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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O Sesshin

Pergunta: O que é um retiro zen, um sesshin?
Monge Genshô: É uma crise artificial. Cria-se uma situação tal que o mundo lá fora passa a parecer um sonho, nada existe senão aquela dor de ficar imóvel, de não ter estímulos e ter de olhar apenas suas próprias memórias, suas fantasias, até que se esgotem, cansadas e caiam junto ao rodapé da parede que olhamos.
Sesshin quer dizer 'limpeza', limpeza da mente. Uma mente saneada de tudo pode, enfim, ver o mundo sem o filtro de opiniões e ideias. Um sesshin não deve ser fácil. Pelo contrário, tem que ser difícil, como um mergulho na morte, um abandono da vida, para que possamos retornar a ela com os olhos de uma criança sem condicionamentos, inocente e maravilhada.
Buscamos trocar os nossos olhos cheios de traves pelos olhos límpidos de Buda. É a criação da condição que pode nos levar à iluminação. Atentos a tudo, sem música, sem livros, sem palavras, apenas ouvindo o Dharma e meditando, movendo o corpo em trabalho minucioso, uma benção mexer uma panela no fogo! Uma delícia comer devagar. Tudo vai ficando lindo à medida que a mente assenta em sua natureza original.
Após o sesshin, parecemos loucos, encantados com um mero pingo de água em uma folha. Palavras agressivas parecem chuva na primavera, é como se escorressem por nós sem deixar traço, não nos alteramos facilmente. Com o correr dos dias, retornamos às nossas reações normais, mas não totalmente: um pedaço de nossa casca foi retirada.
Com a repetição, nosso rosto se altera. Após um sesshin, ouvi um homem dizer: "Agora sei por que ele (o Mestre) é assim"... Ele havia levantado uma ponta do véu.


terça-feira, 23 de abril de 2013

A vida é como é



Pergunta – Como um psicólogo pode lidar com o que é levado até ele?

Monge Genshô – Bom, o psicólogo tem suas próprias técnicas. Ele trabalha num outro âmbito. Ele trabalha com “eus”, com a relação de um indivíduo com o mundo, tenta construir um ego estruturado que possa se relacionar bem no mundo. Mas não é assim que o zen trabalha. O objetivo de um mestre zen é na verdade destruir. É tirar o tapete de baixo do eu. Deixa-lo solto, sem nada onde se agarrar. É um processo completamente diverso e não é para ser aplicado para qualquer um, somente para aqueles que queiram se libertar, para uma pessoa que já apresente algum tipo de problema pode ser perigoso.

Então a prática do zen é uma prática para pessoas que estejam razoavelmente equilibradas, pois serão apresentadas à uma crise onde você não tem suporte. De repente você perde os deuses aos quais os homens sempre se agarraram. Se você tentar se apoiar no seu professor, ele não o apoiará, ele o apresentará à uma crise ainda mais aguda, colocando você em problemas mais difíceis, ou mesmo fazendo perguntas que você tem muitas dificuldades em responder.

Esses dias um homem me escreveu perguntando sobre a ordem subjacente do universo. Porque a matéria se organizava de maneira a fazer vidas, “eus” e coisas assim, um mundo como o nosso perdido dentro de uma imensa galáxia, que é apenas uma dentro de bilhões de galáxias, parece tudo sem sentido, ele queria uma ordem subjacente, e eu lhe perguntei, “uma ordem criada por quem, com qual objetivo?” Na verdade ele não vai encontrar o sentido ou objetivo, porque afinal esse próprio universo irá se dissolver com o tempo em entropia, as estrelas se apagarão, a matéria irá se desorganizando, a energia vai se espalhando de formas não aproveitáveis de modo que um dia esse universo se apagará, e você quer um sentido? Uma resposta zen é, “a vida é como ela é e as coisas são como são”.