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sexta-feira, 4 de maio de 2018

O Relativo e o Absoluto



Pergunta: Monge, no Sutra do Coração há uma parte que diz “nem caminho para a extinção do sofrimento”, mas e a 4ª nobre verdade?

Monge Genshô: Nós vamos encontrar frequentemente no budismo esse tipo de contradição. Agora mesmo alguém me perguntou se existem os Budas citados e chamados por nomes, etc., e se eles socorrem os homens de seus sofrimentos. Isso é contraditório com a ideia de que não há ninguém lá fora para nos ajudar, que é o que frequentemente ensinamos. Você não tem que pedir nada para ninguém, seja para um Deus ou para Buda: Buda já morreu há muito tempo, e se pudesse ajudar já estaria ajudando. Então, você não tem que pedir. Mas isso também mostra uma contradição, porque falamos os nomes desses Budas. Portanto, nós temos que olhar o que são os ensinamentos preparatórios e os ensinamentos definitivos.



Existe uma forma de ensinar que é para socorrer, para ajudar, então você precisa dizer isso para as pessoas. Mas quando você sobe num degrau mais alto, aí a representação já é outra. A contradição que você mostrou do Sutra do Coração, por exemplo, existe porque a 4ª nobre verdade diz justamente o que é o caminho para a extinção do sofrimento e lá são citados o pensamento correto, o meio de vida correto, a fala correta, a ação correta, etc. Todos eles são o caminho de uma prática individual que implica na existência de um outro, então nessa fase existe um outro de quem eu me compadeço. Isso também acontece com os preceitos, por exemplo, o preceito de não matar, também implica na existência de um outro. Mas isso é um entendimento num nível relativo, se eu for para o conhecimento absoluto, neste nível absoluto não existem outros seres, como poderiam existir outros seres se nós somos o próprio todo? Se você e outro são um só como pode existir alguém por quem se compadecer? Como eu poderia matar outro se sou um com o todo? Então, primeiro você tem um ensinamento provisório, e depois um ensinamento absoluto, definitivo.

[Trecho de palestra proferida por Monge Genshô Sensei]

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Na visão iluminada não existe morte ou nascimento

 
Pergunta: A gente cresce ouvindo que os animais quando tem suas crias fazem de tudo para perpetuar a espécie e nós também temos muito forte essa noção de que o filho é a nossa forma de deixar nossa marca no mundo. O amor ao filho é muito baseado nisso. São visões distorcidas?
Monge Genshô:
Não, elas estão presentes num mundo relativo. Num mundo relativo você tem um filho e ele é continuidade do seu corpo, dos seus genes e parece sua ligação com a eternidade. Parece. Essa é uma visão pequena e ainda continua sendo egóica, porque você diz “é meu filho”, “é minha continuação”, por isso a morte de um filho é tão dolorosa, porque um homem sente que perdeu sua continuidade, sua eternidade, mas esta visão não é iluminada. Numa visão iluminada não existe morte ou nascimento e todos aqueles que morreram estão aqui conosco.

Muitos anos atrás eu não me lembro mais o ano, talvez Seikaku San lembre, Kanner San morreu. Ele era um Monge que foi praticamente nosso professor durante um certo tempo e quando saí do seu enterro do lado de fora bateu um vento que inclinou as árvores. Naquele momento eu estava olhando para as árvores e minha sensação foi: “aí está Kanner San, naquele vento”. Ele era aquilo. (continua)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Niilismo e Eternalismo



Monge Genshô: Nosso corpo não é diferente do armário, ele é construído de agregados, oxigênio, hidrogênio, ferro, cálcio, fósforo, um monte de coisas. São esses agregados, juntos funcionando, que dizem a si mesmo: “eu sou”. Nós queremos que este “eu” seja permanente, mas nada no mundo é permanente, nada, nada é permanente.

Vejam, o que as religiões tentaram foi negar o próprio tempo, a própria duração do universo, porque o paraíso é para sempre, é eterno. Até o inferno, por exemplo, no cristianismo, é para sempre, é eternidade, castigo para eternidade, castigo infinito. Você comete um pecado e vai para o inferno infinitamente. Não parece muito justo, porque o pecado é limitado, ele não é infinito, mas por quê o castigo do pecado é infinito? Filosoficamente, me parece um pouco exagerado.

Mas para o budismo está claro, não existe nada eterno, nem o universo é eterno, ele é cíclico. Tudo está sempre girando, começa, termina, começa, termina. Ambicionar a eternidade é querer contrariar o fluxo natural da vida. É por isso que no Zen vem pouca gente, porque vamos lá e dizemos isso para as pessoas, mas o que as pessoas querem é ser eternas. Eu quero que ”meu eu” seja eterno, “eu” quero ir para um paraíso eterno, elas vão aos casamentos e juram amor para sempre. O que é tolo, porque nenhum amor dura para sempre. Na melhor das hipóteses os dois morrem juntos. Por que todo mundo está rindo? (risos) Porque na realidade, percebemos a verdade evidente, tem algo de ridículo no comportamento humano de desejar a eternidade. Não têm? Parece um conto de fadas, “e foram felizes para sempre”. Mas é o que nós gostaríamos.  E está tudo metido nesses mecanismos mentais em que nós queremos nos iludir e nos esconder, o budismo vem e joga isso na cara, aí vai todo mundo embora. Ficam só vinte pessoas para sentar em zazen, porque você coloca a pessoa para olhar a parede e ela vê a verdade. Eu estou respirando agora, mas eu vou respirar quanto tempo? Um dia eu vou respirar pela última vez.

Aluno: Me parece uma ideia que ao meu ver acaba num niilismo, se você não observar uma essência, não digo um eu ou personalidade, mas uma essência que já vem de tempos.

Monge Genshô: Você quer um eternalismo, uma essência permanente.

Aluno: Algo que sobreviva a esse niilismo, ao nada, morreu acabou...?

Monge Genshô: Veja bem, ninguém falou em “nada”. Quando em falei que uma gota se dissolve no mar, eu não disse que essa gota deixou de existir. Então não é niilismo. Tem duas coisas que Buda negou: o niilismo, ou seja, o nada, e o outro extremo, que seria o o eternalismo. São dois extremos que o budismo nega, o eternalismo, que é o que eu narrei, que é desejar a eternidade das coisas, e o niilismo, ou seja, nada existe, nada veio de lugar nenhum, nós não somos nada, ou desapareço e não sobra nada. Não é verdade. Sobra carma, tem continuidade, você pertence ao universo e nós continuamos, assim com as gotas d´agua continuam no oceano. É que na realidade nós não somos gotas separadas, nós somos “O” oceano. Por não enxergar que você é o oceano você sofre, por saber que seu estado de gota vai desaparecer, você vai se transformar, vai virar vapor por exemplo, se é nuvem vai virar chuva, se é agua no solo vai virar folha ou vai estar dentro do corpo de alguém, mas não é niilismo. Portanto, a palavra niilismo que você usou está errada, correto? Então o budismo é o caminho do meio, “Madhyama Pratipad”, em sânscrito, é isso que que dizer, nem niilismo, nem eternalismo.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

UNICIDADE E DIVERSIDADE

Ilustração de Fernando Zenshô Figueiredo

Nós ouvimos frequentemente as pessoas dizerem que devemos ser “um com todos os seres”, no entanto, todo o tempo que andamos no mundo vemos coisas diferentes, pessoas diferentes, nossos sentimentos são diferentes e mudam, nossas experiências são diferentes, então nos perguntamos onde está essa tal “unicidade de todas as coisas”.

Na verdade a diversidade é a unicidade, ela apenas é a múltipla manifestação das coisas. Nós, os outros e todas as coisas apenas nos manifestamos de formas diferentes. Em toda unidade há diversidade e toda diversidade é a própria unidade, nós é que queremos separar uma coisa da outra, mas nossa vida diária é toda diversa. Quando pedimos as pessoas para que sejam "um com todos os seres" não implica que deixemos de ver a diversidade e não significa também que nossa vida não tenha diferentes aspectos como alegria e tristeza, pois ela tem.

Saikawa Roshi em uma de suas palestras falou sobre uma moeda que tem em seus lados nossa vida diária - 100% dualidade de um lado e, do outro, o absoluto, completa unidade, nada de bom ou ruim, certo ou errado. Tudo está na mesma moeda, mas quando você olha um dos lados não consegue enxergar o outro. Como podemos estar conscientes de que uma ou outra coisa é a mesma coisa, é a mesma moeda? Pois quando você anda, a vida diária é 100% dualidade. Você tem que ser capaz de virar a moeda a cada instante, quando você conseguir isso, será capaz de integrar os dois lados e saberá que um lado é fantasia e o outro é como as coisas realmente são. Isso pode parecer confuso porque as coisas são diversas e ao mesmo tempo unas. Ao mesmo tempo em que vida e morte existem, não existem, são apenas um pequeno aspecto das manifestações, do ponto de vista absoluto não existe vida e morte, tudo sempre esteve, está e de alguma forma sempre estará aqui. Universos surgem e desaparecem e tudo sempre está aqui.