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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Com uma única palavra





(continuação)


Tão sensíveis somos, tão a flor da pele está nosso ego, que é fácil com uma única palavra ferir, perturbar, causar desconforto, causar atrito e quebra de harmonia.

Tanta insistência temos nos retiros zen budistas para não falar, porque quando fazemos uma observação a alguém ou quando respondemos a alguém, automaticamente aí se criou uma tensão. E essa tensão redunda na quebra de harmonia. Quando quebramos a harmonia, sentimos nosso ego ferido ou inflado, nosso orgulho tocado, e instantâneamente nos perdemos e voltamos mais profundamente para o vício do eu. E quando presos neste redemoinho, com nosso eu exacerbado, não podemos mais ver a unidade de todo o universo, não podemos mais ser um com as ondas do mar, não podemos ser ondas no zazen, não podemos ser chuva caindo no jardim, não podemos ser a unidade da sangha comendo junta, meditando junta, sofrendo junta, porque de repente nos tornamos eus separados.

Esta vida, aqui, esta sala, é uma sala de sonho, nós somos seres de sonho, estou falando para seres de sonho, palavras de sonho, estamos perdidos nos nossos eus exatamente neste momento, só um profundo despertar nos levaria a escapar disso e sentir a unidade de todas as coisas, e aqueles que sentem a unidade não podem ser feridos, não podem ser perturbados, não há lugar onde o orgulho possa se agarrar, onde a vaidade possa se localizar porque não há nenhum suporte para ela, nosso eu é o gancho no qual se pendura o orgulho, a vaidade e a sensibilidade. É sobre isso que Bodhidharma estava falando quando disse “vazio” e quando disse não há nada de sagrado, nesse mesmo momento ele integrou todas as coisas, porque ao mesmo tempo este chão é profano, ao mesmo tempo este chão é sagrado. Não há nada de sagrado no mundo, não há nada que não seja sagrado, nem o menor grão de arroz, nem a menor porção de molho perdida dentro da tigela na nossa refeição de oryokis (refeição ritual em tigelas praticada nos retiros), por isso a lavamos com água quente e bebemos a água, porque tudo é sagrado.

E o imperador disse: - "Quem é você que está na minha frente?" Porque ele não entendeu nem do que Bodhidharma falava quando dizia vazio. A China já tinha budismo há 500 anos, mas o zen não havia chegado, os textos estavam lá, a devoção estava lá, mas a compreensão ainda não havia chegado quando Bodhidharma expressa esta compreensão profunda. Por esta razão ele é um mestre zen nosso ancestral e recitamos todos os dias seu nome na lista dos patriarcas.

Quando dizemos seu nome estamos lembrando da sua obra de trazer o zen da Índia até à China. O imperador não entendeu nem “vazio”, nem “nada que possa ser chamado de sagrado” e, perguntou: quem é você que está na minha frente? Bodhidharma respondeu o que poderia responder:


- Não sei.

Quando ele disse "não sei", "não faço a menor idéia", "não há ninguém na sua frente", ele estava expressando a plena verdade de que não existe um eu aqui. Não há ninguém aqui. Quando o imperador pergunta quem é você na minha frente, ele, Bodhidharma, responde: - "Não sei," porque já perdeu a noção de um eu e está livre disso. Nele não há nenhum gancho onde pendurar algo.