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segunda-feira, 14 de maio de 2018

Sobre Carma e Causalidade



Pergunta: O fato disso (depressão) acontecer com determinadas pessoas é carma? É resultado de coisas que elas fizeram?

Monge Genshô: É claro que há leis de causa e efeito no que fazemos, mas o fato de você nascer como ser humano já é uma condição que inclui ficar doente, sofrer, quebrar a perna... Então não precisamos justificar o fato de que alguém quebrou a perna como carma. Não é bem assim, não é carma individual e sim parte da condição humana poder tropeçar e quebrar a perna.

Você é ser humano por causa de carma, mas temos que separar casualidade de carma. Nós estamos aqui, acontece um terremoto, a construção cai sobre nós, somos esmagados e morremos. O que é isso? Carma? Não, é terremoto.

Nós temos que recuar um pouco para olhar, se você nasce em uma determinada família que tem determinadas características já é carma. Se você quer procurar explicação de cada pequeno fenômeno não vai fazer sentido, porque eles estão todos inclusos no carma humano.

Podemos visualizar da seguinte forma: há uma semente de carma, mas ela precisa de condições para germinar. Pode ser que você nasça numa família que tem determinada tendência, mas você, por sua maneira de viver, não desenvolve tal tendência, então aquela semente não tem como germinar. Isto explica bastante esses fenômenos. Nós não devemos procurar o carma como explicação dos fenômenos individuais, mas como uma coisa geral de tendências que podem até nunca germinar. Você pode cometer um crime e viver a vida inteira sem que as condições para que você seja punido apareçam. Pode ser que apareçam numa outra existência porque você levou aquilo, então o carma com o resultado se manifesta numa outra existência que tem uma outra identidade.

É importante entender que ser um ser humano já é carma, estar nesta Terra já é carma, nascer neste país já é carma.

[Trecho de palestra proferida por Monge Genshô Sensei]

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Por que você está aqui?



Se o raciocínio de que todo o efeito tem uma causa é inescapável pelo menos no mundo que nós conhecemos, no universo, nas leis da física, em tudo, na química, no que você quiser, então surge a questão: “por que você está aqui?”. Você está aqui porque teve vontade de vir a um retiro, você quer aprender sobre budismo. Mas a pergunta, por quê? Por que surge isto? De onde vem esse desejo? Por que você não está num bar tomando chopp? De onde vem essa marca esse impulso?
Se você tem essa marca, esse impulso, ele vem de algum lugar, de algum passado. Qual é? Eu não sei, mas ele não pode ter surgido por mágica, surgiu em você e não em outra pessoa. Portanto, para mim você é continuidade de algo.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Causalidade, história, carma.


3) O senhor poderia explicar a diferença entre causalidade história e carma?

Monge Genshô – Literalmente carma significa ação, ação intencional que produz efeitos e que retornam para você. A ação não intencional não causa um efeito que você incorpore. Aquilo que você elabora, planeja, age ou fala é que causa retorno. Os outros acontecimentos no mundo são causalidades que ocorrem porque você é um ser humano. Porque você manifestou-se nesse mundo, em um país onde tem terremoto, você está sujeito ao tremor, mas isso não é causado por seu carma. Essa é a diferença entre causalidade e carma.

Acontecem coisas boas ou ruins conosco dependendo do que semeamos, mas isso pode levar muito tempo para frutificar, pode até mesmo não frutificar agora, mas como você pertence ao universo e isso irá  frutificar no universo, como você faz parte dele, será atingido por aqueles resultados.

Somos atingidos por resultados culturais, econômicos etc., causados por nossos antepassados. Muita coisa do que acontece faz parte do nosso “carma coletivo” e não necessariamente daquele que eu causei pessoalmente. Podemos pensar - “eu não mereço” - no entanto, esse “eu” é ilusório e como eu pertenço ao todo e como o todo reage aos acontecimentos, então o que acontece comigo eu mereço, pois sou ser humano e estou aqui. Não adianta dizer “não fui eu quem fez”. Um bom exemplo é o de quando se é criança e se faz um travessura e perde-se um dedo com quatro anos. Agora, já adulto, olho para minha mão e não me lembro do que fiz nem de como perdi o dedo. Porque o “eu” adulto está pagando pela criança que fez a travessura e perdeu o dedo? Mesmo que você não lembre, você tem as consequências. Isso acontece vida após vida.

Pertencemos a um grande universo, não era meu “eu” na vida anterior, era outro indivíduo que fez coisas que provocaram um carma que se manifesta nessa vida e que tem determinadas marcas. Como sou herdeiro disso, sofro as consequências boas ou ruins. Temos consequências de doenças em nossas vidas de que pensamos: “por que mereço isso”? Você não está ausente de todo o mal do mundo, nem de todo o bem; você pertence ao universo e por isso acontecem essas coisas com você. Você participa de tudo que é bom ou ruim, mesmo que você pense que não tem nada a ver com isso.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Causalidade não é carma



E a cada vida nós esquecemos do nosso “eu”. Porque não existe uma coisa dentro de nós e que é o nosso eu e que carrega carma e que muda de corpo. Não é isso.  Pode desaparecer a terra, o universo inteiro, mas os impulsos cármicos procurarão onde se manifestar em novo universo. É isso que acontecerá.

Então existe também um carma coletivo, você nasce em um país, tem um carma coletivo daquele país. Mas isso é determinado pelo seu carma individual. Você vai pra lá, sente-se atraído para nascer lá.

Já causalidade é outra coisa, não é causado pelo seu carma individual. É uma condição da vida humana, pode acontecer um terremoto ou qualquer coisa e não podemos dizer que isso seja culpa da pessoa ou carma, isso é causalidade, é outra coisa diferente. Você está sujeito a causalidades porque teve carma para nascer humano, e os humanos estão sujeitos a doenças, acidentes, etc.

De certa maneira, contudo, carma tem a ver com causa e efeito. Você tem uma ação que causa frutos, mas em geral estamos dizendo “carma individual”, ação intencional, você fez intencionalmente, isso gera carma individual.

As doenças podem ser as duas coisas. Porque se você tem uma conduta que gera aquela doença, você vai colher os frutos daquele mal. Se você fuma e tem câncer de pulmão, você vai colher os frutos de fumar. É lógico.

Então, existe ação e consequência sim, mas quando dizemos carma normalmente estamos falando de ação intencional, individual, que causa “marcas mentais” que modificam a mente e que portanto modificam a próxima manifestação. É este conjunto que interessa. Nós não chamamos de “alma” porque não há um “eu”, mas existe uma continuidade da onda cármica no mundo. O Budismo não diz que não existe uma continuidade.

Mas, para sua prática, nem precisa acreditar nela, porque o Budismo não pede que você “acredite”. Tudo é raciocínio lógico. Você não precisa aceitar nada.

À medida que você for fazendo boas marcas, sua energia de hábito mudando suas marcas cármicas, você muda seu carma e portanto muda o mundo e você mesmo. E determina a sua manifestação futura. Você muda já nesta vida. Você muda agora. Vai mudando. Na medida que você treina a sua mente de outra forma.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Âmbitos causal e não causal


P: Por que esta afirmação no âmbito da causalidade é correta ?
"Às vezes supõe-se erroneamente que os seres iluminados estão isentos de gerar ou sofrer as consequências cármicas, isto não é o ensinamento budista."

E porque no âmbito não causal estas afirmações não se aplicam como Dogen aponta:
"Se chegarmos à Grande Prática do Caminho, veremos que isto mesmo é o Grande karma. Eis porque não podemos nem afirmar que "Não, o Dharma do karma cessa com a Grande Prática do Caminho," nem "Sim, este Dharma nunca cessa mesmo com a Grande Prática do Caminho." Se erradamente respondermos "Não," também interpretaremos mal o "Sim." "


É realmente muito boa pergunta pois permite explicar . O problema fundamental é o seguinte: a afirmação, está em um âmbito, o da causalidade, neste âmbito:
1) Carma é a lei. (significa "ação" em sânscrito)
2) Carma pessoal é o que gera uma identidade, tal como o carma de Buda.
3) Carma Vipaka são os frutos do carma que um ser experimenta. Quando Buda (depois de iluminado) relata em um sutra que está com dor de cabeça e que isto é fruto de um mau ato seu no passado remoto ao rodar um peixe sobre a cabeça, ele está ensinando no âmbito da causalidade. O mesmo na morte de Nagarjuna que atribui ser esfaqueado a fruto de um carma de seu passado.
4) Vipaka são os frutos no mundo dos atos de todos os seres, no âmbito da causalidade este texto e o ato de você a estar lendo é fruto dos ensinamentos de Buda no passado. Portanto os atos de um Buda geram consequências cármicas no mundo.

Assim vista a frase acima está correta, e é neste âmbito que se faz a primeira leitura do koan da raposa, e por declarar que os iluminados não estão sujeitos a causalidade é que o mestre fica transmigrando por 500 vidas.
A frase de Grande Mestre Hsu Yun "se até mesmo um Buda tem que se preocupar com suas ações, imagine nós"... está no primeiro âmbito, por esta razão foi perguntado como poderia isto ser compatibilizado com a " não dualidade", ora o Mestre não confunde os âmbitos por isso pode falar em ambos. Isto é o mesmo que a analogia da geografia, falar que não existem fronteiras , nem em cima nem embaixo, está certo visto de um satélite, mas no mundo dos mapas, existe em cima e embaixo e fronteiras, não ajuda nada ficar dizendo a um aluno com um mapa que ele é uma fabricação mental e por aí afora, isto deve ficar para depois, quando se olharem fotos de satélite. Se se faz isto no budismo também confundimos os estudantes.

Depois do parinnirvana, morte de Buda, não há mais uma identidade operando e assim não há carma pessoal (carma vipaka), foi justamente por se extinguirem as energias cármicas que a identidade não mais existe e o iluminado se liberou.
Praticamente todo o Cannon Pali budista fala no âmbito da causalidade, os ensinamentos não causais são posteriores, ou declarados como dados secretamente por Buda e escondidos e revelados por Tertons (no caso tibetano seres que os recebem em suas mentes a partir de indícios ou fragmentos de textos) ou escritos posteriormente e ditos como do Buda histórico (Sutras como o do Diamante), ou escritos por mestres que os desenvolveram através de sua realização pessoal (como os textos de Dogen).

Quando se passa para o âmbito do não causal, ou âmbito transcedental, tudo muda, o problema não é declarar o âmbito não causal, Dogen o faz em seu texto numerosas vezes, mas toma o cuidado de declarar ambos os âmbitos, ele não pretende confundir, pretende ensinar, por esta razão o faz.
A insistência em falar no âmbito não causal, para comentar o âmbito causal, assim cria uma respeitável confusão na mente de quem lê, é por isto que digo que não se trata de estar errado, mas sim de usar um método de mensagem que não ajuda o ensinamento budista.
A insistência em dizer que o âmbito causal está errado é uma contradição em termos, porque no âmbito transcedental as declarações certo e errado também não fazem sentido, isto demonstra técnica didática errônea, a qual pode causar grande prejuízo no ensino do Dharma, em um momento se declara errado ou certo algo e a seguir se propõe como única abordagem budista possível a não causal, onde certo e errado não existem. Dogen chega a explicitar isto com clareza em seu texto:

"Se chegarmos à Grande Prática do Caminho, veremos que isto mesmo é o Grande karma. Eis porque não podemos nem afirmar que "Não, o Dharma do karma cessa com a Grande Prática do Caminho," nem "Sim, este Dharma nunca cessa mesmo com a Grande Prática do Caminho." Se erradamente respondermos "Não," também interpretaremos mal o "Sim." "

Notem que Dogen tem o cuidado de ressaltar ambos os âmbitos na tentativa de não ser obscuro.

Então os seres iluminados sofrem consequências cármicas ( como a dor de cabeça do sutra) no âmbito causal, no âmbito não causal já sabemos que a declaração será docetista (Buda não é um homem realmente), "Buda manifesta um corpo para seres com mérito, a dor de cabeça é uma manifestação compassiva para dar um ensinamento..." Uma afirmação transcedentalista muito útil para certo estágio de ensino, mas no qual não se afirma mais nada como sim ou não, e tudo fica como se manifestasse e não manifestasse e assim por diante.

Genshô

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Comentário de Sharon Stone sobre 'carma' irrita China


Sharon Stone cometeu um erro, a saber, confundiu carma com causalidade, muito do que sucede no mundo decorre apenas da condição de sermos humanos, de estarmos aqui ou ali, numa cadeia inextrincável de conexões. Não é possível achar ligação para cada acontecimento com carma individual ou coletivo. Por sermos seres humanos estamos sujeitos a múltiplos acontecimentos naturais que não são castigo ou prêmio, mas meras decorrências de estarmos aqui. Carma em si mesmo, pessoal, é o que decorre de ação intencional e marca nossa mente levando a repetições de palavras e ações com suas consequências.

Já publicado no blog:

Carma e causalidade são a mesma coisa?

Não exatamente, a lei da causalidade aplica-se a tudo que sucede, é expressa na segunda Nobre Verdade, tudo tem causa. Carma é um conceito que se aplica a uma ação que tem intenção, um EU por trás dela.
O carma do qual está livre o homem iluminado é o da geração de um carma próprio, que se aplica a ele mesmo, e seria sem sentido dizer que suas ações não geram frutos cármicos no mundo, seria como se ele atirasse uma pedra na água e esta não gerasse mais ondas, o que é absurdo.
Em vários textos zen está expresso que o motivo é que não tendo um eu não há como haver uma geração de um carma próprio. Algo a que este possa aderir. Mas isto não significa que as ações de um iluminado não geram causalidade, consequências.
Vê-se curiosamente que o hábito de usar a palavra carma para todos os sentidos, tais como fruto (vipaka) ação (carma) e mesmo causalidade, vem já de muito tempo e causa confusões.
No Dharma,

Rev. Genshô


Subject: [ZenSul] Comentário de Sharon Stone sobre 'carma' irrita China



PEQUIM (Reuters) - A firma varejista de luxo Christian Dior tirou anúncios com Sharon Stone de lojas por toda a China, depois de a atriz sugerir que o terremoto em Sichuan foi fruto de 'carma negativo' provocado pela política de Pequim no Tibete. Pelo menos 68 mil pessoas morreram no terremoto que sacudiu o sudoeste da China em 12 de maio. O abalo aconteceu meses após distúrbios no Tibete que desencadearam manifestações de ultraje internacionais contra a maneira como Pequim trata a região de predominância budista, invadida por tropas comunistas chinesas em 1950.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Carma e causalidade são a mesma coisa?

Não exatamente, a lei da causalidade aplica-se a tudo que sucede, é expressa na segunda Nobre Verdade, tudo tem causa. Carma é um conceito que se aplica a uma ação que tem intenção, um EU por trás dela.
O carma do qual está livre o homem iluminado é o da geração de um carma próprio, que se aplica a ele mesmo, e seria sem sentido dizer que suas ações não geram carma vipaka , ou seja frutos cármicos no mundo, seria como se ele atirasse uma pedra na água e esta não gerasse mais ondas, o que é absurdo.
Em vários textos zen está expresso que o motivo é que não tendo um eu não há como haver uma geração de um carma próprio. Algo a que este possa aderir. Mas isto não significa que as ações de um iluminado não geram causalidade, consequências.
Vê-se curiosamente que o hábito de usar a palavra carma para todos os sentidos, tais como fruto (vipaka) ação (carma) e mesmo causalidade, vem já de muito tempo e causa confusões.