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sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Os Dogmas e os Erros



Quando se critica textos de outras tradições, temos que lembrar que os textos budistas também são assim, a única diferença é que ninguém diz que está certo porque é a palavra de Deus e quem disser alguma coisa contra a gente queima na fogueira. Isto é que salva o budismo, porque a confiabilidade dos textos é tão frágil num lugar quanto no outro.
 Por isso o Zen apareceu como um movimento que considerava poucos textos e enfatizava uma outra coisa, que tem outro perigo: o Mestre. A transmissão tem que ser de Mestre para discípulo, de coração para coração, de mente para mente, e teoricamente isso garante a pureza do ensinamento. Contudo, podemos deduzir que não garante, porque, por exemplo, eu digo isso aqui e daqui há 200 anos alguém vai dizer: “Monge Genshô que falou, e se ele que falou isso, então é a verdade" - e pronto, alguma coisa já estará distorcida. Compreendem? Há o endeusamento das pessoas, o culto à personalidade. Os erros perduram através do tempo, e eventualmente você tem um aluno que distorce o que você diz. O Zen é um ensinamento baseado na experiência, e não no texto. O mestre é um guia para a sua experiência. É isto.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Budismo é Experiência



Apesar de o Zen descartar os deuses, há a imagem de Kanzeon na cozinha, eu passo na frente do altar e faço gasshô. 

Kanzeon representa a virtude da compaixão. Não é um ser, digamos, mas sim um meio hábil para nós incorporarmos ou visualizarmos a compaixão como se fosse um ser. E como a compaixão parece uma virtude feminina, então Kanzeon é representada na China e no Japão como uma mulher. No Tibet, todavia, é representado como homem, chamado Avalokitesvara, buda da compaixão. 

Eu fiz essas observações todas para entendermos como o budismo se encaixa na história humana. Ou seja, ele é uma espécie de heresia, uma espécie de não conformismo com as crenças e a tentativa de olhar o funcionamento do mundo como uma responsabilidade sua. Você, com suas ações, é que constrói o chão sobre o qual você caminha. Do outro lado, o budismo vestiu-se de símbolos, tomando emprestadas mil coisas das culturas por onde passou, de modo a constituir-se como uma religião. 

Pode-se dizer, então, que o Budismo tem todos os aspectos formais de uma religião, mas quando se analisa suas teses centrais, percebe-se que se trata de uma ideologia baseada no que ele próprio entende por "leis naturais". Então, o budismo não depende de fé, mas de experiência.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O budismo pede que nós olhemos um pouco mais longe



(Continuação) A memória do nosso cérebro tem um registro momentâneo e é esse registro sucessivo de momentos que nos dá a consciência de um eu separado. É porque eu me lembro que eu penso que “eu sou”. Mas esse “eu” só está acontecendo como um fenômeno no universo e é um fenômeno temporário. O budismo pede que nós olhemos um pouco mais longe. Em geral as pessoas desejam que o “eu” permaneça para sempre e por isso inventamos almas eternas, espíritos e quaisquer coisas desse tipo. Mas se nós virmos que o “eu” é uma construção, nós verificaremos que ele é evanescente. Nós não temos para onde ir porque jamais viemos, sempre estivemos aqui. (Continua)

terça-feira, 8 de julho de 2014

Dogmas e leis universais


 (continuação, palestra pública)
Pergunta – Para o Zen existem leis universais que regem o universo, por exemplo, causa e efeito é uma lei?

Monge Genshô - Parece que é, não é? Pode ser que um físico quântico diga que existam alguns efeitos sem causa perceptíveis, estamos investigando isso mas até o momento, parece que todos os efeitos têm causa e, pelo menos na nossa vida de mente e de carma, todos os efeitos têm alguma causa. Tudo o que acontece com vocês tem uma causa pregressa.

Se existem leis universais? Nós progredimos muito do tempo de Buda para cá em termos de ciência, muito, muito. Bem mais ainda nos últimos 200 anos.  De lá pra cá, quanta coisa mudou. Na minha vida, quanta coisa mudou! Eu me lembro quando cheguei em casa e a empregada me chamou para ver um fogão novo que ela tinha ganhado e que tinha “um ar que saía de dentro e pegava fogo”. Uma coisa extraordinária, porque ate então só tínhamos visto fogões a lenha e, detalhe por detalhe é tão rápida a alteração neste momento, que é difícil acompanhar, é difícil você se informar de tudo que está acontecendo agora, nesse instante em termos de progresso e conhecimento humano.

Nós devemos manter nossa mente aberta e não nos agarrarmos a nenhum dogma. O budismo conseguiu escapar disso, porque ele nunca se comprometeu com descrições do universo, e aí, a cada nova descoberta, não há problema para o budismo. Mas, quando você tem uma religião e ela tem uma cosmogonia e descreve o universo de uma determinada forma, quando você ameaça aquele dogma, parece que o mundo vai desabar, e às vezes a solução é mandar queimar aquele indivíduo que veio com essa história, porque ela é ameaçadora do “status quo”.

Assim, o budismo se salvou desse problema do dogma, e isso é um grande privilégio. E outro grande privilégio é o fato do budismo não achar que tem que convencer os outros a ferro e fogo, então nós não temos na história, uma guerra de conquista budista nesses 2.500 anos e isso é um enorme privilégio. Não que não tenham havido perseguições ou disputas, até entre budistas, isso houve,  mas não uma guerra.

Pergunta – Mais cedo o Senhor se reportou à historia de uma jovem que reencarnou numa família budista porque havia vestido um manto. Eu não sei se era uma historieta mas, se é fato, de onde vem essa informação de que ela renasceu numa determinada família?

Monge Genshô - Não, essa história é uma anedota Zen. Então ela pretende passar um “ensinamento”, de que o contato com o Dharma, mesmo que seja sobre uma forma espúria, tem um bom efeito. Agora, se informações como essa não existem, pouco importa. Aliás, se você acredita ou não em renascimento, não tem interesse. Se entra alguém aqui pela porta e diz assim: “Monge, eu queria praticar o Zen, mas queria lhe dizer que acredito que há homenzinhos verdes que vivem na galáxia de Andrômeda”. Eu respondo: “Muito interessante você acreditar nisso, mas eles por acaso falam com você”? E ele diz: “Não”. E eu digo: “Bom, então não é tão grave, pode sentar”. Agora se ele fala com os homenzinhos verdes, aí devo mandá-lo para outra pessoa, porque não é a especialidade do Zen tratar com psicoses. Então o que uma pessoa acredita ou não, não tem muita importância.

Eu estava uma vez com Saikawa Roshi e um rapaz perguntou: “E Deus”? E Saikawa Roshi disse: “Ah, esse é um assunto não verificável. Se você acredita, está bem, se você não acredita, está bem também”. Não faz diferença, vá sentar. Pratique meditação e, quando tiver lucidez, aí as coisas clareiam, e você não precisa ficar discutindo, argumentando a respeito de coisas como essa.