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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Causalidade, história, carma.


3) O senhor poderia explicar a diferença entre causalidade história e carma?

Monge Genshô – Literalmente carma significa ação, ação intencional que produz efeitos e que retornam para você. A ação não intencional não causa um efeito que você incorpore. Aquilo que você elabora, planeja, age ou fala é que causa retorno. Os outros acontecimentos no mundo são causalidades que ocorrem porque você é um ser humano. Porque você manifestou-se nesse mundo, em um país onde tem terremoto, você está sujeito ao tremor, mas isso não é causado por seu carma. Essa é a diferença entre causalidade e carma.

Acontecem coisas boas ou ruins conosco dependendo do que semeamos, mas isso pode levar muito tempo para frutificar, pode até mesmo não frutificar agora, mas como você pertence ao universo e isso irá  frutificar no universo, como você faz parte dele, será atingido por aqueles resultados.

Somos atingidos por resultados culturais, econômicos etc., causados por nossos antepassados. Muita coisa do que acontece faz parte do nosso “carma coletivo” e não necessariamente daquele que eu causei pessoalmente. Podemos pensar - “eu não mereço” - no entanto, esse “eu” é ilusório e como eu pertenço ao todo e como o todo reage aos acontecimentos, então o que acontece comigo eu mereço, pois sou ser humano e estou aqui. Não adianta dizer “não fui eu quem fez”. Um bom exemplo é o de quando se é criança e se faz um travessura e perde-se um dedo com quatro anos. Agora, já adulto, olho para minha mão e não me lembro do que fiz nem de como perdi o dedo. Porque o “eu” adulto está pagando pela criança que fez a travessura e perdeu o dedo? Mesmo que você não lembre, você tem as consequências. Isso acontece vida após vida.

Pertencemos a um grande universo, não era meu “eu” na vida anterior, era outro indivíduo que fez coisas que provocaram um carma que se manifesta nessa vida e que tem determinadas marcas. Como sou herdeiro disso, sofro as consequências boas ou ruins. Temos consequências de doenças em nossas vidas de que pensamos: “por que mereço isso”? Você não está ausente de todo o mal do mundo, nem de todo o bem; você pertence ao universo e por isso acontecem essas coisas com você. Você participa de tudo que é bom ou ruim, mesmo que você pense que não tem nada a ver com isso.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Samskara



Karma significa em sânscrito, ação. Conseqüencia é Vipaka. Literalmente, em sânscrito, Vipaka quer dizer fruto.

Na verdade quando as pessoas dizem “isso é karma”, elas dizem isso é “Karma Vipaka”. São os frutos do karma. Karma diz que você comete uma ação, faz alguma coisa e essas sim terão uma conseqüência, gerarão fruto. E esse fruto vai germinar quando houver condições propícias. Não é automático, pode não suceder nesta vida.

O fruto não precisa acontecer nesta vida, nem imediatamente. Pode levar muito tempo. Você insulta uma pessoa, não acontece nada. Se você fizer isso numa cidade e for embora pra outro lugar bem longe o fruto dessa ação, que normalmente é a raiva da outra pessoa, não atinge você. No entanto não significa que essa ação e seu fruto não está guardado. Nós dizemos então que são sementes. Sementes que estão esperando.

Sementes que irão frutificar quando houverem condições propícias. Aí sim haverá um fruto se houver água, terreno, etc. Por ex. se houverem condições propícias e você encontrar essa pessoa, num determinado momento, no futuro, aí pode ser que esse fruto aconteça.

No entanto, dentro de você há uma coisa que aconteceu com seu insulto. Em sânscrito, chama-se “Samskara”: a “marca cármica”. Essa é a marca que ficou dentro de você, é o seu hábito. São energias de hábito, que estão dentro de você.

Então você insultou, não houve fruto direto. Mas há um hábito, o hábito de insultar. A mente que ofende. Samskara, a marca cármica, as energias de hábito.

Essas energias são sulcos dentro da sua mente. São marcas. Essas marcas tendem a se repetir. Porque você marca e volta. Por ex.: eu tenho um vale, um terreno. Aí chove, a água corre no terreno. No início é um filetezinho, mas se você corta a grama, etc, o filetezinho arrasta um pouquinho de terra e faz um sulco, uma marca. Quanto mais chove, mais água corre ali, mais funda fica a marca. No fim, é o grand cannyon. É uma enorme marca inescapável. A água que cai vai ao fundo e não há nada que mude, e a terra foi levada e virou um grande buraco e não tem conserto. Isto é Samskara. A marca, as energias de hábito, criam sulcos, esses sulcos nos marcam e tendem a se repetir.

Á medida que eles vão se repetindo, mais fortes ficam as energias de hábito. Então a pessoa que fez o insulto pode não ter o fruto da ação mas ela criou uma marca que vai se aprofundando e vamos dizer assim, no limite, pode ser uma pessoa raivosa que está sempre insultando todo mundo. Eu conheço pessoas assim. Não consegue escapar da situação de estar sempre criando conflitos, e, qualquer coisa que acontece, explode em insultos. Não é isso? Extremamente destrutivo e no fundo essas marcas, as energias de hábito acabam gerando um próprio fruto que é a marca cármica, o Samskara.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Repetindo as mesmas vidas



P. Mas a gente vê este ego como uma coisa sólida, eu tinha botado um dente de leão no altar e parecia uma coisa só, mas não é, na hora que a gente dá um soprão isto se espalha e aí cadê este ego?
R. É exatamente assim.. a pergunta de.Shuryu Susuki é para onde vai meu punho quando eu abro a minha mão? Meu punho é só uma formação, mas para onde vai quando eu abro a minha mão? O ego só existe como potência, como possibilidade de manifestação, de agregados, mas verdadeiramente não nascemos e não morremos, não existe isto, como na imagem que eu fiz das bolhas dentro da garrafa de champagne, é gás carbônico, vai embora? Não, não vai embora. É bolha momentaneamente, mas todo tempo gás carbônico, a analogia não é perfeita porque em termos karmicos estes quantuns de karma se manifestam novamente porque tem grande energia de coesão, não chegamos a dizer que isto é ego, mas você manifesta uma nova vida com as características que você tem porque existe uma coesão desse karma individual, o ego é outro, mas o karma é o mesmo...

P. Tem um jogo do RPG que tem um personagem vai lá queima, constrói, daqui a pouco aquele morre e tem que fazer outro, vai ser outro nome, outro jeito, outra profissão, mas tem alguma essência de quem está construindo que vai ter semelhança, dá para pensar alguma coisa assim?  
R. É mais nítido. A imagem usada no budismo é a da fruta, a semente da manga, Nagasena responde assim num famoso sutra que é o Milindappada, Nagasena responde ao rei Milinda, Milinda provavelmente é o rei Menandro que governou aquela região do Afeganistão depois das conquistas de Alexandre – O Grande, Nagasena é um mestre budista e ele diz para ele: manga tem uma semente se plantamos uma semente nasce outra mangueira que dá mangas praticamente idênticas à mangueira anterior: é a mesma mangueira? São as mesmas mangas ou não? Então as sementes kármicas que nós plantamos manifestam uma vida quase indistinguível da nossa, as mesmas características, os mesmos impulsos, se nós não mudamos os impulsos é a mesma vida ..