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segunda-feira, 23 de junho de 2014
Quem é este que está assim?
Pergunta – Nos textos do site, em vários deles há uma questão que o senhor coloca, por exemplo, se eu tenho alguma manifestação psicológica de raiva, de medo, o senhor aconselha a gente a fazer a pergunta: “Quem é este que está com raiva?” O senhor poderia esclarecer, porque pra mim é confusa essa questão. A minha dúvida na verdade é “quem é esse que está com raiva”?
Monge Genshô - Pois é. Quem é este que está com raiva? Se eu pensar “quem sou eu”, eu vou ver que meu “eu” é uma construção, eu construí o meu “eu”.
Para entender melhor, imagine que vocês perderam toda a memória e estão deitados numa cama de hospital, depois de um acidente, e não sabem mais quem são as pessoas, sua família, coisa nenhuma. Aí alguém chega e diz: “Você é fulano. Lembra disso? Lembra daquilo?” Não, não lembra nada. Aí mostramos fotografia, etc, e tentamos reconstruir uma memória, para a pessoa ter uma noção de quem ela é, porque essa noção toda, é uma construção que você fez. É você que acreditou durante a sua vida que você é seu nome, sua personalidade, isso e aquilo. Mas quando você fica com raiva, como é que é? Alguém vem e insulta você. Quem fica com raiva? Minha construção. Ela é que está abalada em seus fundamentos.
Eu sempre me vi como honesto, alguém vem e me chama de desonesto, fico bravo, porque ele está abalando os fundamentos do meu “eu”, e meu eu é precioso pra mim. Eu preciso dele para transitar no mundo. Eu não estou dizendo que está errado você ficar irritado, está muito certo na verdade, porque você precisa desse eu honesto para funcionar no mundo. Se todo mundo começar a dizer que você é desonesto, seu “eu” de funcionamento no mundo está muito abalado, ou deveria.
Então, a identidade que você assumiu, é a identidade que pode ser abalada, quem é que você defende? A construção. Então, recomendo você a perguntar: “quem é que se ofende”? É como alguém que diz assim: “Ah, corintiano é isso”. E você é corintiano. Você fica ofendido porque? Quem fica ofendido? O corintiano dentro de você, porque você assumiu que é corintiano. Se você não tivesse assumido essa identidade, não haveria essa ofensa. Então a pergunta “quem é que se ofende, quem é que tem raiva, quem é que tem ódio”, ela tem muito sentido não tem? Porque quem se ofende é uma construção mental, essa construção mental foi você quem fez, esse “quem” é construído, não é real.
Por isso quando alguém se ilumina fica difícil ofender. Fica difícil até matar, como o Mestre Zen que estava sentado, a cidade foi invadida e veio um general com a espada suja de sangue e o Mestre Zen nem se abalou, continuou lá no templo sentado meditando. O general entrou na sala e disse: “você não vê que eu posso matá-lo em um instante”? E o Mestre disse: “E você não vê que eu posso morrer em um instante”? Eu posso morrer. Não estou agarrado à vida, não tem problema, então me matar ou não me matar não faz diferença. Então se você quer o medo, não vai vê-lo.
Porque a identidade e o amor à vida, àquele evento daquele instante é irrelevante. Eu posso morrer aqui nesse instante, vai acontecer a qualquer momento.
(perguntas em palestra pública em Goiânia, decupadas da gravação por Rachel San)
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terça-feira, 3 de junho de 2014
Repetições sem fim
(continuação da palestra)
Nós temos que substituir as crenças por experiências. Então o budismo é experiencial. Por isso o Zen faz o que nós vamos fazer amanhã, primeiro você senta nesta almofada de frente para a parede e descobre QUEM é você. Descubra o fundamento da sua existência. Onde você estava antes dos seus pais terem nascido? Quem eu sou realmente, além desse nome e forma? Quem eu sou além de Joana, Pedro, Jairo? Quem eu sou? Se eu puder saber quem eu sou, então posso engolir o universo. Mas enquanto eu estiver acreditando na minha individualidade, no meu “eu” como uma coisa sólida, eu estou muito perdido, porque eu tenho mais uma construção, mais uma ilusão, criada pelo funcionamento da minha mente. Eu “sou” aquilo que eu acredito, aquilo que meu pai me disse. Minha mãe me deu o nome de José, então sou José. Quem é você? José. Não, José é um rótulo. Eu quero saber quem é você, além desse nome. Eu sou isso que você está vendo, é verdade? E se eu retirar esse braço, será menos você, ou você continua aí? Não, eu continuo aí. Então você não é seu corpo, porque eu tirei o braço e você continua. Você nem diminuiu...quem é você fora do seu corpo, fora do seu nome, fora de tudo o que as pessoas acreditam que são? Eu sou advogado, doutor, operário, consultor, qualquer coisa, quem é você além dos atributos? Quem é você de verdade? Essa é a pergunta que tem que ser respondida.
À medida que nós vamos andando na vida nós vamos criando carma. Nós já somos produtos de carma, porque nós não estaríamos aqui se não houvesse um efeito anterior. Existe algum efeito sem causa? Não. Qualquer efeito que exista, tem uma causa. Se vocês estão sentados aqui, existe uma causa pregressa. Então, de onde veio essa personalidade, esse apego, esse desejo, essa tendência, essas coisas que vocês sentem desde a infância? Foram criadas aleatoriamente, ou por acaso são efeitos do passado? A lógica diz: são efeitos do passado. Então há continuidade nas existências. A essa continuidade na existência, vamos chamar CARMA.
A onda cármica, ela não carrega nome, identidade, não tem passaporte, não tem sobrenome, não sabe quem é, no entanto se manifesta aqui e nasce, e aí mamãe dá um nome, e você vai descobrindo aos poucos, olhando pra dentro de você, “eu sou assim, eu tenho tendência pra isso, eu tenho tendência para aquilo. Você é uma grande cozinheira, não é? Mas de onde veio este talento? Não foi sempre assim, desde pequena? De onde veio? Surgiu assim? E quando você senta uma criança talentosa num instrumento musical, você olha o prodígio e diz: “Como pode? Como é possível isso?” Você acha que aconteceu ali como um milagre, ou que tem uma causa pregressa? Como Mozart podia compor musicas aos 5 anos de idade? Como? Então é evidente para nós que existe continuidade de manifestação cármica, e vocês são continuidade de carma muito velho, senão não seriam seres humanos, seriam seres mais primitivos.
Agora, vocês vão continuar repetindo sempre as mesmas experiências? Porque é isso que nós fazemos na vida. Nós repetimos experiências sem fim. As pessoas fazem uma coisa, depois repetem o mesmo erro de novo, depois de novo. É ou não é? Nós não somos assim, seres apaixonados? Nos apaixonamos uma vez, aí acaba aquele amor e a gente sofre. Aí o que fazemos? Nos apaixonamos de novo. O monge ouve muito essas coisas, porque senta alguém na frente e diz: “Estou sofrendo muito”... Às vezes o sofrimento é tão grande que eu choro junto. Porque eu sinto que dói, porque também já aconteceu comigo. Mas eu sei uma coisa com certeza: é só a gente esperar 2 anos. E a mesma pessoa vem e eu digo: “E aí, e aquele relacionamento?” E ela responde: “Ah, ainda bem que eu me livrei daquela coisa horrorosa, só foi problema aquilo para mim, mas agora estou com uma pessoa...” Até o próximo desastre. Porque nós somos assim, nós somos repetidores de experiências, porquê? Porque não mudamos o nosso carma, aí repetimos.
(continua)
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terça-feira, 12 de junho de 2012
O que é que escuta?
"Enquanto você estiver fazendo o zazen, nem despreze nem acaricie os pensamentos que surgem; apenas busque sua mente, a própria fonte destes pensamentos. Deve compreender que tudo o que aparece na sua consciência, ou é visto por seus olhos, é uma ilusão, de uma realidade que não dura... Por isso não deve nem amedronta-se nem fascinar-se por tais fenômenos. Se conservar sua mente tão vazia quanto um espaço, sem manchar-se com assuntos estranhos, nenhum mau espírito poderá perturbá-lo, mesmo no seu leito de morte. Enquanto se empenhar no zazen, porém, não conserve nenhum.
O Kannon Bodhisattva é assim chamado porque atingiu a iluminação pela percepção (isto é agarrando a fonte) dos sons à sua volta.
No trabalho, no descanso, nunca deixe de se esforçar por compreender quem é que escuta. Mesmo que seu questionamento se torne quase inconsciente, você não descobrirá quem é que escuta, e todos os seus esforços serão frustrados. Entretanto, os sons poderão ser escutados, por isso questione-se num nível ainda mais profundo. Finalmente cada vestígio de consciência do eu desaparecerá e sentir-se-á como um céu sem nuvens. Dentro de si mesmo não encontrará mais o "Eu", nem descobrirá ninguém que escute. Essa Mente é como um vazio, entretanto não tem nenhum ponto que possa ser chamado de vazio. Este estado é muitas vezes tomado erroneamente por auto-compreensão. Mas continue a perguntar-se ainda mais intensamente, "Agora, quem é que escuta?" Se você penetrar e penetrar no fundo desta questão, esquecido de tudo mais mesmo esta sensação de vazio desaparecerá e ignorará tudo mais — uma total escuridão prevalecerá. Não pare aqui, continue a perguntar com toda sua energia, "O que é que escuta?" Somente quando houver exaurido completamente o questionamento é que a pergunta irromperá: agora sentir-se-á como um homem que volta da morte, É a verdadeira percepção. Verá os Budas de todos os universos face a face e os Patriarcas do passado e do presente. Examine-se com este koan: "Um monge perguntou a Joshu: "Qual é o sentido da vinda de Bodhidharma à China?" Joshu respondeu: "O carvalho no jardim". Se este koan deixá-lo com mínima dúvida, precisa recomeçar a questionar-se, "O que é que escuta?"
Se você não chegar à compreensão nesta vida presente, quando chegará? Tendo morrido não será capaz de evitar um longo período de sofrimento nos Três Caminhos do Mal. O que está obstruindo a realização? Nada além de seu pusilânime desejo de verdade. Pense nisto e esforce-se ao máximo.” (texto)
De o Sermão de Bassui sobre a MENTE UNA
Mestre Zen-Rinzai Bassui Tokusho
Mestre Zen-Rinzai Bassui Tokusho
Final
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