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terça-feira, 23 de janeiro de 2018
sexta-feira, 17 de julho de 2015
UNICIDADE E DIVERSIDADE
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| Ilustração de Fernando Zenshô Figueiredo |
Nós ouvimos frequentemente as pessoas dizerem que
devemos ser “um com todos os seres”, no entanto, todo o tempo que andamos no
mundo vemos coisas diferentes, pessoas diferentes, nossos sentimentos são
diferentes e mudam, nossas experiências são diferentes, então nos perguntamos
onde está essa tal “unicidade de todas as coisas”.
Na verdade a diversidade é a unicidade, ela apenas
é a múltipla manifestação das coisas. Nós, os outros e todas as coisas apenas
nos manifestamos de formas diferentes. Em toda unidade há diversidade e toda
diversidade é a própria unidade, nós é que queremos separar uma coisa da outra,
mas nossa vida diária é toda diversa. Quando pedimos as pessoas para que sejam
"um com todos os seres" não implica que deixemos de ver a diversidade
e não significa também que nossa vida não tenha diferentes aspectos como
alegria e tristeza, pois ela tem.
Saikawa Roshi em uma de suas palestras falou sobre
uma moeda que tem em seus lados nossa vida diária - 100% dualidade de um lado
e, do outro, o absoluto, completa unidade, nada de bom ou ruim, certo ou
errado. Tudo está na mesma moeda, mas quando você olha um dos lados não
consegue enxergar o outro. Como podemos estar conscientes de que uma ou outra
coisa é a mesma coisa, é a mesma moeda? Pois quando você anda, a vida diária é
100% dualidade. Você tem que ser capaz de virar a moeda a cada instante, quando
você conseguir isso, será capaz de integrar os dois lados e saberá que um lado
é fantasia e o outro é como as coisas realmente são. Isso pode parecer confuso
porque as coisas são diversas e ao mesmo tempo unas. Ao mesmo tempo em que vida
e morte existem, não existem, são apenas um pequeno aspecto das manifestações,
do ponto de vista absoluto não existe vida e morte, tudo sempre esteve, está e
de alguma forma sempre estará aqui. Universos surgem e desaparecem e tudo
sempre está aqui.
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Explicação não é budismo, é ciência
P: Fico me perguntando: qual a explicação que o Budismo dá para o surgimento do ser humano de forma tão “perfeita”, pois no cristianismo existe a figura de uma “cabeça pensante” que fez tudo isso. Como aconteceu essa evolução no Budismo? Qual a explicação?
Monge Genshô: Em primeiro lugar o Budismo não se dedica a dar explicações. Segundo lugar, a ciência hoje, tem explicações bastante boas. E, pessoalmente, eu acho que a evolução das espécies está muito bem comprovada historicamente. Como acontece? Através do tempo. As pessoas dizem assim: “Ah, mas eu não vejo evolução acontecer”. Como você não vê? Estamos criando novas raças de cachorros todos os dias. Temos animais e plantas que sem o homem nem sobreviveriam. O trigo atual se você deixar sozinho ele desaparece porque a semente não cai, porque escolhemos selecionar sementes que não caem porque são melhores pra colher. E assim por diante. E assim também com os seres humanos. A nossa “matriz” é toda africana. Nossos antepassados de 200 mil anos atrás, você olharia e diria: não, não é um ser humano.
Em algum momento, nós começamos a parecer humanos, mas, se você recua no passado, não é tanto tempo. 200, 300 mil anos atrás, ocorreu o surgimento da espécie do homosapiens. Então, houve evolução lenta, e nós dizemos que nosso corpo é magnífico, perfeito, etc, mas, é não olhar bem pro corpo. Ele funciona muito mal, espinha fraca para andar em pé, pelos corporais diminuindo porque não são mais necessários, calvície, 5% das pessoas tendo episódios alucinatórios na vida etc...
Pergunta: não, mas não foi este o contexto do “ser humano perfeito”, e sim, que em algum momento, pra termos chegado nessa evolução, temos que ter sido no mínimo uma ameba, e alguém tem que ter criado isso ou isso veio de “poeira das estrelas”?
Monge Genshô: Não, mas isso não é budismo, ok? Tem um experimento famoso dos anos 60, quando alguém colocou num vaso substancias que ele deduziu que eram presentes na terra inicialmente. Metano, carbono, outras substâncias. Colocou num vaso e com faíscas elétricas, essa experiência foi repetida muitas vezes em outros lugares. Essas substâncias químicas, depois de algumas horas, começam a formar na parede do vaso uma película marrom. Essa película marrom é constituída de aminoácidos, os prercurssores da proteína. A experiência é a “sopa primordial”, bem conhecida. Então, o que quero dizer é o seguinte: ao que parece, dado o tempo e determinadas condições, você juntando elementos corretos, a vida começa a surgir expontâneamente. E a vida vai fazendo experiências assim, de existência. Mutações, surgimentos, cada vez mais complexos. Nós vemos os surgimentos agora, vírus novos surgem a todo instante. Esse processo continua na vida. Você levando este processo a 2 bilhões e meio de anos que é um tempo inimaginável pra nós, surgem indivíduos suficientemente complexos. Cada vez mais complexos. E vão mudando. Nós estamos mudando. Os testes de Q.I. mostram que, do início do Século XX pra cá, há uma mudança de 20 pontos. Aquelas pessoas que eram consideradas normais em 1920, hoje são consideradas lentas, têm Q.I. 80. As pessoas que eram consideradas de inteligência superior, com 120 pontos, hoje são consideradas normais. Interessante isso. Nós viemos mudando rapidamente.
Na verdade a humanidade vem mudando tanto que por ex, as cesarianas,( nós estamos no limite da capacidade da mulher deixar passar na pélvis uma cabeça do feto). Se você deixa livremente, há uma mortalidade por enquanto discreta mas que seria proibitiva com um crânio maior. Porque a cabeça foi crescendo e está num ponto quase limite para o parto normal.
E isto é evolução chegando nos seus limites possíveis. O corpo feminino já foi sacrificado no seu funcionamento para privilegiar a reprodução, problemas que o homem não tem. Caso da articulação de ninar, nas pernas, ao correr, as mulheres as jogam para fora por causa da largura do quadril.
Então tem um monte de coisas a serem consideradas a este respeito mas eu posso te dizer, que ao que parece, a vida surge expontaneamente e vai caminhando em direção a uma maior complexidade. O Budismo surge porque há sofrimento. Aí surge a descoberta do Dharma. O que o Budismo é pra mim ou o que Buda foi pra mim, foi um grande gênio. Porque ele teve a coragem de quebrar TODOS os paradigmas e dizer: eu não sei, não acreditem em mim, vou ensinar não baseado em fé, etc, e ensinou baseado em raciocínios, nessa maneira de pensar. Me sinto muito bem dentro do Budismo porque posso dizer assim: “eu não sinto conflito com a ciência, que é o que eu sentia todo o tempo quando estive em outras religiões”. Um conflito tremendo com a ciência. E isso o Budismo não tem. Ao contrário, a ciência está cada dia mais se aproximando do budismo. Cada coisa que acontece dizem: “ah, mas o Budismo já dizia isso no passado”. Aconteceu com a física quântica, psicologia etc.
Mas isso não é Budismo, é ciência. E espero que seja útil este pensamento racional, porque nós Budistas não precisamos entrar em conflito com a ciência e dizer: “ah isso é dogma, é crença”, e é assim porque é, ou é mistério”. Mistério não nos interessa. O que a gente não sabe dizemos: não sei. O budismo não se dedica a dar respostas sobre assuntos não verificáveis.
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sexta-feira, 1 de março de 2013
Onde fica o Vazio?
Pergunta – Levando isso em consideração, seria a morte uma libertação?
Monge Genshô – Nem uma libertação nem uma não libertação. A morte é tão somente um evento inerente a vida, tudo que nasce morre.
Pergunta – Então o que sobra após a morte é...
Monge Genshô – O que sobra o que? Do que? O que sobra do redemoinho quando cessam as energias que o colocaram em movimento? Onde está o eixo do redemoinho quando ele para? Esta em toda a parte na atmosfera. Está tudo na atmosfera, nada foi embora, tudo está no mesmo lugar, somente o movimento daquele momento que cessou. Mas a atmosfera está ali livre para produzir novos redemoinhos.
Pergunta - No sutras se fala que forma é vazio e vazio é forma. Eu entendo como forma todas as manifestações que teriam como origem e destino o vazio...
Monge Genshô – Não, não existe destinação no vazio. Todos os seres e todas as coisas, tudo, tem uma forma, mas nem um deles tem um “eu” inerente, todos são interdependentes, interligados e interconectados. Isto é a vacuidade. A vacuidade não é uma coisa, não é um algo, não é um substrato que sustenta o universo e tão pouco um Deus. Quer continuar a pergunta?
Pergunta – Agora complicou um pouco...Mas por exemplo, prosseguindo minha linha de raciocínio, o cabide de madeira, a destinação dele é a extinção do “ser” cabide, pois a madeira irá se extinguir através de fogo ou cupim. Minha pergunta é, esse vazio seria um estado de não-ser...
Monge Genshô – O vazio não é um estado de não-ser. O vazio é o fato de que todas as coisas tem a mesma característica ou qualidade de serem interligadas e interdependentes, e nenhuma delas ter um “eu” em si mesmas, ou seja, inerente. Assim como o redemoinho é um movimento do vento e não existe por si mesmo, nós não existimos por nós mesmos, somos um movimento da vida, cada um de nós é como uma onda ou pé de vento. Somos um movimento no vazio. Vazio de que? De um “eu”. Se você tirar a forma não existe vazio, porquê o vazio se manifesta como forma. Imagine o mar com suas ondas e você passar uma lâmina e tirar todas as ondas de cima do mar, o que sobra? A água, certo? Mas se no momento seguinte você olhar novamente o que surgirá? Novas ondas. Porque o mar só se manifesta desta forma, com ondas. A vacuidade só se manifesta como forma. Você não pode tirar a forma e então restar a vacuidade.
Pergunta – E onde fica o vazio?
Monge Genhô – O vazio não fica. Ele é todas as formas. Onde fica o mar? Não é onde ficam as ondas? Dá para separar as ondas do mar? Quanto mais ondas você tirar mais ondas surgirão.
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quarta-feira, 14 de novembro de 2012
A mente que constrói o mundo
É como a madeira, que é material de construção para nós, mas para um cupim, é comida. Sendo comida para o cupim, para ele é apenas um manjar, não é material de construção. Para o fogo, alimento de chamas. Para um ecologista, a madeira é um seqüestrador de carbono da atmosfera, e assim por diante, segundo cada olhar. Com o olhar surge o significado do mundo, por isso, podemos dizer que quando morre um homem, morre um universo, ou seja, o universo dele, carregado dos significados que ele atribuía às coisas e seres.
Neste sentido, mesmo que eu pegue esse relógio e diga que para mim ele é diferente do relógio que cada um está vendo, porque ele tem determinadas marcas e significados para mim, pode ser que alguém aqui tenha, alguma vez, recebido um relógio na testa, logo, o relógio terá para ele outro significado. Alguém pode ter recebido um relógio de seu pai falecendo; para essa pessoa, então, o relógio terá um significado outro. Desta forma, um mesmo objeto é construído por nós em seus vários significados, e assim construímos um mundo com nossa mente. Por isso, essa mente construtora do mundo é a mente transformadora do mundo. Essa é a razão de treinarmos a mente, porque essa mente treinada modifica todo o mundo, instantaneamente. Uma mente cheia de compaixão vê um mundo compassivo e digno de compaixão. Uma mente cheia de ódio vê um mundo odioso e raivoso. Não há como escapar.
(continua)
(continua)
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Como bolhas
Todo o universo tem um surgimento cíclico dentro da cosmologia budista. Quando surge um universo, dentro dele há naturais irregularidades, as quais acabam provocando fenômenos que, por sua vez, num crescendo de complexidade, fazem surgir vidas. Essas vidas, quando atingem consciência, dizem a si mesmas: “eu sou”.
Mas o que são os fenômenos? Um bom exemplo são as bolhas dentro de uma garrafa de champanhe. Dentro de uma garrafa de champanhe há gás carbônico dissolvido no líquido, e quando diminuímos a pressão, tirando a rolha, formam-se bolhas. Essas bolhas surgem, se expandem e formam espuma, mas as bolhas em si, quando nós as olhamos, são fenômenos, mas são vazios de um eu. Esse conceito, “vazio de um eu” é muito importante. Vamos examinar o que é a bolha.
A bolha é gás carbônico dentro da água. Quando a olhamos, vemos sua superfície, como se tivesse um invólucro. É como se ela fosse algo, no entanto, ela nada mais é que um fenômeno provocado pela interação entre o gás expandido dentro do líquido, o qual tem uma forma, surge, cresce e desaparece, ou seja, deixa de existir como fenômeno. Podemos imaginar que uma bolha pense, “eu sou independente das outras bolhas, sou separada, sou algo, eu existo”. Mas ela é interdependente, interconectada com todo o gás e todo líquido. Ela é dependente das outras coisas para existir. Nós também somos assim, nós somos fenômenos, somos formas extremamente mais complexas do que uma bolha numa garrafa de champanhe, mas somos fenômenos no universo. No entanto, dizemos a nós mesmos, “eu sou”.
O que o budismo essencialmente ensina é que isso é uma ilusão, pois não poderíamos dizer “eu sou”, visto serem todos os fenômenos no universo vazios de um eu. Não há um eu inerente. Esse eu, que acreditamos tão sólido e nítido, é uma ilusão proporcionada pelo funcionamento da nossa mente. Assim como existe um funcionamento do gás com o líquido na garrafa que faz com que a bolha pareça ter uma existência própria, nós, por pensarmos, por termos memória, por conceituarmos, percebermos, sentirmos, por termos formações mentais e consciência, acreditamos que temos um eu. Esse “eu” é essencialmente ilusório. Se não escaparmos desse “eu” ilusório, não conseguiremos perceber nossa verdadeira natureza nem nos integrar ao universo como um todo. Ficamos a nos imaginar separados do todo.
Essa ilusão, ignorância fundamental, provoca algo nessa consciência que faz com que ela continue se manifestando repetidas vezes como fenômeno, com as mesmas características e impulsos, conservando-os e congelando-os nas suas existências. Por isso dizemos que existe um renascimento, uma “re-manifestação” cármica no universo. Mas essa “re-manifestação” nada mais é do que a permanência da ignorância: ignoramos que o eu é ilusão. Essa ignorância é que faz com que surja o nascimento e todas suas consequências, como a velhice, a doença, o sofrimento e a morte.
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quarta-feira, 27 de outubro de 2010
O surgimento codependente

Os doze elos do co-surgimento interdependente (sânsc. pratitya samutpada, literalmente "em dependência, coisas surgem") é um ensinamento profundo e maravilhoso, o fundamento de todo o estudo e prática buddhistas. O pratitya-samutpada é às vezes chamado o ensinamento da causa e efeito, mas isso pode ser desencaminhador, porque geralmente pensamos em causa e efeito como entidades separadas, com a causa sempre precedendo o efeito, e com uma causa conduzindo a um efeito. De acordo com o ensinamento do co-surgimento interdependente, causa e efeito co-surgem (sânsc. samutpada) e tudo é um resultado de múltiplas causas e condições. O ovo está na galinha e a galinha está no ovo. A galinha e o ovo co-surgem em dependência. Nenhum dos dois é independente. O co-surgimento interdependente vai além de nossos conceitos de espaço e tempo. "O um contém o todo".
O caractere chinês para "causa" () tem o caractere "grande" () dentro de um retângulo. A causa é grande, porém, ao mesmo tempo, é limitada. O Buddha expressou o co-sugirmento interdependente de modo muito simples: "Isto é porque aquilo é. Isto não é porque aquilo não é. Isto vem a ser porque aquilo vem ser. Isto não vem a ser porque aquilo não vem a ser." Estas frases ocorrem centenas de vezes tanto nos discursos das transmissões do norte quanto nos do sul. São o gênesis buddhista. Eu gostaria de acrescentar esta frase: "Isto é como isto porque aquilo é como aquilo."
Nos sutras, esta imagem é dada: "Três juncos cortados só podem ficar de pé quando estão encostados um sobre o outro. Se você tirar um, os outros dois cairão." Para uma mesa existir, precisamos de madeira, de um carpinteiro, de tempo, de habilidade e de muitas outras causas. E cada uma destas causas precisa de outras causas para existir. A madeira precisa da floresta, do brilho do sol, da chuva e assim por diante. O carpinteiro precisa de seus pais, de desjejum, de ar fresco e assim por diante. E cada uma dessas coisas, por sua vez, tem de ser trazida por outras condições. Se continuarmos a olhar deste modo, veremos que nada foi deixado de fora. Tudo no cosmos veio junto para nos trazer a mesa. Olhando mais profundamente para o brilho do sol, para as folhas da árvore e para as nuvens, poderemos ver a mesa. O um pode ser visto no todo e o todo pode ser visto no um. Uma causa nunca é suficiente para trazer um efeito. Uma causa precisa, ao mesmo tempo, ser um efeito, e cada efeito deve ser também a causa de alguma outra coisa. Causa e efeito inter-são. A idéia de uma primeira ou única causa, algo que não precise de uma causa, não pode ser aplicada.
Íntegra em: http://www.dharmanet.com.br/zen/doze.htm
Cortesia de Aluizio Larangeira.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Como algo pode surgir do Vazio?

Você está atribuindo ao vazio alguma entidade, uma existência, ora o vazio é uma qualidade das coisas, delas não terem um EU, apenas isto, não significa um "nada", tampouco pode ser reificado (transformado em algo) o resto é interdependência e interconexão, que o universo partilhe uma consciência ou consciências que provoquem complexidades é outro aspecto muito diferente e que o budismo sequer contempla, você acreditar em alguma coisa deste tipo em nada altera a impermanência do existir.
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