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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Pássaro de uma asa só


Aluno – É difícil entender o que é aceitação, e depende do nível de raiva que surge de dentro. O que é verdadeiramente a prática da aceitação?

Monge Genshô – A prática da aceitação é parecida com a oração de São Francisco, “que eu seja capaz de me esforçar pra mudar o mundo, que eu seja capaz de reconhecer, de perceber o que eu não tenho capacidade de mudar, que essas coisas eu tenho que aceitar, e que eu tenha sabedoria pra ver a diferença”. Porque às vezes nós pensamos que não somos capazes de mudar, e somos. Esse é um problema candente no Brasil de hoje. Lutam duas ideias: nós somos capazes de mudar ou as coisas têm que ser assim, sempre foram assim e não tem como mudar e nós temos que aceitar que os seres humanos, a política, tem tal e tal característica? Nós somos capazes de mudar ou não?

É evidente que nós somos capazes de mudar. Se nós nos conformarmos e acharmos que sempre foi assim e sempre será, então nós nunca seremos capazes de mudar. Mas se existem países diferentes do nosso, nós podemos ser diferentes, nós podemos mudar. Então, o que é aceitação é uma questão de ter sabedoria pra ver a diferença entre o que eu posso mudar daquilo que eu não posso. E isso exige diligência e perseverança.

Um pássaro voa com duas asas, então a exigência é que você tem que ter as duas asas. Você tem que ter a prática e tem que ter o ensinamento. É errado dizer, “ah, eu sou um praticante do Zen, o Zen enfatiza a prática, o zazen, eu não preciso ler nada, não preciso estudar”. Isso é errado. Você precisa ouvir as palestras, você precisa ter contato com os professores, você precisa ler. Agora, se você só pensar em ensinamento, é uma asa só, esse pássaro não voa. Você fica orgulhoso de seu ensinamento e ainda fica querendo dar explicação pros outros quando você não está habilitado. Não é isso. O que você tem que fazer é tentar aprofundar o seu conhecimento e do outro lado, você tem que praticar o ensinamento. Mesmo que você falhe continuamente, tem que tentar praticar.

O grande problema dos iniciantes budistas é que acham o budismo maravilhoso, aí começam a estudar, mas não conseguem fazer nada, aí chegam em casa e a família diz: “mas você não é budista? Como é que você está agindo assim agora?”.

Uma vez eu estava fazendo uma palestra com um amigo meu e uma senhora disse assim: “eu não posso me imaginar sendo assim, calma que nem vocês”, e ele disse, “isso é porque a senhora não chegou no meu limite”. Porque todos nós temos algum limite. Então você pratica na sua vida, tenta praticar os ensinamentos diariamente, faz da sua vida os ensinamentos e é assim que você começa a voar. Quando alguém se ilumina, isso pode significar que pode ser uma iluminação de nível bem baixo, ou seja, o mestre reconhece que você tem uma “compreensão”. Você compreendeu, entendeu, mas isso não passou ainda pra vida. Passar para os atos, é um nível muito alto. Então, se dividirmos em 4 níveis, a compreensão seria o primeiro. Ação iluminada é quando a pessoa anda iluminada, trabalha iluminada, já passou para a ação e é um nível altíssimo. Nos outros níveis, ainda não chegou lá, ainda não chegou à ação. E no primeiro nível é apenas entendimento,  já é um grau de iluminação, mas é apenas entendimento.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Como um tropel de cavalos desembestados



(Transcrição de palestra em zazenkai, decupada da gravação por Sonielson San)

Quem conseguiu ficar aqui, durante a meditação, por todo o tempo? Ninguém, não é? Natural, porque a mente está em movimento. Mas no segundo período [de 30 minutos] não foi mais fácil? Porque no primeiro momento vem aquele monte de apresentações de problemas, um atrás do outro, como um tropel de cavalos desembestados. Vem à tona um problema do passado, ou aquela conta que tenho que pagar depois de amanhã. E daí eu me pergunto: “Eu vim fazer este zazenkai para me livrar dos problemas, e eles permanecem todos aqui?!”. Mas claro! Você os trouxe na sua mente! E como é, então, que você “esvazia”? Parando o corpo e não alimentando em nada a mente, pois não adianta o problema se apresentar e você querer resolvê-lo. Você vai poder sentar aqui 100 dias, e não vai resolver. Não é com elaboração de raciocínios que se sai do círculo de associações infindável.

O que você tem que fazer é perceber que o passado é uma fantasia sobre registros, o futuro também é uma fantasia, uma expectativa. Os registros na memória são todos falsos. Nós pensamos que eles são reais, mas se acontecer qualquer evento aqui, e nós pedirmos para as diferentes pessoas relatarem este evento, cada uma terá uma versão diferente, porque viu uma coisa um pouco diversa. Então, desta forma, não existe a mesma versão do evento. Assim, a memória não é um registro confiável do passado. Desta forma, não adianta nós sentarmos em zazen para tentarmos resolver os problemas do passado. Tudo que vier à mente do passado, simplesmente você deve perceber como algo que não é para ser considerado, rememorado, nada...isso vale para culpas, coisas boas, prazeirosas, nada interessa.

Descarte [estas lembranças] e volte para cá, para a única realidade verdadeira, que é este momento de agora, este exato momento. Esta é uma técnica razoavelmente simples, mas como vocês devem ter notado, não é nem um pouco fácil de ser executada mas, se vocês conseguirem isso, haverá um resultado veloz, e aí vocês começam inclusive a se questionar onde estavam aqueles problemas todos que até então vinham lhe afligindo. Na verdade, eles “não estavam”. Tratava-se, apenas, de um emaranhado dentro da mente.

O que mais não resolve os nossos problemas? Erudição não resolve. Estudar os sutras, estudar o budismo e conhecer todos os seus detalhes, os nomes, como é que é isso, como é que é aquilo... nada disso resolve. Você pode estudar a vida inteira e continuar sendo o quê? Um erudito. E um erudito não é alguém que resolveu a vida.

Uma vez havia num templo um monge muito burro, ele não conseguia aprender nada. Então o mestre deu a ele uma vassoura e disse: “Você agora vai varrer o chão. Não assista palestra, aulas, nem nada. Apenas varra. E quando você estiver varrendo, pense: ‘limpa’, ‘limpa’, ‘limpa’. Só isso”. E de tanto repetir este “limpa, limpa, limpa”, o monge acabou por “limpar” a mente. Então isso quer dizer que uma pessoa pode ser ignorante (no sentido acadêmico da coisa) e ter acordado das ilusões. Tradicionalmente se diz que se um monge é muito erudito, muito inteligente, ele levará  muito tempo para conseguir despertar porque sabe demais. Então toda questão que se apresenta a ele, ele quer raciocinar.
(continua)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O estudo e a prática



Venerável Dhammadipa continua: Concordo com Genshô Sensei, o estudo não deve ser colocado de lado, existe uma tendência no Japão de separar completamente o estudo da prática e isso não é o que tem acontecido na China. Muitos dos grandes mestres do passado não foram somente grandes praticantes, mas também profundos estudiosos. Você deve ponderar os dois lados e nunca exagerar para lado nenhum. Minha posição é que há que combinar a prática, com o estudo. Fui afortunado que meus professores eram bons iogues e bons estudiosos. De acordo com o Budismo, há três tipos de sabedoria: a sabedoria de ouvir, a sabedoria de contemplar ou de meditar e a sabedoria de conectar-se diretamente com o Samadhi. A sabedoria do Budismo sempre esteve ligada a esses três tipos de sabedoria.
O Zen não é uma exceção. O tempo que determinamos para compreender o Zen deve ser o tempo que dedicamos para compreender todas as coisas. Quando compreendemos isso, compreendemos o quanto necessitamos de disciplina. Disciplina significa ver todas as coisas através do Dharma. Se fizermos isso, seremos bem sucedidos na prática do Dharma. Para ser uma prática útil, temos que olhar profundamente dentro disso e realizar uma prática integrada, é isso que foi enfatizado por todos os grandes mestres da China.

(Palestra no Daissen Ji, em Florianópolis, traduzida por Pedro San, decupada da gravação por Chudô San e revisada por Rachel San.)

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Não me fale dos atos de Buddha me mostre os seus atos



Venerável Dhammadipa continua: O nosso “eu” e nosso apego aos objetos implica na deposição de sementes nesse “Depósito de Consciências”, e por isso é chamado de Depósito, pelo fato dessas sementes estarem ali depositadas. Um aspecto subjetivo do Alayavijnana é chamado “Manas”, que é a autoconsciência. Essa autoconsciência é baseada numa consciência diferenciadora e desse modo, retornamos ao Samsara. Nós tomamos como reais essas diferenciações dos conceitos dos Manas que estão relacionados com o auto apego.

Comentário de Genshô Sensei: É através das sementes cármicas que depositamos em Alayavijnana, que surgem todas as consciências e estas é que fazem com que nos manifestemos no mundo.

Venerável Dhammadipa continua: O processo de liberação do Yogacara, que está diretamente relacionado ao Zen, é exatamente a transformação disso tudo em sabedoria. Sei que estão todos cansados, isso não é tão importante, são só teorias. O Zen está enraizado nas ideias de Yogacara.

Comentário de Genshô Sensei: Eu diria que o Zen tem uma “estética” do Yogacara, o que acontece é que ele não levou tão a sério a idéia de que todas as coisas existentes são apenas consciência. Onde o Zen se afastou do Yogacara, foi na idéia de que as coisas existem mesmo que não exista minha consciência olhando essas coisas. Não sou eu quem faço surgir as coisas, elas existem mesmo que eu não as observe. Essa é a abordagem do Zen. Para o Yogacara tudo é consciência e tudo só existe porque existe uma consciência que observa. Mas, como ele mesmo disse, isso é uma profunda teoria do Abhidharma e do Yogacara que é muito difícil de entender, é muito sofisticada.

Em geral, no Zen, escapamos dessa discussão levando o assunto para o terreno da praticidade e do agora. Algumas pessoas ficam muito interessadas na profundidade da filosofia Budista e desejam tanto se aprofundar nas minúcias filosóficas, que acabam por se afastar da verdadeira prática. O que o Zen propõe é sentar de frente para a parede, ou, quando eu mandá-lo fazer algo, você irá fazer sem discutir, e, caso você discuta, demonstra sua ignorância nos ensinamentos. Foi discutido por alguém que entendia, mas ele fala e você fica só fazendo jogos com palavras e não age corretamente no mundo. Isso é vazio. De nada adianta ser um grande mestre de teorias sobre o budismo e não saber se comportar no mundo. É isso que o Zen quer dizer, não me fale das palavras de Buda, me mostre suas palavras, não me fale dos atos de Buda, me mostre seus atos. É isso que chamamos de prática. Mas evidentemente desconsiderar a necessidade do estudo é o erro de cair no extremo oposto.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Basta ouvir ensinamentos?



Aluno – No vocabulário Zen, existe a palavra samadhi, que significa concentração. Existe algum foco especial no budismo a respeito da meditação/concentração, ou é apenas uma coincidência?

Monge Genshô – Não, não é coincidência. O Zen budismo se vê como budismo contemplativo, ele enfatiza, e a diferença entre os budismos, é essa, a ênfase. A escola Theravada enfatiza o estudo dos sutras. O budismo Zen enfatiza a prática da meditação, sempre digo que essa prática no Zen deve ser feita em quantidades industriais, mas a mesma coisa acontece na prática do Theravada, pois existe grande similaridade nessa ênfase. 

Embora se diga frequentemente no zen, que as escrituras e os textos são o dedo que aponta para a lua, mas que não são a lua, são mapas para que se possa seguir um caminho. Não são o caminho. São indicações, você tem que trilhar o caminho por seus próprios pés para chegar lá. Não basta ler ou ouvir ensinamentos. Costuma-se dizer no Zen que enquanto nele se falar, ele não estará presente. Quando estávamos calados experimentando a prática da meditação, o Zen estava presente. Agora é só conversa a respeito. 

A palavra chan vem do sânscrito dhyanna que significa meditação, então, o budismo Zen significa o budismo que enfatiza a prática da meditação. Na verdade, no Zen, embora diga-se frequentemente, como acabei de dizer, que os ensinamentos são apenas o mapa, dificilmente você encontrará tantos textos quanto existem sobre o Zen, e os professores estão sempre escrevendo. Aqui, por exemplo, tem um gravador para documentar a palestra. Por quê? Porque acabarão virando texto. Na realidade, existe estudo no Zen e Dogen ZenJi diz que o estudo dos sutras é a base do caminho. Não se chega à outra margem sem saber, e mesmo que Hui Neng seja declarado um patriarca analfabeto, leia seu o texto e você verá quantas citações nele há; ele parece um erudito. Mesmo que ele guardasse de memória por não saber ler, ele ouvia, guardava, sabia citar e raciocinar. Sem esse instrumento não vamos longe. 

A ênfase do Zen é mais do tipo, “não me diga as palavras de Buda, me diga as suas”. É a verdade que você está praticando, e essa é a verdade do Zen, e não as indicações ou os textos. Como você está vivendo, como está sua mente agora, essa é a verdade. Mas existem três portas de acesso: emoção, estudo e ação. São três portas de acesso para o caminho. As pessoas são diferentes, existem pessoas que naturalmente estão preparadas para o caminho intelectual, outras para o caminho da emoção e outras para o caminho da ação. Cada uma deve praticar com a escola mais adequada para o seu coração, para o seu sentimento, devendo praticar naquele lugar com o qual ela sinta que tem conexão. Por isso, é tão importante escolher o seu mestre e sua escola. Nesse sentido, recomendo a vocês o texto de um famoso escritor, o professor Ricardo Sasaki, intitulado A que Escola pertenço. (um toque de humor, o Prof. Sasaki era o anfitrião nesta palestra ministrada em sua Sangha Theravada em BH)