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terça-feira, 8 de julho de 2014

Dogmas e leis universais


 (continuação, palestra pública)
Pergunta – Para o Zen existem leis universais que regem o universo, por exemplo, causa e efeito é uma lei?

Monge Genshô - Parece que é, não é? Pode ser que um físico quântico diga que existam alguns efeitos sem causa perceptíveis, estamos investigando isso mas até o momento, parece que todos os efeitos têm causa e, pelo menos na nossa vida de mente e de carma, todos os efeitos têm alguma causa. Tudo o que acontece com vocês tem uma causa pregressa.

Se existem leis universais? Nós progredimos muito do tempo de Buda para cá em termos de ciência, muito, muito. Bem mais ainda nos últimos 200 anos.  De lá pra cá, quanta coisa mudou. Na minha vida, quanta coisa mudou! Eu me lembro quando cheguei em casa e a empregada me chamou para ver um fogão novo que ela tinha ganhado e que tinha “um ar que saía de dentro e pegava fogo”. Uma coisa extraordinária, porque ate então só tínhamos visto fogões a lenha e, detalhe por detalhe é tão rápida a alteração neste momento, que é difícil acompanhar, é difícil você se informar de tudo que está acontecendo agora, nesse instante em termos de progresso e conhecimento humano.

Nós devemos manter nossa mente aberta e não nos agarrarmos a nenhum dogma. O budismo conseguiu escapar disso, porque ele nunca se comprometeu com descrições do universo, e aí, a cada nova descoberta, não há problema para o budismo. Mas, quando você tem uma religião e ela tem uma cosmogonia e descreve o universo de uma determinada forma, quando você ameaça aquele dogma, parece que o mundo vai desabar, e às vezes a solução é mandar queimar aquele indivíduo que veio com essa história, porque ela é ameaçadora do “status quo”.

Assim, o budismo se salvou desse problema do dogma, e isso é um grande privilégio. E outro grande privilégio é o fato do budismo não achar que tem que convencer os outros a ferro e fogo, então nós não temos na história, uma guerra de conquista budista nesses 2.500 anos e isso é um enorme privilégio. Não que não tenham havido perseguições ou disputas, até entre budistas, isso houve,  mas não uma guerra.

Pergunta – Mais cedo o Senhor se reportou à historia de uma jovem que reencarnou numa família budista porque havia vestido um manto. Eu não sei se era uma historieta mas, se é fato, de onde vem essa informação de que ela renasceu numa determinada família?

Monge Genshô - Não, essa história é uma anedota Zen. Então ela pretende passar um “ensinamento”, de que o contato com o Dharma, mesmo que seja sobre uma forma espúria, tem um bom efeito. Agora, se informações como essa não existem, pouco importa. Aliás, se você acredita ou não em renascimento, não tem interesse. Se entra alguém aqui pela porta e diz assim: “Monge, eu queria praticar o Zen, mas queria lhe dizer que acredito que há homenzinhos verdes que vivem na galáxia de Andrômeda”. Eu respondo: “Muito interessante você acreditar nisso, mas eles por acaso falam com você”? E ele diz: “Não”. E eu digo: “Bom, então não é tão grave, pode sentar”. Agora se ele fala com os homenzinhos verdes, aí devo mandá-lo para outra pessoa, porque não é a especialidade do Zen tratar com psicoses. Então o que uma pessoa acredita ou não, não tem muita importância.

Eu estava uma vez com Saikawa Roshi e um rapaz perguntou: “E Deus”? E Saikawa Roshi disse: “Ah, esse é um assunto não verificável. Se você acredita, está bem, se você não acredita, está bem também”. Não faz diferença, vá sentar. Pratique meditação e, quando tiver lucidez, aí as coisas clareiam, e você não precisa ficar discutindo, argumentando a respeito de coisas como essa.