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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Palestra de Goiânia - Parte II


(continuação de Palestra Pública realizada em Goiânia, 30/11/15)
Você pode mudar seu carma? Pode, perfeitamente. Exige um bocado de esforço, mas é possível. Você pode mudar seu país? Pode, claro. Exige esforço. Não há injustiça se existem causas pregressas que permitiram que aquilo acontecesse e sempre existe uma causa anterior, basta que você raciocine da seguinte forma: não existe efeito sem causa. Portanto se existem consequências, existem causas. Se nós quisermos mudar as consequências, basta que nós mudemos as causas dessas consequências. Então, existe um fim tal como “minha morte”? Não, a morte é ilusória. No sentido de que tudo é continuidade, é impossível não haver continuidade, se tudo é causa e consequência então nada pode começar no sentido absoluto.

Não adianta eu dizer: “minha vida está muito infeliz”, logo em seguida pulo de um edifício e morro para acabar com a infelicidade. Aquelas causas de infelicidade permanecem neste universo e este carma produzirá uma pessoa com as mesmas tendências e os mesmos problemas que levaram àquela situação de desespero. Não existe uma maneira de sair deste mundo. Como Monge entrevisto diversas pessoas e sei que essas fantasias de suicídio são muito mais frequentes do que a gente imagina. Eu fui diretor de jornal e toda a imprensa tem uma regra: raramente se noticia suicídio. Porque se você noticia um suicídio hoje, amanhã acontece um igual. As pessoas imitam. Existe uma influência e para evitar essa influência você não noticia. Mas o que interessa para nós aqui é a ideia de que tudo é continuidade, não existe uma sensação real. Por causa disso a morte em si não é real, é apenas um evento que informa a continuidade.

A morte é o grande problema filosófico da angústia existencial e é o problema que Buda pensou. Ele vivia no palácio, tinha riqueza, esposa, filhos, concubinas e o que mais ele quisesse. Mas ele pensa em três problemas: velhice, doença e morte. Com 28 anos ele pensa nisso e se pergunta qual é o sentido de tudo isso? Aquela lenda de que Buda saiu e viu um velho, um doente e um morto é isso mesmo: uma lenda. Um homem de 28 anos, treinado nas artes da guerra obviamente já conhecia velhice, doença e morte, a lenda apenas nos informa que ele pensou nessas coisas como um problema e isso gerou uma grande angústia existencial. É por ter pensado dessa forma que ele saiu do palácio e disse: “eu vou resolver esse problema”. Resolver esse problema, para Buda, só ocorre seis anos depois. São seis anos meditando, jejuando, estudando com Mestres diferentes, mesmo Buda teve Mestres, e então ele desperta. Quando ele desperta, esse despertar é o entendimento dessas coisas que estamos falando. Mas não é um entendimento intelectual, é um entendimento claro, um sentimento interno de que não existe início nem fim, só existe continuidade e que a morte também faz parte das ilusões. Ele viu com clareza tudo isso e despertou. Esse despertar é o que o torna Buda, antes ele era Shakyamuni.

Quando Buda desperta ele vê a estrela da manhã nascendo depois de ter passado sete dias meditando embaixo de uma figueira e então ele diz: “óh, que maravilha! Eu, a grande Terra e todos os seres simultaneamente atingimos a iluminação”. Essa palavra “iluminação” é ocidental, em sânscrito é “despertar”, porque todos os homens estão sonhando sonhos de ilusão e já que vivemos isso, estamos perdidos. Na verdade é por isso que os homens criaram as religiões, para tentar dar uma solução para a morte. Dizem “você vai ressuscitar”, “você tem uma alma imortal”, “você vai para o paraíso”, ou qualquer outra resposta. E o paraíso é sempre de acordo com a circunstância. Para os esquimós o paraíso é quente, mas provavelmente para o pessoal de Goiânia lá tem ar-condicionado. Essa história é bem interessante porque os primeiros missionários que chegaram para conversar com os esquimós descreveram o inferno como um local cheio de fogo e os esquimós disseram: “para nós esse inferno parece o paraíso”.

(CONTINUA...)