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sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Pensar é Inútil





Monge Genshô: Eu me lembro de passar um ano me levantando de madrugada para fazer zazen e no fim do ano eu estava muito desiludido, ainda era leigo, e pensei: “afinal de contas, o que eu aprendi em um ano me levantando de madrugada para sentar?", e me veio a ideia do que eu tinha aprendido – “Pensar é inútil”. Você está tentando resolver os problemas todos pensando, e devemos saber que não é pensando que vamos resolvê-los.


Aluno: Como resolvemos?

Monge Genshô: Eu não deveria responder, mas é através de insights. Você resolve através de uma claridade que lhe vem e que resolve tudo de uma vez só. Não é através de soluções raciocináveis. É por isso que muitas pessoas vão fazer terapia psicológica anos e anos raciocinando na frente do seu terapeuta, e passam 10 anos e ainda não resolvem, porque não é pensando que nós resolvemos.

  
Contudo, isso não quer dizer, em absoluto, que as terapias sejam inúteis. Elas são úteis e devem ser usadas por pessoas que estão com dificuldades, mas não vão alcançar iluminação com isso. Quando uma pessoa tem dificuldades sérias, eu digo que precisa de uma terapia, ou mesmo um psiquiatra, como na anedota: - O aluno chega e diz -”Eu acredito em homenzinhos verdes na galáxia de...” - e eu digo: "sim, está bem. Eles falam com você?". Ele diz: "não". "Ah então não é grave. Se eles falam com você, então lhe encaminho ao psiquiatra".


Se essa pessoa sentar em zazen, virão outras alucinações na sua mente, porque mesmo uma pessoa que está bem e tem discernimento do que é fantasia e realidade, ela sofre. O Zen tem finalidade diferente: não serve para tratar de distúrbios.

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada pelo Monge Genshô Sensei]

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O que você acredita não tem importância



Pergunta: O que fez com que o Buda visse as 500 vidas anteriores dele? O que determina isso? Há um princípio para isso?

Monge Genshô – Este assunto não interessa. O budismo não discute coisas não verificáveis. Você pode perguntar “como começou o mundo?”. Ah, não interessa. Têm várias teorias científicas para isso. Como começou o primeiro carma? Não sei. Eu sei que há carma aqui e agora, porque todas as ações tem efeitos e consequências. E é sobre isso que o budismo fala. Ele não faz especulações filosóficas que não temos capacidade de responder. Desta forma o budismo vem evitando todos os conflitos com a ciência que todas as outras religiões já tiveram. Porque o budismo não é religião de explicação, isso aí é para a ciência. O budismo é a religião do despertar, cujo interesse é saber como funciona o processo de ilusões na mente, como elas são construídas. Ah, se existe um impulso, uma consciência que resiste à morte e renasce em outro corpo. Sim, me parece bastante plausível. Mas está claro que ela não carrega um “eu”, não carrega uma personalidade. Se carregasse um “eu”, eu me lembraria de uma vida passada, e o meu eu seria o agregado das memórias da vida passada também. Mas eu não tenho memória de uma vida passada, só tenho desta. Portanto, todos os “eus” surgem agora e cessam agora. Se há continuidade, me parece evidente por uma questão de justiça. Se existe continuidade do carma, então existe continuidade de tudo o que você fez. E se eu tivesse um acesso de sabedoria superior, eu poderia rememorar vidas passadas. Mas isso é inútil aqui e agora! Completamente inútil para você. Primeiro você precisa despertar, e talvez aí isso seja útil.
Então, o budismo considera a continuidade desde impulso que irá se manifestar em novas existências, mas não ficamos discutindo isso. Até para vir se sentar e fazer meditação, isso não importa. O que você acredita não tem muita importância.

(Final das perguntas e respostas na palestra no centro de yoga em Palmas, Tocantins, decupada da gravação por Sonielson San)

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Me dê suas próprias palavras


" Sete, sabedoria. Desenvolvendo aprendizagem, aplicação e compreensão a realização é a sabedoria. Buda disse, “Praticantes, se vocês tiverem sabedoria vocês não se apegarão aos desejos, vocês devem examinar a si mesmos continuamente e não permitir nenhum descuido, pois este é o caminho da iluminação. Aqueles que não praticarem isso não serão monges nem leigos, não há como se referir à eles. A verdadeira sabedoria é como um barco seguro para atravessar o oceano da doença, velhice e morte, como uma tocha luminosa na escuridão da ignorância, como um bom remédio para todas as doenças, é como um machado afiado para cortar a árvore das ilusões. A sabedoria resultante do ouvir, refletir e praticar o dharma pode assim ser usada para aumentar o mérito no caminho. Se alguém chegar a possuir a luz da sabedoria poderá ver a verdade com seus próprios olhos”.

 Isso nós estamos fazendo agora, estamos ouvindo o Dharma. Estamos ouvindo o que Dogen escreveu em mil duzentos e cinqüenta e três, não estamos jogando fora essa sabedoria, estamos tentando aprende-la, mas é difícil obter a sabedoria, porque apenas ouvir é uma bela atividade, mas ela tem que ser transformada em prática, porque senão ficaremos como os mestres Zen normalmente dizem, “não fale das palavras de Buda”. Isso é o que os mestres Zen diziam para monges, quando esses retrucavam, “Ah, mas os sutras dizem isso!”, “não me diga as palavras de Buda, não gosto das palavras de Buda, me dê suas próprias palavras”. Não é que eles desprezassem as palavras de Buda, o que eles não gostavam era a mera repetição das palavras de Buda, porque isso não possui nenhum significado. Então, “não me fale das palavras de Buda, quero ouvir sua palavra, sua verdade, sua prática como é, o que você está vivendo?”, isso é que importa, o resto são só palavras, não é sabedoria.


Não devemos confundir este ensinamento com a crença de que a sabedoria dos outros é inútil, é sim sem sentido quando não acompanhada de prática, porém se mostra-se com ações ela é verdadeira, se assim não fosse os mestres não se esforçariam tanto para difundir o Dharma.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Apreciar a quietude



" Apreciar a quietude é o terceiro. Isso significa viver uma vida solitária separado de todas as perturbações mundanas." Essa era a recomendação dele para os monges. Como o postulante pretende ser monge, isso significa para ele toda uma opção. O mestre fica esperando que ele desista, então vai sempre adiando, “primeiro você acaba a faculdade, depois a gente conversa”, e espera uns quatro anos para ver se ele é realmente capaz de viver uma vida separada de todas as perturbações mundanas. Essa prática do sesshin é feita uma vez por mês, durante alguns dias, nos mosteiros Zen, nas outras semanas acontecem meditações pela manhã e a noite e o resto do dia é preenchido com trabalho. Dia sem trabalho não tem comida. O feriado é a semana de sesshin.

"Buda disse, “Praticantes, se vocês desejam desfrutar o silêncio e a felicidade do nirvana, vocês deveriam deixar o clamor para trás viver sem barulho em um local solitário. As pessoas que vivem nos lugares quietos são respeitadas pelos deuses, por isso vocês deveriam abandonar seu eu e aos outros e viverem sozinhos, dessa maneira eliminando a raiz do sofrimento. Aqueles que gostam de multidões são perturbados por elas e sofrerão seus aborrecimentos, da mesma forma que uma árvore seca quebra quando muitos pássaros pousam sobre seus galhos. Laços e apegos mundanos os afundam em um mar de dores, como um velho elefante atolado em um lamaçal. " Assim como no tópico anterior, treinamos a satisfação, no sesshin, recebendo coisa muito simples e tendo que nos satisfazer com elas, tendo que suportar o desconforto de muitas horas de meditação, também ficamos isolados dos outros, por isso nunca é demais insistir sobre o voto de silêncio. Sempre considere antes de falar: - É necessário? Precisava mesmo fazer esse comentário? Temos que treinar falar o necessário e aprender na vida a cortar a fala inútil, que é um dos maiores problemas.

A fala inútil é um dos maiores problemas do treinamento do praticante Zen. Vocês podem observar que o numero de atritos em um sesshin é imensamente menor com o voto de silêncio. Se no sesshin fosse liberado o voto se silêncio, certamente alguém diria algo que ofenderia outras pessoas, ou faria uma observação que desagradaria alguém, ou falaria demais e perturbaria, já é demais tudo que pensamos, quando falamos tudo se potencializa.