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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Palestra em Goiânia [02/11/2015] - Parte 2



Eu pertencia a um grupo de tarefas com mais quatro Monges e tinha um Monge que eu não sabia se era Monge ou Monja, porque não estava no dormitório dos homens. Então eu perguntei para outra pessoa e essa pessoa me respondeu: “ele é transexual, era um homem e se descobriu mulher e já que é assim tem nome de mulher e fica num quarto no dormitório feminino”. E depois disso nunca mais ouvi nenhum comentário a respeito e nós sempre trabalhamos juntos sem ninguém fazer distinção nenhuma. Esse é o ensinamento real do Zen. No momento em que você faz distinção e diz: branco, negro, índio, homossexual ou qual for a outra distinção, é nesse momento que você cria o problema. Se todos nós não diferenciarmos, se todos nós não pensarmos dessa forma, pensarmos apenas como manifestações humanas, hoje é assim, depois não, somos apenas bolhas dentro da garrafa de champanhe, sem necessidade de distinguir, não haverá problema.

É claro que existem considerações a fazer no caso de injustiças, por exemplo, você tem que dizer que essa violência praticada contra alguém por raça, gênero, etc, tem que ser coibida agora. Do ponto de vista budista não tem porque cobrir uma mulher porque ela provoca desejo nos homens, os problemas não estão nela, estão na cabeça daquele que se sente perturbado. A mutilação genital que se pratica na África, assim como as violências cometidas contra os homens que são muitas e que a sociedade admite sem discutir, nada disso é compartilhado pelo budismo. Vemos os noticiários falando de mortes de mulheres e crianças como desastres e mortes masculinas com descaso. Os homens são descartados, podem morrer, mesmo que seja um ser valioso para a sociedade, que seja um cientista, que seja um jovem, acabam salvando, nos naufrágios, mulheres de 80 anos e deixando jovens de 20 anos morrerem porque são homens. Isso é claramente errado para o próprio interesse social. A origem dessa cultura de salvar as mulheres prioritariamente era para salvar a espécie, porque afinal de contas um homem pode fazer filho com várias mulheres. A violência contra os homens não é falada e os homens ficam calados porque são ensinados a não falar, então ficam quietos sobre a violência que sofrem com outros meninos porque vão dizer que ele foi o covarde que apanhou, por exemplo. Enormes violências são escondidas.

A origem de tudo isso é que temos que pensar como seres humanos e não diferenciar por raças, orientação social, classe social e outras classificações várias. Deveríamos olhar para o outro com outro olhar. Essa é a grande lição de Buda, dada 2600 anos atrás. É incrível que há 2600 anos, vivendo numa sociedade que mal tinha começado a escrever, Buda tenha abolido toda a noção de distinção, inclusive entre homens e mulheres. Se até hoje nós não superamos isso, é incrível que já tenha sido proposto há tanto tempo. Das grandes religiões a única que considera homens e mulheres iguais é o budismo. As outras preservam o sacerdócio para apenas um gênero, não sendo necessariamente o masculino, no candomblé apenas mulheres são sacerdotisas, os homens são meros auxiliares. Eu gostaria que vocês levassem com vocês a noção de que a classificação é o problema original. De novo, não estou propondo que nós esqueçamos as injustiças porque a realidade é que existe classificação na nossa sociedade, mas é importante ter claro dentro de si que a classificação é o problema. (Final)