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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Nada para se agarrar


Pergunta – Por e-mail recebo alguns trechos de textos budistas e gostei muito do último que dizia que “a infelicidade, depois que você começa a praticar o Dharma, é um indicador da evolução do seu caminho”. Gostaria que o senhor esclarecesse isto.

Monge Genshô – O Dharma, ao invés de dar algum consolo, retira da pessoa todos seus apoios, de tudo o que você pretende agarrar-se, deuses, anjos, etc.., tudo isso o Dharma tira. Muitas vezes as pessoas, ao viver esta desconstrução da fé, ficam muito perdidas e há um choque. Eu acho este choque muito bom, mas sei que carrega sofrimento. “Tudo que eu tinha o senhor tirou”. Esta é a tarefa do professor no Zen. Caso alguém não se sinta confortável com isso, deve talvez procurar um outro lugar mais confortável.

Sei que isto não é tranquilizador, mas sei que despertar e acordar das ilusões é muito feliz. Sei que isto não é fácil e exige grande esforço. Então, no início pode ser assim, infeliz. Mas pode não ser. Você pode chegar aqui, ouvir todas essas barbaridades que eu disse, e sentir uma sensação de grande alívio. Eu tive isso quando ouvi um Monge Zen a primeira vez.

Pergunta – Fui educada dentro de uma religião e o Zen para mim foi um grande alívio. Pensar em pecado, juízo final, purgatório, traz uma sensação de uma saga sem fim.

Monge Genshô – O conceito de pecado não interessa para o budismo. Na realidade nossas ações tem consequências. E nossa vida baseia-se nisso. Você tem que tentar fazer o bem, e isto vai automaticamente lhe trazer felicidade. Não há ninguém lá fora nos julgando não. Mas os resultados das nossas ações são muito mais implacáveis do que se houvesse alguém para nos perdoar. Se fizermos algo errado, teremos que consertar. É assim que o budismo pensa. Despertar das ilusões.
Temos um método, com raciocínios claros e não estamos dispostos a sermos enganados. Não estamos confiando em crenças. Um monge não tem a verdade para vender e ninguém precisa acreditar nele. Desejo que as pessoas tenham grande dúvida e nunca percam sua independência mental. Por isso, o trabalho do professor do Zen é difícil, pois os alunos sempre estão trazendo perguntas, dúvidas. E isto é muito bom, significa ter alunos de verdade. Quando alguém apenas tem fé e acredita sem questionar, acho que não passa de um tolo.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Tudo ação e conseqüência



Nós abrimos os nossos olhos, e vemos o mundo em volta e as pessoas que estão na sala, um homem lá na frente usando uma fantasia de Monge, e dizemos: “eu estou separado”. Estou vendo todos os outros ali. Todo nosso corpo nos informa isso. “Eu” estou separado. Só que essa separação é nosso engano fundamental. O nosso “eu” é o nosso engano. E esse “eu” nós queremos que sobreviva à morte. No entanto, se vocês pensarem bem, ele não sobrevive a uma doença de Alzheimer. Você fica velho, começa a caducar, não sabe mais quem é. Ou Parkinson avançado, ou AVC cerebral, você perde sua memória, tem uma amnésia, está numa cama de hospital, eu pergunto a você: “quem você é”? Você diz: não sei. Como foi seu passado? Não lembro. E todos vocês sofrem de amnésia, não é? Você lembra uma vida antes dessa? Não lembra.  Este “eu” é desta vida, se há um “eu” anterior você não lembra.

Como você quer que esse “eu” que não sobrevive a uma doença, sobreviva a uma coisa “um pouquinho” mais grave, que é uma morte e uma dissolução completa do corpo?

Então, Buda “VIU” essa ilusão. Pra nós entendermos melhor essa ilusão, o “eu” é mais ou menos como o eixo de um redemoinho. Há movimento, você vê o centro do redemoinho e diz: há um eixo. “Parece” que há um eixo. Na verdade, há um, enquanto existe o redemoinho, cessou o redemoinho, cadê o eixo? Nós somos redemoinhos na existência, movimentos e fluxos de pensamentos, paixões, e etc. Nosso “eu” é o eixo, mas na verdade, nós não somos redemoinhos. Nós somos o céu azul. Quem sente que é o céu azul, resolveu nascimento e morte. Isso é o Budismo.

Nem almas, nem espíritos, nem ninguém lá fora pra nos ajudar. Nem ninguém pra nos premiar, nem ninguém para nos castigar. Tudo é ação e conseqüência. Você caminha sobre os resultados dos seus atos. Os seus atos provocam resultados. Os resultados, são tudo que você tem. Nós somos “movimento” no universo. Fenômenos, como os redemoinhos.

Como as bolhas, dentro de uma garrafa de champagne. Eu estava em Guaratinguetá, e expliquei, com esta outra analogia: bolhas, dentro de uma garrafa de champagne, são interações entre gás carbônico e o líquido. Você olha e vê a bolha. Ela surge, como que do nada. Sobe, explode na superfície. Todos os constituintes da bolha continuam ali. O gás carbônico continua, o líquido continua. A bolha pensa: “eu sou separada”. Ela olha para as outras bolhas e diz: “eu sou separada da outra bolha” e você que olha a garrafa, vê as bolhas separadas, não vê? Mas as bolhas existem por si mesmas? Não. Elas só existem como gás carbônico e líquido. O vento não existe por si mesmo. O vento é movimento do ar. As ondas do mar não existem por si mesmas elas são movimento da água. Vocês não existem por si mesmos, são movimento de pensamentos. São um fenômeno surgindo e desaparecendo.

Eu falei que contei esta história em Guaratinguetá, porque havia a filha de um amigo meu que estava lá, e de noite eles tiveram uma conversa em casa, que ele me contou. A mãe disse assim: “vai dormir, bolha”. E ela disse assim: “bolhas são vocês, eu sou champagne”. E eu pensei: “Ah! Ela entendeu!”.

Vocês não são bolhas, são champagne. Não são redemoinho, são o céu azul. A dificuldade é enxergar isso. Vocês não são ondas, são o próprio oceano. Quem enxerga isso, não se preocupa com as coisas cotidianas, normais da vida, porque tudo vai passar. Tudo é impermanente, tudo é transitório. Tudo apenas flui. Mas se ele consegue perceber que ele “É” o céu azul, não se preocupa com o início e fim dos redemoinhos. Por isso as respostas tão absurdas dos mestres do Zen.