quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

O Eu e o Sofrimento




Rodamos o mundo tentando criar valores especiais para nós, para o nosso nome, para a nossa fama, para a nossa glória, sendo que o nosso valor é igual ao das folhas de grama. Enxergar isso é a iluminação. Então, quando você se senta em zazen, o verdadeiro pensamento é Hishiryô: pensar além de pensar.

Se você abandonar todos esses conceitos e noções acerca de si mesmo, então você cria espaço para ver sua verdadeira natureza, e se você enxergar a sua verdadeira natureza, você se integrou a esse universo. Então, este integrado, este que tem tal percepção, não nasce e nem morre. Por isso eu pedi para ler ontem o Sutra do Coração em português no início do sesshin. Ali no Sutra do Coração está escrito que um Bodhisattva, quando enxerga a vacuidade dos agregados, livra-se instantaneamente de toda dor e sofrimento, porque toda dor e sofrimento, toda angústia surge do fato de você acreditar em si mesmo. Porque você crê em você e quer ser eterno e continuar sendo quem você é, por causa disso há sofrimento.

[Trecho extraído de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A Vida tem a Consistência de um Sonho




Um grande calígrafo e pintor japonês, que era monge de outra escola, nasceu em 1718, morreu em 1804. Chamava-se Jiun Sonja Onkô. Ele tem uma caligrafia muito famosa, e, nessa caligrafia, o que está escrito é “nada aí”. É o que você deve ser quando você se senta em zazen. Nada aí. Não tem que ter nada sentado ali, nada pensando: “quando vai terminar?”. Seria melhor você sentar-se no sesshin e pensar: “é para sempre, vou ficar aqui para sempre. Toda a minha vida passada eu esqueci, tudo”. Se você esquecer tudo e estiver só aqui já é uma grande libertação. Domingo, quando acabar o sesshin, você volta para aquela vida.

Uma vez eu tive uma percepção bem interessante no fim de um sesshin de 7 dias. Eu voltei para casa, minha esposa me buscou no aeroporto e dentro do carro eu percebi: essa é a esposa dessa vida, essa cidade é a cidade que eu vivo agora nessa vida, tudo é agora e aqui, mas há pouco não era. Poderia ser outra vida, outra esposa, outra cidade, poderia ser qualquer outra coisa. Tudo isso aqui tem a consistência de um sonho. A vida tem a consistência de um sonho. A diferença verdadeira entre o sonho e a nossa vida aqui é que esse sonho, que é a vida, é muito nítido. A sua vida lá fora era um sonho, mas o sesshin em si, essa vida, essa palestra, estar aqui nessa sala também é um sonho. Na realidade, o que há é que esse sonho é muito nítido. E como é muito nítido, ele é uma coisa que chamamos realidade, mas nem sua vida, nem o sesshin, nem nada, tem mais consistência do que um sonho.

[Trecho extraído de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Sem Distinção




Como nós estamos num treinamento Zen, eu aconselho meus alunos: não façam coisas para se distinguirem dos outros, nós tentamos praticar assim, vestindo cores sóbrias para participar dos retiros, para sentirmos essa noção de 'não quero ser diferente', distinguido, melhor, mais bem vestido, não quero ser especial por aquilo que eu coloquei sobre o meu corpo. No sesshin, não usamos joias, não usamos nada para nos distinguir. Eu digo para os meus alunos: “você tem uma tatuagem?” e respondem “tenho”. Se quer ser meu aluno, não faça mais nenhuma, porque elas são uma maneira fácil de querer mudar algo em si para que você se torne diferente dos outros, e esse não é o objetivo do treinamento espiritual. Pode ser uma linda tatuagem, mas a quem deveríamos cumprimentar? O tatuador, não o tatuado. Porque ele que desenvolveu a técnica ou a arte para fazer aquilo. O tatuado só pagou.


Se você quer se aperfeiçoar, aprenda a tocar um instrumento, aprenda a pintar, aprenda algo interno, desenvolva algo interno seu, não tente ser melhor por algo sem mérito. Não estou dizendo que uma operação plástica está errada. Se houver uma necessidade qualquer, se for por motivos de saúde, está certo é legítimo. Isso não é uma coisa vedada. Mas se você envelhece, envelheça. Envelheça com dignidade, não tente se esticar, porque você vai negar o verdadeiro fluxo da vida. Integre-se ao fluxo da vida. 

[Trecho extraído de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Esquecer-se de Si Mesmo




A iluminação é possível agora, e nela não há nenhuma sensação de sofrimento. Contudo, enquanto você ambicionar continuidades, haverá angústia e sofrimento, haverá ambições, coisas que você quer agregar a si mesmo. Isso acontece até para os santos. Os santos são uma maravilhosa tradição espiritual, tão perdida às vezes, porque só olhamos as crenças e não vemos a grande tradição por trás, porque não lemos sobre ela, mas existe uma grande e profunda tradição. Mas mesmo assim, essa tradição tem como seu mais alto objetivo a formação de um indivíduo que é santo, que é puro, que deixou Deus se manifestar dentro dele, que abdicou de si mesmo para ser ele mesmo o habitáculo divino. Nesta imagem ainda restou individualidade, então o santo sofre, pois deseja sua pureza para ser o habitáculo correto da divindade. Ele obtém um grau de espiritualidade muito alto, sem dúvida, mas esse não é o objetivo do Zen. O Zen não quer fazer santos, não quer fazer pessoas que lutam constantemente para esmagar a si mesmos e suas paixões, seus desejos, que veem a continuidade da existência como indivíduo, ainda separado, como um objetivo. Só aquele que esqueceu de si mesmo e tornou-se ele próprio uno com a divindade fica próximo do objetivo do Zen.

[Trecho extraído de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]