuidade de um eu, mas sim de continuidade cármica, se houvesse sobrevivência de um eu não se trataria de budismo, pois Buda negou esta possibilidade)
E porque continua esse ser iludido criando novas identidades vidas após vidas, sem parar, esse ser não passa de um ser cíclico, repetindo sempre os mesmo atos, as mesmas insatisfações, os mesmos desejos e as mesmas tristezas. Como podemos escapar desse ciclo? Somente se mudarmos nossos olhos, os olhos que vêem o mundo. Porque temos olhos de eu, olhamos o mundo como um mundo que age e interage conosco, quando essa interação também é ilusória. Todas as ações e reações das pessoas, todas as coisas que nós temos, todas, são projeções do nosso eu. Nós projetamos nosso eu sobre todas as coisas e as interpretamos de acordo com nosso eu, e este eu é nosso engano.
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segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Redemoinho como analogia
Pergunta – Fazendo uma comparação com o espiritismo: quando morremos, o que acontece com nossa “alma” ou “espírito” até que tenhamos outro corpo?
Monge Gensho – No budismo não falamos em almas nem em espíritos. Não falamos em uma existência corpórea separada, o que seria nós mesmos, separados de um corpo. Essa é uma noção grandemente originária no ocidente do Platonismo. Mas a noção de uma alma separada do corpo, por exemplo, não é uma noção existente no judaísmo primitivo. No Cristianismo, vem por influência grega e o Kardecismo é um herdeiro dessa tradição. É um sincretismo entre idéias hindus, budistas e cristãs. Na verdade, o budismo apenas declara que o carma, que é um movimento no universo, provoca nascimento. Mas não fala de uma alma que conserva seu “eu”, embora possamos encontrar conceitos um pouco mais próximos disso no Bardo, que é o ensinamento pós-morte do livro Tibetano dos mortos. Ele se aproxima dessa noção de uma consciência, de algo que está carregando, de uma entidade que irá renascer. Mas a explicação melhor dentro do Zen seria: olhe para um redemoinho, ele tem movimento, energia e forma e quando você olha para ele, vê um eixo em torno do qual tudo gira, mas esse eixo existe, é algo? Não. O movimento por si mesmo cria a noção de um eixo, mas não é necessário que o eixo exista para que algo seja apegado a ele. É o próprio movimento que provoca o renascimento.
Pergunta – Sei que isso é limitado, precisamos criar uma imagem para podermos entender, mas seria como ondas no oceano?
Monge Gensho – A onda continua, mas a água não se move com a onda. As ondas passam através da água. Quando eu falo o ar vibra, há ondas sonoras, mas o ar não se move para que o som chegue até seus ouvidos, só há vibração, que é pura energia. Não se moveu nada essencialmente, no entanto, o som chegou até aí. Acho que o redemoinho é uma imagem muito boa, porque permite a idéia de uma entidade e coloca tudo num movimento. Você, agindo na sua vida, provoca movimento. Há movimento, há formas de energia, impulsos, desejos e apegos - esses formam o carma. O que renasce? O que provoca o renascimento? O carma.
O carma tem um “eu”? Não. O carma provoca um nascimento e o nascimento diz a si mesmo, “eu sou”. Então, é o carma que provoca o surgimento de identidades, não são as identidades que carregam carmas. Essa é a essência desse pensamento, que é um pouco mais sutil. É mais fácil pensar num espírito que carrega uma mochila de carmas nas costas, não é verdade? Mas não é assim. É o carma que provoca o surgimento de identidades. Nós somos identidades que surgiram por causa de carmas, nossas identidades são ilusórias. Somos um sonho.
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quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Trinta bastonadas deu-lhe Obaku
Pergunta:Gostaria de saber se tem diferença no Zen entre corpo, mente, alma e espírito. Por exemplo: há diferenças entre sofrimento espiritual e sofrimento mental?
Monge Genshô: Acho que são só palavras, porque nós poderemos dizer assim: a minha alma está sofrendo, querendo dizer que estou sofrendo intimamente com falta de paz, ou meu espírito não tem paz, ou minha mente não tem paz. Todos seriam sinônimos. Mas quando se fala em alma como uma partícula indivisível de uma pessoa que sobrevive à morte aí nós estamos falando de uma outra coisa, uma partícula eterna que não existe dentro da doutrina budista. Na doutrina budista todas as coisas são impermanentes, todas, inclusive a nossa consciência. Nós queremos que permaneça, mas não é assim. É como querer que o gume de uma faca permaneça quando a faca desapareceu. O gume, fio da faca, é inerente a existência da faca. Sinto-me confuso um pouco quando alguém me pergunta qual é a diferença que o senhor vê entre mente e consciência? As abordagens do zen não são bem assim porque corpo e mente estão misturados, coração e mente estão misturados. Não adianta você dizer minha mente está muito bem mas meu corpo não, eu estou com 41o de febre. Não é verdade. Se está com 41o de febre está delirando, então a mente não está bem. Sente reto e a sua mente muda. Agora faça assim (cabeça curvada) e me diga: como é essa mente? Não é deprimida? Agora coloque a coluna bem reta, atento, é outra coisa. Se você quiser mudar a sua atitude mental, se tudo estiver embaralhado, se tudo estiver difícil num dia, pare e respire fundo, sente bem reto, vá sentar em zazen. Turbulência na mente. Problema. Respire profundamente. As coisas vão voltar para o lugar. Por quê? Porque você voltou para o básico que é respirar. Nada mais tem importância de verdade. Tem a história de um mestre a quem um discípulo disse assim: como eu posso alcançar a iluminação? O mestre olhou para ele pegou sua cabeça e a enfiou dentro de um tanque de água e segurou, ele se debateu, quando estava afrouxando o mestre retirou a cabeça da água e disse: quando você quiser a iluminação do jeito que você queria ar me procure. Porque naquela hora ele não estava pensando em mais nada.
Esse é método típico da Escola Rinzai. Na Escola Soto se é mais delicado, pelo menos no princípio. Saikawa Roshi, conta que Rinzai, discípulo de Obaku, foi a Obaku e fez uma pergunta e Obaku deu-lhe trinta bastonadas, ou seja, deu-lhe uma sova. Obaku era um homem de quase dois metros de altura. E Rinzai foi falar com outro mestre e disse: eu fui fazer essa pergunta a Obaku e ele me deu trinta bastonadas. E o mestre disse: que pessoa gentil e carinhosa que Obaku é. Como ele foi gentil e carinhoso com você! Histórias do Zen.
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quinta-feira, 26 de julho de 2012
Palestra em um centro espírita
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Ricardo Di Bernardi
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Um sonho vívido
Pergunta: Somos nós também parte do fluxo cósmico?
Resposta: Sem dúvida nenhuma.Nós é que pensamos que não somos. Nós é que pensamos que somos eu aqui agora e depois eu nasci e eu vou morrer porque eu estou pensando e olhando e vendo os outros, porque eu estou vendo então é um sonho .Eu estava conversando sobre isso com Saikawa Roshi e eu disse... é um sonho. E ele disse, assim: mas é um sonho tão vívido... porque o que acontece aqui agora, é o nosso sonho de que estamos aqui agora sentados ouvindo uma palestra do Dharma num retiro, é um sonho muito vívido.
E a pergunta é: mas se se apaga meu cérebro, se eu morro, onde está esse universo? Quem sou eu realmente? No budismo nós queremos responder essa pergunta com uma percepção profunda em vez de ficarmos nos iludindo com histórias de que somos uma alma que vai trocando de corpo ou espírito ou coisa assim, nós queremos atingir essa compreensão profunda do sonho do nosso eu aqui agora e descobrir e perceber que nós não somos essa pessoa que nasceu e vai morrer. Nós não somos estes condenados à morte que estão todos sentados aqui nessa sala e isto é que significa libertar-se da morte também e de todos os apegos e sofrimentos. Esta é a liberdade, entender, alcançar a nossa verdadeira natureza que não é a desse ser que está aqui agora com esse corpo, vivendo o primeiro dia do resto das nossas vidas a cada dia. Esta idéia é bem clara, amanhã começa o resto das nossas vidas. Amanhã é o primeiro dia desse resto. Está terminando e cada dia não se repetirá. É menos um.
Mas quem somos nós? Estamos pensando isso, esse fenômeno do nosso cérebro funcionando, essa ilusão que fecha os olhos, dorme e tem outra ilusão, quem somos nós realmente além desse sonho momentâneo? Esta não é uma resposta para ser dada com uma solução de fé. No Zen o monge não vem aqui e diz assim: é assim, acreditem. Não é assim, tentem e descubram através da meditação quem são realmente, porque posso dizer algumas coisas a respeito, mas não posso dar respostas para ninguém, todo mundo tem que ver com os seus próprios olhos. Quando a gente consegue responder a pergunta “quem é você?” para um mestre, de forma satisfatória, é uma libertação deste papel que estamos representando, é uma solução, é uma realização espiritual libertadora e é isso que a iluminação é – libertação dessa condição de nascimento e morte.
"Transcendente.
Não algo a ser transcendido,
mas a vida de cada um de nós é transcendente.
Essa é a vida que estamos vivendo,
e, quando você realmente compreende isso,
significa compreender o que é o todo,
não fica tão difícil,
e vivê-lo também não.
Você compreende que não existe
outro jeito que você possa viver.
Não é algo
que deva tentar realizar
amanhã."
(Maezume Roshi)
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sexta-feira, 30 de março de 2012
Vendo a natureza original

P. Quer dizer que somente o nosso consciente faria parte do fluxo do meio. A única preocupação que eu deva ter é lapidar, não posso lapidar o meio, mas eu tenho que participar dele e respeitá-lo, respeitar o fluxo do meio.
Monge Genshô: O que você pode alterar é o seu canal de interpretação, o seu programa, nós já temos os sentidos, os olhos, os ouvidos, nós percebemos o mundo em volta mas tudo isto é interpretado por programas cerebrais. Estes programas que nós temos na nossa mente são influenciados pelos nossos hormônios, eles nos dão mensagens e reagem de determinadas maneiras que nos estão incutidas pela nossa própria formação biológica, pela nossa cultura, por tudo que nós aprendemos. A questão é quão verdadeira é a nossa interpretação desse mundo através destes sentidos, não é? Nós olhamos uma fruta vermelha numa árvore e sabemos que ela está madura, não só nós, os macacos também sabem, isto está embutido na nossa programação há milhões de anos e nós gostamos da cor vermelha no meio do verde e quando nós vamos ao supermercado as embalagens são vermelhas, amarelas, de cores quentes porque elas usam este condicionamento que nós temos de nos sentirmos atraídos pelas cores que significam comida madura e doce, temos todos estes condicionamentos dentro das nossas mentes e tudo isto nos impede de ver a realidade tal como ela é. É útil isso? Sim, é útil, serve para nossa operação no mundo, assim como nosso corpo serve para nossa operação no mundo, mas a clareza da mente original não é esta interpretação condicionada. Ela está além disto, quem está sentado aqui pode ouvir a cigarra e pensar ah, eu associo as cigarras com o natal e daí o som das cigarras me faz feliz, e outra pessoa, eu associo cigarras com insônia, com uma experiência desagradável que eu tive numa fazenda onde eu fiquei e aquelas cigarras me incomodavam e quando ouve cigarras se sente incomodado, onde está esta interpretação? O som em si não está na mente, só a interpretação.
P. Voltando um pouco, aceitar o outro é fácil, o problema está em a gente se aceitar...
R. Acho que são dois problemas, não é? Sartre escreveu uma frase famosa que era: o inferno são os outros. É uma frase do existencialismo. E do outro lado também nós olhamos para nós mesmos e sentimos coisas assim e às vezes para escapar da própria vida tem gente que se suicida, se mata, não aceitação extrema, e às vezes a não aceitação do outro leva a que? Ao crime, a morte do outro etc. Ora, a questão é que estas aceitações em si não são diferentes, tanto faz os outros ou eu porque esta distinção também é uma distinção falsa e ela só existe porque nós acreditamos nesta individualidade e é por isto que a gente sofre tanto com a perspectiva da morte porque nós acreditamos que isto é o fim de uma coisa preciosa que é a nossa individualidade. Imaginem cada um de vocês no seu leito de morte, pensem um pouco, estou ali e vou morrer. Esta perspectiva nunca parece agradável e a humanidade tenta arranjar alguma fantasia para escapar disso e estamos cheios de fantasias nas nossas culturas para escapar desta realidade da morte. A principal delas é a existência de uma alma que sobreviva a morte e que seja eu mesmo e que este corpo seja só uma casca e aí então está tudo solucionado porque eu passo a ser eterno e só morre o corpo e não tem problema ou eu ganho um outro corpo novinho em folha sem os problemas deste aqui que já envelheceu, mas eu continuo, sou preservado. Esta maneira de pensar é nada mais do que uma tentativa de escapar da realidade. O Budismo não olha as coisas assim, ele diz , não é isto, não é a morte que é um problema, é o nascimento que é um problema. Na verdade esta realidade última que nós estamos procurando encontrar na meditação está além de nascimento e morte porque se penetrarmos nesta realidade última, nesta natureza original não existe nascimento e morte, nem tempo, e tudo isto que nós estamos olhando aqui agora e queremos conservar, essa existênciazinha e este euzinho é apenas uma bolha, manifestação da realidade última. Nesta natureza original não existe isto. Penetrar na natureza original é tornar-se, em outros termos, a própria divindade, a própria vacuidade, além de tempo, além de espaço, além de início, além de fim e é por isso que quando a gente ouve isso pode entender claramente como é verdadeiro, porque não tem engano, não tem nenhum truque de dizer eu vou sobreviver a esta morte com a alma e o espírito, ir para o céu, o paraíso ou o inferno ou qualquer coisa assim, não é nada disto, a natureza original está além da própria existência deste universo tal como nós o vemos, tal como ele se manifesta. A nossa natureza original é ela que manifesta este universo e é isto que na realidade nós somos e sendo assim não há nascimento nem morte.
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segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Reencarnação e budismo
A definição da “Realidade Suprema” é uma noção que geralmente tende a separar o Cristianismo do Buddhismo. A questão é menos de contradições intransponíveis que de compreensão mais profunda dos termos envolvidos. Outra das dificuldades entre cristãos e buddhistas tem sido o conceito de reencarnação.
Infelizmente, isto que parece separar estas duas grandes religiões, não passa de um grande erro, pois, ao contrário do que muitos pensam, o Buddhismo não tem uma doutrina reencarnacionista, pelo menos não quando interpretado corretamente. A reencarnação no Buddhismo, quando é mencionada por alguns, é apenas uma crença popular e exterior, apropriada para aqueles que só conseguem fazer o bem se creditando em um proveito próprio. “Eu faço isto para receber os frutos amanhã ou em outra vida”. É uma crença popular, sustentada seja por orientais que desconhecem qualquer coisa mais profunda de sua tradição, seja por ocidentais iniciantes. É semelhante àqueles cristãos que acreditam que Deus é, realmente, um homem velho e barbudo sentado em um trono de madeira pousado nas nuvens. A idéia ocidental da reencarnação, ou seja, a de que uma alma ou “espírito” imutável ocupa diferentes corpos humanos indefinidamente, nem mesmo existe no Buddhismo (lembremos seu ensinamento fundamental sobre o não-eu), sendo fruto das concepções espíritas surgidas no fim do século XIX. O que o Buddhismo de fato ensina é o renascimento, algo por completo diferente da reencarnação tal como é concebida no Ocidente. No processo de passagem do Buddhismo para o Ocidente entretanto os tradutores e intérpretes ocidentais começaram a fazer uso de suas próprias concepções influenciadas pelo espiritismo para interpretar doutrinas buddhistas, o que teve como resultado um engano que permanece até hoje na mente de alguns que estudam o Buddhismo superficialmente e isto principalmente no Brasil. Como diz o monge Khantipålo: “Uma sucessão de vidas com uma alma encarnando em uma série de corpos é freqüentemente chamada de reencarnação. No Buddhismo, o ensinamento referente a este tema é fundamentalmente diferente... Não há re-encarnação no Buddhismo pois não há entidade espiritual imutável; em termos últimos, nenhuma alma pode ser encontrada que possa se reencarnar. O Buddhismo não constrói a dicotomia entre um corpo perecível de um lado e uma alma eterna de outro” (Buddhism Explained. Bangkok: Mahamakut Rajavidyalaya Press, 1986). Renascimento significa no contexto buddhista a transmissão ou influência das ações intencionais nos seus frutos. Toda ação intencional, para o bem ou para o mal, gera conseqüências. Diz-se, assim, que a ação “renasce” nos seus frutos, ou seja, há uma interdependência entre ações e reações.
O que o Buddhismo ensina é que a vida é una e uma só, tomando formas diferentes, mas estreitamente dependentes e ligadas entre si. É uma só vida que anima tudo. Daí “vida” ser na Bíblia traduzida muitas vezes do latim anima que significa “alma”. Esta única vida ou “alma” assume várias formas, todas elas impermanentes e transitórias, como tudo o que é criado. Estas formas nascem, morrem, renascem, tornam a nascer e assim por diante. Uma semente também nasce, se desenvolve, se transforma em árvore, que por sua vez morre, mas gera muitas sementes. De certa forma, podemos falar que aquela árvore “renasce” na semente.Entretanto, nem a árvore e sua semente são a mesma, nem são radicalmente diferentes. Se falamos que são iguais, então, caímos no reencarnacionismo. É o mesmo que dizer que a árvore se “reencarnou” na semente! Que ela é o mesmo “ser” em um outro “corpo”. Um completo absurdo! Mas falar que são completamente diferentes entre si é cair no que podemos chamar de ceticismo, agnosticismo ou casuísmo: a concepção que vê tudo como isolado e independente. É a concepção de que uma vez que se morre é o fim e pronto! Ou ainda significa falar que tudo acontece por acaso sem nenhuma ligação anterior. O Buddhismo poderia falar, pelo contrário, que a “ressurreição” ocorre quando estas “porções de vida” compreendem que não são isoladas do todo, mas são expressões de uma única vida. É a Libertação da Ilusão, a Iluminação, o encontro com o Absoluto. Isto tem a ver com responsabilidade universal por todas as coisas. O que fazemos aqui se reflete pelos dez cantos do universo. O pecado (ignorância) de um, mancha todo o resto, como uma gota de tinta jogada em uma bacia de água. Mas também a Iluminação de um salva todo o universo, como uma lâmpada que, quando acesa, ilumina todo o quarto escuro. Desta forma, o Buddhismo terá uma preocupação especial para com o sofrimento. Quando os primeiros ocidentais e cristãos chegaram à Ásia, ficaram surpresos de ver, dentro de templos buddhistas, pinturas e quadros com uma figura masculina e outra feminina se abraçando. Tomaram isto como profanação e idolatria do sexo. Pena que não se lembraram de perguntar aos orientais e aos seus monges o que isto significava. Estas duas figuras se abraçando simbolizam a Sabedoria e o Método.
A Sabedoria é a primeira resposta do Buddhismo para o sofrimento nos dias de hoje. É necessário que o homem cultive um maior entendimento de quem é ele, o que é o Real, o que é o mundo em torno. O nível de compreensão que temos de tudo isto é muito superficial. Somente agora, por exemplo, é que o homem moderno, em escala global, está percebendo que tudo está interligado, e isto devido à tremenda crise ecológica em que vivemos. É necessário aprofundarmos nosso entendimento da realidade e isto inevitavelmente colaborará para a diminuição do sofrimento. A segunda resposta vem através do Método. Isto significa possuir formas efetivas de ação. Ter técnicas e ensinamentos que nos levem a compreender o sofrimento e a dor do mundo e atuar convenientemente para extirpar suas causas. No Buddhismo o método mais supremo é a Compaixão. Somente ela poderá fazer com que quebremos a barreira de nossos egoísmos, e num movimento para frente, possamos ir de encontro às necessidades do próximo, com os corações abertos. É porque tudo está interligado que nossa responsabilidade aumenta. Desfrutamos as ações sábias e as ações que rebaixam a espécie humana. De certo modo, tais ações “renascem” em nós, pois sofremos todas as suas conseqüências.
COMPREENDENDO MELHOR O ENSINAMENTO DO BUDDHA
(RICARDO SASAKI, © 1995
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