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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Choro porque quero


Pergunta – E quem gosta de sofrer? Existem as coisas boas também...

Monge Genshô - Eu penso que a resposta esteja dentro da pergunta, nós gostamos de sofrer, por isso estamos aqui. Vem coisas boas e ruins juntas, nós queremos amores, mas sabemos que os amores terminam, nos metemos nos amores e sabemos que eles terminam. Junto com a aquisição do amor vem o sofrimento da perda. Qualquer coisa que nós guardemos. Eu sempre gostei muito de livros, mas os livros velhos que tenho estão se desfazendo. As folhas vão ficando amarelas, existe uma acidez no papel que o vai destruindo. Para conservar seria necessário um ambiente climatizado, uma bibliotecária cuidando. Esses dias vi um livro com uma dedicatória escrita por meu pai, há cinqüenta e tantos anos, quando eu tinha dez anos, se desfazendo e a escrita vai se desfazendo junto com o papel, e me vem a sensação de que as coisas que a gente dá valor se desfazem. Junto com o presente vem a deterioração do presente. Então junto com todo o prazer, junto com todas as coisas boas, vem as perdas e o sofrimento. Estão inextrincavelmente ligados. A vida não é só sofrimento. A vida é alegria, prazer e sofrimento. Uma bela garrafa de bebida e amigos dando risada, no outro dia, ressaca, dor de cabeça, vem tudo junto, não tem como escapar. A gente não consegue separar uma coisa da outra. Um filho nasce, você o ama, um dia ele vai embora e você fica sozinho. Um dia ele casa com uma nora que você não gosta e a nora não quer que ele venha na sua casa. Com o filho vem junto a nora. Está tudo conectado. Junto com a saúde vem a doença. Tem um corpo forte um atleta, um dia, a velhice, juntas que não funcionam, artrite, decadência física.

Pergunta - O senhor começou sua palestra falando sobre aproveitar sua vida, seja feliz pelo momento e fiquei pensando, não tem como não sofrer, até o mestre iluminado se a mãe dele morrer ele irá chorar. Então seria assim, eu aproveito minha vida, não significa deixar de viver para não sofrer, então vou aproveitar ao máximo minha vida, vou amar, mas eu sei que o sofrimento vem junto. Na verdade amar e sofrer seriam duas coisas iguais?

Monge Genshô – Sim, é verdade, estão dentro uma da outra. E aproveite sua vida já que você tem uma vida. Quando tiver sofrimento, sofra. Morre sua mãe, o que você faz? Chora, não há mais nada para ser feito.

Pergunta – Mas se compreender, não chora. Porque a compreensão de a vida é assim, cresce, adoece e morre. É da natureza.

Monge Genshô - Seria assim, nós poderíamos dizer assim – Ah, meu filho morreu, é como uma folha que caiu – mas isso não é realista. Na verdade você sofre e sofre mesmo, entregue-se ao sofrimento e sofra de verdade, porque faz parte da vida.

Observação - Me veio à mente a imagem do filme de Dogen, que quando ele morre todos os monges caem em pranto. Naquele momento eles choram compulsivamente e sofreram e muitos já estariam até iluminados. Já teriam uma compreensão, já sabiam que iria morrer e mesmo assim sofreram.

Monge Genshô - A resposta é sempre essa, no momento de sofrer, sofra sinceramente.

Pergunta - Mas Buda falou em não sofrer, que foi essa a solução que ele foi buscar. Nós sofremos porque temos apego excessivo mas se você não tiver apego, você chora sem sofrer?

Monge Genshô - A melhor história para isso, talvez, seja a do mestre que recebe uma carta com o comunicado de uma morte na família. Ele senta-se numa pedra e começa a chorar. Um discípulo vai até ele e faz esse discurso - Mas como, o senhor nos ensinou sobre apego e agora o senhor recebe uma carta sobre a morte de alguém da família e agora o senhor esta aí chorando - o mestre dobra a carta olha para ele diz – Escuta aqui seu idiota, estou chorando porque quero – vira-se para o outro lado e volta a chorar. Esse é o zen.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Naquilo que é "meu" estará meu sofrimento



O Zen é uma escola muito antiga e que não mudou o seu propósito e declara que a iluminação é possível nessa vida, agora mesmo, só depende de seu empenho. Por isso o treinamento Zen é duro e desconfortável, seu principal instrumento é o zazen, a meditação sentada. Enquanto formos movidos pelos ventos das paixões, orgulhos e vaidades, desejo de aparecer, de ser melhor que os outros e desejo de destaque dentro da Comunidade não conseguiremos despertar. Esses são motivos suficientes para fazer com que nosso ego cresça e nos perturbe. Se nos esforçarmos muito, mas dentro desse esforço existir um sentimento egóico, esse é suficiente para servir de pedra de tropeço. Por isso a harmonia é tão valorizada. Esse é o caminho do Zen.

Pergunta – O apego se remete a todos os sentidos da vida?

Monge Genshô – Sim. Em tudo que você colocar seu coração lá estará seu sofrimento. Não vivemos aqui impunemente. Com nossos corpos nós amamos e temos filhos, dessa relação surge um apego muito forte e difícil para o ser humano se desligar. Mas quando olhamos a nossa volta podemos perceber uma grande quantidade de sofrimento causada por outro tipo de apego. O apego a coisas materiais, apego a fama, a honra e apego ao desejo de agregar ao seu “eu” coisas, dando origem então, a palavras como “meu” e “minha”. Nesse “meu” é que vai estar seu sofrimento. Porque esses objetos de posse nos quais depositamos nosso afeto e amor material, serão as coisas pelas quais sofreremos. O amor verdadeiro que você tem por um filho, por exemplo, não aprisiona, não deve ser apegado. Você pode incentivar seu filho a fazer um estudo no exterior mesmo sabendo que quando ele embarcar no avião você entrará no seu quarto e irá chorar.

Pode ser também que o filho não se torne aquilo que desejávamos, nossas expectativas com relação a isso é que são a fonte de nosso sofrimento. O mundo está cheio de sofrimento, em tudo que colocarmos nossos olhos e dissermos “meu”, haverá fonte de sofrimento. Mesmo no caso de um amor verdadeiro como de mãe para filho, se dissermos “meu filho”, será fonte de sofrimento. Isso acontece porque as coisas não são estáveis, estão sempre mudando, dessa forma nada é seguro, nada é para sempre, tudo irá desaparecer, inclusive nós mesmos. Olhamos no espelho e nos admiramos, nos achamos bonitos e jovens, mas isso também é temporário, ficaremos velhos e tanto a juventude quanto a beleza passarão. Se nós pensarmos “meu” corpo, ele também será fonte de sofrimento.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Me entristeci com eles



3) As vezes é fácil intelectualmente perceber que eu não sou a onda, que eu sou oceano. Mas o que acontece quando eu sento e faço zazen, porque às vezes eu esqueço que sou o oceano. Se eu perco uma pessoa querida, ou perco um objeto querido, de novo acontecem reações emocionais e eu sofro. É como se eu tivesse esquecido de ter vindo nesta palestra e ter ouvido isso. Os sofrimentos surgem como se eu não tivesse entrado em contato com esse conhecimento. O que acontece no zazen pra eu me tornar um sábio, de forma que este conhecimento se estabilize e eu não esqueça mais?

Isso vai depender da profundidade da sua experiência. Mas o que você narrou agora, é o que todos sentimos, eu também. Quatro meses atrás morreu um sobrinho meu de 23 anos. Repentinamente. Quando eu ouvi a notícia, o que eu podia fazer? Chorar. Nós somos assim, seres humanos, muito frágeis. E a qualquer momento nós perdemos a lucidez. Eu sei que para ele não foi nada, mas para o pai e a mãe, foi muito trágico. É que estamos mergulhados em emoções. Como vamos negar isso? Não seria natural nos tornarmos como pedras.

Vinha um Mestre caminhando por uma cidadezinha e seus discípulos atrás. Havia um velório e a família chorava. Ele entrou no velório e começou a chorar com os familiares. Uma hora depois ele saiu de lá, rosto inchado, os olhos vermelhos. E os discípulos atormentados na porta disseram: “Mestre, mas o Senhor conhecia este homem? Ele disse: Não. Mas então porque o Senhor entrou e chorou desse jeito? Ele disse: Eu os vi tão tristes, me entristeci com eles”.

Outro Mestre recebeu uma carta, comunicando a morte de um ente querido. Ele sentou numa pedra e começou a chorar desconsoladamente. Um discípulo se indignou e foi até lá e disse: “Mas o que é isso, o Senhor nos ensina que tudo é transitório, que os “eus” são ilusões, que todas essas relações da vida são assim, ilusões em que estamos mergulhados, a própria vida. O Senhor ensinou tudo isso, e agora recebe a notícia da morte de um ente querido e está aí chorando desse jeito? O Mestre parou de chorar, se virou pra ele e disse: - Escute aqui, seu idiota, eu estou chorando porque eu quero! Se virou para o outro lado, abriu a carta e voltou a chorar desconsoladamente”.

Ou seja: você é normal. Aí você senta em zazen, começa a meditar e “VÊ” algumas coisas com maior lucidez. Pode sair à rua e ver uma folha, uma flor, e ver sua verdadeira beleza, por um instante. Nós chamamos esse instante de KENSHO. KEN é enxergar. SHO, sua verdadeira natureza. Experiência mística em estado puro. Pode durar segundos, e muitas pessoas já tiveram. A questão é: Você poderia retê-la, e ver as coisas sempre assim? Você poderia ver a si mesmo não como onda ou redemoinho ou bolha, mas como céu azul, champagne, oceano? Se você conseguisse ver permanentemente, eu diria que você é MUITO iluminado. Se você vir algumas vezes por dia, e tiver uma compreensão das coisas, você atingiu a iluminação, em um grau baixo. Então existem muitos graus de despertar.

Aquele grau de Buda é chamado de “Annutara Samyak Sambodhi”. ILUMINAÇÃO PERFEITA, COMPLETA E UNIVERSAL. Mas tradicionalmente nós dizemos que só Buda conseguiu esse nível, nós tentamos chegar perto, passo a passo. Talvez numas 500 vidas dê pra chegar lá. Um estado de permanente despertar em todos os atos e momentos da vida.