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segunda-feira, 18 de junho de 2018

É Possível Mudar



Há uma história de um monge, amigo meu, que foi assaltado e a esposa perdeu o filho na ocasião. Nunca mais tiveram filhos. Depois do acontecimento ele disse: “que bom que eu não tinha uma espada”, porque ele seria um assassino naquela hora, se tivesse esse recurso. Então, numa sociedade como a nossa há um enorme desperdício e pobreza por causa dessa cultura, da falta do agradecimento e do respeito ao outro. 

Esses princípios foram impregnados na cultura japonesa através dos séculos pelo budismo. Os livros mostram que antigamente havia muitos assaltantes nas estradas japonesas, lá era um país cheio de guerras civis, e agora tudo mudou. Portanto, se eles mudaram, nós podemos mudar também, mas para isso precisamos pensar de outra forma, enxergar esses mitos ancestrais que nos prejudicam e colocar outros valores na sociedade.

As crianças são uma grande chave para essa transformação: se nós as ensinarmos, teremos uma geração nova, capaz de pensar diferente. Esses ensinamentos de Buda, essa maneira de ver de Buda, criou sociedades muito pacíficas.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O Sesshin

Pergunta: O que é um retiro zen, um sesshin?
Monge Genshô: É uma crise artificial. Cria-se uma situação tal que o mundo lá fora passa a parecer um sonho, nada existe senão aquela dor de ficar imóvel, de não ter estímulos e ter de olhar apenas suas próprias memórias, suas fantasias, até que se esgotem, cansadas e caiam junto ao rodapé da parede que olhamos.
Sesshin quer dizer 'limpeza', limpeza da mente. Uma mente saneada de tudo pode, enfim, ver o mundo sem o filtro de opiniões e ideias. Um sesshin não deve ser fácil. Pelo contrário, tem que ser difícil, como um mergulho na morte, um abandono da vida, para que possamos retornar a ela com os olhos de uma criança sem condicionamentos, inocente e maravilhada.
Buscamos trocar os nossos olhos cheios de traves pelos olhos límpidos de Buda. É a criação da condição que pode nos levar à iluminação. Atentos a tudo, sem música, sem livros, sem palavras, apenas ouvindo o Dharma e meditando, movendo o corpo em trabalho minucioso, uma benção mexer uma panela no fogo! Uma delícia comer devagar. Tudo vai ficando lindo à medida que a mente assenta em sua natureza original.
Após o sesshin, parecemos loucos, encantados com um mero pingo de água em uma folha. Palavras agressivas parecem chuva na primavera, é como se escorressem por nós sem deixar traço, não nos alteramos facilmente. Com o correr dos dias, retornamos às nossas reações normais, mas não totalmente: um pedaço de nossa casca foi retirada.
Com a repetição, nosso rosto se altera. Após um sesshin, ouvi um homem dizer: "Agora sei por que ele (o Mestre) é assim"... Ele havia levantado uma ponta do véu.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Causalidade, história, carma.


3) O senhor poderia explicar a diferença entre causalidade história e carma?

Monge Genshô – Literalmente carma significa ação, ação intencional que produz efeitos e que retornam para você. A ação não intencional não causa um efeito que você incorpore. Aquilo que você elabora, planeja, age ou fala é que causa retorno. Os outros acontecimentos no mundo são causalidades que ocorrem porque você é um ser humano. Porque você manifestou-se nesse mundo, em um país onde tem terremoto, você está sujeito ao tremor, mas isso não é causado por seu carma. Essa é a diferença entre causalidade e carma.

Acontecem coisas boas ou ruins conosco dependendo do que semeamos, mas isso pode levar muito tempo para frutificar, pode até mesmo não frutificar agora, mas como você pertence ao universo e isso irá  frutificar no universo, como você faz parte dele, será atingido por aqueles resultados.

Somos atingidos por resultados culturais, econômicos etc., causados por nossos antepassados. Muita coisa do que acontece faz parte do nosso “carma coletivo” e não necessariamente daquele que eu causei pessoalmente. Podemos pensar - “eu não mereço” - no entanto, esse “eu” é ilusório e como eu pertenço ao todo e como o todo reage aos acontecimentos, então o que acontece comigo eu mereço, pois sou ser humano e estou aqui. Não adianta dizer “não fui eu quem fez”. Um bom exemplo é o de quando se é criança e se faz um travessura e perde-se um dedo com quatro anos. Agora, já adulto, olho para minha mão e não me lembro do que fiz nem de como perdi o dedo. Porque o “eu” adulto está pagando pela criança que fez a travessura e perdeu o dedo? Mesmo que você não lembre, você tem as consequências. Isso acontece vida após vida.

Pertencemos a um grande universo, não era meu “eu” na vida anterior, era outro indivíduo que fez coisas que provocaram um carma que se manifesta nessa vida e que tem determinadas marcas. Como sou herdeiro disso, sofro as consequências boas ou ruins. Temos consequências de doenças em nossas vidas de que pensamos: “por que mereço isso”? Você não está ausente de todo o mal do mundo, nem de todo o bem; você pertence ao universo e por isso acontecem essas coisas com você. Você participa de tudo que é bom ou ruim, mesmo que você pense que não tem nada a ver com isso.