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segunda-feira, 16 de março de 2015

Para onde a pedra quer ir?



Aluno – O senhor falou de coisas contraditórias, primeiro falou que o desejo e a ambição fazem com que a pessoa perca o presente ou fique infeliz, e agora está falando que objetivo é algo de grande valia.

Monge Genshô –  O caminho se mostra a cada passo. De repente surge a oportunidade, pegue a oportunidade. Surge outra oportunidade, 'oh, outra oportunidade'. O objetivo prende a mente. Ah, eu vou nessa direção. Não. Eu estou indo nesse direção, mas se não der certo eu vou para cá. Compreende? Eu vou para o norte, mas se tiver uma pedra no caminho eu não vou ficar parado na pedra, batendo na pedra...., eu tenho que contornar a pedra. Por isso nós dizemos que a água é uma grande lição para o praticante do zen, porque a água sempre consegue chegar, sempre. Se tem um obstáculo, ela se acumula e sobe, ou contorna, ela sempre vai e sempre consegue seus objetivos. A água tem a virtude de, se a colocarmos dentro de um copo, ela toma a forma do copo. Qualquer copo. Mas quando a água se transforma em gelo, aí é uma pedra, e se a gente tentar colocar dentro do copo aí não entra, e se a gente tentar martelar quebra o copo. Esse é o problema do gelo, a sua rigidez, ele pensa 'eu sou assim, e quem quiser gostar de mim terá que ser assim'. Esse é o gelo, ele pensa que é assim, ele tem ideias fixas, e por isso ele é cristalizado e não cabe em qualquer recipiente. A água não. E nós então sabemos, nosso objetivo é o mar, mas pra chegar lá nós podemos dar todas as voltas que o terreno nos pedir, sem reclamar. Aí chegaremos lá.

Aluno – Mas o desejo e a ambição, então, podem ser uma coisa boa, ou ele prejudica o potencial da pessoa?

Monge Genshô – O desejo e a ambição vão atrapalhar. Um objetivo para o qual estamos olhando pode nos ajudar a ir numa determinada direção. Mas a fixidez naquela direção, naquele objetivo, vai nos atrapalhar. Então, exatamente o que acabei de falar sobre a imagem da água: vai chegar no mar, mas vamos contornar os obstáculos e vamos pelos caminhos de menor resistência. É persistência, paciência, aguardamos. Aí nós conseguimos fazer grandes coisas. No taoísmo há um ensinamento chamado wu wei , significa que quando as condições estão prontas e maduras fica fácil de fazer as coisas, mas se você forçar quando não está pronto e maduro, você não vai conseguir. Shunryu Suzuki agiu assim:  uma vez estavam fazendo na Califórnia um jardim num mosteiro, e os alunos do zen estavam lá empurrando uma pedra e fazendo uma força danada, e ele observando aquilo foi até eles e disse 'não é assim, vocês têm que olhar para a pedra e perguntar, nós queremos levar a pedra para lá, que é nosso objetivo, mas para onde a pedra quer ir?'. Ah, ela quer ir para cá, depois para lá, depois para cá... para onde a pedra quer ir? E aí, empurrando a pedra para onde a pedra queria ir eles colocaram a pedra com muito menos esforço no local onde eles desejavam chegar. Entenderam? Boa noite.   (Palestra decupada por Shoshin San )