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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Aluno não é discípulo





Retornando, nós temos um engano a respeito de "a prática é a iluminação". Isso é uma maneira de ensinar para desarmar aquele objetivo egóico. Mas na verdade, a prática é um meio e não é a iluminação, pois você pode ser muito bom praticante formalmente e não ter iluminação nenhuma. Às vezes a gente vê monges e ou praticantes e você pensa, "ah, ele tem tal graduação, chegou a tal ponto, está treinando há vinte anos". Aí ele grita com raiva ou ri das pessoas quando erram, ou qualquer coisa assim. Lhe falta uma qualidade compassiva. Na verdade, faltou algo. Porque a iluminação não é assim. Nós deveríamos procurar quem possa nos guiar no caminho do despertar. Então mestres de iluminação são raros. Nós temos que procurar denodadamente.

Quem viu aquele filme "Zen", sobre a história de Dogen? Lembram que ele vai à China procurando mestres e quantas vezes ele se desilude, a tal ponto de pensar em  desistir? Até que ele encontra aquele que nós recitamos o nome hoje, Tendô Nyojo, e ele vê em Tendô Nyojo um mestre que pode conduzi-lo. Ele fica com ele por cinco anos praticando. Mas ele já praticava desde os doze anos de idade, já era monge desde os doze anos de idade. Naquela época podia-se entrar num mosteiro muito cedo, um órfão como ele era. O problema não mudou, pois em mil duzentos e tanto Dogen já sentia isto e escrevia: “que lamentável que os monges de hoje não sejam como os antigos, que os mestre não sejam como os mestres de outrora". E lamenta a pobreza espiritual das pessoas que ele encontra.

Na verdade, essa é uma queixa de sempre. Sempre foi assim e continua sendo hoje. Nós temos que olhar com cuidado. Há um ditado do budismo tibetano "examine seu mestre por oito anos antes de aceitá-lo". Observe-o durante oito anos e depois de oito anos: "ah sim, vou aceitar este como meu mestre, eu realmente quero aceitar". É interessante falar um pouquinho sobre a diferença entre aluno e discípulo. Aluno não é problema, nesse momento todos vocês são meus alunos. Todo mundo sentou aqui e aceitou ouvir uma aula, não é? Então todo mundo é aluno e eu neste momento, professor. Explico, vocês aceitam. Você pode sair e dizer: "ah gostei disso, não gostei daquilo outro, não concordei com aquilo", não tem problema nenhum, você é aluno, vem eventualmente às palestras e só. Não há nenhum compromisso ou vínculo especial.

Mas discípulo é outra coisa.

Quando alguém diz: "eu queria que o senhor fosse meu mestre", eu entendo: "você está pedindo para ser meu discípulo". É uma relação mais próxima. Quer dizer o que? O aluno me acompanhará, estará sob a minha orientação constante, e o que eu disser não será discutido.  Se eu disser "esse chão é de madeira", você tem que olhar para o chão e dizer: "ele diz que é de madeira. Então minha concepção de cerâmica está errada. Cerâmica é madeira. Por quê ele disse que cerâmica é madeira? Vou ter que entender isso”. Mas não há uma contestação. Tem um "eu é que devo estar enganado, então vou pensar a respeito". Aí daqui a dois anos, se eu entender porquê cerâmica é madeira, digo: "ah, muito obrigado por ter me ensinado aquilo".

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Eu não sei


Pergunta:    Um depoimento muito bonito que uma pessoa, que  estava num estado mais elevado... isso pode ser considerado Dharma também? Ou é só quando o monge autorizado fala, que é Professor do Dharma, que podemos dizer que é Dharma?

Monge Genshô:  Acho que eventualmente pessoas dizem coisas muito pertinentes e vamos ter que ouvir e ter o discernimento de que ensinamento “reconhecido” tem que ser dado por alguém que recebeu a transmissão. Isso é pelo menos um padrão de qualidade para se dizer: “ isso aqui nós vamos considerar”. Mas mesmo assim, é como se dizia em latim, cum grano salis – com um grão de sal. Porque você aceita um professor e começa a ouvi-lo. Ele vai ajudar você dentro do caminho, na medida do que ele conhece e sabe. Mas haverá algum momento em que o seu caminho não é exatamente igual ao do professor. Eu posso falar sobre experiências que eu tive, mas existem experiências que eu não tive, e eventualmente alguém me pergunta: “O que eu faço nessa situação?” E eu respondo: “Eu não sei. Você vai ter que decidir sozinho, porque é seu carma, sua vida, seu momento. Eu não sei.” Eu posso dizer que comigo aconteceram tais e tais coisas e levo e digo isso, para que você considere que existem essas possibilidades. Posso ajudar você a pensar, mas não posso decidir por você. Até porque é uma responsabilidade imensa.

Esses dias um rapaz disse: “Ah, eu briguei com minha namorada. Eu a procuro, peço desculpas, volto, não volto, tento que ela volte, tenho medo que ela não volte”. Eu disse: “Eu não sei.” São tantas coisas que eu não sei sobre esse relacionamento, do futuro. Como é que eu posso dizer? Não sei. Posso dizer uma coisa com certeza: se acabar, você vai sofrer um pouco e depois de determinado tempo, isso vai passar. Isso eu sei. Que tudo acaba passando.  Se no futuro você vai dizer, “ah, não podia ter perdido aquele relacionamento”! Isso eu não sei. Pode ser. Como eu poderia saber? Então, o Dharma é uma porção de ensinamentos bem consolidados sobre impermanência, causa, efeito, sobre as marcas da existência, sobre o carma, mas ele não é uma solução para tudo. E tem várias coisas  que Buda evitou responder. Disse: “Eu não vou responder a essa pergunta”. Deus existe ou não existe? Essa pergunta não faz parte do budismo. Trata-se do tipo de assunto não verificável,  se é não verificável, então não faz parte do objeto de estudo do budismo. No momento em que for verificável, sim.

Pergunta: Então o Dharma seria somente fenomênico?

Monge Genshô: Não. Ele também tem conceitos abstratos, mas que são lógicos. Por exemplo, o conceito de pecado não existe no Budismo. Porque não existe conceito de pecado? Porque não existe alguém a quem você deva obedecer e que vai taxar de pecado se você fizer isso ou aquilo. Por isso não existe o conceito de pecado. Existem consequências. Qual é a consequência do seu ato?  É isso. A ética do Budismo é construída em cima das consequências. Quais são as consequências?

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Tecnologia


Pergunta – Mas e se a pessoa não quiser prestar as reverências ou acender velas?

Monge Genshô – Se você acender velas para uma estátua não estará fazendo mal algum e se não quiser acender, não acenda. Mas a atitude budista mais correta é a de fazer o que as pessoas estão fazendo, então se você está junto de pessoas que esperam que você faça uma reverência e acenda velas, é isso que deve fazer, você não deve chocar, contrariar ou criar conflitos. Devemos procurar a harmonia.

Pergunta – A sociedade tecnológica está tomando conta do mundo hoje. O budismo vê esse avanço tecnológico?

Monge Genshô – A tecnologia é algo maravilhoso, mas é aética por natureza, por exemplo, uma faca pode tanto ser usada para cortar pão como para matar uma pessoa. A tecnologia é um instrumento e como tal pode ser usado para o bem e para o mal. O avanço tecnológico liberou o homem, veja bem, há duzentos anos 90% das pessoas estavam no campo produzindo comida. Quando eu nasci a sessenta anos atrás, 30% das pessoas já estavam nas grandes cidades e hoje esse quadro inverteu-se totalmente, temos 90% das pessoas nas cidades. Nos EUA menos de 3% das pessoas trabalha no campo produzindo alimentos para todo o país e ainda para exportação. A indústria ocupa por volta de 13% das pessoas, a grande maioria trabalha em serviços, é por isso que olhando para as mãos das pessoas nessa sala percebemos que ninguém tem calos ou sujeira embaixo das unhas.

Hoje em dia não se morre aos trinta anos de alguma doença desconhecida. A tecnologia melhorou nossa qualidade de vida. O bom seria que esse tempo a mais proporcionado pela tecnologia fosse ocupado com mais leituras, mais dedicação para olharmos para dentro de nós, mais estudos e para ter um nível de informação melhor. Antes da invenção da imprensa quem tinha oportunidade de ler livros? Santo Agostinho fez um comentário sobre Santo Ambrósio: “O Bispo Ambrósio é o homem mais culto do nosso tempo, imaginem que ele é capaz de ler sem mover os lábios”. Hoje, meu filho de sete anos é capaz de ler sem mover os lábios. Você pode ligar a TV para ver um documentário de qualidade, assistir uma ópera ou pode assistir um programa de baixa qualidade moral, é você quem escolhe. Toda a tecnologia é assim.

Respondendo sua pergunta, o budismo não faz julgamentos sobre tecnologia. Ainda temos tecnologia de má qualidade, por exemplo, produzimos energia queimando carvão e poluindo a atmosfera. Temos muitos estudos na área de produção de energia, mas tudo muito no início. Nossa produção de energia ainda é incipiente, não poderíamos dizer que a partir de amanhã não queimaríamos combustíveis fósseis, isso pararia o país.