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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Ninguém pode nos salvar

"A realidade não possui bom ou ruim, direita ou esquerda, em cima ou embaixo. Apenas as condições aparecem na nossa mente. As coisas são fáceis de entender mas, muito difíceis de serem vistas. A realidade está além de sujeito e objeto, eu e os outros, morte e vida, iluminação e delusão. Toda a realidade esta além de todas essas idéias. Assim, a delusão existe somente na mente dos seres humanos. Tudo nesse mundo, plantas, animais, água, montanhas, tudo, esta além de delusão e iluminação.  Bom ou ruim, existe apenas nas nossas mentes. A delusão existe porque usamos dualidade, bom ou ruim, começo e fim. Mas como eu disse, a base do verdadeiro “eu”, é como esta unidade, imutável.

Assim, quando Shakyamuni Buda viu a estrela da manhã e atingiu a iluminação, quando a luz dessa estrela o atingiu, ele realmente agarrou o ponto antes da atividade mental. Dessa forma ele anunciou: “É maravilhoso, é miraculoso, eu e a grande terra, com todos os seres senscientes, simultaneamente, iluminados”. E ele disse depois disso, “quero salvar todos os seres, mas não posso encontrar seres ou Budas, porque essa unidade é para todos os seres”. Somente seres humanos com suas mentes podem não concordar com ele, porque no caminho de crescer, pais implantam nas cabeças de seus filhos este dualismo e a criança é incapaz de duvidar disso quando cresce. Ele pensa que o significado da linguagem é a verdade. E para nós, na vida diária dentro do dualismo, é muito difícil ver o verdadeiro “eu” que está além da separação do “eu” e os outros, dentro e fora, sujeito e objeto, vida e morte, delusão e iluminação.

Esse estado de além de delusão e iluminação, bom ou ruim, é chamado Buda. Dessa forma todos são originalmente Budas.  Somente a atividade mental, somente a idéia da atividade mental pode não concordar com isso. Assim, nós precisamos fazer zazen para verdadeiramente experimentar isso, a unidade, e nos salvar de nós mesmos, por nós mesmos. Ninguém pode nos salvar. O trabalho do professor é apontar o caminho para a libertação, mas só você pode salvar a si mesmo, porque a delusão está dentro de você, por isso você precisa descobrir que delusão é ilusão dentro da mente."  Saikawa Roshi (2005) (continua)

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Experimentar é o caminho



2) O que o senhor pode dizer,  porque a maioria das pessoas ao invés de retornar para si mesmas  se conduzem á procura de Mestres?

A procura de Mestres é a procura de sabedoria. Mas no Budismo nós dizemos assim: “examine seu candidato a Mestre durante 8 anos antes de aceita-lo”. Mas na realidade, verdadeiros Mestres não aceitam discípulos com facilidade. Eu tenho alunos, não tenho discípulos. Para ter um discípulo, leva muito tempo. Muitos morreram sem ter sucessores, sem formar discípulos no ZEN.

Boddhidarma, trouxe o ZEN da Índia pra China, aí pelo ano 600 depois de Cristo.  Boddhidarma, chegando na China, que já tinha Budismo há 500 anos, foi chamado à frente do Imperador Wu, e ele lhe perguntou: “construí muitos templos e mosteiros para o budismo na China, que méritos eu acumulei no céu por causa disso”? E Boddhidarma respondeu: “Mérito nenhum, Majestade.” A "majestade" então perguntou: “Então qual é a grande verdade da sagrada doutrina?” E Boddhidarma respondeu: “A grande verdade é vazio ilimitado, (nem uma coisa tem um eu inerente. Todas as coisas são vazias de um eu próprio, todas as coisas são interconectadas, interdependentes) e não há nada que possa ser chamado de sagrado". Aí o Imperador disse: “Então quem é que eu tenho na minha frente?” E Boddhidarma respondeu: “Não faço a menor idéia” (Grande resposta, não há nenhum eu aqui...). Deu meia volta e foi embora.

Dizem que meditou durante 9 anos numa caverna em Shaolin, e lendariamente ele é o criador do Kung Fu. Durante esses 9 anos homens apareceram para treinar com o Mestre, mas ele não aceitou ninguém. No 9º ano, um homem chamado Taiso Eka  (Hui Ko, em chinês) foi até à frente da caverna e ficou 3 dias em pé, esperando que Boddhidarma falasse com ele e Boddhidarma não lhe deu atenção. Na noite do 3º dia, Eka ficou desesperado e cortou o braço, para mostrar sua sinceridade. Vendo sangue cair na neve, Boddhidarma achou que ele estava lá a sério, foi até ele e perguntou: “O que você quer”? “Mestre, minha alma não tem paz, pacifica minha alma!” E Boddhidarma respondeu: “Mostre-me a tua alma e eu a pacificarei”. “Mas não posso encontra-la”! “Pronto, já pacifiquei a tua alma”. (Shoyoroku caso II)

Neste momento, Eka, acordou de suas ilusões, assim como Buda que só se tornou Buda no momento que despertou, porque a palavra Buda quer dizer “aquele que acordou”. Antes ele era só Siddharta, um homem comum como nós. A única diferença entre nós e ele é que ele acordou. E ele passou a dizer isso para sempre. E quando perguntaram para ele em quem nós devemos acreditar? Uma pessoa vem aqui diz uma coisa, outra diz outra. Ele disse: "não acreditem em ninguém, não acreditem em mim, experimentem e testem", só a experiência pode dar sabedoria verdadeira. O resto é só crença. (Kalama Sutra)

Há alguém aqui em Goiânia pregando que o sol vai nascer amanhã de manhã? Há? Não há. Sabem por quê? Todo mundo tem certeza que o sol vai nascer amanhã de manhã. Tudo que se prega é porque se tem dúvida, e por isso precisa-se repetir todas as semanas, para as pessoas acreditarem, porque no fundo, elas duvidam. É por isso que Buda disse, “não acreditem em mim, construam sua sabedoria com sua experiência”. Quem quiser construir sua sabedoria com experiência, tem que experimentar. Vocês têm que vir e SENTAR. Só precisam ter confiança de que se sentarem para meditar poderão mergulhar em suas mentes e ter reais experiências. E essas experiências serão sabedoria. Tudo o que eu posso dizer sobre o que eu digo é o mesmo que Buda: “não acreditem em mim”. Se vocês acreditam, só porque estou dizendo, não passam de tolos.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Viver profunda e completamente








P. O texto diz: até mesmo cortar as paixões é uma doença...

R. Este que está liberto deixou o lar mentalmente, não tem apego por nada, embora seja amoroso com a sua família, como a lua no céu e como uma pérola rolando numa tigela, vê aquele que está livre no meio de uma cidade agitada, entende além do tempo enquanto está no mundo, sabe que tudo é interligado que nada nasce, que nada morre, está enxergando a vacuidade, portanto as coisas não tem a importância que parecem, realizando isto, ele sabe que até mesmo cortar as paixões é uma doença porque quem está cortando as paixões está no primeiro caminho, porque não tem apego a nada então não tem que cortar nada e segue uma vida livre como uma pérola rolando dentro da tigela, não tem nenhuma aresta, ela rola livremente, essa é a imagem. Uma vez chegou um aluno para mim, me escreveu e disse: eu tenho muitos desejos, sou muito jovem, tenho muita saúde, mas eu quero dominá-los, eu não vou mais cuidar da minha aparência, eu não vou mais namorar e eu escrevi para ele de volta: pare com isto agora mesmo, vá, você é jovem, vá à frente do espelho e penteie os seus cabelos, se vista e saia e namore, porque se ele ficar nisto vai virar uma tortura tremenda e ele nunca vai conseguir escapar do problema de tentar conter uma coisa tão forte, se ele quiser esmagar isto vai passar a vida inteira controlando este desejo, não é assim, primeiro ele tem que experimentar, viver, aí então entender intimamente a paixão, poder cultivar um amor verdadeiro, profundo, dedicado por alguém que não dependa de um desejo doentio, que seja livre, que saiba amar alguém sem medo da morte desta pessoa, que saiba chorar ao lado do túmulo, isto é a nossa vida, é Zen, não é estou Zen e livre de todos os sentimentos e sofrimentos, não é assim, o Zen Budismo é viver completa e profundamente.