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sexta-feira, 20 de abril de 2018

Liberdade de Não Acreditar



Do ponto de vista do zen, o aluno pode dizer para o professor: “eu não estou acreditando nisso”, e o professor só argumenta, porque é isso que Buda fez. É perfeitamente lícito que o aluno questione uma ideia qualquer do budismo ou do professor. Inclusive, isso existe sob forma ritualizada, chama-se Mondo. Nós nunca realizamos aqui porque não temos uma corporação de monges, mas um dia vamos fazer. O professor fica com o kyosaku na mão, o aluno vem andando e faz a sua pergunta. Logo em seguida ajoelha na frente do professor. O professor responde e bate ritualmente com o kyosaku em seu ombro e ele recua de costas agradecendo. Esse é o ritual do Mondo. O professor não sabe quais são as perguntas. Então você pode fazer a pergunta mais louca que quiser.

Eu me lembro de fazer Mondo com Saikawa Roshi duas vezes. Na primeira vez perguntei: “Eu ouvi falar sobre carma, me diga, de onde veio o primeiro carma?”. E ele respondeu: “Quando você descobrir, me conte”. Na outra vez eu perguntei: “Por que Bodhidharma tinha barba?”. E ele respondeu: “Nem ele sabia”. (risos). Na cerimônia pode-se fazer qualquer pergunta, “por que a lua é redonda?”, pode fazer.

[Trecho de Palestra proferida por Monge Genshô Sensei]

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Símbolos e Rituais




Aluno: O zen mostra uma visão desiludida das coisas (desiludida de sem ilusões). Eu comprei isso aqui (um colar com símbolo), e gostaria na verdade de uma leitura sobre os símbolos ou signos.

Monge Genshô: Como você mesmo disse, não é relevante. Os símbolos e os rituais são linguagem para o inconsciente. Nós sonhamos com signos, e eles nos atingem de alguma forma. Nós montamos um altar, colocamos uma estátua, colocamos flores porque é bonito. Colocamos vela, que é o símbolo da iluminação. Acendemos incenso, etc. Nós fazemos essas coisas, mas elas não são o budismo. São o que nós chamamos de upaya, meios hábeis: são meios para criar um clima, para ajudar as pessoas que se sentem impactadas pelo ambiente, mas não são realidade alguma e não são essenciais. 

Por isso nós contamos a história do monge Zen que estava com frio, pegou a estátua de madeira de Buda, partiu em pedaços, fez lenha e fez uma fogueira. Daí os outros monges que apareceram de manhã disseram: “oh, você queimou o Buda!”, e ele retrucou: “é mesmo? Cadê os ossos? (sariras)". O que ele quis dizer é que era só madeira; naquele momento era madeira: eu estava precisando e pronto, acabou. 

Então, o símbolo ou qualquer coisa que você goste e use pode ser inspirador, mas se alguém me pergunta e diz: “ah, eu queria fazer uma tatuagem de Buda para mostrar que sou budista”, eu digo: “não faça isso! Você quer ser diferente das outras pessoas?”. Tudo o que fazemos para nos diferenciar, nos atrapalha. É um reforço egóico.

[N.E.: trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei] 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Mantos sobre a cabeça



Pergunta – Monge, neste contexto dos rituais, qual o significado na cerimônia da manhã quando todos colocam os mantos e os rakusus sobre a cabeça?

 Esta é uma antiga tradição que Dogen cita, e ele diz que ficou muito emocionado por ver isso na China, significa “grande respeito”, você colocar alguma coisa sobre a cabeça e “orar”. Então ele cita como tendo visto isso há 800 anos atrás, no Templo de Hui Jin, de Tendo Niojo Daiosho. Como ele é o fundador da nossa ordem, nós repetimos o ritual todas as manhãs, nós sempre viemos para o zendo sem o manto e sem o rakusu, e de manhã, recitamos o verso do manto, “ó grande manto da libertação, além da forma e do vazio, campo sem forma de benefícios, uso os ensinamentos do Tathagata, para libertar a todos os seres” .

“Campo sem forma de benefícios”, quando você olha o manto, ele é feito de retalhos, como um campo de arroz também. E como ele é feito de retalhos de tecido rejeitado, ele tem um simbolismo muito bonito, de que você pegando tecido estragado e separando pedaços ainda bons e costurando os retalhos, pode de novo fazer uma coisa boa. E todos nós somos assim. Temos pedaços bons, pedaços ruins, sentamos aqui em zazen e vemos, nossos pedaços bons e ruins aparecendo. Você só precisa separar os bons, costurá-los juntos, cuidadosamente, ignorar os outros. Só ignorar, e você vai ter um rakusu. O rakusu ou o manto de Buda, é isso, é uma metáfora de como nós podemos selecionar e separar e ficar com o que é bom, desde que nós nos esforcemos para tanto. Bonito...
(Final de palestra pública, decupada da gravação por Rachel San)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O dente de Buda


Quadro de Eduardo Salinas

Pergunta – Eu achei curioso quando caminhávamos pelo mosteiro e fizeram reverência à estátua de Nossa Senhora, porquê?

Monge Genshô – Penso que Nossa Senhora de Fátima é uma imagem da compaixão, aí faço a reverência para a imagem da compaixão. Na realidade, o arquétipo é o mesmo de Kanon Bodhisattva, uma figura feminina, amorosa, e compassiva, é só isso. Então fazemos reverências para todas as estátuas, de todas as religiões, e isso acaba dando em coisa muito boa.

Essa construção deste mosteiro é obra do espírito humano, a estátua também é obra do espírito humano. Na realidade é gesso, madeira, pedra, a estátua não é nada. Nós nos inclinamos perante ideias, é a mesma coisa com Buda. Nós não reverenciamos Buda, pois mais morto do que Buda está, é difícil. Reverenciamos a ideia de ser possível acordar, por causa do grande Mestre que ele foi, isso é uma ideia maravilhosa.

Há uma historia famosa no Zen, em que um Monge chega num eremitério numa montanha e estava muito frio, e tem uma estátua de Buda de madeira, ele parte a estátua, faz uma fogueira e dorme bem quentinho durante a noite. De manha chegam dois Monges e fazem um escândalo: “Mas como, você queimou o Buda”?

Existe uma lenda de que quando alguém, um grande homem como Buda é cremado, aparecem pequenas joias, que se chamam “sariras”, então o Monge remexe as cinzas e diz: “É mesmo! E onde estão as sariras”? É como se a gente perguntasse: “Queimei, onde estão os ossos?” Porque é madeira. Isso revela um dedo que o Zen está sempre apontando à iconoclastia. Não transforme as coisas em outras.

Tem uma historia Tibetana também, de uma senhora velha que ia morrer e o filho ia fazer uma peregrinação pra índia, e ela pediu a ele que lhe trouxesse um dente de Buda. E, claro, ele não tinha como achar um dente de Buda, de modo que quando ele voltou no caminho, pegou um dente de cachorro que pegou na estrada e poliu, deu formato de um dente humano, colocou numa caixinha e levou para a mãe. Ela ficou maravilhada e construiu uma pequena estupa, um relicário, e colocaram lá o dente e as pessoas todas dos vales começaram a fazer peregrinações para reverenciar o dente de “Buda”. E assim, com o tempo, o dente começou a brilhar. 

O espírito da estória é evidente, quem faz o relicário? Quem faz o dente brilhar? É só um dente de cachorro. Mas a reverencia de todos faz o dente brilhar. A estátua de Buda aqui atrás também, é só um material qualquer. Mas nós a reverenciamos, reverenciamos, reverenciamos e ela se torna importante, porque a reverenciamos. É a mesma coisa com todas as coisas que nós fazemos. Rakusu, o manto budista, você não entra com ele no banheiro, tem que dobrar, colocar no altar, o rakusu você costura, trata ele de maneira especial então ele se “torna” um rakusu. Mas, tecnicamente o que é? É só um pedaço de pano. Nós é que o transformamos, como uma forma de prática, porque precisamos de certas coisas assim, e elas fazem diferença.

Imaginem que o Monge se vestisse sempre de abrigo. Seria diferente. Eu sei que é diferente. Quando chego em qualquer cidade, vou fazer uma palestra, você estar vestido de monge faz uma grande diferença. Então você se comporta diferente, as pessoas te olham diferente, ganha um poder. É um poder que às vezes remove sofrimento. A pessoa vem diz que tem certa angústia, você diz alguma coisa para ela que a vizinha poderia ter dito mas  como foi um monge que disse, então funciona. Não podemos perder de vista estes fatos, pois eles são assim mesmo, então os rituais têm sentido, as roupas têm sentido. Embora pareça que algumas pessoas tenham resistência aos rituais por exemplo, na verdade é cegueira.

Uma vez eu estava com um rapaz e ele me disse: “eu detesto rituais”. E eu disse: “não é verdade”. “Por que o senhor diz isso”? “Porque eu entrei aqui na sala e você me estendeu a mão. Se eu tivesse ignorado o ritual de apertar as mãos, você teria se sentido ofendido, então você leva em conta os rituais sim, você acredita neles, tanto que acredita num aperto de mãos, que não é nada mais que um ritual com o qual você se acostumou”.

Então os rituais têm poder, nós seres humanos somos assim, aliás muito ritualistas, muito.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Mostrar com o corpo



Pergunta – A gargalhada é uma reação fisiológica que faz bem à saúde, nos mosteiros existem atividades que provocam gargalhadas? Jogos? Diversões?

Monge Genshô - Jogos não. Uma vez eu estava em um mosteiro e tinha uma responsabilidade, tinha que tocar um sino antes da hora do almoço. O sino ficava num prédio longe, tinha que sair minutos antes para tocar. Eu tinha que ficar cuidando o relógio do zendo para poder sair no horário. Tínhamos acabado de fazer zazen e havia um monge do meu lado que era da Colômbia, muito meu amigo. Ele sabia muito mais que eu, já tinha feito outros Angôs. Então ele olhou para mim e disse “Genshô, você não tem que tocar o sino?” Comecei a sair rapidamente do Zendô e quando olhei para o relógio percebi que ainda eram nove horas, voltei rapidamente para o meu lugar com todos me olhando e disse, “ainda são nove horas!” e de brincadeira ameacei lhe bater com o Zagu. O zendô inteiro, estavam de pé, voltados para o centro naquele instante, riu, pois pensaram que ele havia me pregado uma peça.

No dia seguinte eu havia pegado uma virose e estava com diarréia, ele então disse que fora por causa do susto e me pedia desculpas porque havia se enganado. Havia também um monge francês, tínhamos acabado de fazer um sesshin de três dias, todos mudos, chegamos ao quarto e ele disse, “acabou o sesshin, tenho uma garrafa de vinho”. Abriu a garrafa e todos nos reunimos rindo, para tomar um cálice, coisa que os instrutores jamais deixariam se soubessem. Na realidade os homens velhos, monges, as vezes acabam se comportando como colegiais. Rir faz parte da vida e os monges são pessoas alegres, tem um treinamento duro, mas tem alegria, uma alegria muito bonita, porque não está eivada de um sentimento baixo, é alegria, solidariedade, companheirismo e amizade, isso é característica do treinamento Zen.

O fato de Genshu Osho estar nesse sesshin, por exemplo, é uma demonstração de grande amizade e afeto por nós. Ele veio do Japão, e estava em São Paulo, quando soube que haveria um sesshin aqui, pediu para participar, então em vez de estar passeando, veio para cá sentar conosco. Isso é na verdade a ação iluminada, não é nada de especial, apenas viver, aproveitar a amizade e o afeto. Como ele não fala português, não pode falar claramente, mas está demonstrando com seu corpo, espero que vocês consigam perceber.

Pergunta – Voltando ao assunto do consciente e inconsciente, a função do nosso inconsciente é nos manter vivos, por exemplo, se ficarmos sem respirar, trancarmos a respiração por alguns minutos, o inconsciente derruba o consciente e assume para que voltemos a respirar, de repente a função do inconsciente de nos manter nesse grupo de loucos, não é para nos manter na tribo, para que não nos sintamos sós?

Monge Genshô – Até pode ser, na verdade no budismo não se faz essa distinção de consciente e inconsciente. Diríamos que esses processos do sistema automático do corpo fazem parte dos mecanismos da vida em que consciente e inconsciente estão misturados e, talvez, por causa do zazen tenha surgido essa não separação de consciente e inconsciente nos termos da psicologia ocidental. Que nosso corpo procure o prazer, a reprodução, a satisfação, isso é natural. Quando engordamos por comermos demais, por que isso acontece? Porque deixamos um processo natural tomar conta, o que não seria correto, se você comesse ração, por exemplo, quando um cão fica adulto não come demais, porque é sempre a mesma comida, mas se você diversificar a alimentação acontecerá o mesmo que com os humanos, engordam, se der doces ficam diabéticos. Temos que sobrepor aos nossos desejos naturais uma consciência do que estamos fazendo e o porque fazemos. Em um retiro é fácil, comemos com oryoki (tigelas rituais), ninguém come demais com oryoki, é fácil em mosteiros, em mosteiros não se vêem monges obesos. Mas em um restaurante é diferente, senta, conversa e come, come mais do que precisa.


sexta-feira, 27 de julho de 2012

A forma no zen



O Zen diz que o apego à forma e aos rituaís é uma dificuldade. Do outro lado quando nós entramos num mosteiro Zen, ou num centro de prática do Zen, nós vamos ver que há muita exigência quanto à forma. Mais do que em qualquer outro lugar. Pedimos que os sapatos sejam colocados lado a lado e retos, não sejam jogados de qualquer forma. O que isso significa? Significa: quem tem uma mente desarrumada a expressa de forma desarrumada. Então se alguém chega num lugar e joga os seus sapatos de qualquer jeito isso expressa uma mente não respeitosa, não disciplinada, não reverente. Então a forma expressa essa mente.
 Então no método do Zen nós começamos com uma expressão formal correta esperando que através da expressão formal nós venhamos a modificar a nossa mente. É o caminho oposto. Nós sabemos, por exemplo, que quando alguém fica tenso, nervoso, contrai os músculos das costas. Então não adianta chegar para a pessoa e dizer assim: se acalme, relaxe. E a pessoa: mas eu estou nervoso. E as costas estão doendo de dor, contraídas. Nós sabemos que não adianta apenas fazer isso. Então nós pegamos essa pessoa e fazemos uma massagem nas costas, fazemos shiatsu, acupuntura, um bom banho bem quente e as costas relaxam e a mente relaxa. É claro, nós podemos começar por qualquer um dos lados e obter o resultado desejado. Podemos começar pela mente e obter o resultado no corpo, na forma. Mas nós também podemos iniciar na forma para tentar alcançar um resultado na mente.
Na verdade no Zen as abordagens dos dois lados existem simultaneamente. Sentamos em zazen para tentar criar uma mente pacificada. Mas como sentamos em zazen? Com uma forma e esta forma é altamente disciplinada, simétrica, apoiada, sólida, pacificada. Nossa mente pode ser uma tempestade, mas nós sentamos como budas, como estátuas de buda. E o professor diz: respire como um buda profunda e calmamente e deixe uma respiração natural se instalar. Fazemos um mudra como o de Buda, apoiamos três pontos no chão: os joelhos e as nádegas de maneira a ficar solidamente estáveis. Estabilizamos o corpo. Tornamos a coluna reta. Ao fazer isso nós influenciamos a nossa mente. É por isso que a forma é assim. Algumas pessoas não entendendo a forma olham para a escola Zen e dizem que isso é ritual e que é apego à forma. Não é apego à forma. Apego à forma seria se apenas sentássemos e brigássemos com as pessoas: você não está sentado certo. Você está sentado curvado. Você está sentado torto. Não pode sentar numa cadeira. Você tem que sentar em posição de lótus. Se nós fizéssemos isso seria apego à forma. Não é isso. Os mestres sabem que existe um sentido na forma e a forma é praticada para mudar a mente. É por isso que  trabalhamos assim.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

"Do" ou o caminho



Qual é o sentido dessa prática? Se você tomar como um trabalho não é nada, se tiver objetivo também vai perturbar. Tem que conseguir fazer sem eu, sem colocar o ego. Todas essas técnicas que eu estou colocando aqui são inerentes à prática do Zen e do sesshin, são estratégias para demolir o ego e por que às vezes as pessoas acham tão difícil? Porque às vezes parece que é humilhante, porque elas se sentem importantes e os professores costumam dar aos alunos não o que eles fazem bem, mas a tarefa na qual eles têm dificuldade e todo tempo você vai sendo corrigido, aí você pensa: mas tem sentido isso? Tem sentido o ritual,o movimento? Não, poderíamos mudar rituais e  movimentos. E costurar é uma tarefa que pode ser usada para isto, mas trabalhar na horta também. Limpar o chão também.
A questão é como é que nós colocamos “do”: caminho. Como colocamos “do” na tarefa. Como transformamos a tarefa em um “do”. Como transformamos em caminho porque aí é que nós começamos a ver como surge aquele sentimento. Você está fazendo a tarefa não faça só a tarefa.Olhe para dentro de si e veja: que sentimentos surgem em mim quando estou fazendo a tarefa? Eu quero ser apreciado depois? Eu quero que me digam que o trabalho é bem feito? Enquanto esses sentimentos estiverem presentes você não conseguiu. São justamente eles que nós temos que acabar sentados nas almofadas. Nós temos que fazer sem nos preocupar com nenhuma apreciação nem julgamento nem nosso nem de outro. É só fazê-lo para diminuir a força dessa identidade, que é ela que está nos perdendo e é ela que está criando o sofrimento. Criando o sofrimento através daquelas armadilhas, do apego e da aversão e da falta de consciência de que tudo isto é ilusório.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Arrependimento


No buddhismo Zen há um ritual para se entrar no caminho de Buddha.
Consiste em expressar o arrependimento informal, em buscar refúgio no tesouro
triplo e em jurar praticar os três preceitos coletivos puros e os dez preceitos proibitivos. Esse ritual baseia-se na idéia de arrependimento, que significa, no buddhismo, total abertura de coração. se nos abrirmos completamente, consciente ou inconscientemente, estamos prontos para ouvir a voz silenciosa do universo. [...]

No ritual de arrependimento informal, cantam-se os seguintes versos:
"De todo o karma continuamente criado por mim desde os tempos antigos, por meio
da cobiça, da raiva e da auto-ilusão que não tem princípio, nascido de meu corpo, de minha fala e de minha mente, agora eu me arrependo, com toda a sinceridade." No buddhismo, arrependimento não significa pedir desculpas a alguém por algum erro ou engano. O arrependimento não é um estágio preliminar para entrar no mundo de Buddha ou para se tornar uma boa pessoa.
Se o arrependimento for interpretado desse modo, caímos, simplesmente,
na armadilha do dualismo; uma grande lacuna é criada entre nós e o objeto,
seja ele qual for, de que estamos tentando nos arrepender, e isso sempre
causará certa confusão. A paz verdadeira não pode ser encontrada no dualismo.
No buddhismo, arrependimento significa nós mesmos nos deixarmos conduzir para estarmos presentes bem no centro da paz e da harmonia.
Ele é a abertura total de nosso coração, que nos permite ouvir a voz dos limites de irradiação de nossa consciência. O próprio arrependimento torna nossa vida perfeitamente pacífica. [...]

(Dainin Katagiri, Retornando ao Silêncio)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Samu



"Bem, se o Samu não é “trabalho”, então o quê é? Para quê serve?

Vejo um continuum na nossa prática que vai desde o Zazen até o Samu, nos preparando para levar a nossa prática para o mundo “lá fora”, onde não estamos mais cercados por praticantes, por pessoas unidas pela mesma busca espiritual – a nossa Sanga, mas onde estamos cercados por pessoas de todos os tipos e crenças.

No Zazen, a meditação sentada, vamos entrando em contato com o nosso “centro”, com o estado de Paz e Tranquilidade que está aí dentro, disponível para todos nós. Temos poucas distrações, poucos estímulos para nos distrair, facilitando o nosso mergulho interno, facilitando o nosso cultivo deste estado de Paz e Tranquilidade.

Então seguimos para o Kinhin, onde treinamos a manutenção deste mesmo estado de Paz e Tranquilidade numa ação levemente mais complicada. Precisamos estar atentos ao equilíbrio do corpo ao andar, combinando os nossos passos não apenas com a nossa respiração mas também com o ritmo do grupo, mantendo a mesma distância entre a pessoa à nossa frente e a pessoa atrás de nós. Lidamos com mais estímulos – as sensações nos pés ao andar, o “cenário” que muda quando mudamos de lugar na sala… No Kinhin também já começamos a entrar em contato com as nossas preferências, na medida em que aparecem aqueles pensamentos como “ele está andando muito rápido” ou ficando irritados ao achar que a pessoa na nossa frente está andando muito devagar. Treinamos não nos deixar ser levados por estes pensamentos e sentimentos.

Depois disso vamos para a Prática do Cerimonial, onde recitamos sutras e participamos de atividades “pré-estruradas”, com poucas variações. Esta prática é freqüentemente muito mal-compreendida, interpretada como mero “ritual” sem valor. Mas é uma prática riquíssima onde não apenas praticamos harmonizar a nossa voz com a voz do grupo (”recitar as sutras com os ouvidos”) mas também incorporamos os ensinamentos dos sutras através da recitação e treinamos manter o estado de Paz e Tranquilidade – e a plena atenção – ao realizar ações e movimentos cada vez mais complicados – na medida em que passamos a treinar as diferentes posições que fazem parte do cerimonial (sogei, mokugyo, doan, jisha, dennan, etc.). Enfrentamos o nosso medo de errar, os nossos sentimentos mistos (talvez até com rebeldia) ao lidar com a exigência de precisão nos movimentos e a exatidão nos toques com os instrumentos, etc. Entramos em confronto com a nossa falta de atenção ao errar algum detalhe sempre que nos distraímos e deixamos de manter a plena atenção. É aí que muitos praticantes ou partem para o “piloto automático” e ritual “morto” ou entram na resistência, fugindo da prática, sem imaginar o quanto estão perdendo.

Finalmente, chegamos ao Samu, a Prática da Atividade Diária, que pode ser entendida como a Meditação em Ação ou a “Medit-Ação”. Frequentemente realizada através das atividades “comuns” como servir o chá, varrer o chão, cozinhar, lavar janelas, também inclui toda e qualquer atividade diária como realizar tarefas no computador, costurar, arrumar uma sala, fazer a contabilidade e o controle financeiro do grupo, escrever cartas, instalar uma estante, etc., etc. e etc. Até mesmo estudar pode ser uma prática de Samu. Pode-se dizer que somente ficariam excluídas as atividades de entretenimento, como assistir filmes ou ouvir música.

Mas o que diferencia estas atividades como “Samu” das mesmas atividades no sentido comum, frequentemente rotuladas como “trabalho”? Ao realizar estas tarefas com o espírito da “prática de Samu”, estamos treinando manter, agora em atividades das mais variadas, aquele mesmo estado de Paz e Tranquilidade que descobrimos no Zazen e que praticamos manter no Kinhin e no Cerimonial. Quando fazemos o nosso Samu junto com outros membros da Sanga, temos o apoio de pessoas com quem temos afinidades, que seguem os mesmos valores e realizam a mesma prática. No entanto, na hora do Samu, entramos em contato com as nossas preferências, os nossos julgamentos. Somos cheios de “eu quero/não quero”, “gosto de fazer isto/não gosto de fazer aquilo”. Por exemplo: “não quero lavar janelas, quero cozinhar!” “Não quero cozinhar, mas aceito secar pratos!” E quantas opiniões descobrimos ter: “quero fazer do meu jeito”, “aquela pessoa faz errado”, “não gosto de trabalhar junto com fulano”, “aquilo é serviço de mulher!”. Descobrimos a nossa tendência de querer tagarelar ou o nosso hábito de fazer as coisas “no piloto automático” em lugar de silenciosamente manter a plena atenção na nossa atividade. Temos a oportunidade de treinar voltar para o nosso centro, mergulhar no estado de Paz e Tranquilidade, sair das dualidades de nossas preferências, julgamentos e opinões e fluir com a atividade, aprendendo a simplesmente fazer a atividade que está à nossa frente.

Que bela preparação para levar a nossa prática “ao mercado”, ao mundo “lá fora”, à nossa convivência com os outros na nossa família ou em nosso local de trabalho!"

Trecho de texto de Monja Isshin, você pode ler a íntegra aqui