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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Esquecer-se de Si Mesmo




A iluminação é possível agora, e nela não há nenhuma sensação de sofrimento. Contudo, enquanto você ambicionar continuidades, haverá angústia e sofrimento, haverá ambições, coisas que você quer agregar a si mesmo. Isso acontece até para os santos. Os santos são uma maravilhosa tradição espiritual, tão perdida às vezes, porque só olhamos as crenças e não vemos a grande tradição por trás, porque não lemos sobre ela, mas existe uma grande e profunda tradição. Mas mesmo assim, essa tradição tem como seu mais alto objetivo a formação de um indivíduo que é santo, que é puro, que deixou Deus se manifestar dentro dele, que abdicou de si mesmo para ser ele mesmo o habitáculo divino. Nesta imagem ainda restou individualidade, então o santo sofre, pois deseja sua pureza para ser o habitáculo correto da divindade. Ele obtém um grau de espiritualidade muito alto, sem dúvida, mas esse não é o objetivo do Zen. O Zen não quer fazer santos, não quer fazer pessoas que lutam constantemente para esmagar a si mesmos e suas paixões, seus desejos, que veem a continuidade da existência como indivíduo, ainda separado, como um objetivo. Só aquele que esqueceu de si mesmo e tornou-se ele próprio uno com a divindade fica próximo do objetivo do Zen.

[Trecho extraído de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

segunda-feira, 16 de março de 2015

Para onde a pedra quer ir?



Aluno – O senhor falou de coisas contraditórias, primeiro falou que o desejo e a ambição fazem com que a pessoa perca o presente ou fique infeliz, e agora está falando que objetivo é algo de grande valia.

Monge Genshô –  O caminho se mostra a cada passo. De repente surge a oportunidade, pegue a oportunidade. Surge outra oportunidade, 'oh, outra oportunidade'. O objetivo prende a mente. Ah, eu vou nessa direção. Não. Eu estou indo nesse direção, mas se não der certo eu vou para cá. Compreende? Eu vou para o norte, mas se tiver uma pedra no caminho eu não vou ficar parado na pedra, batendo na pedra...., eu tenho que contornar a pedra. Por isso nós dizemos que a água é uma grande lição para o praticante do zen, porque a água sempre consegue chegar, sempre. Se tem um obstáculo, ela se acumula e sobe, ou contorna, ela sempre vai e sempre consegue seus objetivos. A água tem a virtude de, se a colocarmos dentro de um copo, ela toma a forma do copo. Qualquer copo. Mas quando a água se transforma em gelo, aí é uma pedra, e se a gente tentar colocar dentro do copo aí não entra, e se a gente tentar martelar quebra o copo. Esse é o problema do gelo, a sua rigidez, ele pensa 'eu sou assim, e quem quiser gostar de mim terá que ser assim'. Esse é o gelo, ele pensa que é assim, ele tem ideias fixas, e por isso ele é cristalizado e não cabe em qualquer recipiente. A água não. E nós então sabemos, nosso objetivo é o mar, mas pra chegar lá nós podemos dar todas as voltas que o terreno nos pedir, sem reclamar. Aí chegaremos lá.

Aluno – Mas o desejo e a ambição, então, podem ser uma coisa boa, ou ele prejudica o potencial da pessoa?

Monge Genshô – O desejo e a ambição vão atrapalhar. Um objetivo para o qual estamos olhando pode nos ajudar a ir numa determinada direção. Mas a fixidez naquela direção, naquele objetivo, vai nos atrapalhar. Então, exatamente o que acabei de falar sobre a imagem da água: vai chegar no mar, mas vamos contornar os obstáculos e vamos pelos caminhos de menor resistência. É persistência, paciência, aguardamos. Aí nós conseguimos fazer grandes coisas. No taoísmo há um ensinamento chamado wu wei , significa que quando as condições estão prontas e maduras fica fácil de fazer as coisas, mas se você forçar quando não está pronto e maduro, você não vai conseguir. Shunryu Suzuki agiu assim:  uma vez estavam fazendo na Califórnia um jardim num mosteiro, e os alunos do zen estavam lá empurrando uma pedra e fazendo uma força danada, e ele observando aquilo foi até eles e disse 'não é assim, vocês têm que olhar para a pedra e perguntar, nós queremos levar a pedra para lá, que é nosso objetivo, mas para onde a pedra quer ir?'. Ah, ela quer ir para cá, depois para lá, depois para cá... para onde a pedra quer ir? E aí, empurrando a pedra para onde a pedra queria ir eles colocaram a pedra com muito menos esforço no local onde eles desejavam chegar. Entenderam? Boa noite.   (Palestra decupada por Shoshin San )

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Apenas um passo de cada vez



Pergunta – O senhor falou sobre o Dharma e confesso que ainda não encontrei verdadeiramente esse caminho. De onde tirar forças para não perder a esperança?

Monge Genshô – Não se preocupe em ter forças seja para alcançar algo ou para continuar no caminho. O melhor é não ter objetivos. Agora temos duas monjas indo para o Japão para um período de treinamentos e eu sei que é difícil se manter estimulado a continuar. No monastério não se tem privacidade, a agenda nunca cessa, os horários são rígidos, a comida é estranha para nós, o sono é pouco, falar é restrito e  isto continua por meses.
 O segredo é não pensar no dia de amanhã e viver só por hoje, pensar, “Só hoje, até o fim do dia, irei tentar ficar”. Se acontecer um erro, não há problema, errar é normal, não devo exigir demais de mim e muito menos ter grandes esperanças. Apenas aceite o momento. Para andar na vida, não pense em ser forte, apenas dê um passo de cada vez. É como quando estamos em retiro e começamos uma sessão de Zazen. Se ficarmos pensando em todos os Zazen que teremos pela frente, que em geral são doze em um dia de retiro, nossa mente pode não suportar. Devemos pensar, “Vou ficar sentado até tocar o sino e terminar esse Zazen”.  Quando você faz assim, rapidamente chega o final do retiro e a sensação muda, você quer que continue, não deseja mais ir embora. Não se preocupe em ter forças, apenas dê um passo de cada vez.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Dê um passo de cada vez



Pergunta – O senhor falou sobre o Dharma e confesso que ainda não encontrei verdadeiramente esse caminho. De onde tirar forças para não perder a esperança?

Monge Genshô – Não se preocupe em ter forças seja para alcançar algo ou para continuar no caminho. O melhor é não ter objetivos. Agora temos duas pessoas indo para o Japão para um período de treinamentos e eu sei que é difícil se manter estimulado a continuar. O segredo é não pensar no dia de amanhã e viver só por hoje, pensar, “Só hoje até o fim do dia irei tentar ficar”. Se acontecer um erro, não há problema, errar é normal, não devo exigir demais de mim e muito menos ter grandes esperanças. Apenas aceite o momento. Para andar na vida, não pense em ser forte, apenas dê um passo de cada vez. É como quando estamos em retiro e começamos uma sessão de Zazen. Se ficarmos pensando em todos os Zazen que teremos pela frente, que em geral são doze em um dia de retiro, nossa mente pode não suportar. Devemos pensar, “Vou ficar sentado até tocar o sino e terminar esse Zazen”.  Quando você faz assim, rapidamente chega o final do retiro e a sensação muda, você quer que continue, não deseja mais ir embora. Não se preocupe em ter forças, apenas dê um passo de cada vez.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Se você tem uma ambição não conseguirá



Pergunta – Esses sutras ou mantras recitados na cerimonia têm algum significado em português?

Monge Genshô – O mantra mais longo que recitamos é o Dai Shin Darani e os Darani não têm significado textual embora seus ideogramas possa ser traduzidos e você tenha uma espécie de poema. Depois de milênios repetindo o mesmo som é como se ganhassem força, mas na realidade isso acontece na nossa linguagem do dia a dia. As pessoas começam a repetir muito uma palavra e ela ganha um significado, por exemplo, amor, e, de tanto repetir uma palavra ela ganha um poder.

Com um insulto acontece o mesmo, de tanto ser repetida a palavra ganha tamanho significado que quando você usa para uma pessoa, ela se sente ofendida e reage. Os mantras através de sua longa história de repetições têm essa capacidade também. No Zen os mantras são incorporações de outras escolas, como a Escola Tendai e Shingon onde a prática do mantra é importante para criar uma condição pessoal, mas esse não é foco do Zen. Na Escola Terra Pura por exemplo, não fazem meditação sentada e sua prática central é a recitação de “Namu Amida Butsu”, que significa “Salve o Budha Amida”, é uma forma de meditação com outra técnica.

Como falei, isso não existe no Zen, onde a prática principal é a meditação sentada. Vocês podem observar que o Zen não é fácil, pois o objetivo do zazen é controlar a mente que é extremamente rebelde, se parece com um macaco bêbado pulando de galho em galho e, trazer a mente para o momento presente e suportar a imobilidade física,  que é uma exigência bem difícil. O Zen é a escola do esforço próprio, assim como fez Buda, que se esforçou sozinho para atingir o despertar e esse esforço é o centro da prática. O Zen é muito regrado e exige muita disciplina para praticar. Em algumas escolas acredita-se que o homem não possui condições para se iluminar e deve, portanto, orar para renascer numa terra pura onde aí sim poderá alcançar a iluminação, mas no Zen acreditamos em nós mesmos e na nossa capacidade de iluminação, pois somos iguais à Buda - homens, e se ele fez algo, também podemos fazer, uma outra forma de pensar, embora quando você se dá conta de que a ambição de alcançar algo é um obstáculo importante começa a entender o sentido da prática de pura entrega sem objetivos de outras formas de praticar o budismo. 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O problema de Shakyamuni



Palestra Centro de Yoga (Palmas - Tocantins - Decupado da gravação por Sonielson San)

Buda atingiu o seu despertar através da prática da meditação. Ele teve dois grandes mestres iogues – Brahmaputra e Alarakalama –, com quem praticou até determinados níveis de profundidade. Ainda assim, ele não se sentia satisfeito com a solução do seu problema fundamental, o problema que o havia levado até a floresta e que o fez abandonar a família, o seu principado, a riqueza e o palácio. Buda passou a procurar a solução para a sua angústia, qual seja, - “eu estou aqui, tudo vai terminar em velhice, doença e morte, inevitavelmente”. Qual é o sentido de tudo isso? “Para quê?”, perguntou o Tathagata.  Por que estamos aqui nos sentido como corpos, vivendo junto com outras pessoas? Temos pernas, braços, cabeças, como qualquer outro primata, como qualquer outro macaco... temos que comer, que ir ao banheiro, temos pele e ossos, e vemos que todas as pessoas envelhecem, sofrem de doenças e, no fim, morrem. Vemos isso... Então, qual é o sentido disto tudo? Quem sou eu realmente? Esta foi a pergunta que Buda fez. Quem é esse que dentro de mim diz “eu sou”?
Buda sentou-se embaixo da árvore Bodhi e disse que não se levantaria de lá enquanto não resolvesse este problema. E isso não aconteceu do dia pra noite. Como eu já havia falado, ele tinha praticado por seis anos com mestres iogues sem, contudo, conseguir solucionar os seus problemas, embora os mestres o apreciassem tanto que queriam fazer dele um sucessor. Shakyamuni, então, sentado embaixo da árvore Bodhi, na madrugada do oitavo dia, após sete dias de meditação, sem se levantar, viu nascer a estrela da manhã e, naquele momento, ele entendeu, despertou dos sonhos e das ilusões. Quando ele desperta, imediatamente diz: - “Oh, que maravilha!!! Eu, todos os seres e a grande Terra, simultaneamente neste momento, alcançamos a iluminação. É então que Shakyamuni passa a ser chamado, então, de Buda, “aquele que acordou”. Neste momento, ele tinha 34 anos, e ensinou até a sua morte, aos 84 anos.

Nós somos herdeiros desta tradição do despertar. O único sentido verdadeiro do praticante zen budista é o despertar. É frequente, nas entrevistas, palestras e conversas, as pessoas associarem o zen com aspectos que se resumem a acalmar a mente e obter serenidade. Mas isso, para um zen budista, é apenas subproduto da prática. É como dizer a alguém que é praticante de ioga que ele irá utilizar a técnica apenas para adquirir flexibilidade. Isso é um uso da prática apenas pelo seu subproduto. É claro que o subproduto natural da meditação é a serenidade, mas esta serenidade não é o objetivo da meditação. Trata-se de um “efeito colateral” inicial, pequeno e normal. E, inclusive, não é necessário ser budista para obter serenidade através da prática do zazen.  (continua)

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

"Zazen não serve para nada"

Kesa monástico, quadro de Eduardo Salinas


Pergunta: Porque usamos esse termo “meditação” quando o objetivo não é meditar?

Monge Genshô:  É, a palavra em português não reflete bem. É melhor nós dizermos “fazer zazen”, porque quando você diz meditar, parece meditar “sobre” alguma coisa, porque o verbo é transitivo direto, e não é isso que nós fazemos, nós fazemos zazen. Zazen é sem objetivo, também.

Shunryu Suzuki, perguntado sobre “para que serve o zazen”, respondeu: “Para nada”. Aí, algum aluno, esses dias, me perguntou: “Mas por que Shunryu Suzuki disse que o zazen não serve para nada? Porque nós fazemos zazen?” Eu disse: “porque ele também poderia ter respondido, e estaria certo, “zazen serve para tudo”. As duas respostas estão certas.

Zazen serve pra quê? Para nada. Se você quer obter alguma coisa com o zazen está errado. Isso já não é mais zazen. Agora, zazen serve pra tudo? Também serve para tudo, porque você poderia empregar a mente que você treina no zazen para tudo. Mas se você sentar em zazen, pensando “estou treinando para usar em tal atividade”, então não é mais zazen. É uma forma de treinamento mental. Porque tem uma ambição, um objetivo, uma mente aquisitiva, em que você pretende ser melhor que os outros, isso tudo perturba o zazen. Por isso, Shunryu Suzuki respondeu: “Zazen não serve pra nada”.

Pergunta: Monge Genshô, e o termo shikantaza, apenas sentar?

Monge Genshô: É, ele quer dizer isso, shikantaza – apenas sentar. Não tem nada mais do que isso. O que você está fazendo com o zazen? Estou sentado. É como, também, aquele mestre que perguntou para o aluno, que estava sentado: “O que você está fazendo”?  E ele disse: “Eu observo minha mente”. E o mestre perguntou: “Qual mente observa e qual mente é observada”? E, com isso, o aluno pôde experimentar um despertar. Qual mente observa? Qual mente é observada? Nós não sentamos para observar nada, porque quando você senta para observar, tem sempre um observador e um objeto observado. Então, a separação está presente, o mundo está dividido. Eu estou aqui e o objeto observado está lá. Eu observo uma coisa.  Quando você começa a contar, por exemplo, 1, 2, 3... , você está observando a contagem. Então, você usou uma âncora para parar de viajar, de pensar. É interessante. Pode conduzir a uma boa concentração. É uma técnica viável, mas não é shikantaza. Não é zazen.  Na verdade, é aritmética (risos).

 Isso é bem importante, porque em muitos lugares se ensina meditação de observação. Essa meditação de observação cinde o mundo, cria dualidade, pode ser preparatória para o zazen.  Porque eu estou aqui, não há um abandono do eu. Nós estamos sentados, sentamos em zazen para nada. Volte pra cá, para o momento presente. Nem passado, nem futuro. Não cogite, não julgue, não fique elaborando, porque essas todas são as funções do eu. O eu é que faz isso.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Dor na meditação


1) O que eu vivi hoje foi uma dificuldade muito grande em razão da dor. Gostaria de uma instrução de como lidar com a dor durante o zazen.

Monge Genshô – Você sempre pode trocar de posição. Se ainda assim continuar doendo, pegue uma cadeira. Você tem a opção de escapar da dor, mas por outro lado o sofrimento é bom. O caminho mais curto para a realização espiritual é o sofrimento físico e emocional. As pessoas que não sofrem têm grandes dificuldades. Havia uma pessoa que tinha todas as facilidades, havia nascido numa família sem dificuldades financeiras, era inteligente, boa saúde, bonito e o seu mestre lhe disse, “Eu oro para que a vida lhe traga muita dificuldade”. O que ele temia é que com tantas facilidades na vida o jovem ficasse cada vez mais orgulhoso e vaidoso. O sofrimento nos tira de nosso “eu”, pois nos desestrutura e desestabiliza. Essa é a situação para a realização espiritual. Em geral a maior dificuldade dos alunos e Monges Budistas é o ego e a vaidade. É possível perceber claramente o desejo de reconhecimento e prestígio.

O objetivo dos treinos em um mosteiro é quebrar esse ego, as pessoas dormem no chão, comem a mesma comida, vestem o mesmo tipo de roupa, não são permitidos uso de jóias ou perfumes, a comunicação é restrita para evitar que alguém se destaque, algo bem próximo do que temos no nosso sesshin. O sofrimento tem a virtude de demolir o ego e é uma grande oportunidade de descobrir nossa verdadeira natureza, algo que está além das lantejoulas do ego. Aproveite o sofrimento, mas se ele for tanto que você não consiga pensar em mais nada, ele está perdendo seu objetivo, mude de posição ou pegue uma cadeira. A vergonha que você sente por se mexer e incomodar o colega ao seu lado é bem vinda, desistir de ser bom, de sentar perfeitamente, de ser bom praticante é muito bom, reconheçam, vocês não são bons praticantes. Quem pensa que é bom e pode ensinar, está no caminho errado. Saikawa Roshi disse que o melhor sentimento de um praticante é: “Eu sou um tolo”.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O fluxo é para a frente



Por que que você gira no sentido horário na sala de meditação? Porque o tempo não anda para trás. Tudo que você faz, fica. Então gire sempre no sentido horário para se levantar, não há como retornar, relembre. O fluxo é pra frente.

Por que você entra com o pé esquerdo na sala de meditação? Porque você entra com sua intuição. Este é o espaço da intuição.

Por que você sai do zendô com o pé direito? Porque sai desse espaço subjetivo e agora é o mundo objetivo, onde tenho que trabalhar com meu “eu”, tenho que agir, que trabalhar, que ganhar dinheiro, pagar as contas, etc. Este é o mundo racional, com o pé direito.

Lá é lugar de treinar uma coisa. Aqui fora é lugar de viver outra.

terça-feira, 23 de abril de 2013

A vida é como é



Pergunta – Como um psicólogo pode lidar com o que é levado até ele?

Monge Genshô – Bom, o psicólogo tem suas próprias técnicas. Ele trabalha num outro âmbito. Ele trabalha com “eus”, com a relação de um indivíduo com o mundo, tenta construir um ego estruturado que possa se relacionar bem no mundo. Mas não é assim que o zen trabalha. O objetivo de um mestre zen é na verdade destruir. É tirar o tapete de baixo do eu. Deixa-lo solto, sem nada onde se agarrar. É um processo completamente diverso e não é para ser aplicado para qualquer um, somente para aqueles que queiram se libertar, para uma pessoa que já apresente algum tipo de problema pode ser perigoso.

Então a prática do zen é uma prática para pessoas que estejam razoavelmente equilibradas, pois serão apresentadas à uma crise onde você não tem suporte. De repente você perde os deuses aos quais os homens sempre se agarraram. Se você tentar se apoiar no seu professor, ele não o apoiará, ele o apresentará à uma crise ainda mais aguda, colocando você em problemas mais difíceis, ou mesmo fazendo perguntas que você tem muitas dificuldades em responder.

Esses dias um homem me escreveu perguntando sobre a ordem subjacente do universo. Porque a matéria se organizava de maneira a fazer vidas, “eus” e coisas assim, um mundo como o nosso perdido dentro de uma imensa galáxia, que é apenas uma dentro de bilhões de galáxias, parece tudo sem sentido, ele queria uma ordem subjacente, e eu lhe perguntei, “uma ordem criada por quem, com qual objetivo?” Na verdade ele não vai encontrar o sentido ou objetivo, porque afinal esse próprio universo irá se dissolver com o tempo em entropia, as estrelas se apagarão, a matéria irá se desorganizando, a energia vai se espalhando de formas não aproveitáveis de modo que um dia esse universo se apagará, e você quer um sentido? Uma resposta zen é, “a vida é como ela é e as coisas são como são”.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Não acalente um objetivo



Pergunta - Mas ao sentar para meditar, a gente senta sem um objetivo de responder à essas perguntas, a própria pratica  vai trazer essas respostas,. Eu não pratico tanto quanto deveria, e percebo que a gente senta e permanece a mesma coisa, os pensamentos vem e passam, alguns momentos parece que não pensa nada daí vem aquela coisa – Óh, consegui não pensar em nada – e aí pronto, já voltou tudo, mas é isso mesmo, é isso que vai acontecendo? O que eu percebi com o tempo, é que antes eu sentava e ficava agitada, louca que terminasse logo, agora eu sento e sinto já até um certo prazer, um pensamento de que é bom. Eu sinto que o grupo é muito importante, em casa parece que é uma mentira as vezes...É isso mesmo, é assim mesmo?

Monge Genshô – Está certo. Porem eu diria que sentar tentando não pensar em nada é tentar alcançar algo não real, afinal estar consciente do momento presente é uma forma de pensamento, porem sem elaborações. De modo que o praticante do Zen em seus estágios iniciais  deve sentar apenas tentando não seguir os pensamentos, deixar que os pensamentos passem, e há momentos em que tudo ficou tranqüilo simplesmente porque ficou tranqüilo, mas para não festejar isso é necessário não ter esse objetivo. Então como apontei no inicio, o erro aí é o objetivo. Por isso essa técnica de sentar no Soto Zen é chamada da Shikantaza – apenas sentar – não acalente um objetivo, não tente alcançar nada, isso é bastante importante. Se você medita, insights surgem. Mas esses entendimentos, também não podem ser o objetivo, eles surgem naturalmente, coisas que nós não entendíamos e passamos a entender. 

Quando a gente vê os praticantes é fácil perceber como são os alunos, é fácil entender o que está acontecendo com o treinamento deles pela maneira como eles perguntam. Primeiro querem manifestar opiniões, depois fazem perguntas mais difíceis, depois não fazem mais perguntas, quando deixam de fazer perguntas a gente sabe que o aluno passou um determinado ponto. É como se as questões tivessem se dissolvido. Quando ele chega na frente do professor, mesmo que ele pense – Acho que vou perguntar isso –  ele pensa – Não, não é preciso – ele sente que não tem sentido fazer a pergunta, então essa já é uma outra fase. Mas é lógico que isso não pode ser fingido, então quem sente necessidade de fazer perguntas, faz perguntas, e o professor responde. É necessário esse contato, mas sem a prática não acontece nada. 

 É necessário ter esforço, mas esforçar-se também não leva a nada. Se a gente pratica começa a entender, se eu me esforço não funciona, se eu não me esforçar não vou a lugar nenhum. Quando a gente começa a sentir prazer em ficar sentado já foi um grande progresso. Porque o pior estado é o daquela pessoa que não consegue parar, um estado muito agitado, muito turbulento. Na realidade  um mundo infernal.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O sofrimento é um atalho



Não podemos minimizar o efeito de uma boa meditação de quarenta minutos, que é tempo que um praticante mais maduro deve fazer. Então essa prática para a vida diária vai mudando essas questões do que alcançar. Sentir que não alcançou nada também já é muito bom. Porque um dos grandes problemas de quem começa a praticar é pensar que atingiu algo, ele senta-se e pensa – Ah, eu adquiri serenidade – ou – Que bom, eu pratico meditação e sou mais sereno, sou mais “zen” – como se diz na gíria. Há até quem se ache iluminado.  Mas isso não tem nada a ver com o zen. Sentar-se e adquirir serenidade é uma prática que poder ser feita de muitas formas e não precisa, em absoluto, ter um objetivo espiritual. A serenidade é apenas um subproduto do sentar-se quieto em meditação, nada mais que isso. É como muita prática de ioga que se faz hoje em dia e transforma-se em ginástica simplesmente, mas que não tem objetivos espirituais, é mera busca de poder e prazer, a ioga com objetivos espirituais é outra coisa.

Então o primeiro que os alunos fazem quando se apresentam é sentar para meditar. Se você não ficar sentado quieto quarenta minutos não vai ouvir nenhum ensinamento, e se não voltar não tem problemas, porque o Zen não é para curiosos nem para pessoas que esperam resultados instantâneos ou uma panacéia, o Zen é para pessoas com a cabeça em chamas. Então tem que haver angústia, porque só a angústia existencial mobilizou Buda para prática, porque estava angustiado largou mulher, filho e foi para o meio da floresta e treinou, só por isso. Então é necessária a angústia, a inquietude e o desejo de se libertar. Por isso esse sofrimento é um atalho para a realização espiritual. E um corpo humano é a grande oportunidade, porque os homens tem as duas coisas, prazeres e dores.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A mais alta ambição


Pergunta - Existe alguma linha na psicologia que possa ajudar nesse caminho?
Monge Gensho – A psicologia não tem essa abordagem. No geral, a psicologia tenta adaptar o homem ao mundo, ela não é tão ambiciosa. Não tenho conhecimento de uma linha psicológica que preconize a iluminação ou o abandono do eu. Muitas vezes tenta-se um eu mais estruturado, uma personalidade mais sólida. Algumas linhas da psicologia - me lembro da Gestalt - têm influência forte do zen, porque seu fundador praticou em um mosteiro zen. Em geral, quando uma pessoa não está bem equilibrada, é bom que faça terapia. A prática do zen não é para curar perturbações. Geralmente é melhor sentar em zazen quem já está razoavelmente bem equilibrado. Porque sentar em zazen é solitário, e alguns problemas podem crescer. A abordagem é completamente diversa da abordagem da psicologia. A psicologia pode ser um valioso auxiliar, mas a ambição da prática budista é muito mais alta. Não se trata de ser equilibrado, trata-se de ser realizado espiritualmente, muito feliz e com grande capacidade de superar problemas, dos mais difíceis, sem se deixar abalar. O que, convenhamos, pode ser bastante difícil no nosso mundo.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Sem objetivo



Nós não sentamos em zazen para nos iluminar. Não fazemos isto e nem viemos ao sesshin para obter a iluminação. Todos já são iluminados intrinsecamente nós sentamos sem objetivos. Só sentamos. Sentamos lá e ficamos quietos com a mente panorâmica que percebe todas as coisas, só escutamos as cigarras cantarem, o vento passar, o riacho. Se você apenas ficar percebendo isto, se em algum momento você for o riacho, fizer o ruído do riacho, você entrar lá, então esse é o momento.
          Há uma resposta de um mestre Zen numa situação muito semelhante.Um discípulo perguntou: Onde é a entrada?O mestre perguntou: você ouve o ruído do riacho? Sim, respondeu o discípulo. É ali, disse o mestre. Essa resposta é a mesma para nós: a entrada é ali. Mas enquanto você ouvir ele fora de você, você não entrou, não passou a entrada. Mas não pense em entrar. Só sente e ouça. Se sua mente se cala você pode entrar. Enquanto sua mente estiver falando: eu sou fulano, eu estou aqui sentada, eu estou cansada, meu joelho dói, enquanto você estiver pensando eu, eu, eu...você não pode entrar porque o passaporte para entrar nessa entrada é não ter passaporte, enquanto você tiver passaporte, impressão digital, retrato, nome, não pode entrar.(Comentário de Monge Genshô)
 Os comentários desta palestra foram sobre o texto de:
Taizan Maezumi Roshi. Ensinamentos da Grande Montanha.Tradução de Rita Moreira. São Paulo:Francês, 2005.     

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Quando ninguém está olhando


O treinamento é para isto. O treinamento do oryoki todo codificado, é para levar para as outras coisas. Levar lá para o quarto quando estou dobrando a roupa, quando estou colocando o desodorante na prateleira, quando estou escovando os dentes, quando estou usando papel higiênico. A gente pode ver a qualidade de um sesshin se a gente for nos banheiros e olhar o papel higiênico, porque ele deveria ser dobrado  como quardanapo e não amassado em uma bola, porque senão você desperdiça papel.  Esta é a verdadeira prática do Zen, quando você está sozinho e não tem ninguém olhando.
Não dá para ensinar tudo de uma vez só. Tem que ensinar o básico e depois ir aperfeiçoando os detalhes porque se a gente ensina o oryoki inteirinho ninguém pega. Nós fazemos simplificado. É difícil fazer o nó, os gestos que foram codificados com estilo. É uma coisa muito elegante. Uma arte. Quando você vê alguém que realmente sabe fazer parece uma cerimônia do chá, é a mesma coisa. Todos movimentos codificados e com estilo. O processo é o mesmo: beleza, elegância, plena atenção.
Maezume Roshi está dizendo que nós já chegamos lá naquela margem.Por que ele está dizendo que nós já chegamos na outra margem? Você já alcançou. Você já está lá. Qualquer um que pensar aqui dentro diz assim: eu não cheguei não, estou muito longe disto. Estou aqui com a minha mente discursando,eu não concordo com isto, eu não concordo com aquilo. Eu estou aqui dentro de mim eu estou vendo os outros. Não tem essa de me sentir um com tudo. Eu estou me sentindo separado como que ele diz que eu já cheguei na outra margem? Porque pensamos em chegar na outra margem temos uma ambição e porque temos uma ambição e um objetivo, por isto mesmo não chegamos, porque para chegar na outra margem precisa não querer chegar na outra margem.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Daishinkon


Comentários sobre: Os Três Elementos Essenciais da Prática do Zen por Yasutani Hakunn.

O primeiro dos três elementos essências da prática do Zen é uma fé vigorosa (daishinkon). Isto é mais do que uma simples crença. O ideograma para kon significa raiz e para shin, fé. Assim a frase implica uma fé que é firme e profundamente arraigada, imóvel como uma árvore imensa ou um grande penedo. É uma fé, ainda mais, não maculada pela crença no sobrenatural ou na superstição. (TEXTO) E aqui algo para nós distinguirmos estas palavras, crença e fé. Quando nós acreditamos em algo sobrenatural ou extraordinário ou sem nenhuma evidência, isto é uma crença, a crença muitas vezes é a fé degenerada, então acredita-se em coisas só porque elas foram ditas por uma autoridade ou porque está num texto ou porque fazem parte de um axioma qualquer da nossa religião. Fé no Buddhismo não tem este significado é isto que nós vamos estudar agora. (COMENTÁRIO). O Budhismo tem sido freqüentemente descrito como uma religião ao mesmo tempo racional e de sabedoria. Mas é uma religião, e o que faz dele uma religião é este elemento de fé, sem o qual seria apenas uma filosofia. (TEXTO). Só raciocinaríamos, e muitas vezes dado este aspecto extremamente racional do Buddhismo, de questionamentos, os textos de Budha mesmo, são assim sempre, demonstrativos, argumentativos, mostrando contradições, destruindo crenças, então às vezes o Buddhismo é olhado como uma filosofia e aqui então mestre Yasutani está dizendo não, é uma religião, porque existe um elemento de confiança...

P. Não poderia ser também uma filosofia?

R. Vamos um pouquinho mais adiante...sim, claro, poderíamos dizer que tem construção filosófica, numa definição de Edward Conze o Buddhismo é um pragmatismo dialético de fundo psicológico, então ele está dizendo que ele é prático, pragmático, pretende funcionar, é dialético porque tem este elemento filosófico de discussão, de procura de uma verdade racional e métodos de fundo filosófico, psicológico porque ele pretende usar a mente como alvo, uma espécie de psicologia bastante diferente da psicologia tradicional que nós conhecemos, mas com elementos de contato. Nós podemos ver que os métodos, por exemplo, da psicologia e seus objetivos são diferentes dos objetivos e métodos Buddhistas, por exemplo, no Buddhismo nós não queremos adaptar o homem ao mundo, mas normalmente o objetivo na maioria (não todas é óbvio) das linhas psicológicas é adaptar para que funcione bem no mundo. O Buddhismo não tem este objetivo, por exemplo, uma psicóloga pode trabalhar dentro de uma unidade militar para que os soldados sejam bem adaptados a sua função, e pode tratar, por exemplo, os soldados que sofrem de culpa por terem matado ou de angústia, ou de medo ou qualquer coisa assim e se for bem sucedida na sua tarefa terá sido uma boa psicóloga, o Buddhismo vê este objetivo como limitado, na realidade ele quer um outro homem e esse outro homem, na verdade, se recusaria a ser um agente de morte...

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O Ego que não desaparece


P: Apesar de praticar zazen meu ego continua aí, forte, o que devo fazer para livrar-me de meu egocentrismo?

R: Você quer atingir algo, este é um desejo de seu eu, uma mente aquisitiva e materialista que deseja alcançar alguma coisa, abandone estes objetivos completamente. Quanto mais você quiser algo, mais seu eu estará empenhado nisso.
Desista, mas continue, sem objetivos nem propósitos.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O objetivo final


P: Na prática, quais são os primeiros passos a serem dados para se chegar ao
objetivo final, que é a iluminação?

R: Na prática do zen seria esquecer este objetivo, desenvolver a compaixão por todos os seres, abandonar a si próprio, para isto começamos pela prática da meditação silenciosa tratando de silenciar o eu.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O mestre Zen, Daigaku Rumme

Zen Priest, Daigaku Rumme, disusses Zen and the Zazen practice. from Kevin Mullin on Vimeo.

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O mestre Zen, Daigaku Rumme, descreve o Zen como uma técnica e uma prática. Mestre Rumme, ligado a tradição Soto zen, ensinou no Angô anual de certificação de professores organizado pela SotoShu, treinamento para o qual são selecionados anualmente de 15 a 20 monges do ocidente, fluente também em japonês, trabalhou como tradutor e permaneceu semanas conosco, ele explica sobre a realidade oculta que transcende passado , presente e futuro. Como disse Dōgen Zenji, o mestre que trouxe o zen Soto da China para o Japão no século 13, "Toda pessoa está amplamente tomada pelo Dharma, mas sem prática ele não se manifestará."

A meditação zen é o coração da prática. Mestre Rumme descreve zazen como sentar quietamente sem um objetivo, "sente esquecendo que você está sentado", acrescenta, "não é algo fácil de se fazer." A meta do zazen é "eliminar o senso de separação que percebemos entre nós e o que estamos fazendo ou qualquer objeto que haja em nossa consciência".