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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O silêncio é uma oportunidade


 (continuação)
Monge Kômyô:  No Zen, muitos monges zen vem das artes marciais. Não é incomum. O monge Tokushi, por exemplo, é um professor de Aikidô. Genshô Sensei também teve uma origem, quando mais jovem, em artes marciais. Eu entrei no Zen pela arte: a poesia, a pintura. Então quando eu falo da prática zen, estou falando de arte. Para mim, Zen é uma arte. A arte aqui é a arte de estabelecer a capacidade de enxergar as coisas de forma mais clara possível, mais consciente. Para terminar, mais um aspecto do sesshin, que é a alimentação. Ao nos alimentar, também estamos fazendo zazen.

O silêncio, como eu falei para vocês, é uma oportunidade. E qual é o fundamento dessa oportunidade? É a chance de nós praticarmos a respiração, a atenção plena a tudo o que nós fazemos. Então quando vocês forem comer, cada bocado de comida, não precisa ser devagar, mas façam com atenção à respiração e com o máximo de cuidado possível. Observem o bem estar dos nossos companheiros, todos nós. Mesmo sem falar, nós podemos ajudar uns aos outros. Repito para vocês mais uma vez que o silêncio se estabelece como uma forma de nos ajudar a perceber as coisas com mais intensidade. Mas isso não impede que nós possamos nos comunicar uns com os outros de uma forma mais sutil.

A idéia de nós não nos cumprimentarmos no retiro não é para evitar o cumprimento em si. Mas é porque... o macaco louco dentro da nossa cabeça ainda está muito ensandecido. E até mesmo a pequena distração de olhar para alguém e falar “olá, bom dia”, já pode tirar a nossa mente do lugar. Quando você consegue estabelecer bem a sua mente, aí você pode cumprimentar. Mas o cumprimento também é zazen. Estamos aqui agora conversando. Estou tentando falar algumas coisas. Estou praticando a respiração aqui. Eu estou praticando o zazen. Aproveitem e pratiquem também.  (Final)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Talidade



Talidade é uma palavra nova em português, um neologismo. Ele pretende traduzir a expressão inglesa suchness. Poderíamos explicar isso como as coisas tais como realmente são. Em primeiro lugar nós devemos compreender que não vemos ou percebemos nenhuma coisa no universo senão através dos nossos sentidos. Podemos tomar o nosso sentido mais aguçado nos seres humanos, o sentido da visão. A nossa visão vê as tábuas, desse assoalho. Mas nós vemos o que realmente são as tábuas quando estamos olhando? Não.O que nós estamos vendo é um dos aspectos perceptíveis sobre as tábuas deste assoalho. Ou seja, as nuvens de átomos que formam a madeira predominantemente carbono, agrupadas de uma determinada forma, através de uma concentração de energia imensa, que é a matéria, reflete alguns dos raios do espectro eletromagnético na faixa da luz visível. E estes reflexos destes fótons batendo na madeira chegam até o nosso olho, entrando no olho, batem na retina. Este pequeno aspecto de todo espectro eletro-magnético, bem estreito no espectro total, impressiona nossa retina e é transformado em sinais nervosos através do nervo ótico. Vão até o nosso cérebro, ao centro da visão, aonde são interpretados por um software específico  que se traduz numa determinada impressão nos nossos neurônios a qual é julgada de acordo com as nossas impressões anteriores de visão e , interpretada, nos dá uma sensação de que estamos vendo madeira no assoalho.
Então, existe aqui, nesta descrição, uma imensa variedade de filtros que leva até esta impressão do assoalho que nós estamos vendo. Daquilo que o assoalho reflete vemos apenas uma parte minúscula e mesmo assim esta parte minúscula é filtrada através de um mecanismo de visão, de transformação em impulsos neuroquímicos e elétricos que no nosso cérebro se transformam nessa sensação.
Isso sempre foi um assunto importante para o budismo.O que é o contato, o que é sensação, o que é percepção, o que é consciência. Então tomamos consciência da existência dessa madeira. Mas, pelo que vocês podem deduzir desta descrição, aquilo que nós vemos da madeira não é mais do que uma sombra, uma interpretação da madeira e muito menos do que a madeira realmente é. Podemos interpretar o fundo do mar através de um sonar refletindo ondas sonoras e ver como é que é o fundo do mar. É outra maneira de perceber uma coisa. A outra, ouvindo o seu som.(neste momento Monge Genshô bate no assoalho)O som dessa madeira, o que é? Vibrações no ar, sonoras, que chegam até os nossos ouvidos, vibram nossos tímpanos, são transmitidas através do ouvido médio até o ouvido interno, vibram cordas sonoras no caracol do ouvido interno e são transformadas de novo em sinais nervosos pelo nervo auditivo e são transformadas dentro do cérebro em interpretação. Através desses filtros de impressões diferentes tomamos conhecimento do que o mundo aparenta ser. Mas, onde quero chegar é: não vemos as coisas tais como elas são, mas apenas temos impressões parciais interpretadas de tudo.
Nada é verdadeiramente aquilo que parece ser para nós. Então nós como seres humanos, vivendo no universo, usamos o nosso corpo para perceber o universo em volta, temos uma sensação de que conhecemos uma realidade, os outros, as coisas, os objetos, nós temos a sensação de que conhecemos essa realidade. Na realidade vemos apenas sombras que os objetos projetam. Não sabemos o que eles realmente são e é impossível saber o que eles realmente são através desses nossos órgãos de percepção. Sabemos que as outras pessoas percebem de forma muito semelhante a nós, por isto podemos conversar a respeito das coisas. E quando descrevemos um sentimento, mesmo sutil, através de uma poesia ou quando fazemos música e vemos que os outros se emocionam com a mesma coisa que nós, percebemos que eles têm o mesmo tipo de aparelho de percepção e por isto podemos conversar a respeito desses sentimentos que nos desperta o mundo em volta.
Todos nós achamos as flores lindas e o perfume das rosas delicioso. Então essas nossas percepções são semelhantes. Mas de novo,  nós não sabemos o que as coisas realmente são. Por quê? Porque elas são percebidas através de  filtros. A pergunta é: é possível a talidade? É possível percebermos as coisas tais como são? A resposta é sim, é possível. É possível perceber as coisas tais como realmente são, mas não através das interpretações da nossa mente. Só é possível perceber as coisas como realmente são através de uma percepção não elaborada, pensada, ou julgada.
Portanto, a talidade é perceptível por nós? Sim, mas não com os nossos olhos normais e sim retirando os olhos do nosso rosto e colocando outros olhos, os olhos de Buda , com eles podem se ver as coisas tais como são porque estão completamente isentos de qualquer julgamento, de certo ou errado, bom ou ruim, dos opostos, das dualidades e das interpretações do nosso software mental.
(continua)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A instrução do silêncio no retiro zen


Instrução distribuída aos praticantes zen budistas em Florianópolis antes dos sesshins:

SOBRE O NOBRE SILÊNCIO

Este é um sesshin com prática de silêncio, este significa silêncio de comunicação. Não nos cumprimentamos, não cochichamos, não dizemos obrigado ou desculpe, simplesmente prestamos a máxima atenção ao que estamos fazendo e nos empenhamos em ser perfeitamente gentis, sempre cedendo lugar aos outros ou esperando que passem. Evitamos olhar os outros nos olhos ou fazer qualquer gesto de comunicação, como sorrir ou acenar com a cabeça. Se um coordenador dá instruções as ouvimos em silêncio e executamos o solicitado sem considerações egóicas ( nem em pensamento: está certo, podia ser feito de outra forma etc...)


Tome como princípio em todo o sesshin que você está voltado para sua descoberta interna e que qualquer agitação trazida por palavras, elogiosas ou não, será uma perturbação. Assim nunca ande em duplas, ou ceda a tentação de conversar, respeite o silêncio alheio, ande sempre sozinho e faça o que tem de fazer: meditar, ouvir e calar.

sábado, 30 de outubro de 2010

Liberdades e budismo



Em foto da Anistia Internacional, monges do Nepal pedem liberdades de expressão, associação e reunião para a Birmânia. O budismo sempre sofre quando países adotam posturas de censura e políticas totalitárias.
Os budistas brasileiros devem se preocupar quando propostas como "controle social dos meios de comunicação", comitês destinados a policiar ou vigiar a imprensa em mãos dos poderosos que detem força política, ou quaisquer outras formas de censura tendem a se instalar no país. Com o tempo podemos ver as liberdades fundamentais serem destruídas, como mostram os monges budistas da Ásia onde várias nações amordaçam e controlam o pensamento livre e sua possibilidade de expressão.
Da censura ao assassinato dos monges e pensadores livres sempre foram poucos passos, como mostra a história recente da Birmânia.