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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Apenas Caminhe


(continuação)
Pergunta – Pela forma como o senhor expôs “O pico da montanha”, me parece que os objetivos não têm tanta importância, que eles são de certa forma um guia, mas a escalada é que conta mais?

Monge Genshô – A vida se mostra a cada passo. Então, à medida que nós vamos indo num caminho, se nós ficarmos presos num objetivo, isso vai ser ruim. É bom ter um objetivo, uma meta, porque isso nos cria uma certa direção, isso a gente faz constantemente nas empresas e criamos planos, é frequente pra mim. Mas as pessoas se reúnem, acontece algo inesperado e aí, o que vamos fazer? Vamos fazer de acordo com o inesperado, não adianta nos lamentarmos muito.

Eu gosto muito da história de Thomas Edison quando o laboratório Menlo Park pegou fogo, ele chamou toda a família pra assistir, e disse: “venham, venham, vocês nunca vão ver um incêndio como esse!”, cheio de produtos químicos de laboratório, um tremendo de um incêndio. E ele naquela alegria, e era o laboratório dele, era a vida dele, tudo o que ele tinha construído até então. E a mulher perguntou: “mas você não está chateado que está pegando fogo em tudo o que você fez até agora?”, e ele respondeu: “estou pensando no laboratório que eu vou fazer agora, um novo, vou fazer tudo melhor, os erros que tinham nesse não vão existir mais”. Ele já estava planejando na cabeça dele que iria fazer um muito mais espetacular do que o laboratório anterior. Então essa é a cabeça de Thomas Edison, por isso ele registrou milhares de patentes, porque estava sempre pensando em uma nova solução. Essa era a mente dele. Não estava preso num objetivo anterior ou no que ele tinha anteriormente, mas estava pronto a mudar de ideia. Pegou fogo? Ah, que oportunidade, o que nós vamos fazer agora?

Isso diz muito sobre o caminho, o caminho é assim. Quando você caminha na vida é assim, que bom que tem mudança. Quando nós nos agarramos demais e ficamos a lamentar aquilo que acabou, nós não estamos vendo as grandes oportunidades que estão aparecendo. Por isso o pico da montanha é aqui e agora.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

SAINDO DO CASULO

Então poderíamos analisar um pouquinho mais essa questão da compreensão. Eu estava explicando há pouco, voltemos à analogia do mar, nós somos ondas tocadas pelos ventos do carma, quem é que formou as ondas? O carma. O carma é o vento que forma as ondas do mar. A onda é puro movimento, energia passando na água. Ela não é algo em si. Ela perpassa pelo mar sem mover a água para adiante. Se isso acontece, então nós, que somos manifestações cármicas, não somos mais do que energia passando na superfície do universo. Nós somos um movimento. O carma fez surgir essa manifestação como uma onda extemporânea, evanescente e fulgaz. Nós, como seres humanos, não temos a tranquilidade dos pássaros e dos peixes, para eles está tudo bem. Uma borboleta que a gente vê passando aqui pela floresta tem um ou dois dias de vida, é muito fulgaz aquele momento, mas ela não pensa nisso, ela apenas continua, a sua espécie se reproduz e nascem lagartas que vão gerar outras borboletas. Está tudo continuando, mas o homem se angustia pois, ele é uma onda que se apega ao seu “eu”.
Ele entende quem é, vê seu corpo funcionando, vê os outros e, quando ele tem essa percepção, este “eu” dentro dele não quer ir embora de jeito nenhum. Ele tem medo de qualquer alteração que surja por isso o homem tem medo de morrer e porque tem medo de morrer o homem criou as religiões. E as religiões sempre são soluções fantasiosas de continuidade. Continua em algum lugar ou de alguma forma, melhor do que aqui. Tem sempre uma promessa assim. E essas fantasias são extremamente atrativas pois, nós queremos acreditar nelas mesmo que no fundo nós duvidemos.
Nós queremos acreditar para que elas nos salvem da evanescência da nossa identidade, do nosso “eu”. Buda disse que era ilusão, que nós criamos ilusões, que nada disso era verdadeiro, não havia um “eu” real dentro das pessoas mas sim, só ilusões construídas e que portanto todas as coisas são vazias de um “eu”. Nós somos algo muito além disso, só que nós não percebemos e por isso ficamos presos a essa forma de manifestação cármica. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Sobre as prisões

Quando nós viemos para o sesshin e sentamos, a palavra sesshin quer dizer reunir ou consertar a mente, reunir uma mente que está espalhada, reunir num lugar só. Achar o centro, onde estou, estas são as respostas importantíssimas.Quem eu sou realmente? Porque se você souber quem é realmente vai poder fazer até uma operação plástica sem ficar preso porque você já sabe quem é. Você pode ter um determinado bem porque sabe ah, eu preciso de um carro com tais características. E depois você pergunta para esta pessoa que sabe quem é: você está satisfeito com o seu carro? Sim eu estou satisfeito. Você não vai trocar por um novo? Não só quando começar a dar problemas eu vou pensar. É a mente saudável. Ambição sem fim é que é a mente infeliz porque basicamente ela não sabe quem é. Por não saber quem é fica procurando a si mesmo fora ou nas revistas que ditam os modelos de beleza ou nos objetos que trazem felicidades muito curtas, muito temporárias. Eu acho que esta é a resposta essencial para a pergunta que foi feita. Onde é que existe o equilíbrio? Existe o equilíbrio na resposta a pergunta: quem sou eu? Então saber o que fazer, como e de que maneira, sem estar preso num redemoinho.

Quem souber quem é pode entrar no cassino, jogar na roleta, perder e sair, sem estar preso ao jogo da roleta. Quem sabe quem realmente é pode ir ao jogo de futebol e vibrar com o gol e sair do campo nem triste nem alegre. Triste porque perdeu ou alegre porque ganhou. Simplesmente partilhou com amigos um bom tempo ali e torceu, mas depois não está triste nem alegre porque ele não é o time. Esta é a diferença. Isto é muito difícil. Porque você vai perguntar para a pessoa quem você é e ele é capaz de responder assim: eu sou flamengo. Não é mais ele. Ele é flamengo. Isto é que é importante. É claro que quando a pessoa pratica espiritualmente há uma tendência a se distanciar das situações aprisionantes. O budismo aponta para esta liberdade. Liberdade dos aprisionamentos e dos automatismos.


Trecho, palestra "O Passaporte", disponível em www.chalegre.com.br/zendo em Textos.