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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Palestra em Goiânia [02/11/2015] - Parte 1


Gostaria de falar um pouco sobre distinções. Sidarta pertencia à segunda casta mais importante na Índia no seu tempo. Sua casta era a dos privilegiados que não precisavam trabalhar porque a sociedade sustentava. Na medida em que a sociedade começou a ter excedentes, ela começou a sustentar os seus religiosos. Essa é a história humana. Podemos chegar a uma tribo de índios e veremos também o xamã que não precisa fazer esforços para produzir a comida, por exemplo, fica disponível apenas para realizar cerimônias. Os guerreiros também possuem privilégios e assim por diante. Sidarta era filho de um rei de um pequeno principado e quando ele sai do palácio e raspa a cabeça, ele abdica de sua condição social. Mas o que importa para nós é que dali em diante ele admite na ordem budista, como Monges, todas as classes sociais, mesmo a mais baixa de todas, que era a classe dos intocáveis, ou seja, pessoas que as outras não poderiam tocar porque a eles estavam reservados os piores trabalhos, como: lidar com estrume e coisas assim. Essas pessoas eram párias sociais e até hoje isso existe no mundo.

Essas distinções estão presentes em todas as ideias de classificação, quando dividimos a sociedade em classes sociais, em classes de trabalho, ou criamos estratificações de qualquer espécie, seja por raça, por cor, ou por gênero, qualquer coisa que fazemos nesse sentido cria distinção, cria privilégio de um lado e opressão de um outro. Ao invés de fazer uma discussão sociológica sobre esses aspectos e ficarmos contaminados por teorias e ideologias, vamos ver o exemplo de Buda. Quando as mulheres foram admitidas na ordem budista e Prajna Pati, que era tia de Buda, foi nomeada a primeira Mestra, ela também raspou a cabeça, recebeu o manto amarelo e Buda disse que não havia diferença entre homens e mulheres na capacidade de atingir a iluminação, portanto não tem distinção. Distinções culturais acabaram sobrevivendo, prejudicando e atrapalhando, mas quando você faz a distinção, você não sabe mostrar onde você a fundamenta.

Eu fui para um mosteiro nos Estados Unidos com Monges e Monjas e quando você senta e olha para as pessoas que também estão sentadas, você não sabe dizer quem é homem e quem é mulher. Ficam todos com as mesmas roupas, com as cabeças raspadas e todos são absolutamente idênticos. Nesse mosteiro a vice abadessa era Daien Bennage e a figura da vice abadessa é muito importante. Ela chegou a ser designada para ser superiora geral da América do Norte, mas recusou. Outro Monge acabou sendo escolhido,  Daigaku Rumme Roshi, que significa grande montanha, porque ele é muito alto. Uma vez eu estava nas montanhas e lá fazia 15º abaixo de zero e eu não desliguei o aquecedor, sendo que a regra é: quem ligou tem que desligar. Esse Monge me chamou no pátio todo coberto de neve e me disse: “você ligou o gás?” e eu: “sim, senhor”. Ele disse então: “e você não desligou o gás”, nesse momento eu me dei conta, disse que iria desligar, mas ele: “eu já desliguei” e disse várias outras coisas como repreensão. Você pode dizer só uma coisa numa situação dessas: “obrigado”, no Japão é: “hai”. Ou diz “obrigado por se importar comigo”. Mas o importante é que ali no monastério ela é mais importante que ele. (Continua)