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terça-feira, 17 de junho de 2014

O comentário iconoclasta de Mestre Matsu


Muitas lendas foram contadas a respeito de Buda, dizem que quando ele nasceu saiu andando, caiu uma chuva doce, choveram pétalas e ele apontou para cima e para baixo, há uma estátua de Buda assim, Buda menino, e disse: “entre o céu e a terra eu sou o mais honrado”. Matsu, que foi um grande Mestre Zen da China, ouvindo essa história comentou: “se eu estivesse lá nesse momento, o teria matado a pauladas, e jogado sua carne para os cachorros”.

Como vocês interpretam esse comentário de Matsu?

Aluno – esse auto julgamento dele não condiz com o processo de humildade e a caminhada da iluminação. Porque se ele se julga honrado, se julga mais e diferente dos outros.

Exatamente. Então Matsu fez esse comentário, que se ouvisse isso, o teria matado a pauladas. Isso mostra muito do espírito com que o Zen olha esses aspectos míticos e religiosos que sucedem na história do próprio budismo. Porque o budismo também teve as mesmas tendências de todas as religiões. Teve a tendência à ortodoxia, aqueles que pegam textos do passado e querem conservar os textos tais como eram, naquele tempo, milênios atrás. Dois milênios e meio atrás era assim, será que deve ser assim, ainda hoje?

Por exemplo, quando as mulheres foram admitidas na ordem budista como monjas e rasparam a cabeça, havia muito sexismo. Então para que os homens pudessem admitir aquela revolução de fazer com que as mulheres fossem monjas e sacerdotes, as primeiras regras diziam que uma monja deveria andar sempre a dois passos atrás de um monge. Que uma monja estava sempre subordinada a um homem, nem que ela tivesse 50 anos de prática e ele tivesse sido ordenado ontem, ela estaria subordinada. Então essas são as regras de 2.500 anos atrás, na Índia.

Já na China, 720 anos depois de Cristo, Pai Chang pegou as regras e escreveu de novo, e esqueceu essas coisas todas. Então o Zen, nos últimos 1.400 anos passou a ter monjas abadessas, mestres, e isso mudou completamente, já há 1.400 anos que o Zen tem esse processo, embora, ainda, o número de monjas seja 1/10 do número de monges, principalmente no oriente. Aqui no ocidente, parece que não é bem o caso. Mas, essa tendência à ortodoxia foi abandonada e ela ficou restrita às escolas que ficaram seguindo essas regras, do que chama-se o “Vinaya " do qual existem várias versões.

O Zen então abandonou o Vinaya indiano, já há um milênio e meio atrás e começou a seguir regras próprias. E também surgiu uma tendência iconoclástica no Zen, bastante forte. Como nos primeiros anos o budismo tornou-se muito estudioso, foi ficando cada vez mais filosófico, cada vez mais profundo, cada vez mais complicado na sua discussão filosófica, então foi acontecendo com ele a mesma coisa que aconteceu em Bizâncio. Quando dizemos assim: “essa é uma discussão bizantina”, é porque em Bizâncio, que é o nome antigo de Constantinopla, que é o nome antigo de Istambul, os teólogos se reuniam e discutiam, diz-se, quantos anjos cabiam na cabeça de um alfinete. E isso parecia uma discussão teológica importante.

Então este tipo de coisa começou a surgir no budismo, por causa do estudo escolástico de grandes estudiosos. E quando Bodhidharma chega na China, ele quebra isso, chega dizendo que a transmissão do Zen é uma transmissão além das palavras e dos textos, diretamente de mestre para discípulo.

E então surgem essas anedotas típicas do Zen, às vezes ultrajantes, como a anedota de que nos mosteiros Zen os textos sagrados, os sutras, ao invés de serem colocados no altar, são colocados em estantes, em outros lugares. E havia um templo onde os textos estavam próximos dos banheiros. E um monge começou a usar os textos para se limpar. O mestre foi informado e chamou o monge. “O que você está fazendo”? E o monge explicou: “Eu descobri que a sabedoria que está nos textos é a sabedoria dos outros, e essa sabedoria é inútil para mim, e então resolvi dar a esses textos que não passam de papel sujo de tinta, uma melhor utilização”.

E o mestre disse: “ah, então você se iluminou! Mas se você tem um traseiro iluminado, use papel limpo!”

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Apreciar a quietude



" Apreciar a quietude é o terceiro. Isso significa viver uma vida solitária separado de todas as perturbações mundanas." Essa era a recomendação dele para os monges. Como o postulante pretende ser monge, isso significa para ele toda uma opção. O mestre fica esperando que ele desista, então vai sempre adiando, “primeiro você acaba a faculdade, depois a gente conversa”, e espera uns quatro anos para ver se ele é realmente capaz de viver uma vida separada de todas as perturbações mundanas. Essa prática do sesshin é feita uma vez por mês, durante alguns dias, nos mosteiros Zen, nas outras semanas acontecem meditações pela manhã e a noite e o resto do dia é preenchido com trabalho. Dia sem trabalho não tem comida. O feriado é a semana de sesshin.

"Buda disse, “Praticantes, se vocês desejam desfrutar o silêncio e a felicidade do nirvana, vocês deveriam deixar o clamor para trás viver sem barulho em um local solitário. As pessoas que vivem nos lugares quietos são respeitadas pelos deuses, por isso vocês deveriam abandonar seu eu e aos outros e viverem sozinhos, dessa maneira eliminando a raiz do sofrimento. Aqueles que gostam de multidões são perturbados por elas e sofrerão seus aborrecimentos, da mesma forma que uma árvore seca quebra quando muitos pássaros pousam sobre seus galhos. Laços e apegos mundanos os afundam em um mar de dores, como um velho elefante atolado em um lamaçal. " Assim como no tópico anterior, treinamos a satisfação, no sesshin, recebendo coisa muito simples e tendo que nos satisfazer com elas, tendo que suportar o desconforto de muitas horas de meditação, também ficamos isolados dos outros, por isso nunca é demais insistir sobre o voto de silêncio. Sempre considere antes de falar: - É necessário? Precisava mesmo fazer esse comentário? Temos que treinar falar o necessário e aprender na vida a cortar a fala inútil, que é um dos maiores problemas.

A fala inútil é um dos maiores problemas do treinamento do praticante Zen. Vocês podem observar que o numero de atritos em um sesshin é imensamente menor com o voto de silêncio. Se no sesshin fosse liberado o voto se silêncio, certamente alguém diria algo que ofenderia outras pessoas, ou faria uma observação que desagradaria alguém, ou falaria demais e perturbaria, já é demais tudo que pensamos, quando falamos tudo se potencializa.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Olhos de filha

Sei que sou suspeita, mas o livro "O pico da montanha é onde estão os meus pés" foi realmente muito inspirador para mim. Faz a gente pensar sobre como dar significado à nossa atuação no mercado de trabalho... Houve um tempo em que eu tinha a impressão de que "trabalhava para comer e comia para ter energia para trabalhar" e que nada do que eu estava fazendo realmente fazia muito sentido. Era uma operação de sobrevivência, não tinha lucro! A vida tinha que ter outras razões, tinha que "fazer sentido" tanto esforço, tanta energia empregada no trabalho. Acompanhar a trajetória do meu pai, como um empresário e consultor de empresas que, aos poucos, foi mergulhando no zen budismo e se tornando um monge, até que recebeu o nome de "Monge Genshô", foi muito revelador. Neste livro, reconheci muitos dos meus próprios questionamentos no personagem Ido, e as respostas que ele encontra fizeram muito sentido para mim. Espero que gostem tanto quanto eu, e que seu "retorno" ao mundo comum, depois da grande aventura espiritual, que é esse livro, traga novos horizontes para as suas vidas.
É também um instrumento revolucionário para aplicar na empresa - estimular seus colaboradores a terem essa revelação certamente dará um gás diferente aos seus trabalhos.
Comprem, leiam, recomendem!