Mostrando postagens com marcador praticar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador praticar. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O silêncio é uma oportunidade


 (continuação)
Monge Kômyô:  No Zen, muitos monges zen vem das artes marciais. Não é incomum. O monge Tokushi, por exemplo, é um professor de Aikidô. Genshô Sensei também teve uma origem, quando mais jovem, em artes marciais. Eu entrei no Zen pela arte: a poesia, a pintura. Então quando eu falo da prática zen, estou falando de arte. Para mim, Zen é uma arte. A arte aqui é a arte de estabelecer a capacidade de enxergar as coisas de forma mais clara possível, mais consciente. Para terminar, mais um aspecto do sesshin, que é a alimentação. Ao nos alimentar, também estamos fazendo zazen.

O silêncio, como eu falei para vocês, é uma oportunidade. E qual é o fundamento dessa oportunidade? É a chance de nós praticarmos a respiração, a atenção plena a tudo o que nós fazemos. Então quando vocês forem comer, cada bocado de comida, não precisa ser devagar, mas façam com atenção à respiração e com o máximo de cuidado possível. Observem o bem estar dos nossos companheiros, todos nós. Mesmo sem falar, nós podemos ajudar uns aos outros. Repito para vocês mais uma vez que o silêncio se estabelece como uma forma de nos ajudar a perceber as coisas com mais intensidade. Mas isso não impede que nós possamos nos comunicar uns com os outros de uma forma mais sutil.

A idéia de nós não nos cumprimentarmos no retiro não é para evitar o cumprimento em si. Mas é porque... o macaco louco dentro da nossa cabeça ainda está muito ensandecido. E até mesmo a pequena distração de olhar para alguém e falar “olá, bom dia”, já pode tirar a nossa mente do lugar. Quando você consegue estabelecer bem a sua mente, aí você pode cumprimentar. Mas o cumprimento também é zazen. Estamos aqui agora conversando. Estou tentando falar algumas coisas. Estou praticando a respiração aqui. Eu estou praticando o zazen. Aproveitem e pratiquem também.  (Final)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Estudar ou praticar, os dois evidentemente.

             Principiantes praticando meditação, Sanghas de Londrina e Maringá

Pergunta: Suponhamos que a pessoa deseje aprofundar-se na prática. Além de sentar, o que mais pode ser feito? Me lembro de quando comecei a frequentar a Sangha e o Senhor dizia que ao ler muito corria-se o risco de ficar muito teórico, qual é uma boa opção para quem deseje aprofundar-se?

Monge Genshô – O melhor sem dúvidas é trilhar o caminho do meio.

Aluno - Mas para mim não ficou muito claro se devo ou não seguir algumas leituras, ou nenhuma, ou as descobertas vem com a experiência de sentar.

Monge Genshô – Você deve estudar, mas não deve pensar que no zen o estudo é todo o caminho. É um auxiliar muito interessante, pois quanto mais você ouve e entende o Dharma, melhor fica, mas se você estudar demais e se focar muito na teoria e suas múltiplas escolas filosóficas dentro do Budismo, acabará se perdendo em discussões sem sentido com seus colegas sobre as várias opiniões dos mais variados mestres. Esse é um erro, eu prefiro a pessoa que só senta e pratica mas é evidente que o melhor é o equilíbrio entre estudo e prática.

É possível atingir a iluminação sendo um ignorante sobre as teorias Budistas, desde que se sente para praticar. O contrário não ocorre, um erudito que não use uma prática não atingirá a iluminação.

Existem histórias de Mestres inteligentes e cultos que levaram muito tempo para se iluminar, pois eram muito instruídos, era muita coisa dentro da cabeça para pensar. No “Tripitaka”, que são as escrituras básicas do Budismo, o que se chama “Abhidharma”, são comentários muito complexos de Mestres Budistas sobre os Sutras e uma vez comentando com Saikawa Roshi sobre isso, ele me dizia que desgostava o Abhidharma, justamente pelo motivo de que leva as pessoas a discussões muito filosóficas.

Um aluno uma vez disse que deveria haver uma inteligência subjacente no universo, porque tudo é tão complexo. Realmente tudo é muito complexo, parece que a matéria inorgânica tende a se organizar na forma de vida, tanto que existem extremófilos, que são formas de vida que sobrevivem e até mesmo parece que necessitam de condições geoquímicas extremas, normalmente prejudiciais às demais formas de vida. Dos bilhões e bilhões de formas de vida que surgiram na Terra, apenas uma formou uma civilização. Se você afirmar que existe uma inteligência por trás disso terá que aceitar que esta mesma inteligência criou o mosquito da dengue, vírus da AIDS, etc., uma inteligência um tanto estranha.

O surgimento da vida parece aleatório e experimental em que algumas formas sobrevivem e outras não. Qual a utilidade de você saber e raciocinar sobre isso? Nenhuma. Se você pensa muito, não consegue enxergar a simplicidade das coisas. Existe um princípio chamado “Navalha de Ockham”, do filosofo e frade inglês Willian Ockham, que diz basicamente que as explicações mais simples provavelmente são as verdadeiras. No nosso mundo, as pessoas querem sempre explicações mais complexas e complicadas. O que é mais provável na morte de John Lennon? Um fã perturbado pela manhã lhe pediu um autógrafo e a tarde o matou com três tiros, isso é o mais provável, ou seja, esquizofrenia. O menos provável é que ele foi assassinado porque um ser lá em cima no céu estava indignado, pois ele havia dito que os Beatles eram mais importantes que Jesus Cristo ou uma religião qualquer.

Eu posso dizer que a matéria atrai matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distancias, e é por isso que vocês estão sentados nos bancos, porque são atraídos pela massa do centro da Terra. A explicação menos provável é que existam anjos com fios prendendo vocês e os puxando para o centro da Terra habitado por seres incríveis etc. Algumas pessoas procuram o Zen por causa de coisas maravilhosas e espetaculares, no Zen não há nada sobrenatural, é tudo muito simples, nada é especial. O Zen é o local para quem não deseja ilusões.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O sofrimento é um atalho



Não podemos minimizar o efeito de uma boa meditação de quarenta minutos, que é tempo que um praticante mais maduro deve fazer. Então essa prática para a vida diária vai mudando essas questões do que alcançar. Sentir que não alcançou nada também já é muito bom. Porque um dos grandes problemas de quem começa a praticar é pensar que atingiu algo, ele senta-se e pensa – Ah, eu adquiri serenidade – ou – Que bom, eu pratico meditação e sou mais sereno, sou mais “zen” – como se diz na gíria. Há até quem se ache iluminado.  Mas isso não tem nada a ver com o zen. Sentar-se e adquirir serenidade é uma prática que poder ser feita de muitas formas e não precisa, em absoluto, ter um objetivo espiritual. A serenidade é apenas um subproduto do sentar-se quieto em meditação, nada mais que isso. É como muita prática de ioga que se faz hoje em dia e transforma-se em ginástica simplesmente, mas que não tem objetivos espirituais, é mera busca de poder e prazer, a ioga com objetivos espirituais é outra coisa.

Então o primeiro que os alunos fazem quando se apresentam é sentar para meditar. Se você não ficar sentado quieto quarenta minutos não vai ouvir nenhum ensinamento, e se não voltar não tem problemas, porque o Zen não é para curiosos nem para pessoas que esperam resultados instantâneos ou uma panacéia, o Zen é para pessoas com a cabeça em chamas. Então tem que haver angústia, porque só a angústia existencial mobilizou Buda para prática, porque estava angustiado largou mulher, filho e foi para o meio da floresta e treinou, só por isso. Então é necessária a angústia, a inquietude e o desejo de se libertar. Por isso esse sofrimento é um atalho para a realização espiritual. E um corpo humano é a grande oportunidade, porque os homens tem as duas coisas, prazeres e dores.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Iluminar-se com seu próprio metodo


P: Por que não posso trilhar meu caminho sozinho, usando as técnicas que me interessarem?

R: Bem, você pode mesmo tentar, porem considere que os caminhos existentes foram testados por milênios. Em geral com o tempo, no budismo e no cristianismo, houve o abandono de metodos severos antigos e grande decadência, muito extensa, a ponto de ser difícil achar seres realizados. As tentativas individuais não prosperaram com raríssimas exceções.
Considere também que mesmo os melhores, como Buda, treinaram com mestres durante anos. Não temos notícia de quem haja feito tudo sozinho.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Praticar não é pensar




P: Para Carl Jung, a supressão do ego para o homem ocidental não seria o ideal, sendo assim ele deveria ser como uma espécie de vestimenta para o Self progredir em sua individuação.
Como o Zen Budismo interpreta isto, visto que Alan Watts, proeminente estudioso do Zen Budismo orientado pelo mestre Zen D.T. Suzuki, compartilhava deste pensamento junguiano.
Aproveitando o assunto, vejo que o ponto de vista do inconsciente coletivo e seus arquétipos são também em comum com o Zen Budismo, mas pelo que entendo eles não teriam um papel importante para o praticante do Zen. Correto?

R: Para o zen a principal ilusão é a de se ter um eu separado. Mas no mundo relativo você precisa do eu para transitar, como uma fantasia, mas quando você volta do baile a fantasia tira-a e não se confunde com ela. Assim age o iluminado.
Nenhuma idéia é importante para o praticante zen, praticar não é pensar ou filosofar.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Como aprender sobre o budismo se não há um templo próximo?

Ao final de um texto publicado em seu blog, Folhas no Caminho, o Prof Sasaki encerra dizendo:

"No novo artigo que apareceu hoje no site brasileiro de Ajahn Buddhadasa, chamado "Unidade na Diversidade", e que conta um pouco da amizade entre Tan Ajahn e um grande amigo muçulmano, este diz das dificuldades de ir visitar o mestre:

"Nós tivemos que pegar um trem de Bangkok e chegamos em Chaiya às 4:00h da manhã. Phra Kuang e eu tivemos que esperar na estação até estar claro o suficiente. Então caminhamos através dos campos e florestas. Era a estação chuvosa, e de vez em quando tinhamos que atravessar águas chegando até a nossos peitos. Mas eu nunca pensei em desistir.”

"Eu costumava subir o Phu Kradueng em Loei quando ainda era uma selva. Aquilo era realmente difícil - mas no topo das colinas, o ar fresco e puro me fazia sentir como se eu estivesse em outro mundo, e todo o cansaço ia embora.”

"Eu tive que caminhar muito tempo antes que alcançasse Suan Mokkh, mas não me sentia nada cansado. Eu fui confortado pelo pensamento de que eu iria obter um discernimento do Dhamma de um monge cujas idéias eram muito diferentes do que eu tinha ouvido, como se as dele pertencessem a um outro mundo".



"Entretanto hoje as pessoas reclamam que o centro de Dharma mais próximo fica *só* no bairro vizinho. "Ah se tivesse um perto de casa! Aí eu frequentaria..."

No final das contas, podemos nos perguntar se é o Buddhismo que deve se abrir e difundir, ou se são as pessoas interessadas que devem se levantar de suas poltronas. Já escrevi sobre isso, aliás, em "O Que Se Fazer Quando Se Está Só". Se não há pessoas interessadas, ativas e dispostas, não seria questão de perguntar para quê então deveria o Buddhismo existir no Brasil? Existe uma idéia comum que diz que onde não há mérito o Dharma não se estabelece. Eu não gosto da palavra "mérito", mas a idéia por trás me parece verdadeira. Se não há um jarro, para quê despejar água no chão? O Dharma só é necessário porque existem pessoas interessadas nele. Abrir e difundir o Buddhismo só para que o "Buddhismo" continue existindo, é fazer do "Buddhismo" uma entidade merecedora de existência própria, independente de para quem ele se dirige."