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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Trinta bastonadas deu-lhe Obaku



Pergunta:Gostaria de saber se tem diferença no Zen entre corpo, mente, alma e espírito. Por exemplo: há diferenças entre sofrimento espiritual e sofrimento mental?
Monge Genshô: Acho que são só palavras, porque nós poderemos dizer assim: a minha alma está sofrendo, querendo dizer que estou sofrendo intimamente com falta de paz, ou meu espírito não tem paz, ou minha mente não tem paz. Todos seriam sinônimos. Mas quando se fala em alma como uma partícula indivisível de uma pessoa que sobrevive à morte aí nós estamos falando de uma outra coisa, uma partícula eterna que não existe dentro da doutrina budista. Na doutrina budista todas as coisas são impermanentes, todas, inclusive a nossa consciência. Nós queremos que permaneça, mas não é assim. É como querer que o gume de uma faca permaneça quando a faca desapareceu. O gume, fio da faca, é inerente a existência da faca. Sinto-me confuso um pouco quando alguém me pergunta qual é a diferença que o senhor vê entre mente e consciência? As abordagens do zen não são bem assim porque corpo e mente estão misturados, coração e mente estão misturados. Não adianta você dizer minha mente está muito bem mas meu corpo não, eu estou com 41o de febre. Não é verdade. Se está com 41o de febre está delirando, então a mente não está bem. Sente reto e a sua mente muda. Agora faça assim (cabeça curvada) e me diga: como é essa mente? Não é deprimida? Agora coloque a coluna bem reta, atento, é outra coisa. Se você quiser mudar a sua atitude mental, se tudo estiver embaralhado, se tudo estiver difícil num dia, pare e respire fundo, sente bem reto, vá sentar em zazen. Turbulência na mente. Problema. Respire profundamente. As coisas vão voltar para o lugar. Por quê? Porque você voltou para o básico que é respirar. Nada mais tem importância de verdade. Tem a história de um mestre a quem um discípulo disse assim: como eu posso alcançar a iluminação? O mestre olhou para ele pegou sua cabeça e a enfiou dentro de um tanque de água e segurou, ele se debateu, quando estava afrouxando o mestre retirou a cabeça da água e disse: quando você quiser a iluminação do jeito que você queria ar me procure. Porque naquela hora ele não estava pensando em mais nada.
Esse é método típico da Escola Rinzai. Na Escola Soto se é mais delicado, pelo menos no princípio. Saikawa Roshi,  conta que Rinzai,  discípulo de Obaku, foi a Obaku e fez uma pergunta e Obaku deu-lhe trinta bastonadas, ou seja, deu-lhe uma sova. Obaku era um homem de quase dois metros de altura. E Rinzai foi falar com outro mestre e disse: eu fui fazer essa pergunta a Obaku e ele me deu trinta bastonadas. E o mestre disse: que pessoa gentil e carinhosa que  Obaku é. Como ele foi gentil e carinhoso com você! Histórias do Zen.