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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Correspondência entre monges - Karen Armstrong


> A publicação simultânea de Em Defesa de Deus,da teóloga Karen
> Armstrong, e do autobiográfico Hitch-22, do rebelde Christopher Hitchens,
> traz à tona novos argumentos para o debate religioso.
>
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110219/not_imp681716,0.php>

> - Gasshô
>
> Rev. Wagner (Sh. Haku-Shin)


Caríssimos Irmáos no Dharma,

A postagem dessa excelente matéria me estimula a fazer algumas considerações:

Conheço muito bem a obra da Profa. Karen Armstrong e a considero muito mais uma Historiadora das Religiões do que uma teóloga. Digo mais: uma excelente historiadora das religiões, uma digna continuadora e sucessora de Mircea Eliade, talvez o maior historiador das religiões do século XX. Ela foi freira católica, perdeu a fé, deixou o convento e, através do seu trabalho de pesquisadora e divulgadora da História das Religiões, ela recuperou a fé, mas não mais aquela fé convencional presa a uma determinada confissão religiosa. Trata-se de uma fé dirigida a uma religiosidade que transcende religiões constituídas e dogmatismos, uma Fé no Sagrado além de suas formas e manifestações convencionais, diria eu. Quem ler sua autobiografia espiritual "A Escada Espiral" perceberá mesmo que sua fé tem uma dimensão esotérica ou iniciática: a "Escada Espiral" é um velho tema iniciático. Esse livro nos permite entender a própria vida da autora como um percurso iniciático marcado pela experiência cde "morte-e-renascimento", ou, como prefere dizer a Autora, pela ascenção da Escada Espiral.
Dentre as várias obras de Karen Armstrong, recomendo a meus irmãos budistas sua biografia do Buda Histórico Shakya Muni: "Buda", Coleção "Breves Biografias", Rio, Editora Objetiva, 2001. É um livro bastante objetivo com uma bibliografia muito bem atualizada.
"Last, but not the least", confesso que gosto muito de ler autores ateus inteligentes como Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Sam Harris e Michel Onfray. Recomendo particularmente o livro mais recente de Sam Harris, "A Morte da Fé", em que ele se mostra bastante próximo do budismo, a respeito do qual desenvolve uma argumentação extremamente interessante. Os ateus funcionam como uma espécie de espelho em que nós religiosos podemos ver refletidas nossas mazelas.

Gasshô,

Shaku Riman
(Shaku Riman é o nome monástico do Rev. Prof. Dr. Ricardo Mário Gonçalves)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sobre o termo "monge"


Extrato de "aula" dada pelo eminente Rev. Wagner, Monge da ordem Otani do budismo Shin, em discussão aberta em site de relacionamento:

"Caros amigos e irmãos no Dharma,
Embora não esteja participando mais ativamente do fórum, acho que essa discussão em termos de compreensão é bastante válida, mas tenho sempre um pé atrás quando "de fora", digo, fora de uma instituição nós queiramos mudar usos e costumes da mesma. Acredito que movimento tenha que partir "de dentro", ou seja, a partir da compreensão e mesmo necessidade de adaptação dos termos por cada escola.

......
Vamos começar pela questão de se existem ou não "monges" budistas.
Bem, o termo "monge" já foi exaustivamente explicado em tópicos anteriores e por isso não carece repetir o que foi dito. (Monge vem do grego, "monos", e significa "só" uma referência ao isolamento dos primeiros contemplativos. NE) Então, na verdade, nem mesmo os Bhikshus atuais seriam exatamente monges, pois a maioria vive em templos "mosteiros" e levam vida comunitária e não solitária (caso que se aplica a quase todas as ordens "monásticas" cristãs, também).

No Japão há uma distinção entre os Bhikshus e "Sôryô" que seria o "monge" das escolas japonesas. O Sôryô não necessáriamente faz todos os votos do Vinaya e alguns nem mesmo os fazem oficialmente. É uma transmissão da linhagem.

No caso a Ordem Otani-ha do Budismo Shin (Higashi Honganji) à qual eu pertenço, vem trabalhando já a algum tempo, tentando melhorar o vocabulário em português e tentando evitar erros muito graves no uso desses termos, como por exemplo, chamar a cerimônia budista de missa, o "monge" budista de "padre budista" e etc.
Isso tudo tem raízes em dois pontos, um deles é a tradução e mesmo a publicação dos primeiros textos e livros em línguas ocidentais, em inglês é possível se ver até mesmo o termo "freira" budista para uma bhikshuni. Outro ponto desse problema está no fato de que o Budismo foi introduzido no Brasil pela colônia japonesa cuja língua não tem nenhuma relação com as raízes greco-latinas, e assim para se comunicar com os brasileiros, os japoneses, por exemplo, perguntavam aos católicos: "como se chama a cerimônia dominical que vocês frequentam na igreja?" e, ao ouvir a palavra "missa", imediatamente faziam a assimilação..... uma cerimônia religiosa se chama "missa" (o que é um grande engano).
E isso pode ser aplicado a muitos outros termos que foram se consolidando ao longo de décadas e é possível ainda se ouvir isso no dia-a-dia dos fiéis dos templos e até mesmo por parte de alguns religiosos.

No caso do termo "monge" na Escola Jôdo Shinshu, este seria totalmente inadequado, pois a nossa tradição não segue o Vinaya e nem mesmo parte dele, como no caso do Zen, Shingon, Tendai e outras escolas. Então, passamos a usar os termos correspondentes (também adaptados de tradições já existentes no ocidente) às funções, como por exemplo, Diácono (um religioso já iniciado mas não ordenado que realiza algumas cerimônias e serve a um templo ou comunidade), Ministro do Dharma para os ordenados, Missionários para os Ministros do Dharma que já possuem o grau de Mestre da Doutrina (Kyôshi) ou até mesmo Mestre do Dharma (Hôshi) e que recebem a incumbência específica de propagar o Dharma oficialmente em nome da Missão.
O título adotado para todos esses casos é o de "Reverendo", sendo esse um termo neutro que pode ser usado para qualquer religioso seja ele budista, cristão, islâmico, judeu ou outras denominações.
Mas confesso que ainda é complicado, pois quando as pessoas perguntam o que é exatamente um Ministro do Dharma, ou um Missionário da Otani-ha, a resposta mais simples é dizer: "um monge budista do Budismo Shin".

O fato de se utilizar o termo "monge Zen", "monge shingon", "monge nichiren" (acho que os religiosos do Nichiren-shu também usam esse termo, mas isso eu deixo para o nosso irmão Guilherme), e outras, apenas indica que essas pessoas receberam uma ordenação dentro de suas tradições.
Por mais que se proteste em listas do orkut, ou se berre à vontade, somente se os membros e praticantes de uma tradição discutirem e chegarem a um acordo e isso estiver de acordo com os Estatutos da Ordem é que poderá ser mudado.
Sem falar naquilo que eu já disse acima, "usos e costumes".
Se todos chamam o Genshô-san ou a Coen-san de Monge-Monja, ou Mestre ou Osho-san ou sei lá o que, vai depender da Ordem e da Comunidade.
Em minha cidade há uma colônia muito grande de imigrantes ucranianos que se dividem entre ortoxos russos auto-cefálicos (ou seja que não seguem as ordens do governo Russo) e de Católicos Romanos mas de rito oriental, nos dois casos há uma divisão entre monges (que fazem os tres votos: pobreza, castidade e obediência) e padres que apenas fazem o voto de obediência ao bispo, e portanto se casam, compram carros, casas e bens e sustentam suas famílias e filhos... isso aos olhos dos católicos romanos de rito latino é um absurdo, mas ambos são reconhecidos da mesma forma como "padres" pelo próprio direito canônico do Vaticano....
Então, para mim, é assunto interno.
Só vale a pena a discussão a nivel informativo.

gasshô."


rev_wagner@yahoo.com.br

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O Budismo e as artes marciais

Novo texto publicado em www.chalegre.com.br/zendo na secção Textos, Outros Autores, de autoria do Rev. Wagner (Shaku Haku-Shin)


O Budismo e as Artes Marciais
Veiculado em 25/02/2008

Texto do
Rev. Wagner Bronzeri (Shaku Haku-Shin)
Monge budista da Escola Jôdo Shinshû, ramo Ôtani.
Templo Budista Apucarana Nambei Honganji.

www.dharmanet.com.br/honganji

Trecho:

“Não passa desapercebido para nenhuma pessoa que tenha algum interesse pela cultura oriental e nem mesmo a um desinteressado turista ocasional, que visita os países orientais, o fato de que o Budismo se tornou a base do desenvolvimento da cultura e da ética sócio-religiosa de praticamente todo o extremo oriente, bem como, especificamente do Japão.

Seria impossível a qualquer pessoa que tome contato com qualquer aspecto dacultura japonesa, deixar de notar a influência do Budismo, nos fatoshistóricos, na arquitetura tradicional, na literatura, nas artes plásticas,artes marciais e artes sociais (“Ikebana”, cerimônia do chá, etc.), bem como na ética social japonesa. Também o folclore e a música clássica japonesa têm sua marca budista bem viva e até mesmo muitos dos feriados nacionais japoneses são datas marcadas pelo calendário budista.

Podemos observar também essa influência marcante da cultura budista na formação sócio-cultural japonesa, em aspetos como a introdução da escrita ideográfica chinesa (“Kanji”), através dos textos sagrados budistas (“Sutras”) e também no desenvolvimento e codificação dos “alfabetos” fonéticos simplificados (“Kaná”). E ainda, em aspetos éticos, sociais e legislativos, como por exemplo, o fato da primeira constituição japonesa, elaborada sob os auspícios do príncipe Shôtoku (573-621), ter tido influência estrutural do “Código de Manu”, de origem indiana, introduzido no Japão pelos primeiros monges budistas.”

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sexta-feira, 7 de setembro de 2007

É sesshin ou seshin? Gasshô ou gashô?



Para mim pessoalmente, acho que é só uma questão acadêmica. Em português não faz a menor diferença.
Quando as línguas ocidentais (alfabéticas) encontraram as orientais (ideográficas e silábicas), tiveram que criar sistemas de transliteração. Vários sistemas foram criados e o mais aceito internacionalmente no caso da língua japonesa é o sistema Hepburn. No Brasil, já fizemos algumas tentativas de melhor adaptação, mas ainda fica confuso. Por exemplo, em português a palavra Zen poderia muito bem ser escrita com "m" no final, mas convenhamos que ficaria estranho escrever Zem ou Xim (Shin) ou Candizai-Bossatsu, embora eu já tenha visto muitas vezes a palavra Xaquiamuni. Acho que não precisamos chegar a tanto.
Mas vamos lá....

Uma das regras gramaticais japonesas diz que certas palavras compostas (aglutinadas, na verdade), quando formadas por vocábulos como Setsu+Shin, o "tsu" é escrito em tamanho menor e há uma espécie de pequena parada, onde o som da próxima sílaba aparece dobrado. Seria mais ou menos como escrever SE(tsu)SHIN e a pronúncia fica Sesshin (outra alternativa seria usar apóstrofe Se'shin). O mesmo acontece com Gatsu+shô = Gasshô.
Parece complicado ao se explicar, mas no dia-a-dia japonês, isso é o comum. Seria talvez como em português, quando dizemos "copo de água" = "copo d'água".
No Hannya Shingyô isso acontece com freqüência, em palavras como Ha-ra-mi(tsu)-ta = Haramitta, ou i(tsu) sai = issai e assim por diante. Mas são apenas purismos da fonética.
Em português não faz diferença, mas a pronúncia para o idioma japonês faz. Por exemplo apalavra "kite" (forma imperativa do verbo kiku, que significa ouvir) e a palavra "kitte" (sêlo), na expressão japonesa não podem ser confundidas, pois numa expressão como:
"kite kusasai" = Ouça, por favor. (ficaria assim) "kitte kudasai" (com uma paradinha entre o ki e o te) = (Um) sêlo, por favor.
Esses detalhes fonéticos criam situações quase de Koan:
"O monge Haku-shin entra numa agência do correio e pede: Sêlo, por favor. E o balconista responde:
Estou ouvindo..." (hehehe)

Não sei se deu para explicar, mas estou à disposição para qualquer outro esclarecimento que esteja ao meu alcance.

gasshô,

Rev. Wagner - Sh. Haku-Shin ..... ou será que vai ficar "racu-xin" ;)

(Resposta gentilmente dada pelo meu especial amigo, o erudito Rev. Wagner, do Budismo Shin)