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segunda-feira, 2 de março de 2015

A rara transmissão



Pergunta: O senhor falou do filme Zen. Nele, Dogen sai procurando um mestre. A pergunta é,  eu que não sou discípulo do senhor, estou aqui aprendendo, a gente precisa de alguma maneira sentir isso aqui dentro, sentir uma conexão?

Monge Genshô: Você precisa sentir que tem uma conexão real com o mestre, com a linhagem, com aquela maneira de praticar. Ou então permaneça como aluno. Isto é tão delicado que se nós prestarmos atenção, em grandes mestres como Bodhidarma, ele, por exemplo, deu transmissão para meia dúzia de discípulos, uma mulher e cinco homens. E o que ficou na nossa linhagem, o que prosseguiu mesmo, foi Taisô Eka, aquele que cortou o braço. Muitos mestres não conseguiram nenhum  discípulo. Tiveram alunos mas não conseguiram levar um discípulo a um ponto em que dissesse "esse discípulo tem a minha mente, eu vou dar a transmissão para ele". Isso é realmente difícil, se o mestre for sério não dará facilmente a transmissão

 Nós podemos alinhar muitos exemplos assim. Então, as vezes alguém diz que o Zen é elitista. É uma característica do treinamento do Zen e da própria forma como o Zen é a seletividade na transmissão. Temos que entender historicamente o que é o Zen. Quando o Zen chegou com Bodhidharma na China, o Zen já existia há 500 anos. Então mestres como Bodhidharma queriam pinçar alguns alunos especiais e dar a eles a transmissão, para que eles continuassem aquele ensinamento. Mas esse pinçar era muito exigente, tanto que Bodhidarma não aceitou nenhum aluno durante 9 anos. Ninguém que chegou ele achou que valia a pena.

De grandes mestres como Unmon, a linhagem desapareceu. Dos 5 grandes alunos de Hui-Neng, (nós descendemos de SĒI·GĒN GYŌ·SHĬ), só dois discípulos geraram escolas que sobrevivem até hoje. Os outros três geraram escolas, mas estas desapareceram, mesmo que nós tenhamos escritos de Unmon maravilhosos. Sabemos que a transmissão não prosseguiu, que não existe uma linhagem sobrevivente. Por isso a linhagem é tão preciosa, é uma coisa tão valorizada no Zen. Então, quando se chegava na China, todo o país era budista. Mas quem é que estava recebendo a transmissão? Meia dúzia de discípulos do mestre tal, na montanha tal. Meia dúzia de outro mestre e assim por diante. O grupo total dos que receberam a transmissão dos mestres é muito restrito. É isso que é o Zen. Então, o Zen não tem a condição de ser propriamente popular. E não existe nenhuma restrição para um leigo atingir a iluminação, não é isso. Não é porque é monge, que vai atingir a iluminação. Como disse, monge é só outra forma de praticar. Entre os leigos, temos muitos exemplos de pessoas que atingiram a iluminação. Agora, para que não fiquemos pensando que a iluminação é, "cheguei e pronto", a iluminação tem enorme gradação de profundidade.