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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Parar o corpo ajuda a parar a mente


Aluno: Praticar vipassana ou samatha não é praticar zazen, então?
Monge Genshô:
Não é. Mas quem está praticando zazen de fato aqui nesta sala? Vocês estão praticando zazen alguns segundos ou minutos dentro de cada sessão. O que está acontecendo é: você senta, imobiliza o corpo, começa determinadamente tentando fazer tudo certinho até que o corpo cansa, então você se curva, a cabeça cai, a perna dói, etc. Tudo isso faz parte do processo, mas o problema está na mente porque essa parte da postura, embora seja complicada e difícil de executar bem, ainda é viável. A mente é o verdadeiro problema. Parar o corpo ajuda a parar a mente, mas ela quer viajar, você traz ela para cá, tenta ouvir o som do ar-condicionado, ouvir os pássaros, olha fixamente para a parede, mas começa a ver figuras, encontra dois pontinhos e acha parecido com um rosto, então procura a boca e assim por diante. Na verdade você tem que sentar e não ver nada. Mas se eu quiser ver, então vou ver. A pergunta é sempre: onde estão essas coisas que vejo? Na sua cabeça. Os pensamentos estão na sua cabeça e não fora. Você pode lutar com seus pensamentos e tentar parar de pensar? Isso seria tolo, você não consegue fazer isso. Nós apenas ignoramos, se a mente quer viajar ela que vá, eu não preciso dar nenhum sustento para ela. Ela pensa em cavalos e eu não tenho nada a ver com cavalos, então faço nada. Apenas deixo passar. Seja lá qual for o pensamento eu não preciso acompanhá-lo. Se a mente pensa em árvores eu não procuro os frutos, não desenvolvo o pensamento e se eu me comportar assim a cada nova tentativa da mente eu volto para cá, até que ela cansa. Se a mente consegue se repousar no não pensamento de ficar aqui, ouvindo os sons, apenas sendo e vivendo neste mundo, isto sim é zazen.

Quanto mais tempo você ficar assim, mais você treinou a sua mente e se tornou senhor dela. Nós chamamos esse estado de samadhi, que é um estado onde você não é arrastado por paixões, você só aceita tudo que está vindo. Por que fazemos isso? Isso vai fazer com que o zazen produza um insight? Não. Provavelmente não durante o zazen, mas fora, andando, comendo, vendo algo ou mesmo depois do sesshin. Depois do sesshin, durante dois ou três dias, você consegue manter um estado especial. Mas depois que para de sentar sua mente volta para a loucura.

Eu comparei ainda há pouco com um redemoinho, você é um redemoinho girando sem parar, levantando poeira e destruindo coisas, mas a sua natureza não é de redemoinho. O redemoinho é apenas o movimento da nossa mente, é o nosso carma. O eixo é o nosso eu, que você olha e reconhece como o olho do furacão, mas que na verdade não é algo e sim ilusão. Ele está lá, mas não tem uma natureza inerente, ele só existe porque existe redemoinho, então é efeito do movimento. Qual é a nossa verdadeira natureza? É atmosfera. Nós somos atmosfera. Imensa, com milhões de possibilidades, mas estamos perdidos na consciência de um redemoinho e por isso não vemos essa verdadeira natureza. Se nós desfizéssemos o movimento do redemoinho e acalmássemos a mente completamente, o redemoinho desapareceria. Desaparecendo o redemoinho desaparece junto aquele eu pequeno, então surge a possibilidade de darmo-nos conta de que nós somos imensos, grandes, muito mais do que um eu pequeno. Nós somos todo abrangentes e todas as tempestades não são mais nada do que nós mesmos. Nós não percebemos que somos atmosfera porque estamos perdidos acreditando que somos redemoinhos. Todos aqui agora são pequenos redemoinhos de movimento cármico manifestado em carne e osso.