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sexta-feira, 13 de março de 2015
A vida se mostra a cada passo
Aluno – Pela forma como o senhor expôs 'O pico da montanha' me parece que os objetivos não têm tanta importância, eles são de certa forma um guia, mas a escalada é que conta mais?
Monge Genshô – A vida se mostra a cada passo. Então, à medida que nós vamos indo num caminho, se nós ficarmos presos num objetivo isso vai ser ruim. É bom ter um objetivo, uma meta, porque isso nos cria uma certa direção, isso se faz constantemente nas empresas, cria planos, é frequente para mim. Mas acontece algo inesperado e aí, o que vamos fazer? Vamos fazer de acordo com o inesperado, não adianta nos lamentarmos muito. Eu gosto muito da história de Thomas Edison quando o laboratório de Menlo Park pegou fogo, ele chamou toda a família para assistir, disse 'venham, venham, vocês nunca vão ver um incêndio como esse' cheio de produtos químicos de laboratório, um tremendo de um incêndio.
E ele naquela alegria, e era o laboratório dele, era a vida dele, tudo o que ele tinha construído até então. E a mulher perguntou 'mas você não está chateado que está pegando fogo em tudo o que você fez até agora?'. E ele falou assim 'mas pense no laboratório que eu vou fazer agora, um novo, vou fazer tudo melhor, os erros que tinham nesse não vai ter mais'. Ele já estava planejando na cabeça dele que iria fazer um muito mais espetacular do que o laboratório anterior. Então essa era a cabeça de Thomas Edison, por isso ele registrou milhares de patentes. Porque ele estava sempre pensando em uma nova solução. Não estava preso num objetivo anterior ou no que ele tinha anteriormente, mas estava pronto a mudar de idéia. Pegou fogo? Ah, que oportunidade, o que nós vamos fazer agora? Isso diz muito sobre o caminho, o caminho é assim.
Quando você caminha na vida é assim, que bom que há mudança. Quando nós nos agarramos demais a lamentar aquilo que acabou nós não estamos vendo as grandes oportunidades que estão aparecendo. Agora Chudô San vai para o mosteiro de Sojiji Soin dentro de algum tempo, logo que os papeis estiverem prontos. E Jikihô San vai ser ordenada monja noviça e vai para Kasuisai, que é um grande mosteiro que tem um famoso tenzo, um roshi que é mestre de cozinha, e ela vai ter uma enorme oportunidade. Vai ser difícil, complicado estar num país com uma língua diferente, uma cultura diferente, dentro de um mosteiro, não é fácil. Eu disse a ela que, se chorar, chore na cama, mas haver solidão, muito trabalho, pouco sono, exigência, uma cultura que não é tão carinhosa como a cultura brasileira, onde se exige muito das pessoas. Isso é uma tremenda oportunidade, então tem que ir com espírito livre, seja o que for, simplesmente a gente tem que pensar 'eu vou aguentar, eu vou aprender, eu vou continuar'.
Depois que acostuma, começa a ficar cada vez mais fácil, no fim vai ser um lugar de onde se terá saudades. Então é uma enorme aventura, uma grande oportunidade ganhar uma bolsa da Sotoshu pra ficar internado num local, a instituição vai cuidar de você, tem cama, comida, lugar para lavar roupa, e grande treinamento. Quando voltarem serão monges de outro nível e ajudarão imensamente nossa comunidade. À medida que essas coisas vão acontecendo torna-se possível, por exemplo, que eu possa morrer e saber que a comunidade continua. E isso é maravilhoso. Então trilhar o caminho assim, quem suporia que isso poderia acontecer? Quando Jikihô San chegou a primeira vez na Sangha, sentou à mesa, eu perguntei a ela 'quem é você, o que você faz?' e ela respondeu 'eu sou quituteira', eu me lembro até hoje, ela disse 'eu sou quituteira, eu faço quitutes'. Agora ela vai ser uma chefe de cozinha com treinamento num dos lugares mais difíceis de ter acesso no mundo. Não é fantástico isso? Quem poderia supor? Se tivesse um objetivo outro não seria assim. Sem objetivo de repente as portas se abrem, basta se esforçar, treinar continuamente. É isso, então. O caminho se mostra a cada passo. E se você não tiver restrições na sua mente ele é absolutamente inesperado. (continua)
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sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Dê um passo de cada vez
Pergunta – O senhor falou sobre o Dharma e confesso que ainda não encontrei verdadeiramente esse caminho. De onde tirar forças para não perder a esperança?
Monge Genshô – Não se preocupe em ter forças seja para alcançar algo ou para continuar no caminho. O melhor é não ter objetivos. Agora temos duas pessoas indo para o Japão para um período de treinamentos e eu sei que é difícil se manter estimulado a continuar. O segredo é não pensar no dia de amanhã e viver só por hoje, pensar, “Só hoje até o fim do dia irei tentar ficar”. Se acontecer um erro, não há problema, errar é normal, não devo exigir demais de mim e muito menos ter grandes esperanças. Apenas aceite o momento. Para andar na vida, não pense em ser forte, apenas dê um passo de cada vez. É como quando estamos em retiro e começamos uma sessão de Zazen. Se ficarmos pensando em todos os Zazen que teremos pela frente, que em geral são doze em um dia de retiro, nossa mente pode não suportar. Devemos pensar, “Vou ficar sentado até tocar o sino e terminar esse Zazen”. Quando você faz assim, rapidamente chega o final do retiro e a sensação muda, você quer que continue, não deseja mais ir embora. Não se preocupe em ter forças, apenas dê um passo de cada vez.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
Qual é o problema? Não há problema
Pergunta: - Monge Genshô, essa questão de que todos já são Budas, todos já estão iluminados, se está sentado em zazen, já é um iluminado, etc, É como a analogia de que todo mundo aqui está nu, mas está com a roupa por cima. Então, ou seja, é uma coisa que está dentro da gente, mas tem alguma coisa sufocando, que tem que ser perdida. Essa analogia é válida para esse caso?
Monge Genshô: Todas as analogias têm limites. Quando a gente diz “todos já são Budas”, na realidade nós queremos dizer que todos já são Budas “em potencial”. Não são Budas mesmo. Estão se manifestando como Budas, nesse instante. Então, num certo olhar, nós podemos dizer que “sentar-se é iluminação”. Mas, do outro lado, também não é ainda a iluminação.
Aluno: Mas teria que acender alguma coisa? Teria que tirar alguma coisa?
Monge Genshô: Na verdade, não tem que tirar nem tem que colocar nada. É apenas uma mudança de perspectiva. É como encontrar a carteira perdida. Ela sempre esteve ali dentro do carro, escondida em baixo da mochila da Rachel. Ela estava lá. Todo tempo. Ninguém sabia que estava lá. Então, todos os motivos para preocupação, incômodo e tudo mais estavam só na mente. No momento que você encontrou a carteira perdida é um momento de acordar. Acordou de um sonho. Os sonhos todos construídos, todos os telefonemas, todas as burocracias, todas as coisas. Todos os prejuízos que estavam implícitos se dissolveram instantaneamente.
Então, nós só não estamos iluminados porque não enxergamos o que é a iluminação em si. Porque estamos jogados dentro de um sonho e acreditando no sonho. Acreditando no sonho do eu, acreditando no sonho dessa vida, com medo de morrer, com medo de perder seres amados, com todas as implicações decorrentes do existir. Nós estamos ali. Se nós acharmos o que estava perdido, é instantâneo. Então, a iluminação, o despertar é um processo instantâneo. Quando você acorda, aqueles problemas que pareciam problemas não são problemas. Mesmo no episódio que eu contei. É o mesmo problema, os problemas continuavam exatamente os mesmos, o que mudou foi que, sentado no zafu, eu percebi que eu posso perder tudo. Qual é o problema? Não há problema.
É como o mestre que estava numa cidade que foi invadida por um exército, e um general entra no templo e fica indignado porque ele não tem medo. Está só sentado lá em zazen, quando o mundo todo está pegando fogo e pergunta para ele, com a espada suja de sangue: “Você não vê que eu posso matá-lo nesse instante”? E o mestre responde: “E você não vê que eu posso morrer nesse instante”? Eu posso morrer nesse instante. Grande coisa, que você pode me matar nesse instante! Grande coisa! Então, essa visão, essa perspectiva é a perspectiva da iluminação. Aquilo que é problema, não parece problema. É só isso. Por isso, toda agitação e angústia podem se dissolver, se tem problema, passado algum tempo, ele estará resolvido. É questão de tempo, e se não estiver resolvido, se for uma questão de doença por exemplo, não se resolverá, tenho uma doença que não tem jeito, aí eu morro. É, morro, sim, morro. Tá certo. Grandes problemas dos apegos que eu tenho. Não tem problema. Os apegos também se dissolverão. “Ah, se eu for embora o que será da minha família”? Todas as famílias sempre sobreviveram à morte dos entes queridos. Morre e aí continua. A família continua. Pode ser diferente? Pode. Você é que olha de uma perspectiva que faz as coisas diferentes do que elas realmente são. E, por isso, bastaria andar passo a passo.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Dúvidas e certezas
3) Mesmo porque, não existem verdades absolutas.
Monge Genshô – Exato e todas as verdades que possamos declarar não passam de aproximações, são sempre relativas. Alunos do Zen não têm uma grande fé e sim uma grande dúvida. Ele vem para a Sangha porque tem uma grande dúvida. Se ele vem para a Sangha e diz que tem uma grande fé e certeza das coisas, este não é o lugar para ele. Aqui é o lugar para dúvidas e incertezas.
Aluno – Mas a pessoa vai viver sempre com dúvidas?
Monge Genshô – Bom isso, não é?
Aluno – Não, não penso que seja bom. É horrível.
Monge Genshô – Bom, isso é muito bom. A vida se mostra a cada passo e se você tiver certezas, estas irão conduzi-la a enganos. O melhor é não ter certezas e ir caminhando para ver como a vida se mostra. Aquilo que você planejou pode ou não dar certo, e se não der? Você poderá mudar? Esta capacidade de mudar com as circunstâncias é o que a água tem, a mais sabia das substâncias, nunca resiste, nunca enfrenta, tudo que ela faz é escorrer e sempre pelo caminho mais fácil. Não cria resistência nem para evaporar-se, vira nuvem, chove e novamente está de volta ao solo. Esta deveria ser nossa atitude na vida, pois os que são duros sofrem muito. A pessoa que fica presa a um relacionamento que acabou, por exemplo, acabará com sua vida. Perdeu um emprego, arrume outro. Está ruim em um país, tente uma migração. Se você olhar a vida com essa flexibilidade poderá fazer muitas coisas, mas se olhar com rigidez fica muito difícil. Você é pedagoga, me diga, as teorias da pedagogia são fixas? Não, estão sempre mudando.
4) Então qual o primeiro passo para uma pessoa que pensa que nada vai mudar?
Monge Genshô – Esse é na realidade um desejo dos seres humanos, que as coisas fiquem estáveis, é o que chamamos de pensamento linear. É muito comum isso nos investimentos, por exemplo, o preço dos imóveis sobe e as pessoas então compram imóveis. Acontece que todas as pessoas têm o mesmo pensamento, mas chega um determinado momento que surge uma desconfiança, porque subiu tanto? O valor então desaba. Quantas vezes isso acontece? Há séculos que isso vem acontecendo. Somente algumas pessoas ganham com investimentos, seja na bolsa de valores ou em imóveis. Por quê? Porque a maioria pensa linearmente, ou seja, o que está acontecendo vai continuar acontecendo sempre.
Aluno – Mas não é possível fazer nada por estas pessoas?
Monge Genshô – Sim. Podemos tentar explicar, mas este comportamento de manada é comum. Os homens costumam fazer coisas de determinada maneira e se prendem a elas. Pegando como exemplo a sua área, se entrarmos na sala de aula hoje e virmos as crianças sentadas e o professor na frente dando aula e andarmos cento e cinquenta anos para trás quando La Salle começou as classes dessa maneira, imitando o sistema de formação industrial, no qual todos tinham a mesma formação, as classes parecem as mesmas, embora tenhamos ferramentas maravilhosas para educar as pessoas de forma diferente. O pensamento humano costuma seguir em trilhos.
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sexta-feira, 9 de agosto de 2013
A cada passo fazemos o caminho
Alguém escreveu outro dia dizendo que tudo estava dentro de você mesmo e que não é necessário professor para encontrar as respostas dentro de si mesmo. Esse é um mito pois, por exemplo, se você tentar aprender música sozinho, nunca passará de um amador terrível, com posturas e vícios errados. Isso é uma imensa vaidade, o caminho espiritual não é fácil. Eu estou no Zen há quarenta anos e ainda faço perguntas para meu Mestre. Ninguém anda sozinho, precisamos da ajuda dos outros, dos mestres, escolas e métodos.
P: É correto dizer que se está buscando o caminho?
Monge Genshô – O caminho se constrói a cada passo. Você não está buscando um caminho, você está fazendo o caminho. A cada passo você está fazendo seu caminho e amanhã o passo muda. Se você passar a pensar que o Zen é um lugar muito cruel, mude de caminho. O Zen não é o possuidor da verdade e nem há nenhuma crença que possamos dizer que seja certa ou verdadeira, o Zen é um método que serve para algumas pessoas, para outras pessoas existem outros sistemas mais apropriados.
Um mestre do passado disse em resposta a um aluno: “Eu gostaria de te dar alguma coisa, mas só tenho uma bola de ferro incandescente para ser engolida”. A vida é cheia de oportunidades e conhecer o budismo é uma rara oportunidade, pois nem todas as pessoas se sentem atraídas por algo desse tipo. O Zen atrai um tipo de pessoa que não quer mais muletas psicológicas e está focado em esforço próprio, não em ilusões. Qualquer pessoa que vá até o Hattô (templo) e faça prostrações para a estátua de Buda é um herege e ignorante, não fazemos prostrações para a estátua de Buda. A estátua é de gesso, pedra ou madeira e Buda foi um homem como nós. Fazemos prostrações para acabar com nosso orgulho de não sermos capazes de ajoelhar, o fazemos para agradecer o Dharma que nos foi transmitido com o esforço de muitos mestres da linhagem a começar por Shakyamuni Buda.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Na cidade com mãos auxiliadoras
Ele capturou, domou e enfim se livrou do boi e de si mesmo
No décimo passo, “Na cidade com mãos auxiliadoras”, a figura nos mostra um homem em uma feira, se misturando ao mundo. A imagem mostra um homem gordo, barrigudo, despreocupado, a quem nada importa sua aparência pessoal. Está descalço, peito à mostra, sem se importar de que forma está vestido. Tudo isso simboliza sua nudez mental. Leva uma cesta que contém algo para as pessoas da cidade. Seu único pensamento é levar alegria aos demais. Mas o que ele leva no cesto? Talvez o vinho da vida. Finalmente, segundo Sekida, o mundo do antagonismo se dissolveu, o modo habitual de consciência caiu por completo. Já não leva você o antigo traje de cerimônias, vai descalço com o peito desnudo, tudo é bem-vindo. Pensamentos errantes? Tudo bem, essa é a grande meditação de Budha e a forma de consciência mais ativa. Goza da perfeita liberdade do samadhi lúdico, positivo. Junto aos homens vulgares ele fala vulgaridades, mas a seus passos árvores secas florescem. Libertou-se.
No décimo passo, “Na cidade com mãos auxiliadoras”, a figura nos mostra um homem em uma feira, se misturando ao mundo. A imagem mostra um homem gordo, barrigudo, despreocupado, a quem nada importa sua aparência pessoal. Está descalço, peito à mostra, sem se importar de que forma está vestido. Tudo isso simboliza sua nudez mental. Leva uma cesta que contém algo para as pessoas da cidade. Seu único pensamento é levar alegria aos demais. Mas o que ele leva no cesto? Talvez o vinho da vida. Finalmente, segundo Sekida, o mundo do antagonismo se dissolveu, o modo habitual de consciência caiu por completo. Já não leva você o antigo traje de cerimônias, vai descalço com o peito desnudo, tudo é bem-vindo. Pensamentos errantes? Tudo bem, essa é a grande meditação de Budha e a forma de consciência mais ativa. Goza da perfeita liberdade do samadhi lúdico, positivo. Junto aos homens vulgares ele fala vulgaridades, mas a seus passos árvores secas florescem. Libertou-se.
Para nós todos aqui, o mais importante são os passos iniciais. A prática do samadhi (concentração meditativa), a experiência de kensho (experiência mística), o futuro satori (despertar), para quem chegar lá. Samadhi é com esforço, kensho acontece, não adianta querer que ele aconteça, ele irá acontecer sozinho. Satori e o caminho de Buddha ocorrerão porque entramos em uma torrente cármica e ela nos arrasta.
Pergunta: O que acontece se depois de longa preparação o praticante, não tendo chegado ao satori, mas tendo adquirido kensho, morre? Essa experiência, essa bagagem, seguem para a nova existência?
Monge Gensho: Seguem. Na próxima manifestação kármica, o que vai acontecer é que essa pessoa pode, já na infância, ter experiência de kensho. Pode perdê-lo, andar para trás, mas a atração dele pelo Dharma é muito forte. Isso é como reconhecer o seu lugar. Você chega no lugar de treinar e diz: “Esse é meu lugar, minha casa, não quero mais sair daqui”. Essa marca kármica é muito importante no treinamento. Muitas pessoas vão na Sangha no horário do meio-dia, elas podem ter uma experiência minúscula, mas essa experiência já se torna uma marca kármica. Pode ser que ela venha a praticar. Se ela já possui uma marca anterior, ela volta para praticar. Provavelmente, todos que estão aqui hoje já praticaram em vidas anteriores, senão não conseguiriam ficar. Por que fica uma pessoa de cada cem que vão à Sangha? Quem vem a sesshins, faz rakusu. Fazer rakusu é uma coisa fantástica. Porque ele fez e colocou no peito, isso é uma marca. Teve todo o trabalho para fazer, reverencia o rakusu. O rakusu cria uma grande marca na gente, o manto também. E é uma marca kármica.
Pergunta: O que acontece se depois de longa preparação o praticante, não tendo chegado ao satori, mas tendo adquirido kensho, morre? Essa experiência, essa bagagem, seguem para a nova existência?
Monge Gensho: Seguem. Na próxima manifestação kármica, o que vai acontecer é que essa pessoa pode, já na infância, ter experiência de kensho. Pode perdê-lo, andar para trás, mas a atração dele pelo Dharma é muito forte. Isso é como reconhecer o seu lugar. Você chega no lugar de treinar e diz: “Esse é meu lugar, minha casa, não quero mais sair daqui”. Essa marca kármica é muito importante no treinamento. Muitas pessoas vão na Sangha no horário do meio-dia, elas podem ter uma experiência minúscula, mas essa experiência já se torna uma marca kármica. Pode ser que ela venha a praticar. Se ela já possui uma marca anterior, ela volta para praticar. Provavelmente, todos que estão aqui hoje já praticaram em vidas anteriores, senão não conseguiriam ficar. Por que fica uma pessoa de cada cem que vão à Sangha? Quem vem a sesshins, faz rakusu. Fazer rakusu é uma coisa fantástica. Porque ele fez e colocou no peito, isso é uma marca. Teve todo o trabalho para fazer, reverencia o rakusu. O rakusu cria uma grande marca na gente, o manto também. E é uma marca kármica.
Há uma história famosa de uma prostituta. Os ladrões roubaram o manto de um monge. Levaram para um cabaré e pediram para que uma prostituta dançasse enquanto tirava o manto. Ela se enrolou no manto e começou a dançar e tirar o manto. Por causa disso, em sua outra vida ela nasceu em uma família budista. Se sentiu atraída pelo Dharma e tornou-se uma monja. No momento da dança, parecia uma heresia, um sacrilégio, mas esse momento criou uma marca kármica.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
O círculo vazio
(continuação)
O oitavo passo tem como símbolo o círculo vazio. Nem boi, nem homem. No estágio anterior, perdeu-se o boi. Restou o homem, e você pode ter pensado que tudo terminou.
Porém, agora aparece outro estágio no qual tanto o boi, como o homem, são esquecidos. Aqui temos um verso zen; “De noite engalfinharam-se dois touros de barro, desaparecendo no mar enquanto lutavam, e esta manhã, nada se ouve deles”. No momento em que o ego aparece, surgem as circunstâncias. Quando o ego se esfuma, se esfumam as circunstâncias. A subjetividade e a objetividade se acompanham mutuamente.
Vamos contar a história de uma deidade guardiã que desejava ver Tozan Osho, mas não conseguia. Ele colheu uma porção de cevada e arroz na cozinha e espalhou no pátio. Tozan, ao ver os grãos disse: “Quem poderia ser tão negligente?” Naquele momento a deidade pode ver Tozan, pois ela só vê egos. Na mente de Tozan manifestou-se pressão interna, como uma nuvenzinha num céu de verão. Veio e dissipou-se, deslumbrante, na brilhante serenidade do meio-dia e logo tudo voltou a acalmar-se novamente. Essa história tenta nos mostrar que Tozan, tendo se iluminado, não era movido pelos pensamentos, sendo, dessa maneira, invisível a deidades. Então a deidade resolve espalhar cevada no chão e desperta aquele pensamento na mente de Tozan: “Que monge seria tão descuidado, quem foi tão negligente?” E com essa leve indignação ele tornou-se visível. “Tornou-se visível” é uma metáfora para a presença de um eu, mas logo a seguir ele desapareceu de novo para deidades. Esse estágio corresponde ao dito do Mestre Hinzai “tanto homem, como circunstâncias, estão desaparecidos”.
Sekida diz que “podemos distinguir arbitrariamente um número de graus de consciência.
Nível A; o mais elevado, em que os pensamentos e as ideias vão e vem.
Nível B; um grau que compreende, mas que não forma idéias.
Nível C; um grau que é só consciente.
Nível D; um grau que simplesmente reflete os objetos internos e externos como faz um espelho”.
Nível A; o mais elevado, em que os pensamentos e as ideias vão e vem.
Nível B; um grau que compreende, mas que não forma idéias.
Nível C; um grau que é só consciente.
Nível D; um grau que simplesmente reflete os objetos internos e externos como faz um espelho”.
Quando ele diz “o mais elevado”, ele se refere ao mais elevado nível de consciência existente, portanto, não quer dizer o melhor, mas sim, o pior, o grau em que a consciência está mais presente, aquele em que as ideias vão e vem. À medida que diminui a consciência, sobe o nível, logo, um nível mais baixo de consciência é mais elevado em realização. O segundo é um grau que compreende, mas não forma ideias; o terceiro grau é só consciência que simplesmente reflete os objetos internos e externos, como faz um espelho. Neste estado aparecerão, em algumas ocasiões, rastros de ação reflexiva da consciência que iluminarão momentaneamente o cenário da mente constante.
Nível E; o grau mais profundo, onde não penetra nem a mais tênue ação reflexiva da consciência.
Aqui se manifestam certos vestígios de nosso estado de ânimo, é uma espécie de memória do tempo de nossa vida e de nossos antepassados que quer subir à superfície da consciência para expressar-se. Mesmo que a entrada não lhe seja permitida, não deixa de afetar, mesmo que de maneira remota, mas importante, a corrente de atividades da consciência que está em mudança afetada pelos pensamentos “nen” (impulso que precede o pensamento) que aparecem a cada momento. No samadhi absoluto a atividade cerebral fica reduzida ao mínimo, limpando-se a fundo a procura da antiga memória. Varre-se o modo habitual da consciência, desaparece o reflexor e o refletido, um mundo de profundas nuances. Esse estágio é chamado de samadhi sem pensamentos que é idêntico ao samadhi absoluto. É o estado em que podemos dizer “nem bois, nem homens”.
O que importa para nós é o que queremos guardar da memória. Trata-se de algo tremendamente perturbador para o samadhi, porque ele retorna, e todas as vezes que isso acontece, o samadhi está anulado. Nós praticamos zazen para treinar o samadhi, a concentração, o momento presente. Todas as instruções iniciais podem ser reduzidas a uma única: “fique no momento presente”. Não quer dizer realmente não pensar, mas é uma forma muito sutil de pensamento, que é mera percepção das coisas em volta. É a sensação de “aqui nessa sala, ouço esse som, percebo”. Há percepção, mas não há julgamento, considerações, estimativas, planejamentos, intenções. Há só o treinar o samadhi. “ em samadhi, plenamente presente”. Aí surgem memórias e quando elas surgem, elas nos tiram do samadhi.
Os pensamentos surgem sucessivamente um ao outro; não existem dois pensamentos simultâneos, não existe um pensamento sempre presente. O que acontece é que um pensamento expulsa o precedente, normalmente de forma encadeada, como um link num texto do computador. Você clica, acessa aquele substrato da memória, acessa aquele arquivo. É como na tela do computador, você não vê duas imagens ao mesmo tempo, sempre que surge uma imagem ela expulsa a anterior. Pode até haver um alerta avisando que você tem um arquivo, mas você precisa clicar nele para abrir; sempre um arquivo expulsa o outro. Na tela da nossa consciência, só surge uma coisa de cada vez, e normalmente, elas chamam outras e nós ficamos fazendo essa sucessão de pensamentos.
Essa é a atividade mais baixa, é o nível de realização mais baixo, ou seja, realização zero. É uma mente que vive de encadeamentos de pensamentos ou presa à memória e às emoções, sempre invasivas. Significa controle zero do boi, pois ele vai para onde quer.
Essa é a atividade mais baixa, é o nível de realização mais baixo, ou seja, realização zero. É uma mente que vive de encadeamentos de pensamentos ou presa à memória e às emoções, sempre invasivas. Significa controle zero do boi, pois ele vai para onde quer.
(continua)
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
O Kenshô permanente
(continuação)
“Perdido o boi, fica o homem”, é o sétimo passo. Agora a iluminação, o kensho, o zen mesmo, estão esquecidos. Qualquer sensação de santidade ou o maravilhoso estado mental que se experimente começará a ser um peso desde o momento que se comece a pensar nele ou a tomar consciência dele. Aquela experiência do kensho, quando surge, já não é tomada em consciência, pois se torna natural. É como se estivesse o tempo todo vivendo em kensho. Os acontecimentos ocorrem quando querem e a pessoa simplesmente os deixa fluir. Quando as coisas ocorrem, ocorrem. Quando se foram, se foram.
No momento em que uma pessoa se acostuma a ver as coisas de uma maneira fixa, já começa a decadência. Sem morar em nenhuma parte, deixe que trabalhe sua mente. O verso sobre a transmissão do Dharma de Budha Vipasyn, o primeiro dos sete Budhas passados, diz: “Vicio e virtude, pecado e bendição, tudo é vão, mora no nada”. Nós estamos falando aqui sobre um estágio em que a experiência de kensho torna-se praticamente permanente. Não há consciência da existência de uma mente a ser controlada, nem uma mente que vai ou vem. As coisas ocorrem simplesmente fluindo. O homem age de acordo com a necessidade, sem se deixar mobilizar pelos acontecimentos externos. Ele está flutuando por fora dos acontecimentos.
Nesse estágio, segundo os comentários de Sekida, reina o shikantaza. Shikantaza quer dizer “simplesmente sentar-se”. Já não se presta atenção particular à respiração, à postura e às demais coisas. Inclusive deitado em sua cama se pode entrar em samadhi absoluto. O homem muda a atividade habitual da consciência trabalhando, falando, e mesmo sacudido pelo movimento de um ônibus, não perde seu samadhi positivo. Antigamente, ele e o samadhi eram separados, eram dois, às vezes tinha samadhi, às vezes não tinha, era uma coisa que ele possuía ou não. Agora o samadhi e ele são uma coisa só. Antes, alcançava o samadhi com esforço, trabalhava num sistema dual. Fazia o zazen e procurava o samadhi se esforçando para ficar no momento presente e abandonar todas as considerações. Mas agora não é assim. O reino da mente foi submetido ao domínio do homem, por isso perdido está o boi, resta somente o homem.
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quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Um rosto que mudou - o sexto passo
O primeiro e segundo passo, praticamente todos os que praticam já trilharam, é mais fácil de entendê-los. O primeiro é uma inquietação, depois, encontrar as pegadas, e o terceiro, é “vislumbrei, eu vi alguma coisa, eu tive alguma pequena experiência”. Não pensem que é grande coisa essa pequena experiência. Embora ela seja magnífica, é pequena perante os passos seguintes que nós vamos ver.
(continuação)
No sexto passo, que é “Cavalgando o boi de volta pra casa”, a figura mostra um homem sentado sobre o boi sem rédeas e tocando uma flauta. O boi agora é manso e obediente, e mesmo sem as rédeas, ele segue tranqüilo, cavalgando para casa na quietude de um entardecer, tendo o homem montado em si. Vamos descrever o processo de entrada em samadhi: a pele e os músculos estão sempre mudando de tensão e, em grande medida, por meio dessa mudança, se mantém a sensação da existência corporal. Porém na postura imóvel do zazen, não há apenas mudança da tensão muscular e cutânea. Vai-se também desenvolvendo a sensação de saída. A pele reage muito sensivelmente ante essa nova experiência, nota-se como uma sensação de tremor que corre através do corpo, é como uma espécie de vibração musical, delicada e deliciosa, que vem acompanhada de um estado mental apaziguado e de uma formosa corrente de emoção que parece brotar do coração. A sensação de saída vem muitas vezes anunciada por uma espécie de tremor vibrante que aparece primeiro nas partes mais sensíveis do corpo como orelhas, pescoço, braços e que, finalmente, desce ao longo de todo o corpo para desaparecer em poucos minutos. A paz e a quietude começam então a ocupar o corpo inteiro. O samadhi desenvolve-se a partir dessa quietude, mas com larga prática, já não aparece aquela deliciosa sensação corporal. A pessoa senta-se simplesmente e cai em samadhi. Quem tiver dificuldades com os pensamentos, pode sempre retornar para a técnica do iniciante que é contar a respiração. Com essa âncora é mais fácil de escapar de pensamentos invasivos freqüentes. Um samadhi brilhante pode surgir rapidamente com a contagem das respirações.
Outra técnica é a respiração em bambu, há uma tentativa de pensamento, um impulso que vem trazendo um pensamento, isso tem um nome técnico, chama-se NEN. Quando surge o NEN, o impulso desencadeador do pensamento, e que você percebe ele nascendo, você para de respirar, isso cria uma tensão que corta o pensamento e você pode voltar a respirar.O que ocorre, na realidade, dentro do corpo quando se produz um samadhi precedido desses fenômenos? Devem estar ocorrendo certas mudanças químicas, sabemos que o corpo produz constantemente toda classe de compostos químicos. Se acaso o samadhi resulta da produção de certos elementos químicos do corpo, isso não quer dizer que nós podemos, através de químicas, produzir o samadhi, por isso o uso de drogas é inútil. Embora eventualmente uma droga possa provocar uma sensação semelhante ao samadhi, é pelo seu efeito alucinógeno que isso ocorre. Ela entra no seu corpo, produz a sensação, mas você não é dono da sensação. A sensação é boa e a pessoa quer voltar a senti-la, por isso volta a usar a droga, pois com a droga é muito fácil de consegui-la. Só que o uso de drogas causa múltiplos problemas e não leva a uma realização espiritual, leva simplesmente a uma fantasia química.
Mas não se pode objetar que o treinamento do zazen modifica de algum modo o metabolismo, de maneira que produza certos químicos que facilitam a chegada do samadhi. Tais substâncias são geradas internamente; é uma fonte de energia. Já as drogas ministradas externamente, nos debilitam e nos fazem dependentes. Quaisquer que sejam as bases fisiológicas do samadhi nessa fase de “Cavalgando o boi de volta para casa”, o estudante alcançou a maturidade e goza de liberdade de corpo e mente. A grande mudança é que agora ele não precisa mais fazer tanta força, quando ele senta o samadhi se instala com certa rapidez e a prática começa a se transportar para a vida. Um fenômeno interessante é que a expressão facial muda, a pessoa é a mesma, porém sua expressão mudou. E isso é identificável, é visível. Também nesse estágio os comportamentos, que antes permaneciam inalteráveis, agora se tornam perceptíveis a outras pessoas. Não é mais o mesmo comportamento. Em meio às turbulências, a pessoa permanece impassível, anormalmente calma e tranqüila. Isso ainda não acontece sempre, mas já na maioria das vezes.
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terça-feira, 18 de setembro de 2012
O quinto passo - Domando o Boi
Sesshin de 7 de setembro 2012 - Florianópolis
(continuação)
No quinto passo, “Domando o boi”, depois de muitos esforços, o boi começou, por fim, a tornar-se manso. Na figura anterior, o homem segura o boi pelo rabo, nessa o homem segura o boi com uma argola presa ao seu nariz. E agora o domador julga que o animal já está dominado e que pode ir ensinando-lhe alguns truques. Quando, por fim, agarrou o boi, crê que já o tinha retido para sempre. Ele pensa: “Peguei, dominei, e isso agora é para sempre, dominei minha mente.” Lembrem-se de que já passamos pela experiência do kensho, embora ela não nos tenha alterado em nada. Continuamos na vida sendo tão ruins quanto antes, mas dizemos: “Já tive uma experiência espiritual!” E aqueles que vivem conosco irão dizer: “Mas como, se ainda perde a paciência?!”
Esse pensamento de domínio também é uma espécie de ilusão. Na verdade, não é assim. Às vezes ele consegue entrar em samadhi, em outras, tenta e não consegue. Parece que há quietude no corpo e na mente, mas ainda não controla os pensamentos errantes. Você pensa: “Não pode ser isso o samadhi”. Mas não há remédio senão experimentar de novo, uma e outra vez. Repetir o samadhi - a concentração - e experimentar outros kensho. A colheita do ano passado é a colheita do ano passado; não é a deste ano. A deste ano tem que ser de novo ganha com luta e trabalho. Dessa forma, a luta se renova outra e outras vezes mais.
Ou seja, você chegou lá, teve a experiência, pode até mostrá-la para o seu Mestre em determinadas ocasiões, mas você não mudou e precisa continuar trabalhando. Samadhi – concentração -, zazen - momento presente -, retornando sempre e tendo experiências de kensho de vez em quando, como se uma janela se abrisse e de repente você pudesse ver. Estava tudo escuro e você não enxergava nada com nitidez, e ao abrir-se a janela, tudo fica claro. Kensho. Cada vez mais, com repetições dessa experiência, o kensho torna-se maior que poucos segundos, podendo prolongar-se até por horas. Mas você sempre o perde, e não sabe quando irá consegui-lo novamente. E também às vezes sentado, você perde o zazen inteiro em pensamentos, em vazios, simplesmente não consegue agarrar um samadhi constante.
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quarta-feira, 12 de setembro de 2012
É preciso um esforço desesperado para a iluminação genuína
(continuação)
No terceiro passo “vislumbrando o boi”, por fim, se encontrou o boi, mas dele se viu apenas o rabo e as patas; houve uma experiência do tipo de kensho. Mas se lhe perguntam de onde vem e para onde deve ir, não sabe dar uma resposta clara. Desde o princípio, sempre houve muitos tipos de kensho. O satori de Shakyamuni Buddha foi a criação de um novo mundo, antes de seu tempo, ninguém sequer sabia que existia tal acontecimento.
A experiência sem precedentes ocorreu subitamente a Buddha, atravessando-o como um raio e todos os problemas resolveram-se no mesmo instante. Se Buddha não estivesse tão adiantado no treinamento não teria podido explorar de maneira criativa aquela região que nunca havia sido visitada por nenhum ser humano. Antes dessa experiência, Buddha havia passado pela sétima e oitava etapas de nossa seqüência e havia alcançado a nona. Ele teve então um kensho completo, que é a iluminação real. Desde seu tempo tem havido muitos mestres zen que têm completado o curso de treinamento antes que tivessem a experiência de kensho. Muitos precisaram de quinze a vinte anos para que isso ocorresse.
No terceiro estágio, temos uma situação análoga àquela de um principiante em pintura, que vê admitida sua obra por um golpe de sorte. É como quem está vendo apenas as patas ou o rabo do boi. Se fosse um pintor experiente, desde logo ele seria excelente e já demonstraria sua capacidade de artista, mas tudo depende de seus futuros esforços. Aos estudantes modernos do zen, nós lhes dizemos, ao começar, que há um acontecimento chamado kensho – iluminação -, uma experiência mística que os está aguardando. Quando cruzam o caminho desse terceiro estágio, tomam-no naturalmente como se fosse a experiência de Budha, como se tivessem chegado ao cume da prática do zen, vão subindo por rochas e arbustos desejando essa visão e à primeira olhada gritam: “É isto, cheguei!”, certos de que o que vêem não é falso. Mas há uma grande diferença entre sua experiência e a de Budha em conteúdo, beleza e perfeição.
Isso tem acontecido bastante, pessoas que têm uma primeira experiência, um pequeno vislumbre da experiência e se crêem iluminados e saem se auto-intitulando mestres iluminados a propagandear “mestre iluminado vai dar um curso no final de semana e você poderá alcançar a iluminação em dois dias”. Hoje, nesse sesshin, nós temos outra situação. Nem um mestre iluminado, nem ninguém, irá alcançar a iluminação. Teoricamente poderia acontecer, e também pode acontecer uma situação como esta, um primeiro vislumbre. É que o primeiro vislumbre, embora espetacular para quem o experimenta, não significa estar iluminado, significa só: “Vi o rabo e as patas; nem vi o boi inteiro”.
A observação de Sekida a esse respeito é que no estágio “Vislumbrando o boi”, se experimenta, em algumas ocasiões, certo tipo de samadhi, mas ele é instável e carece de segurança. Ainda assim o mestre pode tomar a mão do aluno que tenha tido essa experiência e conduzi-lo até a sala de meditação dizendo-lhe: “É isso, é isso”. Tal atitude faz parte da estratégia do mestre, o qual se adapta à capacidade e necessidade do estudante. Alguns mestres são muito estritos e dão crédito ao aluno mais facilmente, outros menos. Todos têm sua forma individual de ensinar e há razão em seus métodos. Falando em geral, quando o estudante é promovido, adquire certa confiança e sua prática começa a andar nos trilhos.
Entretanto, há exemplos de estudantes que têm estudado sob o comando de mestres estritos durante dez ou quinze anos, sem que hajam recebido alguma confirmação de seu adiantamento e que um dia explodem com uma iluminação genuína, isso se chama satori, iluminação repentina e direta, e aquele que vivencia uma experiência exaustiva e profunda, tem uma experiência igual à que teve Budha Shakyamuni. O método de adiantamento gradual, passo a passo, chama-se zen escalonado, quando comparado à iluminação súbita e direta, mas tanto se avançarmos gradualmente, como se formos de um salto, tudo depende da própria determinação de alcançar o topo. Não duvidem, é preciso um esforço desesperado para alcançar uma iluminação genuína.
(continua)
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Encontrando as pegadas
O segundo passo é “Encontrando as pegadas”. Praticando o zazen e lendo a literatura adquire-se certa compreensão - ainda que não se tenha vivido - todavia, uma experiência mística, o kensho. Na primeira etapa, quando se começa a busca, pode-se haver duvidado da possibilidade de alcançar o objetivo olhando nessa direção, mas agora existe a confiança de que se seguir esse caminho, alcançará sua meta. “Encontrar as pegadas” é encontrar uma prática espiritual que tem algo a ver com a pessoa, algo com o que temos conexão, então, surge a confiança de que se pode seguir naquele caminho e se chegar a algum lugar.
O comentário de Sekida para estes dois passos é que “começar a buscar o boi é quando o principiante se inicia em como sentar-se, em como regular a respiração e a atividade mental. Nesse estágio ele é ingênuo, submisso e intensamente impressionável; o som do sino chega absolutamente puro e parece que penetra profundamente em seu coração, purificando-o. Todas as coisas criam em sua mente uma forte impressão, até um leve movimento da mão, ou dar um passo. Tudo, ele faz com gravidade, o que é muito importante e precioso, mesmo que ele não possa dar-se conta disso; é superior a um kensho pobre e comum. Essa devoção do principiante não deveria perder-se nunca, mas, desgraçadamente, muitos estudantes a perdem mais tarde, substituindo-a por alguns de seus logros meritórios e dessa forma começam a se dar muita importância”.
A primeira coisa é quando o praticante aprende algo, daí quer mostrar que sabe, quer mostrar que sabe para os novatos, para o professor, quer sempre mostrar que sabe alguma coisa. Não se pode lhe ensinar nada sem que ele acrescente algo pra mostrar que sabe: “Ah, isso eu já sei.” Isso é ter perdido sua inocência, a sua mente de principiante. Ele sente-se um veterano. Em breve se atreverá a julgar os outros e criticar os mestres.
“Por isso uma instrução importante é não mostrar que sabe. Ao estudante do zen, pede-se que abandone a religião dos méritos, para entrar na de nenhum mérito”.
Isso pode ser percebido na prática. Um principiante, quando realiza uma tarefa ou cerimônia e erra, não se importa muito com isso, porque ele sabe que pode errar, ao passo que quem perdeu a inocência envergonha-se por ter errado, ou justifica-se ou fica chateado pelo erro.
(continua)
sexta-feira, 16 de julho de 2010
A paz a cada passo
Praticantes de Florianópolis oram antes da refeição em zazenkai realizado em Águas Mornas.
"A. J. Muste, líder do movimento pacifista em meados do século XX nos Estados Unidos, que inspirou milhares de pessoas, disse uma vez, "Não há caminho para paz. A paz é o caminho." Essa frase nos diz que podemos concretizar a paz aqui e agora com nosso olhar, nosso sorriso, nosso pensamento, nossas palavras e nossos atos. O trabalho pela paz não é um meio. Cada passo que damos deveria ser a paz. Cada passo que damos deveria ser a alegria. Cada passo que damos deveria ser a felicidade. Se tivermos determinação, podemos fazê-lo. Não precisamos do futuro. Podemos sorrir e relaxar. Tudo que desejamos está aqui no momento presente."
Extraído do livro "Paz a cada Passo", de THICH NHAT HANH.
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