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domingo, 16 de outubro de 2016
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
Pra quê o budismo foi criado? (Bodhidharma Parte II)
(continuação)
E depois que Bodhidharma foi para a caverna, muitos apareceram por lá querendo aprender
com aquele grande e famoso mestre que tinha respondido para o Imperador,
deixado-o confuso. E Bodhidharma não dá atenção a nenhum deles, e
eles quando vêem aquilo, vão embora. Até que Taiso Eka vai até lá e fica na
frente da caverna sem desistir durante 3 dias. No terceiro dia nevava muito, a neve
cobriu os pés de Eka, que fica desesperado, já com fome, sede, e agora frio
excruciante, e então ele corta o braço pra mostrar sua sinceridade, para jurar pelo seu
sangue.
Vendo seu sangue cair na neve, Bodhidharma vai até ele e pergunta:
- Muito
bem, o que é que você quer?
E Eka responde:
- A minha alma não tem paz, por favor,
pacifica a minha alma!
E Bodhidharma responde:
- Me mostre tua alma e eu a
pacificarei.
E Taiso Eka não consegue resposta nenhuma, não consegue encontrar sua
alma. E Bodhidharma diz:
- Pronto, já pacifiquei a tua alma.
Tendo passado por
toda aquela angústia, desespero, de ter chegado até lá, disposto a aprender com um
mestre, depois de tudo aquilo que Eka tinha passado, quando Bodhidharma dá essa
resposta, ele desperta das ilusões, descobre que ele não tem uma alma,
sente-se uno com todas as coisas, compreende internamente o que Bodhidharma estava querendo dizer.
E assim Eka fica como discípulo de Bodhidharma e ele é o 27º patriarca da
nossa linhagem. Bodhidharma é o 26º e Taiso Eka Daioshô, grande mestre, o 27º. E
nós descendemos dessa linhagem de ensinamento.
Então, o quero dizer a vocês é que o budismo foi criado para atender este tipo de desespero, o desespero
de Taiso Eka, "minha alma não tem paz". Isso sim, para isso o budismo voltou sua
atenção. Para isso Buda voltou a atenção porque ele tinha uma angústia, uma angústia existencial muito grande.
Se toda
vida termina em velhice, doença e morte, o que eu estou fazendo aqui? Como é
que eu saio disso? Como é que eu encontro solução para a angústia de enfrentar
essa finitude da vida humana? Essa angústia existencial é que é a angústia de
Buda, e o budismo se voltou para isso, não para o conforto das coisas pequenas da
vida.
Então o budismo e em especial o Zen só tem sentido se nós estamos
procurando a iluminação. Só aí tem sentido você sentar e realmente se esforçar
como a gente demanda num Centro Zen, caso contrário, não é o lugar para
nós. Se é só consolo, há outros lugares.
Se é para se sentir abençoado para ganhar
dinheiro, também tem outros lugares. Se quer qualquer solução mágica também há
outros lugares. Mas no budismo não existe nada assim.
quarta-feira, 8 de julho de 2015
O ESFORÇO CORRETO
Meu
primeiro professor, Igarashi Roshi - naquela época Tokuda Sensei, dizia uma
frase muito interessante: “com esforço não se consegue nada, mas sem esforço,
aí sim é que a gente não vai a lugar nenhum”. Então, se você sentar se
esforçando, se você se esforçar tentando conseguir alguma coisa com a sua mente
ali no zazen, tudo o que eu vou ver
vai ser aquela tortura, aquela cabeça que balança, aquela necessidade
angustiosa de trocar e posição frequentemente, porque tem uma agitação dentro
da cabeça que passa para o corpo. Eu penso: será que o kyosaku vai ajudar? Não, talvez só momentaneamente. E como eu sou
preguiçoso, acabo ficando sentado.
Então,
se você se esforçar, não vai conseguir nada. Se você sentar denodadamente à
procura da iluminação: “eu vou despertar, eu vou me iluminar”, você não vai se
iluminar, porque você tem uma grande ambição.
Agora,
se você não fizer esforço nenhum e fizer uma prática quando anda, quando
olha para as árvores, quando vai até a lagoa, quando come, quando faz sesshin, quando vai à Sangha e senta, se você não fizer
esforço diariamente quando lava a louça, sentir a água nas mãos, prestar
atenção e ficar ali naquele momento, se você não fizer esse esforço, também não
vai a lugar nenhum. Então, a frase é muito certa: “com esforço não se consegue
nada, mas sem esforço, aí mesmo é que a gente não vai a lugar nenhum”.
quarta-feira, 22 de abril de 2015
SAINDO DO CASULO
Então poderíamos analisar um pouquinho
mais essa questão da compreensão. Eu estava explicando há pouco, voltemos à
analogia do mar, nós somos ondas tocadas pelos ventos do carma, quem é que
formou as ondas? O carma. O carma é o vento que forma as ondas do mar. A onda é
puro movimento, energia passando na água. Ela não é algo em si. Ela perpassa
pelo mar sem mover a água para adiante. Se isso acontece, então nós, que somos
manifestações cármicas, não somos mais do que energia passando na superfície do
universo. Nós somos um movimento. O carma fez surgir essa manifestação como uma
onda extemporânea, evanescente e fulgaz. Nós, como seres humanos, não temos a
tranquilidade dos pássaros e dos peixes, para eles está tudo bem. Uma borboleta
que a gente vê passando aqui pela floresta tem um ou dois dias de vida, é muito
fulgaz aquele momento, mas ela não pensa nisso, ela apenas continua, a sua espécie
se reproduz e nascem lagartas que vão gerar outras borboletas. Está tudo
continuando, mas o homem se angustia pois, ele é uma onda que se apega ao seu
“eu”.
Ele entende quem é, vê seu corpo
funcionando, vê os outros e, quando ele tem essa percepção, este “eu” dentro
dele não quer ir embora de jeito nenhum. Ele tem medo de qualquer alteração que
surja por isso o homem tem medo de morrer e porque tem medo de morrer o homem
criou as religiões. E as religiões sempre são soluções fantasiosas de
continuidade. Continua em algum lugar ou de alguma forma, melhor do que aqui.
Tem sempre uma promessa assim. E essas fantasias são extremamente atrativas
pois, nós queremos acreditar nelas mesmo que no fundo nós duvidemos.
Nós queremos acreditar para que elas nos
salvem da evanescência da nossa identidade, do nosso “eu”. Buda disse que era
ilusão, que nós criamos ilusões, que nada disso era verdadeiro, não havia um
“eu” real dentro das pessoas mas sim, só ilusões construídas e que portanto
todas as coisas são vazias de um “eu”. Nós somos algo muito além disso, só que
nós não percebemos e por isso ficamos presos a essa forma de manifestação cármica.
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