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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Carma e Futuro



Pergunta: Sobre a questão do carma. Durante nossa existência geramos diversos carmas. Essa nova manifestação vai receber carma de todo lado?

Monge Genshô: Se não houvesse uma coesão de uma onda cármica, não haveria individualidade. Portanto, existe sim uma coesão. Existe uma coesão sua, seu carma, se não fosse assim todas as pessoas seriam muito parecidas e não são.

Pergunta: Mas há outras possíveis contribuições de outras pessoas?

Monge Genshô: Você está todo tempo sendo modificado, influenciado por tudo. Essencialmente, você tem que se preocupar com a vida agora, o que você fez hoje, como enxergar o céu hoje, sentir o vento hoje, apreciar um pedaço de bolo hoje, você tem que apreciar a vida como ela é agora. Morrer, você vai morrer, isso é uma coisa que sabemos com certeza. Todos que estão aqui são mortais. Você vai terminar esse curso, vai receber informação e se diplomar em morte. Todo mundo vai se diplomar em morte, todo mundo vai saber bem direitinho como é que funciona. É inútil ficar pensando nisso agora.

Essa é uma preocupação que está ligada à continuidade do eu: todo mundo quer saber como vai ser depois, mas não se preocupa em viver o agora. É agora que você sofre, que é infeliz, que não consegue ver com clareza as coisas, que entra nos jogos, que se angustia por causa de um jogo, você fica aqui ou acolá. Será que eu preciso de emprego? Será que eu mudo de emprego? Será que serei médico ou empresário? O que será que eu serei? Caminhos são múltiplos, e a vida se mostra a cada passo. Você dá um passo, depois dá outro. Agora, se você ficar trocando de caminho, nunca vai a lugar nenhum. Isso é importante de perceber.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Que bom que esquecemos do passado



(Continuação) Nosso problema não é o registro do passado, mas o acesso a ele. Como acessar? Seria impossível para nós vivermos, se nós rememorássemos toda a nossa vida em seus mínimos detalhes e por isso o esquecimento é necessário. Há um conto de Jorge Luis Borges, no livro Ficções, que chama-se Funes, o memorioso. Funes é um indivíduo que lembra cada mínimo detalhe de tudo que aconteceu em sua vida. Cada árvore, cada posição de pés das pessoas, cada palavra dita, cada expressão, tudo. E tudo está presente na mente dele em todos os momentos, então Funes tem que se isolar num quarto escuro e a cabeça dele não para, porque tudo está presente a todo momento. Parece zazen, não é? Então, o esquecimento na verdade é uma benção, é bom que o tenhamos . Todos nós já fomos covardes, abjetos, mentirosos, desonestos, em algum momento. Que bom que esquecemos para podermos viver novamente. (Continua)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Aos poucos, a humanidade vem criando consciência

Pergunta: O senhor pode comentar essa ideia de continuar, de ser eterno?
Monge Genshô:
Nós temos esse grande desejo de eternidade, eu sempre falo que as religiões surgiram por causa disso, porque elas querem dar essa noção de que você continua. Por isso existem várias diferentes ideias. Muitas pessoas pensam que o budismo é reencarnacionista e não é. O budismo fala em continuidade, mas é do carma e não do eu. Não há um eu para ganhar uma carne nova e um corpo novo. O budismo não é milenarista achando que a Terra vai ser renovada, que os mortos ressurgirão e virão de novo num mundo paradisíaco. Lembram ontem quando falei da ideia de paraíso? Voltaire foi um que disse que a humanidade sempre se refere à idade de ouro como sendo a anterior. E cada idade de ouro se refere a uma idade de ouro anterior. Sempre olhamos para o passado pensando que ele é maravilhoso. Quanto mais você estuda e lê, mais fica aterrado com o fato de que o passado não foi maravilhoso e sim muito pior. Quando nós vemos a conduta dos homens do passado ficamos chocados com o quanto foram capazes de fazer para conquistar ouro e tudo mais. Vemos ainda hoje pessoas no Oriente Médio queimando bibliotecas, destruindo templos e essas coisas. O Parthenon, na Grécia, explodiu porque foi transformado num depósito de pólvora, imaginem hoje, desconsiderando fanáticos, se alguém transformaria em depósito de pólvora uma obra de arte daquelas. Quando olhamos os castigos e o que as pessoas faziam, percebemos que nosso mundo melhorou muito. Hoje as pessoas se comovem com coisas que antes eram completamente ignoradas.

Há pouco tempo li a história de Fernão de Magalhães, que tentou dar a volta ao mundo e descobriu o Estreito de Magalhães, aqui na América do Sul. Ele mandou matar pessoas que se revoltaram contra ele no navio, por um método que era pendurar a pessoa, abrir sua barriga e queimar o intestino com a pessoa ainda viva. Existem vários métodos tão agressivos quanto esse. No caso de Fernão de Magalhães, ele não chegou a dar a volta, morreu numa ilha do Oceano Pacífico tentando converter os nativos ao cristianismo. Mas parece que os nativos não gostaram e ele morreu durante uma batalha. Dos 160 homens que saíram com ele da Espanha, voltaram 18 e esse era o mundo de 500 anos atrás. Há 100 anos, no Brasil, nós tivemos a Revolta da Chibata, quando os marinheiros brasileiros que queriam abolir o castigo de serem chicoteados se revoltaram. É concebível hoje que alguém seja chicoteado? Para nós não. Agora já tem gente fazendo movimento até para salvar os cães. Mas isso acontece devagar. Esses dias fizeram um para salvar porcos que iam para o matadouro, mas depois disso todo mundo senta e come presunto. Mas o caso é que os porcos estavam vivos e foram filmados. Houve grande revolta. Nos revoltamos com aquilo que enxergamos, mas depois sentamos à mesa e comemos presunto. Um pouco ridículo. Essa atitude é tola. Nós temos pena de um certo tipo de animal, mas de outro não. Então o aumento de consciência é lento.

Nossa consciência compassiva consegue se comover com uma criança morta na praia, porque foi fotografada. Milhares de mortes já ocorreram lá, mas como não foram fotografadas não se criou comoção. Então o grande herói não é a pessoa que morreu ou seus familiares, mas aquele que expôs o fato. De repente você vê alguém como você, como seu filho e então você se mobiliza. Tudo isso para dizer que a humanidade vem criando consciência, mas aos poucos. No contexto de 500 anos atrás, ou mesmo de 100 anos, as mudanças foram muito grandes. Essas mudanças exigem outras que fazem você refletir por qual motivo se comove com esse e não com aquele, com essa raça e não com aquela, há grande questionamentos éticos surgindo. Isso acontece porque nós ficamos ricos, porque nós podemos sentar à mesa e porque há comida abundante, quando não tínhamos não dava para fazer esses questionamentos. Coloquemos todos nós aqui numa floresta e mais nada. Sem agricultura, sem supermercado, os que forem capazes de caçar vão sobreviver e os outros não. Se a situação ficar bem aguda mesmo, vamos acabar comendo uns aos outros. Essa é a história humana.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Plena atenção





2)  Um dos objetivos da meditação é tentar se desvincular de passado e futuro?

Monge Genshô – É voltar-se sempre para o real, que é o momento presente. Fora do presente não existe realidade, passado é memória, futuro é imaginação.

Aluno – Mas isso é muito difícil, não é?

Monge Genshô – Sim, sem dúvidas. Passado e futuro só existem na sua mente, mas mesmo esse presente que é sua única realidade, é fugaz, pois está constantemente se transformando em passado, o que acabei de falar já ficou no passado, quando formos embora isso tudo terá ficado no passado.

Voltar para o momento presente é um exercício muito importante no Zazen, mas você deve levá-lo para sua vida diária. Hoje pela manhã enquanto fazia café pensava sobre isso, colocar o pó, colocar a água, colocar o café na cafeteira, fechar, pensava em como era fazer só e tão somente aquilo que se está fazendo, prestar total e plena atenção àquele momento. Naquele momento só existe o café a ser passado, sem problemas a serem resolvidos, nada de passado ou futuro. Este é um exercício que deve ser feito a todo o momento. Chama-se “exercício da plena atenção” e é mais fácil de ser praticado no Zazen, pois você imobiliza o corpo e tem apenas os sons à sua volta, então use-os para se manter no momento presente. É muito comum escutarmos praticantes falando de suas mentes que não param durante o Zazen, vivem em ilusões e viagens para passado e futuro, como dizemos no Zen – “é um macaco bêbado pulando de galho em galho” - e é deste vício que temos que escapar.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Esfriando vontades e apegos



2) As diversas percepções e sensações que aparecem podem ser eliminadas pela simples prática?

Monge Genshô – Sim. O fato de praticar imóvel eliminando pensamentos sobre passado e futuro acaba por esfriar nossas vontades e apegos. Do contrário, se você sentar a alimentar suas fantasias, elas crescerão. Sentados corretamente imóveis temos a oportunidade de voltar ao presente momento, que é o único que verdadeiramente existe. Passado e futuro não existem de verdade, são construções de nossa mente. O passado aconteceu, mas o que temos deles são lembranças. O futuro é imaginação. A prática do zazen pretende criar as condições para que os insights aconteçam e desta forma vermos as coisas com mais clareza e lucidez. Não procurem coisas fantásticas ou maravilhosas na iluminação. Na iluminação as coisas são exatamente como são agora, nosso sentimento a respeito das coisas é que mudaram. Isso é difícil de explicar porque está além das palavras, é o mesmo mar, mas é diferente. Mais belo e profundo, sem outro significado além daquele que está ali na nossa frente.

A vida e as pessoas também são da mesma forma e, se você tiver um sentimento iluminado, abraçará a Sangha como se todos fossem seus irmãos, não haverá lembranças desagradáveis e sentirá carinho por todos. Assim são as experiências de kenshô, mudanças de visão, nada mais, a realidade pura e límpida, sem julgamentos ou pensamentos estranhos que nos invadem sobre tudo e todos. Assim é a mente clara e lúcida que desperta do sonho. Um sentimento de grande paz e felicidade, não euforia.

segunda-feira, 31 de março de 2014

O futuro com melhor tecnologia


4) Da forma que vivemos estamos sempre insatisfeitos, somos estimulados ao consumo sempre de novos e mais modernos produtos. A essência como o senhor falou, é a satisfação, mas isso não nos levará a um comodismo?

Monge Genshô – Não, não levará. Nós estamos subestimando o que vai acontecer conosco. As pessoas que querem regredir e voltar para uma vida do machado, não sabem como era nessa época. Nenhum índio que conheça a civilização deseja voltar a sua vida tribal. As pessoas morrem com vinte e poucos anos em média e mais da metade das crianças morre antes de completar um ano. Fome e frio são situações frequentes. Nós tivemos conquistas maravilhosas com a civilização. A libertação feminina é uma destas conquistas que veio com a revolução industrial. Antes disso, rachar lenha era trabalho para homem. Antes da medicina desse século tínhamos mais homens que mulheres, pois a mortalidade de mulheres no parto era enorme. Vivemos hoje quase o dobro do que vivíamos na década de quarenta. A solução para a humanidade não é menos tecnologia, o problema é que a tecnologia que empregamos é pobre e muitas vezes burra e destruidora, mas é perfeitamente possível ter casas auto-suficientes energeticamente, não precisamos produzir tanto lixo, não precisamos lançar os dejetos no mar, não precisamos matar para comer pois, com a tecnologia disponível hoje, muitas coisas não seriam necessárias.

Com mais tecnologia podemos consumir de forma diferente, mas precisamos de educação e conhecimento, porém, a humanidade está à beira de passar por uma situação que é a extinção do trabalho. Mais algumas décadas e a maior parte do trabalho será feito por máquinas com inteligência artificial e muitas das profissões que conhecemos terão se extinguido. Nesse momento, os homens terão que olhar para si mesmos e perguntar qual o sentido da vida. Já vivemos situação parecida na época dos escravos na qual uma pequena parcela da população, cerca de 10%, era cidadão, isso aconteceu em Atenas. Cada cidadão ateniense tinha nove escravos e ele não precisava fazer nada. Como resultado, a Grécia produziu filosofia.

Teremos que descobrir novas coisas para fazer, pois toda nossa educação irá mudar totalmente. As religiões sofrerão enorme crise, pois iremos perguntar se um cérebro eletrônico que é capaz de pensar e atinge auto consciência, tem alma ou não, está vivo ou morto e quem ele é. O budismo tem a resposta para isso, mas as religiões com almas não. As pessoas estão sendo invadidas por tecnologias cada vez mais sofisticadas sem que elas mesmas decidam como será seu mundo. Outras pessoas estão decidindo por elas, algumas poucas pessoas estão decidindo por todas as outras. Não vejo como isso poderá mudar, pois se você pergunta para uma pessoa ela olha para o passado, como na idade do ouro, mas estão enganadas sobre isso. A humanidade sempre olhou para o passado pensando ver uma idade dourada, isso sempre aconteceu, em todas as eras. Talvez esse seja o momento de olhar para o futuro e o budismo está preparado para isso, pois ele não busca ilusões e sim lucidez e clareza. Não desejamos santos ou pessoas iludidas, queremos homens e mulheres despertos, lúcidos e com clareza mental. Isso pode mudar o mundo.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Um criador e o agora


Pergunta – Eu vi um vídeo de uma palestra sua juntamente com um grupo espírita em que o Senhor dizia que o budismo é uma religião sem Deus, o senhor poderia esclarecer isso?

Monge Genshô – O budismo não fala em deuses, mas tão pouco se dedica a negar sua existência, apenas não pensa que seja útil ficar se referindo a coisas não verificáveis. A idéia de um deus criador é completamente absurda para o budismo. O deus criador tem três grandes atributos, veja bem, isso é uma discussão e visão minha para responder sua pergunta, pois o budismo não se dá a esse trabalho.

Um deus criador é onisciente, onipotente e infinitamente bom. Se ele é onipotente poderia ter feito um mundo perfeito e bem feito. Não fez. Algumas pessoas poderão dizer: “mas há o livre arbítrio”. Mas veja bem, se eu colocar um cachorro, uma criança ou um macaco dentro de uma loja de cristais eu não sei o que irá acontecer? Então ele coloca um homem e uma mulher num local e avisa que daquele fruto é absolutamente proibido comer. Ele sabia o que iria acontecer, pois ele é onisciente, conhece passado, presente e futuro. Agora, ele fez algo sabendo qual seria o resultado, pois é onipresente e onisciente, então provavelmente não seja infinitamente bom. No caso deste Deus criador esses atributos são paradoxais, de modo que esse deus criador é uma contradição que filosoficamente é inaceitável. 

Esse assunto é extensamente discutido no livro de um Jesuíta que abandonou a fé, Tomás Antônio da Fonseca, “Doze Provas da Inexistência de Deus”. Ele se refere a este Deus, com um plano, um ser pensante, com uma intenção e que fez algo. Essa idéia desse tipo de deus é completamente estranha para o budismo. Mas se pensarmos como uma inteligência que perpassa todo o universo, não interferente, não criador e sem planos, então é uma idéia admissível e não contraditaria o budismo. O budismo não chega a ser ateu, não se dedica a negação, mas é “não teísta”, ou seja, não fala sobre deuses. Falar em um deus criador é diminuí-lo em razão das contradições, pois lhe damos responsabilidades que mostram que obviamente algo não deu certo. Não adianta colocar a culpa no homem e no livre arbítrio, isso é uma tentativa de jogar no homem a culpa de algo que o antecede. Nós somos imperfeitos, mas quem nos fez dessa forma?  Mas o budismo não perde tempo com isso, o que preocupa o budismo é a mente, o sofrimento e o agora.

Pergunta – Essa nossa criação para o bem e para o mal tem a ver com passado e futuro?

Monge Genshô – Não, essa questão de passado e futuro faz parte de nossas imaginações sobre coisas que nós mesmos criamos, são falsidades. O passado sobre o qual pensamos é uma construção e não aconteceu exatamente como pensamos. Um bom exemplo disso é esse exato momento. Se amanhã alguém perguntar sobre o que foi dito na palestra, teremos vários relatos diferentes e a medida que o tempo passa a memória também será alterada. O futuro é imaginação. Não adianta ficarmos pensando em como resolver hoje os problemas de amanhã. Os problemas de amanhã só serão resolvidos amanhã. Faz sentido imaginar o futuro frente à um tabuleiro de xadrez, posso pensar na probabilidade das quatro jogadas seguintes e calcular suas conseqüências, mas esse é um jogo de informação perfeita e muito simples se comparado com a vida.

A vida está sempre cheia de “cisnes negros”. Cisne negro é um evento que ninguém previu. Em 1986 estava na Alemanha e perguntei para um amigo sobre o muro de Berlim e se ele nunca iria ser derrubado. Sua resposta foi que não, isso sempre fora assim e nunca iria mudar. Três anos depois o muro foi demolido. Três meses atrás quem imaginaria que o povo brasileiro sairia às ruas para fazer reivindicações? Esses eventos são chamados “cisnes negros” porque em geral os cisnes são brancos, mas de repente aparece um cisne negro. Então, o futuro é imprevisível, mas sentamos para meditar e ficamos fantasiando sobre o futuro. O Zen sempre fala sobre isso, temos algo com o que lidar que é extremamente importante - o agora. Omar Kayyãm dizia, “dois dias me são particularmente indiferentes, o ontem e o amanhã”. É isso que o Zen ensina, olhe para o agora, é isso que você está perdendo.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Se "eu" não volto por que me importar?


Pergunta – O senhor antes disse que morremos sozinhos, que não existem indivíduos e que o “eu” é uma ilusão, são os carmas que formam as identidades. Quando alguém morre o que acontece com essa identidade? Do que adianta uma pessoa desejar ser melhor se depois ela volta, como uma gota, para o oceano e não será ela quem sofrerá as consequências de seus atos? Como no caso dos espíritas...

Monge Genshô – Veja bem, cada pessoa que nasce, na crença espírita, tem um “eu” novo. Ele herda as consequências de um espírito anterior mas em um corpo novo e nesse processo ele não se lembra de nada. Quem carrega as consequências é um novo ser...

Pergunta – Mas no budismo existe esse ser?

Monge Genshô –  No budismo há a continuidade do carma, mas o “eu” está perdido, pois ele depende de memória. O que constitui a noção de um “eu” é a memoria, tanto que se você sofre um acidente, fica com amnésia e se lhe pergunto quem é você, sua resposta será: “não sei”. Ignorando a questão da crença em espíritos ou coisas assim, não vejo tanta diferença. Mesmo que no espiritismo você diga que existe um espírito que carregou o carma, o “eu” de cada vida é diferente. O grande problema deste tipo de crença é, por exemplo, como li outro dia, a pessoa dizer que na vida passada foi “Rei Ricardo Coração de Leão”. Isso é muito interessante, as pessoas sempre foram reis, rainhas, grandes líderes, grandes guerreiros, não existem escravos, ladrões, prostitutas. O budismo não se dedica a dar explicações sobre o que acontece, para nós o que é óbvio é que não existe efeito sem causa. Tudo que existe hoje tem uma causa pregressa, logo, de certa maneira você é responsável pela sua vida atual, pois tudo que você carrega, suas características foram construídas. Quando você morrer, tudo que acontecerá depois virá do que você fez nesta vida.

Pergunta – E o que acontece com esse “eu” que morre?

Monge Genshô – Não sei, ainda estou vivo. O budismo não se dedica a dar esse tipo de explicação. Se formos especular, encontraremos muitas teorias. Por exemplo, no budismo Tibetano há o “Livro Tibetano dos Mortos” onde há uma descrição detalhada do processo pós morte, também há algo assim no budismo japonês. Mas isso tudo não é verificável e o budismo não discute coisas não verificáveis. Para nós o que basta é que todas os efeitos têm causa e o que você faz agora tem efeito no futuro. Sua outra pergunta, “Por que alguém deve fazer algo de bom se depois ele mesmo não continua?”. Veja bem, uma pessoa vai dirigindo o carro por uma cidade e joga lixo pela janela. Ela faz isso pela razão de que não voltará para a cidade, está apenas de passagem e não se importa. É como se para fazer boas coisas fosse necessário boas recompensas, pagamento de prêmios e reconhecimento. Então essa pergunta não se sustenta, você precisa de bons atos para gerar bom carma mesmo que não seja para você e sim para o mundo e para os que vem depois.

A arte do bonsai representa isso, você cultiva uma árvore e ela pode viver trezentos ou quatrocentos anos. Se formos ter a mesma perspectiva de sua pergunta, para quê cultivaríamos um bonsai do qual nunca veremos o resultado? O objetivo é fazer algo belo mesmo que eu nunca vá ver o final. O Pau Brasil é uma árvore da qual se fazem arcos de violino, violoncelos e contrabaixos. É a melhor madeira para isso. Mas o Pau Brasil está quase extinto e existem projetos de reflorestamento, mas então você vai chegar para o produtor e perguntar porquê ele está plantando Pau Brasil, que demora décadas para crescer, se não verá a árvore chegar ao ponto de ser cortada para virar arcos de instrumentos musicais? Como agora não existe Pau Brasil, os arcos estão sendo feitos de alumínio ou fibra de carbono, isso é trágico e acontece porque todo tempo as pessoas pensaram que não valia a pena, pois não veriam o resultado. Isso acontece em várias áreas do planeta, alguns peixes estão extintos, pois o oceano tem uma capacidade limitada de auto reposição e deveria ser permitida a pesca de uma quantidade determinada sob pena de extinguir várias espécies para o futuro.

Pergunta – Mas aquele viajante que disse que não voltará para cidade, não o fará nesta vida, mas em outra sofrerá as consequências de seus atos.

Monge Genshô – Exato. Porém o correto seria não fazer isso mesmo que eu não voltasse para este mundo. Não por causa das consequências que eu sofrerei, pois eu e os outros somos a mesma coisa.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O Vazio é a forma


Hoje à noite recitaremos o Sutra do Coração em português. Ele é o “Sutra do Coração da Sabedoria”. O que ele diz é que a forma - nós somos forma - é o vazio. O vazio se manifesta como forma. Não existe uma entidade que chamamos “o vazio” não existe uma entidade além da forma, o grande ser é vazio de um si mesmo. O vazio é a qualidade de todas as coisas serem vazias de um “eu”.  Lemos “vazios de um eu”, tudo em volta são formas, tudo é vazio de um “eu”, tudo é uno. Não existe em cima ou embaixo, direita ou esquerda, surgimento ou cessação, tudo é simultaneamente vazio e forma, porque o vazio só se manifesta como forma e as formas,  somos o próprio vazio. Não existe propriamente uma intenção, um plano ou uma história; simplesmente todo tempo está contido em um único ponto, passado e futuro estão contidos em um presente e esse presente é a única coisa que podemos realmente agarrar  a cada instante que se esvai. Se você conseguir mergulhar no presente plenamente, você é dono de passado e futuro e, se esquecer de si mesmo pode abarcar o universo inteiro. Como diz o Sutra, aquele que atinge isso, a perfeita e completa iluminação, livra-se instantaneamente de toda dor e sofrimento. Esse é o texto que recitamos, toda dor e sofrimento desaparecem se você esquecer a ilusão do “eu”, mergulhar no presente e abarcar todo o vazio com todas as suas manifestações.

Entendendo, nada está separado, você e todas as coisas são uma única coisa. Os pássaros lá fora são você. Os sons são você. As árvores são você. O riacho é você. Você não é você. Você é tudo isso, só está perdido nesse instante pensando que você é você, abrindo os olhos e vendo tudo separado. Mas esse fenômeno que vivemos ao abrirmos os olhos e vermos tudo, que é como se fôssemos um pequeno olho, um pequeno senso do universo que permite ter uma grande experiência. Essa grande, maravilhosa e complexa experiência que nós como seres humanos temos, é linda, não pode ser desperdiçada, uma fantástica oportunidade que permite ouvir, cheirar, olhar e provar. Essa experiência maravilhosa é o dom da vida. Mas ela é um instrumento para um passo maior. Nós podemos atingir uma consciência maior e, ao atingi-la, não seremos mais pequenas ondas na superfície do universo, mas nos perceberemos como o próprio mar. Nós mergulhamos no mar das paixões, mar das angústias, sensações, amores, todas as paixões. Porque o Bodhisattva mergulha no mar das paixões, ele pode colher as pérolas do fundo. É através dos caminhos equivocados que o Bodhisattva encontra as jóias da vida. Não se perturbem porque mergulharam no mar das paixões, essa é a grande oportunidade para encontrar as pérolas.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Saber estar aqui



Pergunta – Não há uma contradição quando o senhor diz para vivermos no agora, mas sem pensar na questão de causa e consequência, já que essa consequência será no futuro, mas não tenho que viver o agora, como é isso?

Monge Genshô – Não. Viva o agora, perceba o agora, mas saiba que você é responsável por tudo no futuro, da mesma forma que tudo que acontece com você agora é consequência de um passado. A proposta não é não pensar nas consequências, viver o agora implica em “saber estar aqui”, é como beber chá. Provavelmente quase ninguém hoje bebeu chá. Beber o chá é segurar a xícara, sentir seu calor, sentir o aroma do chá, colocar o chá na boca, sentir o sabor e engolir e, mesmo depois de engolido, senti-lo descer pela garganta, isso é beber o chá e exige grande presença, sem presença você não bebe o chá verdadeiramente, apenas executou um ato automático e é assim que a maioria das pessoas vive hoje em dia, ligadas no automático e por essa razão não vivem, apenas passam pelo mundo como uma espécie de zumbi.

Observem as pessoas nas ruas, são sonâmbulos e alguns até falam sozinhos. Sequer sentem o chão abaixo de seus pés nem escutam os pássaros, não estão vivos realmente. Muitas pessoas logo ao chegar em casa ligam a televisão, elas precisam de algum tipo de ruído. Eu tenho esse tipo de experiência a todo o momento. Quando pego um taxi, por exemplo, o motorista está sempre com o rádio ligado, mas ele deseja conversar com você, se eu peço que desligue o rádio, em poucos minutos ele automaticamente liga novamente, não pode ficar sem o ruído de fundo.

As pessoas usam a desculpa da distração ou da diversão, mas na realidade é não viver o agora, é viver alguma embriaguez. Nos mosteiros Zen é o oposto, não tem música, televisão ou celular para se distrair ou divertir. Se você pega um instrumento para trabalhar deve estar totalmente presente na sua obrigação daquele momento. Por quê o zazen é de frente para a parede? Para diminuir até o último grau, qualquer distração ou diversão. Imobilizamos o corpo com o objetivo de parar a mente, fazê-la ficar ali naquele momento.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Felicidade está aqui, infelicidade precisa ser construída



Quando você aprende meditação, você faz um treinamento da mente. Nos primeiros estágios esse treinamento lhe aumenta a capacidade de concentração e você aprende a ficar no momento, concentrado no que é realmente importante. Quando você está viajando para passado ou futuro, nada disso é importante. A memória do passado é construída, você tem lembranças dos eventos, mas você os vê sob seu ponto de vista, em razão disso são distorcidas por suas próprias percepções. Isso é muito fácil de percebermos pois, se alguém entrar agora na sala e fizer um pequeno teatro, o relato de cada um de vocês será diferente. Não podemos dizer que o relato de um ou de outro seja verdadeiro, ele será o ponto de vista particular, carregado de emoções, um ponto de vista particular, isso é a memória. 

Hoje temos um grande numero de pessoas com depressão, tristezas ou remorsos no mundo. Esses sentimentos são predominantemente causados pelo passado. A pessoa percebe como foi sua vida passada, como se formou, como é sua mente e sua vida hoje em razão de acontecimentos passados, por isso vemos tantas pessoas tomando anti-depressivos. Nesse momento, sem passado algum, sem qualquer tipo de memória, somos plenamente felizes, pois não carregamos coisas anteriores.

Outro problema é o futuro. O que farei amanhã, dívidas que terei que pagar, problemas a serem resolvidos, tudo isso gera ansiedade. Quando você vive no futuro é ansioso, quando vive no passado é deprimido. Quando sentamos para praticar zazen, estamos treinando nossa mente para retornar para a única realidade sólida, que é o momento presente. Temos que compreender e aprender que tanto passado como futuro são construções e representações mentais e em si não são realidades.

Problemático isso, não é? Isso é porque olhamos a vida como se o presente não existisse. Observem as pessoas nas ruas e tentem perceber isso, se pudéssemos ler suas mentes veríamos passado, passado, passado, ou então, amanhã contas a pagar, problemas a resolver. Uma vez conversando com um mestre ele me disse: “Sabe o orgasmo? É o único momento em que as pessoas estão realmente ali presentes”. E não é verdade? Se a pessoa naquele momento pensar em passado ou futuro, não consegue. A experiência de viver o momento presente é uma experiência maravilhosa, é a pura felicidade. As pessoas vivem procurando a felicidade, ela está disponível, está disponível no momento presente, não no passado ou futuro. A infelicidade é que é construída, construída por nós mesmos com nossas mentes.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Apagar os condicionamentos mentais



Posso dizer com clareza, que todos nós temos dentro de nós de tudo. Dentro de mim há um assassino, pois, na época em que, jovem, eu treinava tiro, se viesse um assaltante, eu mataria. Tecnicamente.

Esta marca cármica fica lá. Os jogos eletrônicos são exemplo disso. Não são inocentes. Há a presença de marcas cármicas que são criadas na mente, ali. Jogar um jogo violento no computador não é inócuo. É criação de uma marca cármica na sua mente. Serão necessárias décadas de prática, pra ir amenizando.

A única vantagem é de que “eu sei” como é a mente. Eu sei o que faz uma pessoa com arma na mão e esse treinamento. E ele vai fazer isso. E nós seres humanos somos extremamente maleáveis. De acordo com o treinamento que você der, você faz outra mente, cria novas marcas e energias de hábito.

Então o que fazemos no ZEN? Levamos a pessoa para um primeiro treinamento: ZAZEN. Primeiro vamos limpar. Limpar todo o passado, parar de pensar no futuro.

Quando você faz isso, você corta duas coisas: o passado traz os remorsos, as culpas, etc. Então o passado é fonte da depressão. E o futuro é a fonte da ansiedade e da decepção. Cria expectativas, decepciona, desilude, etc. Por quê você se decepcionou com alguém? Porque você alimentou uma expectativa. Você pensou no futuro e as coisas não saíram como você esperava. Essa sua decepção é ruim pra você? Sim. Mas de onde ela vem? Da sua expectativa. Daquilo que você alimentou dentro de você, sobre o futuro.

Vamos sentar em Zazen (meditação). Como trabalhar tudo? Por exemplo na psicologia, o trabalho é imenso. As pessoas ficam décadas falando para o terapeuta, elaborando, mexendo, etc, e muitas vezes pouco resolve. O que fazemos no zazen? A abordagem é oposta. Sentar aqui. Seja o que for que venha, deixe, não importa. O que nós vamos fazer é “formatar” o disco preenchido. Apagar tudo e vamos começar com outros condicionamentos. E todos os rituais e regras pretendem criar condicionamentos mentais, porque a forma ou o ritual que fazemos no ZEN, que não têm tanta importância e que podem ser mudados, criam uma mente diferente.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A xícara existe por si mesma?

         Xícaras com arte de Claudio Miklos (Monge Kômyô) Disponíveis em www.daissen.org.br

A nossa maior dificuldade é perceber que nosso eu é construído completamente, nossas infelicidades são construídas por nossos pensamentos. Sobre o passado por arrependimento e por memórias, ou sobre o futuro por imaginações, expectativas e ambições. Nós construímos um eu e suas infelicidades e angústias com esses pensamentos. Se conseguirmos jogar fora todos eles e sentarmos aqui e esquecermos, penetraremos na dimensão suprema. A dimensão suprema mostra que todas as coisas surgem dela e nenhuma tem um eu ou uma existência própria. Tudo que julgamos como um eu ou existência própria é atribuído, não é verdadeiro.

Essa xícara foi construída com barro, forma e cozida num forno. Tornou-se uma xícara. Nós olhamos para ela e a chamamos de xícara. Ela funciona no mundo e contem chá. Mas a xícara ela existe por si mesma? Não. Para que ela seja uma xícara é necessário que haja barro, oleiro, forno, esmalte e mais do que isso é necessário um ser que olhe para ela, veja sua utilidade e diga “xícara”. Esse que olha para ela enxerga sua utilidade de conter o chá, que a chama de xícara é quem faz com que ela tenha uma identidade.

Nós, de forma muito mais complexa, também somos assim. Surgimos da dimensão suprema e como manifestações da dimensão suprema. Então nos manifestamos nesse mundo de forma histórica e temporária. Voltando a analogia da onda e do vento. Estes fenômenos surgem no ar ou na água e não existem por si mesmos, são manifestações. Nós que acreditamos em nós mesmos, na nossa consciência e em nosso eu, somos manifestações dessa consolidação de pensamentos, confundimos o fluxo dos nossos pensamentos como uma identidade separada. Confundimos esse fluxo com um eu. A xícara parece um ser separado e existente por si mesmo, dizemos xícara e somos capazes de nos entristecer se ela cair no chão e quebrar. Se for antiga e tiver pertencido a nossa avó e tivermos atribuído a ela um determinado significado, ficaremos entristecidos ao vê-la quebrar. Mas onde existe a xícara? Só na nossa memória e mente ela pertenceu a nossa avó. Só no nosso aprendizado do que é uma xícara ela tornou-se uma xícara. Só por a concebermos como receptáculo é que ela é uma xícara. Para um ser primitivo que jamais viu uma xícara ela não seria nada. Se eu der a xícara para minha cadela, ela pensará que é um brinquedo, morderá, e se conseguir quebrá-la, pegará seus cacos e espalhará pelo jardim, porque para ela uma xícara não é uma xícara. A xícara só existe na mente de quem a entende como receptáculo, e olha para ela e a transforma com sua percepção e mente. É fácil entendermos isso sobre a xícara, mas difícil entendermos isso sobre os outros seres.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Abrindo os olhos



Pergunta – Como a meditação ajuda no despertar. O que difere o sentar do ficar quieto?

Monge Genshô – Boa pergunta. Se você sentar e ficar quieto, mas sua mente continuar funcionando, você continua no sonho. Se você sentar e for apagando com a imobilidade do corpo, todas as informações para a mente, como a sua noção de ter um corpo, começam a diminuir as percepções e a atividade mental. Seus pensamentos começam a esmorecer e suas memórias, no momento de samadhi - de concentração - desaparecem. Nada mais surge. 

Quando nada mais surge, você está presente e ouve os sons do presente, como o canto dos pássaros, os carros que passam, o rumor do seu coração. Percebe-se, em seguida, uma sensação de grande contentamento, pois toda agitação desapareceu. Esse é o primeiro passo da meditação, e é preciso ir além, cada vez mais profundamente. Por isso estou colocando no site uma palestra antiga sobre os dez passos do boi, que narra os dez passos da iluminação. 

O que acontece? Como é que se faz? A meditação é a maneira para conseguirmos nos libertar dessas noções, pois elas são alimentadas pelo funcionamento da mente. A noção de um “eu” é produzida pelas formações mentais. É tudo muito simples, mas é bastante difícil. Na verdade, não é nenhum grande segredo, mas a dificuldade de executar é muito grande. Sentar-se, esquecer-se de todo o passado, não alimentar nada, nem uma memória, não seguir nada, não ir para futuro, estar aqui e agora, o que não significa não pensar, mas, sim, pensar além do pensar em não pensar. 

Quando você estiver, aproximadamente, metade do tempo do zazen numa situação assim, experiências significativas começarão a ocorrer. Não são mágicas, mas são extraordinárias e lhe permitem criar uma outra visão, uma outra sabedoria. Todo mundo muda e todo o mundo se altera. Não porque o mundo mudou, mas porque seus olhos se abriram verdadeiramente. É isso.

Fim

Palestra decupada da gravação por Ápio San e revisada por Eleonora San.