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terça-feira, 28 de agosto de 2012

A dor do outro


(continuação)
Muitos sistemas religiosos têm a noção de que só os homens têm almas e todos os outros seres não têm. Dias atrás, uma entidade pediu um habeas corpus para um chipanzé que estava preso numa pequena jaula num zoológico de Niterói. O que eles pediram foi um habeas corpus para que esse chipanzé pudesse ir para um lugar aberto, onde há outros de sua espécie, ainda uma prisão. Mas o habeas corpus foi negado, porque o chimpanzé não é um ser humano e nossas leis foram criadas para seres humanos. Talvez pudéssemos ir com uma criança até o zoológico e mostrar os chipanzés trancados em uma jaula com barras de ferro e chão de cimento e a criança nos perguntaria: “Pai, que foi que ele fez, por que ele está preso?” Nós não saberíamos responder. Nossa consciência com relação aos outros seres é muito estreita.
Agora Brasil e Argentina (2011) estão discutindo sobre questões de importações e exportações. Um país restringiu as exportações do outro, então o outro restringiu as exportações do primeiro. Nós sabemos que em economia quando o comercio é livre há progresso para ambos os lados, pois ambos podem vender aquilo em que são mais competitivos. Mas se um começa a querer obter vantagens maiores e começa a haver retaliações, é como aquelas mãos que começam a pedir vingança - “me dê o martelo de volta”. Esse é um caso pequeno, mas típico.
 Nós pensamos em nações, pensamos em seres humanos; é freqüente vermos discussões na nossa espécie entre homens e mulheres querendo saber quem é superior ou inferior. E a nossa espécie olha os seres das outras espécies como se fossem seres não dignos, achamos que podemos colocá-los em jaulas, podemos levá-los para matadouros e matá-los, comer seus pedaços. E se for possível ter uma iguaria mais fina, como um fígado doente, por exemplo, o de um ganso, como é o caso do foie gras. Esse ganso pode ser torturado para que fique doente. Seu fígado incha e fica cheio de gordura e assim mais saboroso para os homens comerem. Não é interessante nossa conduta? É muito interessante, mas ela parte toda da mesma noção, da mesma raiz. Eu, eu sou separado. A dor do outro não tem nada a ver comigo.