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terça-feira, 22 de novembro de 2016
terça-feira, 21 de maio de 2013
Tudo ação e conseqüência
Nós abrimos os nossos olhos, e vemos o mundo em volta e as pessoas que estão na sala, um homem lá na frente usando uma fantasia de Monge, e dizemos: “eu estou separado”. Estou vendo todos os outros ali. Todo nosso corpo nos informa isso. “Eu” estou separado. Só que essa separação é nosso engano fundamental. O nosso “eu” é o nosso engano. E esse “eu” nós queremos que sobreviva à morte. No entanto, se vocês pensarem bem, ele não sobrevive a uma doença de Alzheimer. Você fica velho, começa a caducar, não sabe mais quem é. Ou Parkinson avançado, ou AVC cerebral, você perde sua memória, tem uma amnésia, está numa cama de hospital, eu pergunto a você: “quem você é”? Você diz: não sei. Como foi seu passado? Não lembro. E todos vocês sofrem de amnésia, não é? Você lembra uma vida antes dessa? Não lembra. Este “eu” é desta vida, se há um “eu” anterior você não lembra.
Como você quer que esse “eu” que não sobrevive a uma doença, sobreviva a uma coisa “um pouquinho” mais grave, que é uma morte e uma dissolução completa do corpo?
Então, Buda “VIU” essa ilusão. Pra nós entendermos melhor essa ilusão, o “eu” é mais ou menos como o eixo de um redemoinho. Há movimento, você vê o centro do redemoinho e diz: há um eixo. “Parece” que há um eixo. Na verdade, há um, enquanto existe o redemoinho, cessou o redemoinho, cadê o eixo? Nós somos redemoinhos na existência, movimentos e fluxos de pensamentos, paixões, e etc. Nosso “eu” é o eixo, mas na verdade, nós não somos redemoinhos. Nós somos o céu azul. Quem sente que é o céu azul, resolveu nascimento e morte. Isso é o Budismo.
Nem almas, nem espíritos, nem ninguém lá fora pra nos ajudar. Nem ninguém pra nos premiar, nem ninguém para nos castigar. Tudo é ação e conseqüência. Você caminha sobre os resultados dos seus atos. Os seus atos provocam resultados. Os resultados, são tudo que você tem. Nós somos “movimento” no universo. Fenômenos, como os redemoinhos.
Como as bolhas, dentro de uma garrafa de champagne. Eu estava em Guaratinguetá, e expliquei, com esta outra analogia: bolhas, dentro de uma garrafa de champagne, são interações entre gás carbônico e o líquido. Você olha e vê a bolha. Ela surge, como que do nada. Sobe, explode na superfície. Todos os constituintes da bolha continuam ali. O gás carbônico continua, o líquido continua. A bolha pensa: “eu sou separada”. Ela olha para as outras bolhas e diz: “eu sou separada da outra bolha” e você que olha a garrafa, vê as bolhas separadas, não vê? Mas as bolhas existem por si mesmas? Não. Elas só existem como gás carbônico e líquido. O vento não existe por si mesmo. O vento é movimento do ar. As ondas do mar não existem por si mesmas elas são movimento da água. Vocês não existem por si mesmos, são movimento de pensamentos. São um fenômeno surgindo e desaparecendo.
Eu falei que contei esta história em Guaratinguetá, porque havia a filha de um amigo meu que estava lá, e de noite eles tiveram uma conversa em casa, que ele me contou. A mãe disse assim: “vai dormir, bolha”. E ela disse assim: “bolhas são vocês, eu sou champagne”. E eu pensei: “Ah! Ela entendeu!”.
Vocês não são bolhas, são champagne. Não são redemoinho, são o céu azul. A dificuldade é enxergar isso. Vocês não são ondas, são o próprio oceano. Quem enxerga isso, não se preocupa com as coisas cotidianas, normais da vida, porque tudo vai passar. Tudo é impermanente, tudo é transitório. Tudo apenas flui. Mas se ele consegue perceber que ele “É” o céu azul, não se preocupa com o início e fim dos redemoinhos. Por isso as respostas tão absurdas dos mestres do Zen.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Nós somos o céu azul
Pergunta – Estava lendo em seu blog uma resposta que o senhor deu a uma pergunta sobre almas e espíritos, o senhor respondeu com uma metáfora sobre o redemoinho. O senhor poderia explicar um pouco melhor sobre isso?
Monge Genshô – Eu penso que essa metáfora seja muito boa. O redemoinho é movimento, é todo constituído de movimento, movimento do ar que cria o redemoinho, este movimenta a poeira e as coisas ao seu redor e só então você pode ver o redemoinho. Mas, no centro, no olho do redemoinho não existe movimento. Este centro é o eixo em torno do qual tudo gira. Mas o que é esse eixo, tão claro, tão nítido e evidente? Ele é vazio. Inclusive é vazio de movimento, no centro de um furacão não existe vento, não existe movimento. Usei essa metáfora para dizer que nosso eu, que tanto amamos e desejamos vida eterna é como um eixo de redemoinho, do furacão dizemos que tem um eixo, de nós que temos um “eu”, mas esse eu é todo construído pelo movimento, o movimento dos pensamentos. Esse “eu” que tanto acreditamos e queremos que sobreviva dentro de uma alma ou espirito permanente, nada mais é que o desejo de permanência de algo evidentemente fugaz. Nosso “eu” é fugaz. Não existe uma alma ou espírito que o sustente, é tão vazio quanto o eixo do furacão e, no entanto tem todo esse movimento de vida em seu entorno. Mas um dia ele cessa e para onde vai o eixo do redemoinho quando este para? Se vocês olharem para o céu, o ar está ali, nada mudou, sempre esteve ali. O redemoinho foi um movimento da atmosfera. O que precisamos enxergar em nossa verdadeira natureza é que somos atmosfera e não redemoinho, o redemoinho é só um acidente.
Pergunta – Fazendo uma analogia com o olho do furacão. Estaria no olho do furacão a budeidade já que lá permanece como atmosfera tranquila com todos seus elementos?
Monge Gesnhô – A natureza búdica de todos os seres é auto evidente, natureza livre e desperta de todos os seres como, na analogia, a atmosfera. A atmosfera pode manifestar quantos redemoinhos, furacões, ciclones, chuvas e trovoadas que desejar, mas depois que todos os fenômenos cessarem lá estará o céu azul. Nós somos o céu azul e não raios, trovões, furacões, chuvas ou redemoinhos. Se você enxergar essa verdadeira natureza, todo o medo da morte desaparecerá. A atmosfera é eterna o redemoinho é que é temporário. Somos muito maiores do que pensamos, quando pensamos pequeno, pensamos no nosso “eu” e esse “eu” nasce e morre. Se você conseguir enxergar isso com clareza todo o medo de morrer desaparece. Da mesma forma que na atmosfera sempre surgem trovões e redemoinhos, estamos sempre nos manifestando, nos manifestamos de acordo com nosso carma. Sei que é muito difícil de entender, mas assim é o budismo.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Buddha não disse "a vida é sofrimento"
Pode ser a melhor coisa, como quando você olha algo desagradável, não vai durar, para sempre não vai, tudo acaba um dia. A solução é uma libertação e essa libertação é o caminho que o Zen ensina. Mas não se obtém libertação sem guia, só praticando sem mestre a gente não consegue, é necessário um mestre para chutar a gente de vez em quando, para nos tirar dos enganos. Podemos estar praticando meditação durante muito tempo e estar enganados, perdidos em sensações agradáveis, ou mesmo mergulhados em redemoinhos de pensamentos recorrentes.
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segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Redemoinho como analogia
Pergunta – Fazendo uma comparação com o espiritismo: quando morremos, o que acontece com nossa “alma” ou “espírito” até que tenhamos outro corpo?
Monge Gensho – No budismo não falamos em almas nem em espíritos. Não falamos em uma existência corpórea separada, o que seria nós mesmos, separados de um corpo. Essa é uma noção grandemente originária no ocidente do Platonismo. Mas a noção de uma alma separada do corpo, por exemplo, não é uma noção existente no judaísmo primitivo. No Cristianismo, vem por influência grega e o Kardecismo é um herdeiro dessa tradição. É um sincretismo entre idéias hindus, budistas e cristãs. Na verdade, o budismo apenas declara que o carma, que é um movimento no universo, provoca nascimento. Mas não fala de uma alma que conserva seu “eu”, embora possamos encontrar conceitos um pouco mais próximos disso no Bardo, que é o ensinamento pós-morte do livro Tibetano dos mortos. Ele se aproxima dessa noção de uma consciência, de algo que está carregando, de uma entidade que irá renascer. Mas a explicação melhor dentro do Zen seria: olhe para um redemoinho, ele tem movimento, energia e forma e quando você olha para ele, vê um eixo em torno do qual tudo gira, mas esse eixo existe, é algo? Não. O movimento por si mesmo cria a noção de um eixo, mas não é necessário que o eixo exista para que algo seja apegado a ele. É o próprio movimento que provoca o renascimento.
Pergunta – Sei que isso é limitado, precisamos criar uma imagem para podermos entender, mas seria como ondas no oceano?
Monge Gensho – A onda continua, mas a água não se move com a onda. As ondas passam através da água. Quando eu falo o ar vibra, há ondas sonoras, mas o ar não se move para que o som chegue até seus ouvidos, só há vibração, que é pura energia. Não se moveu nada essencialmente, no entanto, o som chegou até aí. Acho que o redemoinho é uma imagem muito boa, porque permite a idéia de uma entidade e coloca tudo num movimento. Você, agindo na sua vida, provoca movimento. Há movimento, há formas de energia, impulsos, desejos e apegos - esses formam o carma. O que renasce? O que provoca o renascimento? O carma.
O carma tem um “eu”? Não. O carma provoca um nascimento e o nascimento diz a si mesmo, “eu sou”. Então, é o carma que provoca o surgimento de identidades, não são as identidades que carregam carmas. Essa é a essência desse pensamento, que é um pouco mais sutil. É mais fácil pensar num espírito que carrega uma mochila de carmas nas costas, não é verdade? Mas não é assim. É o carma que provoca o surgimento de identidades. Nós somos identidades que surgiram por causa de carmas, nossas identidades são ilusórias. Somos um sonho.
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terça-feira, 17 de junho de 2008
O buddhismo diz que a vida é sofrimento?

Sobre a palavra "sofrimento", ela, nos textos originais dos sutras budistas mais antigos, surge como " dukka", ora, esta palavra em Páli tem o significado mais corretamente traduzido pelo termo " insatisfatoriedade", visto que nem tudo na vida é sofrimento, mas qualquer felicidade é (assim como qualquer sofrimento) temporária, e assim insatisfatória, sempre cessará.
O termo "dukka" remete a raiz da palavra "eixo" e pretende significar o eixo descentrado de uma carroça, que a faz oscilar em ciclos, da mesma forma que a vida é cíclica sem que nada possa ser permanente e estável.
O fato desta tradução errônea ter gerado muita confusão, e mesmo a afirmação de que o budismo nega as felicidades inerentes ao viver, é mais uma das inumeras imprecisões que cercam o conhecimento acerca do Dharma.
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