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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
Paisagem mental
(continuação)
Um homem estava metido num grande problema, porque ele precisava “aparentar”, então ele precisava ter um carro muito caro, precisava ter um apartamento enorme, mas estava metido em dívidas impagáveis e isso causava uma grande infelicidade para ele, crise de hipertensão, e tudo o mais um monge lhe disse: “mas você pode vender tudo isso, não precisa ter esse padrão de vida. Vá dormir tranquilo”. “Mas o que é que os outros vão pensar”?
Para quem ele precisava mostrar que era milionário? Só que ele não era rico, ele era endividado. E ele não conseguiu escapar disso, era possível mas não conseguiu e continuou vivendo em ansiedade. Um monge não conseguiria entender o “mundo” dele, ele precisava usar um relógio Rolex.
Então, no fundo, a prisão está na paisagem que a pessoa criou dentro da cabeça. Ela acreditou em determinadas coisas e isso a aprisionou. Nós temos que olhar pra nós e dizermos assim: “qual é a fantasia na qual eu acredito”? No Zen queremos desarmar isso.
Então a mente pode mudar, mas, se você ficar preso numa paisagem qualquer, ela pode impedir sua vida. Porque você pensa: “eu vou ser monge e isso vai me fazer feliz”. E quando você se torna monge, o quê que acontece? É só trabalho. A prioridade são os outros, não é mais a “sua” prioridade.
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
Me dê suas próprias palavras
Pergunta: Essas descrições, que há em alguns sutras, elas no Zen são ou devem ser completamente ignoradas ou elas são estudadas como padrões mentais?
Monge Genshô: Os sutras foram escritos por quem?
Aluno: Pelos homens.
Monge Genshô: Por homens. O que os homens fazem? Os autores dos sutras pensaram: “Ah, isso aqui vai influenciar as pessoas! Então eu vou dizer que Buda surgiu num céu de ouro, etc e tal, em edifícios cravejados de pedras preciosas” etc... Aí escreveram essas coisas que eles acharam que seriam influentes. É natural, eram homens, embora os sutras possam ser profundos, difíceis, muito elaborados. Você pediu para ler o Lankavatara Sutra, né. Não achou difícil?
Aluno: Muito.
Monge Genshô: Então, são enlouquecidamente difíceis, como problemas filosóficos. O Lankavatara Sutra, o Surangama Sutra, são assim. Sequências de mais de uma centena de perguntas com respostas - todas respostas profundas. Então, realmente quem escreveu era um verdadeiro conhecedor do Dharma. São textos muito interessantes mas, como eu disse ontem, “não me dê as palavras dos sutras, me dê suas próprias palavras”. Não adianta ir lá na entrevista com o monge, chegar e perguntar: “como é que vai seu zazen?” e você citar um sutra. Isso não tem significado nenhum, isso seria completamente tolo. Então, nós temos nos sutras mapas, guias interessantes, mas também coisas que não servem mais para o mundo de hoje. Como servem os conselhos de Buda sobre subordinação das mulheres, deveres dos homens, que foram escritos 2600 anos atrás? Como servem para hoje? Parcialmente... Num mundo em que força física não é mais importante, por exemplo? Naquele tempo, um homem era diferente de uma mulher. Um homem podia fazer serviços que uma mulher não podia fazer. Qual é o serviço que uma mulher, hoje, não pode fazer? Que um homem não pode fazer? Num mundo de máquinas, instrumentos, computadores etc? Mudou tanto.
É como eu dei um exemplo lá em Goiânia. Em antigos textos bíblicos, está escrito: “os homens não podem cortar o cabelo das têmporas.” Aí vocês já viram aquelas seitas hassídicas, que deixam cachinhos caindo? É porque eles não podem cortar o cabelo das têmporas. Porque está escrito lá no livro. Podia ter sentido lá naquela época, que eu não sei qual é, mas hoje, que sentido tem? Então, nós temos que ter essa clareza. Sempre surgem os ortodoxos, que querem seguir os textos ao pé da letra. Estávamos falando ainda há pouco. Mas, a que isso leva?
Em Israel há elevadores que aos sábados são desligados, de modo que você entra no elevador e ele para em todos os andares, porque um judeu de uma dessas seitas ortodoxas não pode apertar um botão, pois se ele apertar um botão, está fazendo a máquina trabalhar para ele. Então, se criou isso. No domingo o mecanismo é desligado e para de andar em andar. Qual era o sentido antigo da guarda do sábado? O sábado era dia de descanso. Então, você não trabalhará, seu jumento não trabalhará, sua mulher não vai trabalhar. Ninguém vai trabalhar no sábado. Vamos dedicar esse dia, um dia de descanso. É um dia de oração. Era esse o sentido. E agora virou essa maluquice para elevadores. Então nós temos que tomar cuidado com a ortodoxia.
Pergunta: Com relação aos sutras, Monge, existem sutras que permitem, que trazem insights para as pessoas? Por exemplo, o Sutra do Diamante?
Monge Genshô: Com certeza. O Sutra do Diamante é o Vajracchedika Sutra. É um sutra que corta todas as ilusões. Por isso se chama Sutra do Diamante. Ele é como se fosse um controle de qualidade dos paramitas. Ele pega, por exemplo, a paramita da paciência e analisa. Claro, ele é muito útil, deve ser lido, mas você tem que ler pensando: “esse texto foi escrito por um Mestre e eu vou aproveitar o que me for útil nesse texto”. Não o tome como baixado do céu, como um texto sagrado, que nós temos que seguir ao pé da letra.
Vejam o que acontece hoje no Oriente Médio, onde existe uma religião com um texto que foi ditado pelo próprio Deus. Então, se foi ditado pelo próprio Deus, tem que ser seguido. Assim, tem os grupos que querem que as regras sejam seguidas como eram naquela época.
Esses dias li a declaração de um religioso de que uma mulher que for estuprada, tem que ser enforcada. Mas, por que ela tem que ser enforcada, se ela foi estuprada? Porque está no texto. Ela não foi só do seu marido, ela foi de um outro homem. Mas foi um estuprador! Não interessa. Ela não serve mais. Enforque. Esse é o grande perigo de olhar o texto dessa forma. O pior é que essa declaração foi feita por um ministro de governo de um país do oriente médio. Imagine a força institucional que tem uma crença desse tipo. E não é impossível que surjam grupos extremistas budistas, etc, que comecem a pensar “o outro é diferente” também. Nós temos que ser radicalmente contra esse tipo de pensamento. Nós temos que preservar nossa liberdade mental.
E, para encerrar, há uma história. Eu gosto muito de um mestre a quem um aluno perguntou: “Você foi aluno do Mestre fulano de tal?” Ele disse: “Sim, fui.” “Ah, que maravilha. Aluno do grande mestre fulano de tal. E o senhor aceita tudo o que seu mestre lhe dizia?” “Não, aceito metade e rejeito metade.” E o aluno continua: “Mas como o senhor rejeita metade do que o seu mestre dizia?” E ele responde: “Se eu aceitasse tudo o que ele me dizia, não seria digno do meu mestre, porque o meu mestre me ensinou a pensar, me ensinou a manter minha liberdade mental, meu senso crítico. Eu posso até estar errado, mas não preciso aceitar tudo o que ele disse”.
Então, vocês não precisam aceitar tudo o que eu digo. Simples assim.
(Final da terceira palestra no sesshin de inverno, decupada da gravação por Rachel San)
quinta-feira, 24 de julho de 2014
Perder tudo
(continuação)
Então, a diferença que separa a angústia existencial, o fato de não sabermos onde estamos ou para onde vamos, da realização completa, da iluminação, é apenas um fio de cabelo. E que distância tão grande! Nos textos se diz que é a distância entre o céu e a terra. É uma enorme distância e, no entanto, é só um fio de cabelo de diferença, na percepção dos fatos, no que realmente é.
Ontem, nós tivemos uma experiência muito interessante. Minha esposa perdeu a carteira, com todos os documentos, logo antes de nós chegarmos no sesshin. Então, tinha dinheiro dentro, talão de cheques da comunidade, carteira de motorista, cartão de crédito. Tinha tudo na carteira e ela perdeu a carteira. Aí nós voltamos no local, onde ela provavelmente teria perdido a carteira e nós não a achamos. Voltamos duas vezes no local, voltamos para casa para procurar, etc. Então ela pensou: “Bom, acabou meu sesshin, não posso mais ir com isso na cabeça. Eu tenho que ir para casa, telefonar para os bancos, cancelar os cartões, etc e tal, bloquear os cheques, fazer isso, fazer aquilo”. E a cabeça em chamas com esse problema. Aí, chegamos aqui, fomos tirar as coisas de dentro do carro e, de repente, ela achou a carteira dentro. É como...comentando depois...é como uma bolha de sabão que estoura. Toda aquela imaginação, todos os problemas, todos os telefonemas, tudo, tudo, tudo, o incômodo de emitir documentos novos, carteira de identidade, carteira de motorista, tudo aquilo que ela imaginou se dissolveu em um instante. Muito interessante.
Como é que dentro da nossa mente, nós construímos um mundo inteiro, não é? E, um fio de cabelo separa todo o céu e a terra. O paraíso e o inferno. Um ligeiro, pequeno evento pode mudar tudo. Transpondo para o nosso problema, do ponto de vista espiritual, a nossa atitude mental é de que perdemos. Perdemos tudo. Perdemos todas as construções, tudo mais, estamos perdidos e então sentamos para nos encontrar. Mas esse “nos encontrar”, ele pode ser tão repentino e solucionar tudo tão completamente, como de repente achar a carteira perdida com tudo dentro. E todo o processo se dissolver instantaneamente. A iluminação é assim. A iluminação é um processo em que você vê a fantasia construída de tudo na vida. Todas as coisas, todas as angústias, todos os medos, todas as paixões, tudo...você consegue ver claramente a sua insubstancialidade. É insubstancial e pode ser dissolvido num estalar de dedos, numa pequena percepção. (continua)
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Quem é este que está assim?
Pergunta – Nos textos do site, em vários deles há uma questão que o senhor coloca, por exemplo, se eu tenho alguma manifestação psicológica de raiva, de medo, o senhor aconselha a gente a fazer a pergunta: “Quem é este que está com raiva?” O senhor poderia esclarecer, porque pra mim é confusa essa questão. A minha dúvida na verdade é “quem é esse que está com raiva”?
Monge Genshô - Pois é. Quem é este que está com raiva? Se eu pensar “quem sou eu”, eu vou ver que meu “eu” é uma construção, eu construí o meu “eu”.
Para entender melhor, imagine que vocês perderam toda a memória e estão deitados numa cama de hospital, depois de um acidente, e não sabem mais quem são as pessoas, sua família, coisa nenhuma. Aí alguém chega e diz: “Você é fulano. Lembra disso? Lembra daquilo?” Não, não lembra nada. Aí mostramos fotografia, etc, e tentamos reconstruir uma memória, para a pessoa ter uma noção de quem ela é, porque essa noção toda, é uma construção que você fez. É você que acreditou durante a sua vida que você é seu nome, sua personalidade, isso e aquilo. Mas quando você fica com raiva, como é que é? Alguém vem e insulta você. Quem fica com raiva? Minha construção. Ela é que está abalada em seus fundamentos.
Eu sempre me vi como honesto, alguém vem e me chama de desonesto, fico bravo, porque ele está abalando os fundamentos do meu “eu”, e meu eu é precioso pra mim. Eu preciso dele para transitar no mundo. Eu não estou dizendo que está errado você ficar irritado, está muito certo na verdade, porque você precisa desse eu honesto para funcionar no mundo. Se todo mundo começar a dizer que você é desonesto, seu “eu” de funcionamento no mundo está muito abalado, ou deveria.
Então, a identidade que você assumiu, é a identidade que pode ser abalada, quem é que você defende? A construção. Então, recomendo você a perguntar: “quem é que se ofende”? É como alguém que diz assim: “Ah, corintiano é isso”. E você é corintiano. Você fica ofendido porque? Quem fica ofendido? O corintiano dentro de você, porque você assumiu que é corintiano. Se você não tivesse assumido essa identidade, não haveria essa ofensa. Então a pergunta “quem é que se ofende, quem é que tem raiva, quem é que tem ódio”, ela tem muito sentido não tem? Porque quem se ofende é uma construção mental, essa construção mental foi você quem fez, esse “quem” é construído, não é real.
Por isso quando alguém se ilumina fica difícil ofender. Fica difícil até matar, como o Mestre Zen que estava sentado, a cidade foi invadida e veio um general com a espada suja de sangue e o Mestre Zen nem se abalou, continuou lá no templo sentado meditando. O general entrou na sala e disse: “você não vê que eu posso matá-lo em um instante”? E o Mestre disse: “E você não vê que eu posso morrer em um instante”? Eu posso morrer. Não estou agarrado à vida, não tem problema, então me matar ou não me matar não faz diferença. Então se você quer o medo, não vai vê-lo.
Porque a identidade e o amor à vida, àquele evento daquele instante é irrelevante. Eu posso morrer aqui nesse instante, vai acontecer a qualquer momento.
(perguntas em palestra pública em Goiânia, decupadas da gravação por Rachel San)
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quinta-feira, 15 de maio de 2014
Viver no mundo sem ser do mundo
Pergunta – Como é que a gente faz para viver num mundo e conviver com pessoas com as quais sabemos que não nos identificamos mais? Sei que isso é o ego que julga e separa tudo. Mas eu olho para essas pessoas e para a vida do passado e sei que não pertenço mais a isso mas, ao mesmo tempo, não possuo um esclarecimento não intelectual. Como fazer para viver exatamente no meio, entre a vida que não reconhecemos mais como nossa e aquilo que imaginamos ser nosso objetivo, uma clareza de espírito?
Monge Genshô – As identidades que temos ao longo da vida são criadas pela mente. Nós sustentamos situações que vamos criando, vamos codificando e criando. Mesmo quando falamos sobre o Zen em nossa vida, também sustentamos identidades. Criamos nomes, forma, amigos, roupas e começamos a ter um modo de vida. O que temos que perceber é que todas as circunstâncias são criadas nas nossas mentes, mesmo a de ser monge. Roupas, formas, identidades, nome e até a convicção das pessoas que os cercam, todo esse conjunto de coisas sustenta algo que, como todas as outras coisas da vida, é ilusório.
Todas as nossas identidades e relacionamentos são construídos. O que temos que pensar é: “construímos o que queremos ou fazemos apenas algo que nos é condicionado”. Muitas pessoas vêm me falar que estão num relacionamento e numa vida que não desejam. No entanto, foram elas que construíram todas as circunstâncias que sustentam suas vidas. Quando você troca para outra circunstância, essa também é uma construção. Deveríamos olhar lucidamente para nossa liberdade, que é capaz de manifestar tudo. Temos uma mente liberta que é capaz de manifestar qualquer coisa.
É você quem escolhe a condição que deseja manifestar, por exemplo, uma pessoa que deseja ser monge, que faz seus votos e que agora recebe a oportunidade de treinar no Japão, foi ela quem procurou essa vida. Isso pode ser fantástico, maravilhoso, pois quando ela estiver morrendo poderá olhar para trás e dizer que construiu uma vida ideal. Qual a vida que nos permite olhar para trás e dizer que não importam as formas ou pessoas, eu construí e sustentei a vida que eu realmente desejei? Essa liberdade fundamental é que é o nosso grande ganho. Quando estamos presos à uma forma, identidade ou profissão, não temos essa liberdade. Somos como água e podemos manifestar qualquer forma, mas todas as manifestações de nossa vida são de certa forma legítimas, pois são possíveis, mesmo as piores.
sexta-feira, 21 de março de 2014
Dor física
2) E com relação a dor física, doenças, onde se enquadraria dor física? No sofrimento talvez?
Monge Genshô – Não, esse não é um sofrimento mental. Esse é um sofrimento que surge da condição humana, da causalidade. Mas não necessariamente você tem uma culpa para surgir um sofrimento físico, o simples fato de sermos seres humanos fará com que tenhamos doenças, dor e desconforto. Isso faz parte do nosso carma de termos nascidos seres humanos. Algumas pessoas são mais felizes nesse aspecto, mesmo crianças que têm doenças dolorosas, quando olhamos não conseguimos ver nenhuma justificativa para isso. As pessoas que crêem em Deus se revoltam com Deus, questionando -“Mas por quê Deus faz isso?”. Se você imaginar que a criança surgiu agora e que não existe nenhum passado, você não encontrará explicações. Mas se olharmos todas as vidas como longas continuidades, todos teremos carma para muito sofrimento, pois atrás de nós há muitas vidas e com certeza muitas coisas erradas foram feitas.
Mas com relação à dor física, se você desenvolver uma mente altamente disciplinada, é possível diminuí-la consideravelmente. Ignorá-la a ponto de não sentí-la. Tornar-se um com a dor é um treinamento que pode ser feito no próprio zazen. Todos sentimos dor no zazen, é o momento de pensar: a dor existe, mas não é minha, é só uma dor. Já viram aquelas imagens de monges se auto imolando em posição de zazen? Na época da guerra do Vietnã, muitos monges atearam fogo em seus corpos para derrubar o governo que estava perseguindo o budismo. Algumas pessoas perguntam, em razão desses atos, se o budismo apóia o suicídio. Nesse caso não se trata de suicídio. Trata-se de um ato de sacrifício em nome de milhares de pessoas. É diferente. Quando estiverem fazendo zazen e sentirem dores, podem imaginar que é possível queimar seu corpo em zazen sem se mexer.
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Ninguém pode nos salvar
"A realidade não possui bom ou ruim, direita ou esquerda, em cima ou embaixo. Apenas as condições aparecem na nossa mente. As coisas são fáceis de entender mas, muito difíceis de serem vistas. A realidade está além de sujeito e objeto, eu e os outros, morte e vida, iluminação e delusão. Toda a realidade esta além de todas essas idéias. Assim, a delusão existe somente na mente dos seres humanos. Tudo nesse mundo, plantas, animais, água, montanhas, tudo, esta além de delusão e iluminação. Bom ou ruim, existe apenas nas nossas mentes. A delusão existe porque usamos dualidade, bom ou ruim, começo e fim. Mas como eu disse, a base do verdadeiro “eu”, é como esta unidade, imutável.
Assim, quando Shakyamuni Buda viu a estrela da manhã e atingiu a iluminação, quando a luz dessa estrela o atingiu, ele realmente agarrou o ponto antes da atividade mental. Dessa forma ele anunciou: “É maravilhoso, é miraculoso, eu e a grande terra, com todos os seres senscientes, simultaneamente, iluminados”. E ele disse depois disso, “quero salvar todos os seres, mas não posso encontrar seres ou Budas, porque essa unidade é para todos os seres”. Somente seres humanos com suas mentes podem não concordar com ele, porque no caminho de crescer, pais implantam nas cabeças de seus filhos este dualismo e a criança é incapaz de duvidar disso quando cresce. Ele pensa que o significado da linguagem é a verdade. E para nós, na vida diária dentro do dualismo, é muito difícil ver o verdadeiro “eu” que está além da separação do “eu” e os outros, dentro e fora, sujeito e objeto, vida e morte, delusão e iluminação.
Esse estado de além de delusão e iluminação, bom ou ruim, é chamado Buda. Dessa forma todos são originalmente Budas. Somente a atividade mental, somente a idéia da atividade mental pode não concordar com isso. Assim, nós precisamos fazer zazen para verdadeiramente experimentar isso, a unidade, e nos salvar de nós mesmos, por nós mesmos. Ninguém pode nos salvar. O trabalho do professor é apontar o caminho para a libertação, mas só você pode salvar a si mesmo, porque a delusão está dentro de você, por isso você precisa descobrir que delusão é ilusão dentro da mente." Saikawa Roshi (2005) (continua)
Assim, quando Shakyamuni Buda viu a estrela da manhã e atingiu a iluminação, quando a luz dessa estrela o atingiu, ele realmente agarrou o ponto antes da atividade mental. Dessa forma ele anunciou: “É maravilhoso, é miraculoso, eu e a grande terra, com todos os seres senscientes, simultaneamente, iluminados”. E ele disse depois disso, “quero salvar todos os seres, mas não posso encontrar seres ou Budas, porque essa unidade é para todos os seres”. Somente seres humanos com suas mentes podem não concordar com ele, porque no caminho de crescer, pais implantam nas cabeças de seus filhos este dualismo e a criança é incapaz de duvidar disso quando cresce. Ele pensa que o significado da linguagem é a verdade. E para nós, na vida diária dentro do dualismo, é muito difícil ver o verdadeiro “eu” que está além da separação do “eu” e os outros, dentro e fora, sujeito e objeto, vida e morte, delusão e iluminação.
Esse estado de além de delusão e iluminação, bom ou ruim, é chamado Buda. Dessa forma todos são originalmente Budas. Somente a atividade mental, somente a idéia da atividade mental pode não concordar com isso. Assim, nós precisamos fazer zazen para verdadeiramente experimentar isso, a unidade, e nos salvar de nós mesmos, por nós mesmos. Ninguém pode nos salvar. O trabalho do professor é apontar o caminho para a libertação, mas só você pode salvar a si mesmo, porque a delusão está dentro de você, por isso você precisa descobrir que delusão é ilusão dentro da mente." Saikawa Roshi (2005) (continua)
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sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Olhar para a frente
P: Hoje é muito comum ouvir a expressão “Aquela pessoa é Zen”. Mas pelo que escuto sobre os retiros e práticas Zen, não é nada fácil, ou seja, não é o que é dito como Zen.
Monge Genshô – Na verdade o treinamento do Zen é muito
duro. Se não fosse duro não seria Zen. É duro e com grande sofrimento
físico e mental. Mas só dessa forma você consegue se libertar. Os
professores do Zen costumam ser severos. Lembro-me de uma pequena
história com Moriyama Roshi, que foi meu professor. Uma senhora foi
conversar com ele sobre sua separação e começou a falar do marido, da
traição e de toda a tristeza que estava vivendo. Então o mestre olhou
para ela e disse, “Agora vai ter que trabalhar, não é?”. Qual a
realidade do momento, de que interessa tudo aquilo que aconteceu? Está
sozinha e terá que trabalhar, essa é a parte que realmente interessa.
Foi a própria pessoa que me contou isso e disse que foi como se tivesse
levado uma bofetada. Assim é o Zen.
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terça-feira, 9 de julho de 2013
Uma ambição e um obstáculo
Às vezes as pessoas se perguntam, “qual o sentido da vida?” elas querem respostas para perguntas como, “por que estou aqui?”, “para onde vou?”, “de onde eu vim?”, são perguntas centradas no “eu”. “De onde eu vim?” pressupõe que existia um eu antes que me desse conta. “O que estou fazendo aqui?” tem que haver um propósito para minha existência, um propósito dado por algo superior. “Para onde eu vou?” meu “eu” tem que continuar para sempre, desejo a estabilidade do “eu”, mas nem o “eu” é estável, ele também está em contínua mudança e, como Buda explicou, é tudo uma ilusão, o “eu” é uma construção.
Mas, isso tudo não quer dizer que não vivamos as consequências dos nossos atos, sim vivemos, porque na verdade não somos um “eu”, somos um carma se manifestando e o fruto dessa manifestação, um ser, ele é que diz “eu sou”. Então o “eu” é produto de uma operação mental, só isso, e por isso ele é construído e ilusório. Se temos tal fluxo que vai mudando tudo e mesmo esse “eu” não é sólido, mas carma, tudo o que provocamos, fazemos e tentamos, produz movimento e esse movimento continua gerando novos “eus”, por isso existe renascimento, porque geramos carma.
Se queremos nascer melhor, termos vidas melhores, então basta mudar o carma, mas se queremos escapar desse ciclo precisamos ambicionar mais alto, precisamos ambicionar uma iluminação completa, aí sim, a iluminação completa nos tiraria do ciclo. Mas isso é um trabalho de longo prazo, e veremos que a própria ambição é um obstáculo pois é a ambição de um eu. Quando Buda se iluminou, lembrou-se de quinhentas vidas. Quinhentas manifestações com “eus” diferentes do seu carma, quinhentas vidas como Bodhisatva antes de ser Buda. Por isso não se admirem que quando a gente senta é tão difícil, porque para pararmos essa energia que nos move e podermos ser como Buda precisamos de um longo trabalho, e aí eu lhes pergunto, em que ponto vocês estão dessas vidas? Já são Bodhisatvas?
O que é um Bodhisatva? Alguém que se manifesta nesse mundo porque quer, porque sente compaixão pelos outros seres, então tem que ter uma vida de Bodhisatva. Quando costuramos o Rakusu e fazemos os votos, esses votos chamam-se “Votos de Bodhisatva”.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Sofrimento, o caminho curto
Pergunta: Com dor e sofrimento devemos persistir na almofada ou procurar o conforto da cadeira?
Resposta: A resposta é assim esse sofrimento do corpo também é muito bom, tem uma espécie de tortura, mas ela faz com que realmente a gente fique aqui. Quando você está aqui o mundo lá fora, o passado ,presente, desapareceram. E por isso quando tem um grande sofrimento físico também tem progresso, se quebra o ego mais rápido. O sofrimento é o caminho mais curto para o crescimento espiritual. Grandes sofrimentos podem ser bênçãos maravilhosas. Basta ver que muitas pessoas crescem espiritualmente quando têm, por exemplo,um câncer. Eu já tive esta experiência várias vezes de falar com pessoas que me procuraram porque estavam com câncer. E aí ele sabe o que é importante na vida, ele descobre que o carro não tem importância nenhuma, o que ele queria era ver o filho crescer. Este sofrimento é maravilhoso para abrir portas para realização espiritual.
Pergunta: Numa segunda fase que o corpo está dominado e começam as músicas lá no fundo, tem que combater ou pode deixar tocando?
Resposta: Se você não colocar nenhuma tensão nelas elas vão embora. Vocês prestem atenção, por exemplo, nas coceiras. Se sente coceira no nariz não coce e coloque toda a sua atenção na coceira, diga assim: eu vou ficar olhando essa coceira. Tente não desviar a atenção dela nenhum segundo.Fique atentamente olhando a coceira. Vocês vão descobrir que não conseguem fazer isso por um minuto, vão se distrair e quando se derem conta a coceira não está mais lá. Aí nós descobrimos como todas essas coisas são evanescentes.
(Estes dias uma pessoa que não faz zazen disse: "se não coçar uma coceira não para", eu respondi: "se você coçar nunca saberá o que é uma coceira".)
Pergunta: E se ele entrasse na música e passasse a ser a própria música?
Resposta: Se a música existisse, se ela fosse real, mas essa música é uma fantasia.
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quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Trinta bastonadas deu-lhe Obaku
Pergunta:Gostaria de saber se tem diferença no Zen entre corpo, mente, alma e espírito. Por exemplo: há diferenças entre sofrimento espiritual e sofrimento mental?
Monge Genshô: Acho que são só palavras, porque nós poderemos dizer assim: a minha alma está sofrendo, querendo dizer que estou sofrendo intimamente com falta de paz, ou meu espírito não tem paz, ou minha mente não tem paz. Todos seriam sinônimos. Mas quando se fala em alma como uma partícula indivisível de uma pessoa que sobrevive à morte aí nós estamos falando de uma outra coisa, uma partícula eterna que não existe dentro da doutrina budista. Na doutrina budista todas as coisas são impermanentes, todas, inclusive a nossa consciência. Nós queremos que permaneça, mas não é assim. É como querer que o gume de uma faca permaneça quando a faca desapareceu. O gume, fio da faca, é inerente a existência da faca. Sinto-me confuso um pouco quando alguém me pergunta qual é a diferença que o senhor vê entre mente e consciência? As abordagens do zen não são bem assim porque corpo e mente estão misturados, coração e mente estão misturados. Não adianta você dizer minha mente está muito bem mas meu corpo não, eu estou com 41o de febre. Não é verdade. Se está com 41o de febre está delirando, então a mente não está bem. Sente reto e a sua mente muda. Agora faça assim (cabeça curvada) e me diga: como é essa mente? Não é deprimida? Agora coloque a coluna bem reta, atento, é outra coisa. Se você quiser mudar a sua atitude mental, se tudo estiver embaralhado, se tudo estiver difícil num dia, pare e respire fundo, sente bem reto, vá sentar em zazen. Turbulência na mente. Problema. Respire profundamente. As coisas vão voltar para o lugar. Por quê? Porque você voltou para o básico que é respirar. Nada mais tem importância de verdade. Tem a história de um mestre a quem um discípulo disse assim: como eu posso alcançar a iluminação? O mestre olhou para ele pegou sua cabeça e a enfiou dentro de um tanque de água e segurou, ele se debateu, quando estava afrouxando o mestre retirou a cabeça da água e disse: quando você quiser a iluminação do jeito que você queria ar me procure. Porque naquela hora ele não estava pensando em mais nada.
Esse é método típico da Escola Rinzai. Na Escola Soto se é mais delicado, pelo menos no princípio. Saikawa Roshi, conta que Rinzai, discípulo de Obaku, foi a Obaku e fez uma pergunta e Obaku deu-lhe trinta bastonadas, ou seja, deu-lhe uma sova. Obaku era um homem de quase dois metros de altura. E Rinzai foi falar com outro mestre e disse: eu fui fazer essa pergunta a Obaku e ele me deu trinta bastonadas. E o mestre disse: que pessoa gentil e carinhosa que Obaku é. Como ele foi gentil e carinhoso com você! Histórias do Zen.
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quarta-feira, 13 de junho de 2012
Talidade
Talidade é uma palavra nova em português, um neologismo. Ele pretende traduzir a expressão inglesa suchness. Poderíamos explicar isso como as coisas tais como realmente são. Em primeiro lugar nós devemos compreender que não vemos ou percebemos nenhuma coisa no universo senão através dos nossos sentidos. Podemos tomar o nosso sentido mais aguçado nos seres humanos, o sentido da visão. A nossa visão vê as tábuas, desse assoalho. Mas nós vemos o que realmente são as tábuas quando estamos olhando? Não.O que nós estamos vendo é um dos aspectos perceptíveis sobre as tábuas deste assoalho. Ou seja, as nuvens de átomos que formam a madeira predominantemente carbono, agrupadas de uma determinada forma, através de uma concentração de energia imensa, que é a matéria, reflete alguns dos raios do espectro eletromagnético na faixa da luz visível. E estes reflexos destes fótons batendo na madeira chegam até o nosso olho, entrando no olho, batem na retina. Este pequeno aspecto de todo espectro eletro-magnético, bem estreito no espectro total, impressiona nossa retina e é transformado em sinais nervosos através do nervo ótico. Vão até o nosso cérebro, ao centro da visão, aonde são interpretados por um software específico que se traduz numa determinada impressão nos nossos neurônios a qual é julgada de acordo com as nossas impressões anteriores de visão e , interpretada, nos dá uma sensação de que estamos vendo madeira no assoalho.
Então, existe aqui, nesta descrição, uma imensa variedade de filtros que leva até esta impressão do assoalho que nós estamos vendo. Daquilo que o assoalho reflete vemos apenas uma parte minúscula e mesmo assim esta parte minúscula é filtrada através de um mecanismo de visão, de transformação em impulsos neuroquímicos e elétricos que no nosso cérebro se transformam nessa sensação.
Isso sempre foi um assunto importante para o budismo.O que é o contato, o que é sensação, o que é percepção, o que é consciência. Então tomamos consciência da existência dessa madeira. Mas, pelo que vocês podem deduzir desta descrição, aquilo que nós vemos da madeira não é mais do que uma sombra, uma interpretação da madeira e muito menos do que a madeira realmente é. Podemos interpretar o fundo do mar através de um sonar refletindo ondas sonoras e ver como é que é o fundo do mar. É outra maneira de perceber uma coisa. A outra, ouvindo o seu som.(neste momento Monge Genshô bate no assoalho)O som dessa madeira, o que é? Vibrações no ar, sonoras, que chegam até os nossos ouvidos, vibram nossos tímpanos, são transmitidas através do ouvido médio até o ouvido interno, vibram cordas sonoras no caracol do ouvido interno e são transformadas de novo em sinais nervosos pelo nervo auditivo e são transformadas dentro do cérebro em interpretação. Através desses filtros de impressões diferentes tomamos conhecimento do que o mundo aparenta ser. Mas, onde quero chegar é: não vemos as coisas tais como elas são, mas apenas temos impressões parciais interpretadas de tudo.
Nada é verdadeiramente aquilo que parece ser para nós. Então nós como seres humanos, vivendo no universo, usamos o nosso corpo para perceber o universo em volta, temos uma sensação de que conhecemos uma realidade, os outros, as coisas, os objetos, nós temos a sensação de que conhecemos essa realidade. Na realidade vemos apenas sombras que os objetos projetam. Não sabemos o que eles realmente são e é impossível saber o que eles realmente são através desses nossos órgãos de percepção. Sabemos que as outras pessoas percebem de forma muito semelhante a nós, por isto podemos conversar a respeito das coisas. E quando descrevemos um sentimento, mesmo sutil, através de uma poesia ou quando fazemos música e vemos que os outros se emocionam com a mesma coisa que nós, percebemos que eles têm o mesmo tipo de aparelho de percepção e por isto podemos conversar a respeito desses sentimentos que nos desperta o mundo em volta.
Todos nós achamos as flores lindas e o perfume das rosas delicioso. Então essas nossas percepções são semelhantes. Mas de novo, nós não sabemos o que as coisas realmente são. Por quê? Porque elas são percebidas através de filtros. A pergunta é: é possível a talidade? É possível percebermos as coisas tais como são? A resposta é sim, é possível. É possível perceber as coisas tais como realmente são, mas não através das interpretações da nossa mente. Só é possível perceber as coisas como realmente são através de uma percepção não elaborada, pensada, ou julgada.
Portanto, a talidade é perceptível por nós? Sim, mas não com os nossos olhos normais e sim retirando os olhos do nosso rosto e colocando outros olhos, os olhos de Buda , com eles podem se ver as coisas tais como são porque estão completamente isentos de qualquer julgamento, de certo ou errado, bom ou ruim, dos opostos, das dualidades e das interpretações do nosso software mental.
(continua)
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sexta-feira, 16 de março de 2012
A realidade é criada pela mente?

Pergunta: Essa realidade é criada pela mente? A estrutura de tudo que existe é puramente mental?
Se for considerado que essa realidade é criada pela mente pode-se concluir que todos nós que a compartilhamos estamos atados por um mesmo estado mental coletivo definido pelo ambiente que experimentamos?
R: Existe uma escola, a Yogachara, que preconiza a "consciência apenas", no entanto não é essa a apreciação vitoriosa no zen, a que venceu é que existe uma realidade mesmo que não existamos, no entanto a realidade que percebemos é de tal forma condicionada pela nossa situação mental que na verdade não vemos senão uma espécie de sonho. A realidade última só é percebida por uma mente iluminada.
Porem , como seres humanos temos uma determinada semelhança em nossas paisagens mentais, por esta razão podemos conversar, entender poesia, arte etc... mas mesmo assim não podemos dizer que o que vemos e sentimos é exatamente igual ao que o nosso companheiro ao lado sente e vê.
Genshô
quinta-feira, 19 de março de 2009
O zazen pode me desequilibrar?
Todos estamos meio doentes por vivermos mergulhados em pensamentos e fantasias. O zazen nos devolve o equilíbrio de podermos acordar, em lugar de viver em sonhos, às vezes em pesadelos. O zazen é nossa mente original, a mente cotidiana é que é desequilibrada.
No entanto é bom saber que pessoas com problemas sérios devem antes ser adequadamente tratadas, a meditação é solitária, e nestes casos é preciso acompanhamento e intervenção constantes, que não são a especialidade dos centros de meditação e sim de profissionais de saúde mental.
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