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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A ideia de finitude do eu nos angustia



A voz de Budha não é extraordinária, ela está aqui todo o tempo. Mesmo nós estando aqui, vivos, a perdemos. Somos tocados pelos ventos das paixões, pelo nosso funcionamento, pelos nossos medos, ansiedades, desejos, por tudo. Nós somos impulsionados por tudo isso, é natural que seja assim. Ao mesmo tempo que essa mente potente é nossa grande oportunidade, ela também é nossa grande perdição. Temos uma grande capacidade de perceber, raciocinar, que não é a mesma de um animal, é mais sofisticada. O animal pode esquecer e viver do seu desejo imediato, e isso dá a ele uma vida plena naquele momento e retira o medo da morte, por exemplo, porque ele não a considera. Mas nós sabemos que vamos morrer e nosso eu desespera-se com essa ideia, ele se angustia. (continua)

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

APENAS SENTE E ACEITE (Zazen Parte III)



Aluno – Eu só consigo meditar com olhos fechados, eu vou visualizando cores que vêm aleatórias e me concentro nas cores e nos sons...isto está errado?

Monge Genshô – Não é para se concentrar em nada. Isso não é zazen, ainda não é zazen. Você está vendo coisas, ilusões, e se concentrando nelas. Não é para se concentrar nas ilusões que surgem, mas na realidade tal como ela é. Então nós abrimos os olhos levemente, semicerrados para baixo, não focamos em nada, também é errado abrir os olhos e começar a olhar, procurar cavalinhos, elefantes, nas frestas da parede etc. Um bom exercício é olhar para a parede e não procurar ver nada, desligar, é só isso que existe, as coisas tais como são, na sua frente, não as coisas que você fabrica na sua mente. Onde estão as imagens que nós vemos nas nuvens? Na mente. 

Então você não tem que projetar as imagens da sua mente, procurar ver cores ou se concentrar em algo. Não é para se concentrar. Zazen não é concentração simples. Zazen é aceitar tudo que vem. Eu estou aqui olhando, mas estou ouvindo um pássaro lá fora. Eu aceito. Um carro subiu a ladeira. Eu aceito. Começou a chover. Eu aceito. Eu não julgo nada. Um mosquito veio, voou e me picou. Eu aceito (afinal de contas ele precisa comer). Se eu fizer isso, aceitar as coisas tais como elas se apresentam, eu estou treinando para a vida. Se eu fechar os olhos eu aumento as probabilidades de sair daqui deste lugar, porque eu quero ficar aqui, neste lugar, no presente. Com os olhos um pouco abertos, eu ainda estou aqui, vendo este local, que é a realidade. Eu quero aceitar a realidade, os sons reais, as coisas como são. Não julgá-los, não apreciá-los, não é para apreciar, é só para aceitar. Por isso meditação é com os olhos abertos, não é com os olhos fechados. Esqueça o objetivo de “me concentrar”. Sente e aceite. Só. Só exista. Uma árvore que está ali fora, passa o vento e ela balança. Ela aceita. Seja como a árvore, aceite os ventos.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

SAINDO DO CASULO

Então poderíamos analisar um pouquinho mais essa questão da compreensão. Eu estava explicando há pouco, voltemos à analogia do mar, nós somos ondas tocadas pelos ventos do carma, quem é que formou as ondas? O carma. O carma é o vento que forma as ondas do mar. A onda é puro movimento, energia passando na água. Ela não é algo em si. Ela perpassa pelo mar sem mover a água para adiante. Se isso acontece, então nós, que somos manifestações cármicas, não somos mais do que energia passando na superfície do universo. Nós somos um movimento. O carma fez surgir essa manifestação como uma onda extemporânea, evanescente e fulgaz. Nós, como seres humanos, não temos a tranquilidade dos pássaros e dos peixes, para eles está tudo bem. Uma borboleta que a gente vê passando aqui pela floresta tem um ou dois dias de vida, é muito fulgaz aquele momento, mas ela não pensa nisso, ela apenas continua, a sua espécie se reproduz e nascem lagartas que vão gerar outras borboletas. Está tudo continuando, mas o homem se angustia pois, ele é uma onda que se apega ao seu “eu”.
Ele entende quem é, vê seu corpo funcionando, vê os outros e, quando ele tem essa percepção, este “eu” dentro dele não quer ir embora de jeito nenhum. Ele tem medo de qualquer alteração que surja por isso o homem tem medo de morrer e porque tem medo de morrer o homem criou as religiões. E as religiões sempre são soluções fantasiosas de continuidade. Continua em algum lugar ou de alguma forma, melhor do que aqui. Tem sempre uma promessa assim. E essas fantasias são extremamente atrativas pois, nós queremos acreditar nelas mesmo que no fundo nós duvidemos.
Nós queremos acreditar para que elas nos salvem da evanescência da nossa identidade, do nosso “eu”. Buda disse que era ilusão, que nós criamos ilusões, que nada disso era verdadeiro, não havia um “eu” real dentro das pessoas mas sim, só ilusões construídas e que portanto todas as coisas são vazias de um “eu”. Nós somos algo muito além disso, só que nós não percebemos e por isso ficamos presos a essa forma de manifestação cármica. 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

CORTANDO OS FIOS DA IGNORÂNCIA



O segundo voto é: “As paixões são inexauríveis, eu faço voto de extingui-las todas”. 

As paixões, os ventos que me arrastam de um lado para o outro são inexauríveis, eu reconheço, são inextinguíveis, estão sempre renascendo, mas faço voto de extinguí-las todas. Esse é um dos símbolos de raspar a cabeça dos monges. Os fios da ignorância ou das paixões estão sempre renascendo, então a gente pega a gilete e raspa e eles continuam lá, renascendo, sempre renascendo. Então você rememora isso quando raspa a cabeça, as paixões estão ai renascendo dia a dia. Minha vontade de ser bonito tá sempre renascendo ai eu vou lá e raspo. Isso é o que a gente chama prática, prática simbólica dos Monges. É mais difícil para as Monjas, eu tenho certeza. Não é Jikihô san?
Monja Jikihô: Eu acho que essa é a menor das vaidades.
Monge Genshô: Acho que é mesmo.