quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Explicando o conto Taro
A Folha de São Paulo publicou um conto infantil de Saikawa Roshi que conta a história de um peixe, “Taro”, que acredita numa lenda marinha que fala da “Água da Vida” e que quem bebe desta água torna-se eterno.
Taro passa então a percorrer todos os mares em busca da “Água da Vida”. Para qualquer peixe que perguntasse, ninguém sabia lhe responder onde ficava a “Água da Vida”. Decepcionado, Taro finalmente desistiu e tomou o rumo de volta ao seu mar de origem. Mas algo aconteceu quando ele se aproximou de sua casa. Taro chegou a um lugar no qual o solo arenoso começou a subir. Mesmo longe da praia, a água ficava mais rasa. Repentinamente, uma onda enorme ergueu-se e lançou Taro para fora da água. Metade do corpo de Taro ficou fora do mar. Foi então que ele avistou um mundo diferente de tudo que já vira antes. Nesse momento, ele perdeu o fôlego e não conseguia mais respirar. Foi então que compreendeu tudo muito claramente.
Agora ele percebia que estivera dentro da "Água da Vida" desde seu nascimento. Ele então tenta explicar para os outros peixes que a “Água da Vida” é a agua que está em volta deles. Mas os outros peixes não o entendiam. “Vocês estão mergulhados na “Água da Vida”, essa é a “Água da Vida” ele dizia, mas não o entendiam. Em razão de sua descoberta Taro muda seu temperamento, seu comportamento e sua maneira de ver a vida, transforma-se num peixe feliz e sempre sorridente conquistando o coração de todos a sua volta. No momento de sua morte todos o rodeiam e ele lhes fala, “A verdade é que todos nós somos a Água da Vida”.
Através desta história, Saikawa Roshi está falando de nós mesmos e está tentando atingir as crianças. A história da iluminação está nesse conto, todos estamos mergulhados na própria condição da iluminação. Temos todas as condições para o despertar, mas não conseguimos enxergar e aqueles que enxergam não conseguem explicar para os outros.
Esse tipo de história é bem comum no Budismo. Há a história de uma rã que vivia dentro de um poço, um dia ela consegue sair e vê o mundo e suas maravilhas. Quando retorna ao poço tenta explicar para as outras rãs sobre o que havia visto, mas ninguém acredita, porque por mais que ela descreva, a imagem desse mundo é inalcançável para quem só vivia dentro do poço. História semelhante ao mito da Caverna de Platão em que os homens dentro da caverna só viam as sombras na parede e pensavam que aquilo era o mundo e só aquilo existia, quando um deles sai e conhece o mundo e volta para lhes mostrar, ninguém entende ou acredita.
Quem não despertou não entende do que se está falando. O Budismo é estritamente experiencial, por isso o foco na meditação, pois só através da prática do zazen seremos capazes de acordar e ter vislumbres do mundo lá fora. No conto de Saikawa Roshi há ainda outro elemento que é estarmos rodeados pela “Água da Vida”, mas como não a percebemos, ela não existe para nós. Mas aquele que percebe é transformado por esta descoberta.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
“Você, meu “eu”, não me enganará mais”
(continuação)
Depois de Platão, no ocidente, começamos a acreditar firmemente em almas. E as almas solucionavam o problema. Eu tenho um “eu”, uma identidade própria. Se eu morrer, minha alma não morre. O corpo é só a casca. Até nos desenhos animados, morre Tom e a alma do gato vai saindo e ele a puxa pelo rabo. Mas a alma é ele! O corpo não é nada! Então está solucionado: eu vou viver para sempre, pois eu tenho uma alma eterna. Então, eu preciso de alguma coisa para essa alma, e o que eu dou pra essa alma? Um paraíso ou quem sabe um corpo novo. Aí chamamos essa solução de reencarnação.
Vamos para o Budismo?
2.600 anos atrás, Siddharta Gautama vai pra floresta e torna-se um asceta. Torna-se aluno de dois grandes mestres Iogues e treina duramente. Diz-se que ele jejuou tanto, que a marca do seu sentar parecia a pisada de um camelo. Ele era bem magro. Ele é representado nas estátuas “Buda em Austeridade” com as costelas aparecendo e os ossos do rosto saltados. Eu não sei o que aconteceu no ocidente. Em algum momento, alguém trouxe uma estátua de “Papai Noel da China”, “Po Tai”, bem gordo, dando risada e colocaram nas vitrines das lojas e começaram a vender como Buda. Buda, historicamente, é um asceta. Não este Buda da vitrine. Aquele, que chama-se “Po Tai” em chinês e “Ho Tei” em japonês, nada tem a ver com Buda, algumas vêzes diz-se o buda do futuro, um futuro de abundância e felicidade.
Para explicar melhor essa história imagine que alguém vem de um lugar remoto e não conhece o cristianismo. Chega aqui em Goiânia e assiste as festividades de Natal. Volta e perguntam a ele: “Você foi lá? Fui. Como é a religião deles? Ah é meio estranha, eu assisti à festa principal deles, chama-se Natal. E o Deus deles, como é? Ah é gordo, se veste de vermelho, anda num trenó com renas”. É só o que ele viu, não é verdade? O que é que a gente vê no Natal? As tradições vão sendo modificadas e deturpadas com o tempo.
Mas voltando ao tema.
O problema de Siddharta Gautama é que depois de 6 anos ele desistiu. Não aguentava mais. Aceitou arroz e leite de uma moça chamada “Sujata” e sentou-se embaixo de uma árvore, uma figueira, uma “fícus religiosa”, e disse: eu não me levantarei daqui, enquanto não resolver o que nós chamamos hoje em dia de “angústia existencial”.
7 dias. Ao amanhecer do 8º dia, surgiu a estrela da manhã e aquela luz o atravessou, e repentinamente ele percebeu as ilusões em que estivera metido. E ele disse uma frase extremamente importante para nossa palestra: “Você, meu “eu”, não me enganará mais”.
Ele descobriu simplesmente que esse “eu” que nós tanto acreditamos e que em todos os tempos as pessoas quiseram que sobrevivesse à morte, não passa de uma construção mental, uma ilusão. Que você não é este “eu”. E estou aqui pra dizer pra vocês: o segredo de uma mente equilibrada é compreender, dentro de você mesmo, com o seu sentimento, não com a sua mente, que seu “eu” é uma ilusão completa, você não é o que você pensa que é.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
A analogia da caverna de Platão
É possível fazer uma comparação do ensinamento budista com o célebre exemplo da caverna de Platão?
Uma analogia é algo limitado, útil somente até determinado ponto.
Na analogia da caverna, Platão imagina seres que estão ao fundo de uma caverna e interpretam o mundo atrávés das sombras que a luz externa projeta na parede. Nenhum deles jamais saiu de lá.
O mundo do samsara, o mundo das ilusões em que vivemos, é assim: um mundo de sombras que interpretamos e nas quais vemos relações. Lá fora existe uma luminosidade pura que permite que tudo surja por meio de sombras.
Mas a luminosidade não são as sombras e as sombras não são a luminosidade. No entanto, estão tão ligadas que, sem a luminosidade, as sombras não existem, e sabemos que há luminosidade porque há sombras.
A vacuidade, o Vazio (o não manifesto, o incondicionado, o além de características) é, nesta analogia, a luminosidade. As sombras, as nossas
percepções, as palavras os símbolos com que tentamos entender a luminosidade, através das interpretações que fazemos das sombras.
Não admira que seja tão difícil duas pessoas se entenderem, quando um quer que surja a lógica através dos raciocínios que faz com palavras (semiótico) a respeito das sombras e dos relatos sobre estas relações, e o outro, por sua vez, deseja falar sobre a luminosidade, também usando símbolos criados através do estudo das sombras para explicar que a luminosidade está "além" de qualquer sombra.
No Zen, diríamos de imediato que: "As sombras e a luminosidade não são um e também não são dois"
Ou seja, a luminosidade externa é não definível pelas sombras, as sombras,embora manifestação que só surja se existe luminosidade, estão num nível inferior de complexidade que não permite que, com elas, analisemos o nível superior. Assim como as pedras e sua ciência não esclarecem a biologia, como a fisiologia do cérebro não esclarece a consciência: podem, no máximo, dar uma sombra da manifestação mais complexa.
Se é útil este ensinamento baseado nas sombras? Com certeza, a maior parte dos ensinamentos budistas são assim. Deve-se falar no "além" disso? Com certeza, sob pena de nos recusarmos a virar e sair da caverna. Iluminação seria isto? De certa forma sim. Samsara (as sombras) e nirvana (fora da caverna) são o mesmo? Sim e não, os dois não são um, mas também não são dois, e os bodisatvas são os que retornam para dentro da caverna e falam sobre a luminosidade, porém não podem iluminar ninguém, podem apenas dizer:saia, saia, vire-se, isto aqui são só as sombras, você mesmo é sombra!
Porém, sem ver a luminosidade não é possível entender. Nessa analogia (limitada, lembre-se), iluminação é mergulhar na luminosidade. O mundo das sombras, assim, fica paupérrimo.
Nirvana é, vendo isto, livrar-se de todas as relações entre sombras, ficar sem "ventos" internos. Pode-se estar no Nirvana e não ser um bodisatva. Parinirvana é dissolver-se em pura luminosidade.
Assim sendo, com o vocabulário e as técnicas úteis dentro de um âmbito, não podemos entender o outro. É preciso sempre abandonar a caverna para, mergulhados na luminosidade, compreender que aquele mundo é inexprimível para o expectador da face de pedra interna.

