Mostrando postagens com marcador castigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador castigo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de março de 2017

Lucidez e Liberdade




Se você tem desejos e apegos nessa vida, e persegue essas coisas, vai perseguindo, perseguindo e gerando carma no processo, porque você quer mais uma coisa, quer mais outra, mais outra e, na medida em que você gera carma em movimento, você acumula energia para, uma vez esse corpo falecendo, manifestar-se novamente. E se essa energia tem os desejos típicos do ser humano, como ela tende a se manifestar? Como outro ser humano, para poder satisfazer esses desejos. Nós estamos aqui porque somos viciados no carma que nós temos. 

Então, o verdadeiro castigo é essa repetição: estamos presos e condenados a repetir indefinidamente enquanto não nos livramos da nossa ignorância e do nosso carma que nos levou a nascer assim, como nós somos agora. 

Portanto, qual é o papel do zazen? Fazemos treinamento mental para quê? Para enxergarmos com lucidez os nossos aprisionamentos e podermos primeiro compreendê-los, e depois descartá-los intencionalmente.

Se nós descartarmos esses impulsos, nosso carma vai enfraquecendo ao ponto que nós não estejamos condenados a repetir este tipo de vida que estamos repetindo agora.

quarta-feira, 15 de março de 2017

A Ignorância gera Sofrimento




O circuito que culmina no sofrimento é alimentado primordialmente pelo fato de que, em regra, ignora-se como as coisas funcionam. Peguemos qualquer parte do caminho óctuplo, dos preceitos: meio de vida correto. Se você tiver um meio de vida incorreto e, por exemplo, viver roubando, terá medo de ser pego, experimentará a insegurança, vai cavar vinganças da sociedade ou dos indivíduos prejudicados por você, e isso vai causar sofrimento. É a questão do meio de vida correto, não é?

Concluímos, então e por exemplo, que o administrador público que desvia dinheiro para o próprio bolso, do ponto de vista budista, trilha um caminho de grandes sofrimentos futuros. A ética do budismo, portanto, é construída assim. 

Frequentemente, quando explicamos que não tem um deus, não tem uma alma, o sujeito diz assim: "então eu posso fazer qualquer coisa porque não tem consequência, não é?". Mas não é verdade, porque as consequências são os resultados do próprio carma. Mas por que alguém agiria assim? Por que alguém age errado? Em primeiro lugar porque há a ignorância. Ele não compreende como o carma funciona e isso origina o segundo passo.

 Porque existe ignorância, existe comportamento cármico que gera movimento, que gera o surgimento das próprias manifestações. Em última análise, se eu extinguisse todo o movimento cármico, não haveria geração de novas identidades. Então, no fundo, o que o budismo está dizendo é que estar aqui é uma espécie de castigo: porque você gerou carma no passado, carma de desejo, de apego, etc., por ignorar como as coisas funcionam direito, você acumulou carma que gera a manifestação que você é.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Pena de morte



O Prof. Dr.  Ricardo Mário Gonçalves, Rev. Shaku Riman, escreveu há tempos este texto do qual posto uma parte:

"Não tenho a mínima competência para opinar em questões jurídico-penais, mas talvez possa oferecer um modesto contributo discutindo princípios gerais:
1.1.Pena de morte: aos que defendem a aplicação da pena de morte invocando um pretenso poder dissuasório da mesma, quero lembrar a cena de abertura do livro Surveiller et Punir (Vigiar e Punir) de Michel Foucault, um dos mais importantes filósofos do século XX. Numa praça de Paris, em meados do século
XVIII, está sendo executado através de torturas horripilantes um pobre diabo que ousou atentar contra a vida de Luís XV. Enquanto a multidão Assistia o bárbaro espetáculo, os punguistas circulavam alegremente pela praça, aliviando os espectadores do peso de suas carteiras. Ou seja, a pena de morte não inibia ninguém. O que inibe não é a pena de morte, mas sim, como nos ensina o filósofo legista chinês Han Fei-tse (280-233 a.C.), a absoluta certeza de que todo e qualquer delito será punido.
1.2.Rigor e Misericórdia: Como deverá ser uma punição? Quero aqui tomar de empréstimo à Santa Kabbalah ou Tradição Secreta de Israel (como dizia Fernando Pessoa) os conceitos-chave de Rigor e Misericórdia. Uma pena terá de apresentar um justo equilíbrio entre essas duas colunas, ou seja, ser suficientemente rigorosa para o delinquente tomar consciência do mal que fez e se sentir punido por causa do mesmo, e misericordiosa no sentido de ajudar o criminoso a se regenerar e trabalhar por sua reinserção na sociedade. Como
conseguir isso na prática? Que alguém mais competente que eu nessas questões apresente suas opiniões e sugestões.
2.O conceito de karma, para ser utilizado hoje, precisa ser desmitologizado, isto é, aliviado do peso inútil de seu "entulho mitológico". Karma significa, basicamente, o conjunto das ações, palavras e pensamentos humanos mais suas consequências. Em termos modernos, isso seria historicidade. O homem é ao mesmo tempo produto de uma história e agente a colaborar na construção da mesma. A historicidade nos mostra que todos somos, de alguma forma, corresponsáveis (ainda que não necessáriamente culpados) por todo o
mal que ocorre na sociedade. Propor algo como a supressão das penas em nome do karma seria como tentar fugir ao dever de participar na obra coletiva de construção do devir histórico. É exatamente punindo os criminosos que se participa da obra do karma, e não fugindo a esse dever.
3.Foi lembrado, com muita propriedade, durante a discussão, que, quando, por ocasião de um críme bárbaro, clamamos pelo agravamento das penas, está em ação o sentimento de vingança. O ciclo sinistro das vinganças sucessivas (vendetta) foi a mais antiga lei das sociedades humanas e seus resquícios ainda não desapareceram totalmente... O que é a prática americana de se convidar os familiares da vítima para assistir a execução do criminoso senão uma sobrevivência da vendetta? Entre os samurais do Japão pré-moderno a vendetta, sob a denominação de kataki-uchi, era uma prática institucionalizada e regulamentada. Sobrevivências da vendetta também estão presentes na sharia, a lei islâmica.
A Lei Escrita e as instituições jurídicas surgiram para, entre outras coisas, fazer cessar o ciclo sangrento das vinganças sucessivas, ficando a tarefa de punir os crimes a cargo de uma instância superior a agressores e
agredidos. O antropólogo Pierre Clastres mostra-nos como, em casos extremos, o ciclo de vinganças pode se exacerbar a tal ponto que culmina pela destruição do grupo social.
4.No Budismo é pregado um caminho para a superação da vendetta:
Porque neste mundo, ódios jamais cessam pelo ódio,
Mas eles só cessam pelo não-ódio;
Isto é um antigo princípio natural. (Dhammapada I, 5.)

.........
Gasshô,
Shaku Riman"

Prof . Ricardo Mario Gonçalves" (2004)

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Corpo, repetições e o manto


Pergunta – O sofrimento físico, não digo nem apenas somente a dor nas pernas, mas uma doença grave, uma ferida aberta, isso compromete este estado de lucidez e concentração?

Monge Genshô - Com certeza. Mente e corpo estão ligados. Se você está doente, a doença atrapalha você. Não adianta dizer que não é verdade, se você não cuidar do seu corpo, um dia ele começa a atrapalhar. Esses dias eu cheguei na minha casa e disse à minha esposa: “está na hora d´eu mudar de corpo porque esse aqui, já era, está com esclerose em articulação, artrose, etc, começa a dar problema”.

Então, o corpo é um instrumento muito necessário, uma âncora que segura você aqui, e permite fazer uma determinada prática. Se você perde o corpo, muitas portas de acesso ao universo são fechadas, o olhar, os ouvidos, nós usamos o corpo muito, ele não é nem um pouco desprezível. Então quando nós dizemos “mente”, mente e corpo são uma coisa só. Por isso, cuide do seu corpo, e cuide da oportunidade que você tem agora, há uma oração no fim do dia nos mosteiros Zen, que diz assim: “praticantes eu lhes peço encarecidamente, não percam tempo, porque o tempo rapidamente transcorre e a oportunidade se perde”.

Vocês têm a oportunidade de praticar e despertar. A outra forma é: continuem iludidos. Morram iludidos, nasçam iludidos e repitam tudo de novo. Esse na realidade é que é o verdadeiro castigo, ficar preso aqui, repetindo tudo de novo. Já pensaram? Vou morrer, aí eu nasço, não sei quem sou, mamãe me dá um nome, me manda para o colégio, eu tenho que aprender tudo de novo, aí tem colegas mais fortes para me dar cascudos,  tudo de novo!  Começar ignorante, tudo de novo. Isso é o verdadeiro castigo, porque a única coisa com que você conta quando nasce, que você pode levar, é seu carma.

Então você tem que ter um carma que direcione você para coisas melhores e certas, senão você vai ser direcionado para as coisas piores. É uma péssima idéia, por exemplo, morrer de overdose.  Nascer de novo com vontade de se drogar? Uma péssima idéia morrer com raiva, já nascer num mundo de ódios. É uma boa idéia morrer com os pensamentos mais belos, e a vontade de se manifestar num mundo belo, num lugar com pessoas de bons sentimentos.

Nós dizemos que a prática tem imenso poder. Nós dizemos que o manto budista tem grande poder. Há uma história de uns ladrões que roubaram o manto de um monge, e levaram para um cabaré, deram para uma prostituta e disseram, “te veste de monja e faz um strip tease em cima das mesas”. E sob os assobios e palmas dos homens ela fez o strip tease com o manto do monge. E por causa disso, ela renasceu em uma família budista e recebeu excelentes ensinamentos e tornou-se uma monja. Pois é. Tal o poder do manto. Como a história budista é surpreendente não é? Todo mundo fica esperando um castigo, e não tem. Portanto, é grande bênção ter esse contato.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Ria de seus erros


Aluno –  O senhor poderia falar um pouco mais sobre o caminho do meio?

Monge Genshô –  O caminho do meio, é o caminho budista. Isto é caracterizado por uma célebre história de Buda, uma metáfora. Você tem uma cítara, um instrumento musical. Se você aperta demais a corda, ela não toca, pode arrebentar. Se você aperta de menos, você não consegue som. Então deve afiná-la no tom justo e para afinar um instrumento no tom justo, existe um meio. Os instrumentos musicais são afinados com a nota “lá”. Quando uma orquestra vai tocar, o primeiro violino, o spalla, toca o “lá” para toda orquestra. Ela é afinada ali, naquele momento. Por que os instrumentos não vêm afinados lá de trás? Porque ali temos outra temperatura e os instrumentos com pequenas variações de temperatura mudam sua afinação. Então o spalla dá o “lá”, e todos afinam. E esta é uma nota média. A partir do caminho do meio nós podemos produzir música. Quando nós exageramos para qualquer lado, nós não conseguimos.

Mas isto é muito típico na prática espiritual. Se você tentar ser um santo perfeito, não cometer nenhum erro, não ter nenhum pensamento errado, não dizer nenhuma palavra errada e punir-se cada vez que você comete um erro, você não fará mais que viver em culpas, tentando ser um santo. No Zen nós dizemos que não queremos santos. Nós queremos pessoas despertas e pessoas despertas riem dos seus erros. Eles não querem ser santos, sabem que cometem erros, sempre. Do outro lado, algumas pessoas imaginam: o budismo não tem pecado, não tem mandamentos, nem um Deus para nos castigar, não existe um inferno nos esperando nem um céu para nos premiar, então tudo é permitido e poderei fazer o que EU quero.

Este é um grande erro, porque Buda disse: para evitar o sofrimento você precisa seguir tais caminhos, e ensinou o Caminho Óctuplo. E este caminho é composto de muitas regras morais e virtuosas. Regras para falar, para pensar, para agir, trabalhos para viver, o que é bom e o que não é. Buda não escapa do certo e errado no Caminho Óctuplo. Você não pode ficar com algo que não lhe é dado espontaneamente, ou seja, você não pode roubar. Se você roubar, isto será um caminho para grande sofrimento. Existe certo e errado, bem como regras. Então o Caminho do Meio é um caminho de moderação, nem o exagero do ascetismo, da tentativa de ser um santo, nem o caminho da licenciosidade, onde tudo é permitido e corremos atrás de prazeres. Isto é o Caminho do Meio.