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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Possuir o satori
As experiências de “kensho”, as experiências místicas de despertar, são às vezes experiências fugazes, nós as temos durante um tempo curto e elas desaparecem. E mesmo que possamos ter enxergado as coisas como elas realmente são e nos sintamos invadidos por uma enorme alegria, contentamento e felicidade, aquele evento torna-se uma lembrança, nós o perdemos, porque nossa prática ainda não é suficientemente forte. Chamamos essas experiências de “kensho” - experiências místicas. Mas quando passamos a ter experiências místicas por muitas vezes mudamos a nós mesmos, de tal maneira que elas tornam-se acessíveis com facilidade, podendo ser chamadas a qualquer momento, aí temos o “satori”.
Então se você possui o “satori”, possui a “capacidade de estar iluminado”, ou de “iluminar todas as coisas com uma luz clara e lúcida”. As paixões não são mais o que nos arrasta, porque nossa visão lúcida tornou tudo bem fácil de ser interpretado. Nesse processo, o satori, há muitos graus diferentes. Você pode obter a iluminação e ela alterar apenas alguns aspectos da sua vida, mas não todos. Pode ser uma mera lucidez, mas você pode continuar sendo movido pelas emoções normais da vida e você terá que fazer algum esforço para recuperar aquela situação de iluminação. Mas o mais alto estágio seria aquele em que tudo mudou. Seu rosto mudou, suas atitudes mudaram e suas emoções mudaram.
À medida que o processo de iluminação vai se aprofundando, as emoções vão mudando, até chegarmos ao ponto em que não existem mais emoções nos arrastando, não há mais ventos nos levando de um lado para outro. É por isso que essa situação chama-se “nirvana”. Atingir o nirvana é não ter mais ventos nos arrastando. Nessa situação, situação de um Buda, não há qualquer energia com carma suficiente para forçar uma nova manifestação. Você precisaria escolher retornar, não precisa retornar, não tem energia para retornar para esse mundo, não tem paixões suficientes para fazer com que esse mundo o atraia. E assim, não há carma suficiente para gerar um nascimento e uma identidade. Então entre o primeiro despertar e uma iluminação completa vai uma distância bastante grande.
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quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Pouco treinamento, pouco resultado
P: Quando estou praticando, não sei dizer se é concentração, mas sinto um pequeno grau de desprendimento, nada profundo ainda, esse estágio mental é uma espécie de treinamento para que eu possa desenvolver esse outro nível?
Monge Genshô – Temos muitos pequenos graus, mas na realidade quarenta minutos são muito pouco. Os leigos vêm praticar, sentam quarenta minutos e pensam que estão praticando meditação. O correto seria eu dizer que estão “fazendo uma limpeza”, estão se acalmando, não é tempo suficiente para ir mais fundo. Por isso sempre aconselho as pessoas a irem aos retiros. Nos retiros são muitas horas de meditação e é comum essa sensação no primeiro dia, de estarmos descartando o lixo. Como agora, sentados ali no zendo, vem à mente aquelas coisas que perturbaram você durante o dia de hoje ou de ontem, ou mesmo que vem perturbando durante dias, mas para ir mais fundo no Zen tornam-se necessárias muitas horas mais de prática.
No segundo dia de retiro estamos desesperados e querendo ir embora e se passarmos por essa fase, a vontade de ficar substitui a ânsia de sair do retiro. Isso pode aumentar se tivermos algum tipo de experiência e então voltar para o mundo dito real é que parece loucura, pois ali no retiro temos paz, serenidade e clareza. Pode ser que você não consiga isso, mas normalmente é o que acontece. Existe um retiro de oito dias, chama-se “rohatsu”, em que você não pára durante sete dias e, no último dia, à noite, o retiro vai até a madrugada sem intervalos. É o “retiro da iluminação de Buda”, pois foi isso que Buda fez. Toda essa história dos retiros, é somente pra dizer que pouca meditação, é igual a pouco resultado. Se você senta só um pouco por dia ou por semana, sempre será só um pouco, e pouco treinamento, pouco resultado.
Uma vez disse ao meu Mestre que queria dar um passo mais adiante e ele me disse para ficar sozinho durante três dias, não falar com ninguém, não ver ninguém e só sentar durante esse tempo. Eu lhe perguntei como havia sido com ele e ele respondeu que quando era jovem queria resolver a questão do “vazio é forma e forma é vazio”, então se sentou por quatro anos. Resolveu.
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