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sexta-feira, 19 de junho de 2015

NÃO HÁ SALVAÇÃO, HÁ LIBERTAÇÃO

Aluno – O que seria uma estratégia para disseminar o Budismo e que pode ser canalizado pra humanidade em geral?

Monge Genshô – Não existe uma estratégia pra difundir o budismo. O budismo não faz um proselitismo, se fizesse um proselitismo faria um esforço para ter mais alunos, mas na realidade não posso acreditar que esse método de treinamento Zen possa se tornar popular. Então vir ao segundo sesshin é muito importante, porque existe um numero de pessoas que vêm para o sesshin apenas uma vez na vida, guardam lembranças, têm coisas interessantes para dizer, mas não repetem essa experiência. Acho que a resposta é que realmente não existe uma estratégia para difundir o budismo. O budismo é na realidade muito difundido do ponto de vista intelectual, literário, artístico, a influência do budismo é inegável, é vasta, mesmo na cultura ocidental. Mas "praticantes" budistas são coisas muito difíceis de encontrar.

Aluno – O populismo então não atende o voto de salvar todos os seres?

Monge Genshô – Nós temos muito tempo pra salvar todos os seres, muito tempo. Mas nenhum ser será salvo por uma ação externa. Você não pode salvar os seres, você pode acordá-los para que eles se salvem, mas eles precisam querer acordar. Mas do ponto de vista budista, não tem pressa. Se alguém está num outro caminho e está bem, por que você vai interferir? Deixe ele lá. Isso não é um problema do ponto de vista budista. Nós não precisamos convencer, converter, não precisamos nada, está tudo bem como está.

Esse “salvar”, essa palavra “salvar” não tem o significado correto para o budismo. É melhor usar a palavra “libertar”. “Libertar os seres de suas ilusões” tem sentido, mas o budismo não tem uma doutrina salvífica, do tipo: “Vou salvar da morte” através da ressurreição proporcionada por Cristo, por exemplo, que é a doutrina cristã predominante. Não é isso. Então a palavra “salvar” pode causar confusão quando a usamos no budismo. Esse é um grande problema de palavras.

Quando o budismo entrou na China e se traduziram os textos, você tinha que usar palavras, e onde estavam as palavras disponíveis? No Taoísmo. Então você usava palavras Taoístas para expressar e acontecia isto, que é um bom exemplo. “Salvar”, no contexto unicamente budista, se só houvessem budistas, teria um sentido. Mas se você usa na língua portuguesa, pescando os significados do cristianismo, aí você vai ter uma confusão. Por isso a palavra “libertar”, fica melhor: “libertar das ilusões”, é isso que o budismo faz.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Minimizar o sofrimento que causamos ao viver


Pergunta – Usando o exemplo que o senhor deu sobre alguém entrar aqui com a intenção de matar alguém ou todos. Eu venho por trás dele e o mato antes, como fica meu carma?

Monge Genshô – São dois eventos diferentes, no primeiro você salvou a vida de todos e no outro você matou alguém. A família dele vai odiar você e há nisso uma retribuição cármica.  Mas por outro lado há o bom carma pelo fato de teres salvado muitas vidas. Essa é uma historia clássica no Zen, a do Boddhisatva que matou um homem para salvar quinhentas vidas. Ele assume o carma ruim para beneficiar quinhentas pessoas.

Pergunta – Ela também poderia atrair um carma pela omissão, não é?

Monge Genshô – Sim. Na verdade é uma situação sem saída. Se faz algo como matar o homem, produz um carma, se não faz nada e as pessoas morrem, produz outro carma. Você deve escolher. Mas não existe a escolha de viver sem problemas. Assim é a vida, você não conseguirá evitar todo o sofrimento. Nos tempos de Buddha os Jainistas, faziam oposição ao budismo e o desejo deles era evitar todo o tipo de sofrimento. Alguns chegam a não usar roupas, pois para isso tem que plantar algodão e com isso matar insetos, logo, eles andam vestidos de vento, não usam roupas. Quando caminhavam varriam o chão à sua frente para não pisar em nenhum ser vivo e coavam a água com o mesmo objetivo, que toda e qualquer forma de vida fosse salva do sofrimento. É impossível evitar todo o sofrimento, veja nosso corpo, por exemplo, ele está constantemente matando vidas microscópicas para que você possa estar bem de saúde. Se você tentar levar sua vida a esse extremo, não poderá continuar vivo, pois viver implica em causar sofrimento. O que podemos fazer é minimizar o sofrimento que causamos pelo simples fato de existirmos.

Pergunta – No meu modo de entender o Zen, é como se ele fosse na veia, direto. Já estive em outras escolas, e lá existem vários tipos de meditação. O senhor poderia explicar melhor essa diferença entre as escolas?

Monge Genshô – Existem diferentes métodos porque existem pessoas diferentes com diferentes necessidades. Para algumas pessoas o Budismo Tibetano é melhor. Isso é tão claro e evidente que quando você entra numa Sangha Tibetana e entra numa Sangha Zen, consegue perceber a diferença pela expressão facial das pessoas, o sistema de treinamento as vai alterando. Isso é para tudo, não só para os Tibetanos ou Zen Budistas, serve para evangélicos, católicos ou protestantes. O Zen é chamado Caminho Direto e não é uma prática destinada à todos. Foi concebida como uma prática monástica e para os poucos que desejavam se retirar para montanhas e treinar com mestres extremamente exigentes. Um grande mestre, Bodhidharma, deixava os pretendentes a alunos esperando no lado de fora de sua caverna, na neve, e não os recebia. Só recebeu Taiso Eka, porque este cortou seu braço. É natural que sejamos poucos.
(Final da palestra, decupada da gravação por Chudô San em 2013)

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Dilemas morais


Pergunta – Nós que temos então, que pesar entre o absoluto e o relativo, uma vez que não existe o certo e o errado?

Monge Genshô – Dependendo da circunstância as coisas mudam. Matar é errado, mas se para salvar cinquenta mil vidas você tiver que matar um terrorista, por exemplo, isso é certo ou errado? A princípio matar é errado, mas para produzir arroz tem que matar, pois para cultivar o campo você vai matar alguns animais que estão na terra. Não é tão simples. Nos dilemas morais você pode aplicar um princípio que é: “qual o menor mal, para o maior numero de pessoas”? Sempre deverá haver um critério. Por exemplo, estamos num barco e para que o barco não afunde e todos sobrevivam uma pessoa deve pular na água, quem será? Qual o critério? Pode ser, por exemplo, o mais velho. Esse tipo de problema existe há muito tempo, não é verdade? Normalmente é primeiro mulheres e crianças. Por quê? Porque crianças têm mais tempo de vida e mulheres são progenitoras, são as que geram a vida. Nessas decisões sempre pesa um valor que sirva para toda a sociedade e não apenas para um indivíduo.

Pergunta – O carma pode ter um peso menor conforme o nível de esclarecimento da pessoa? Por exemplo, duas pessoas cometem erros que irão gerar carma, o mesmo tipo de erro, porém uma é mais esclarecida, seu nível de consciência é maior, o carma sofrido pelo mesmo tipo de ato será pior, vamos dizer assim, para a pessoa mais esclarecida?

Monge Genshô – As consequências serão diferentes. Quanto mais consciência, mais culpa e mais a pessoa terá a tendência a se punir. Quanto mais inconsciência, menos consequências morais. Um índio, por exemplo, que vive na floresta e necessita caçar para alimentar sua família, é diferente de uma pessoa da cidade. Mas o ato em si tem um peso por si mesmo, ou seja, mesmo que você não esteja consciente que seu ato é errado, ele gera consequências. Pode não ser a mesma consequência de alguém que se sinta culpado, mas o ato gera consequência da mesma forma. Outra coisa importante é que o fato de você não se lembrar do ato, não significa que não sofrerá as consequências. Há um detalhe que parece difícil para as pessoas entenderem, existe hierarquia entre os seres. É diferente você matar um médico que salva vidas ou matar um assassino serial. Tanto maior é seu crime, quanto maior o prejuízo que você causa à sociedade ou ao mundo como um todo. Algumas pessoas pensam que matar é igual, não é. Por exemplo, quando você vai ao banheiro e lava suas mãos está matando bactérias. Qual o peso dessa sua ação? Baixíssimo, pois é mais importante que você tenha suas mãos limpas para não contaminar outras pessoas. Por isso existe nos sutras uma relação de grandes crimes que causam grande marca cármica, matar os pais, matar um Buda, ferir um Buda ou um Bodhisattva e causar cisão na sangha.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Ninguém pode nos salvar

"A realidade não possui bom ou ruim, direita ou esquerda, em cima ou embaixo. Apenas as condições aparecem na nossa mente. As coisas são fáceis de entender mas, muito difíceis de serem vistas. A realidade está além de sujeito e objeto, eu e os outros, morte e vida, iluminação e delusão. Toda a realidade esta além de todas essas idéias. Assim, a delusão existe somente na mente dos seres humanos. Tudo nesse mundo, plantas, animais, água, montanhas, tudo, esta além de delusão e iluminação.  Bom ou ruim, existe apenas nas nossas mentes. A delusão existe porque usamos dualidade, bom ou ruim, começo e fim. Mas como eu disse, a base do verdadeiro “eu”, é como esta unidade, imutável.

Assim, quando Shakyamuni Buda viu a estrela da manhã e atingiu a iluminação, quando a luz dessa estrela o atingiu, ele realmente agarrou o ponto antes da atividade mental. Dessa forma ele anunciou: “É maravilhoso, é miraculoso, eu e a grande terra, com todos os seres senscientes, simultaneamente, iluminados”. E ele disse depois disso, “quero salvar todos os seres, mas não posso encontrar seres ou Budas, porque essa unidade é para todos os seres”. Somente seres humanos com suas mentes podem não concordar com ele, porque no caminho de crescer, pais implantam nas cabeças de seus filhos este dualismo e a criança é incapaz de duvidar disso quando cresce. Ele pensa que o significado da linguagem é a verdade. E para nós, na vida diária dentro do dualismo, é muito difícil ver o verdadeiro “eu” que está além da separação do “eu” e os outros, dentro e fora, sujeito e objeto, vida e morte, delusão e iluminação.

Esse estado de além de delusão e iluminação, bom ou ruim, é chamado Buda. Dessa forma todos são originalmente Budas.  Somente a atividade mental, somente a idéia da atividade mental pode não concordar com isso. Assim, nós precisamos fazer zazen para verdadeiramente experimentar isso, a unidade, e nos salvar de nós mesmos, por nós mesmos. Ninguém pode nos salvar. O trabalho do professor é apontar o caminho para a libertação, mas só você pode salvar a si mesmo, porque a delusão está dentro de você, por isso você precisa descobrir que delusão é ilusão dentro da mente."  Saikawa Roshi (2005) (continua)

quinta-feira, 23 de maio de 2013

"Morro porque não morro"



1) O Senhor foi muito gentil ao falar das crenças, mas no Cristianismo o Senhor não tocou.

Você sabe qual é a crença fundamental do Cristianismo? A ressurreição, não é? Cristo venceu a morte e isto é o que significa "salvar”. A igreja tinha um dístico em latim, “SINE ECCLESIA NULLA SALVATIO” – sem a igreja não há salvação. Você tem que estar dentro da igreja e, PORQUÊ Cristo venceu a morte e ressuscitou, então, todos os homens poderão ressuscitar, se seguirem a igreja, as regras.

Isso fez do Cristianismo uma solução muito bonita no momento do Império Romano. Porque antes, os Deuses Gregos e Romanos, eram Deuses humanos, ciumentos, guerreiros, traidores e você estava à mercê deles. O Cristianismo trouxe regras claras: Você faz tais e tais coisas, de tal e tal forma e está garantida a sua ressurreição. Claro que o Cristianismo teve momentos de grande degeneração. Chegou um momento por exemplo, 500 anos atrás em que a salvação era vendida. A venda das indulgências. Então você era salvo. Mas esta era uma questão da instituição em crise moral. O budismo também passou por coisas assim.

Agora, à parte das crenças,  o Cristianismo em si tem uma profundidade desconhecida dos que o conhecem superficialmente. A maioria dos Cristãos não sabe sobre isso. Por exemplo, eu vou citar uma frase de Paulo: “Não sou mais eu quem vive, mas Cristo quem vive em mim”. Esta é uma frase profunda. “Não sou mais eu quem vive”, eu morri pra mim mesmo. “Cristo que vive em mim”.

Agora dê uma olhada numa frase Budista, como a que eu disse a pouco: “Você não é um redemoinho, você é o céu azul”.

Você vê similaridades?

São João da Cruz, grande místico cristão, diz assim: “eu morro porque não morro”, em um de seus poemas. Eu morro, porque não morro para meu “eu”. Porque eu não morro para mim mesmo, então, eu não posso sentir a Deus. Deus não vive em mim, porque eu não morri. Então eu morro, porque não morro. Porque não morro para mim mesmo. 

Se nós pegarmos uma frase de um Mestre ZEN, do Seculo XIII, Dogen Zenji, que trouxe o ZEN da China para o Japão, ele diz assim: “Estudar o Zen, é estudar a si mesmo, estudar a si mesmo, é esquecer de si mesmo, e esquecer de si mesmo é ser iluminado pela miríade de todos os dharmas”.

Não estão todos estes falando a mesma coisa? Estão.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Os outros seres tem sentimentos?



Em Eihei Ji há uma pequena ponte sobre um riacho que se chama Ponte do Meio-Balde, porque Dogen (Mestre Zen do sec 13) ia até lá e recolhia um balde de água, cuja metade derramava de volta. Esse era um ensinamento seu, ele dizia que devemos sempre devolver parte. Ensinava, também, que se algo sobrasse da água usada, nunca deveria ser arremessado para longe, mas colocado, cuidadosamente, perto de nós, na terra.

Esses pequenos gestos têm grande significado no Zen, pois contêm um grande ensinamento. Todas as coisas são dignas de serem tratadas com reverência, por isso, em nossa prática quotidiana, em nossas pequenas ações diárias, devemos proceder da mesma forma. O Brasil é um país com abundância de recursos, proporcionalmente à sua população. Sempre pensamos que poderíamos abusar da natureza com grande largueza, e até hoje, muitas das cidades brasileiras não têm redes de esgoto; lançamos tudo nos rios, no mar, cortamos florestas, depredando, assim, a Terra. Destruímos nosso patrimônio, pois sempre tivemos, no Brasil, essa noção de que os recursos naturais nunca vão acabar. Assim, não nos importamos, porque se onde estivermos não nos servir mais, vamos adiante e usamos o que há em outro lugar.

Em relação aos animais, costumamos pensar, na nossa civilização, que eles não são seres dignos de respeito e que não têm sentimentos. Como exemplo de quão longe já chegou esse tipo de pensamento, há uma declaração de um general americano da guerra do Vietnã que ficou célebre, pois disse que “os orientais não dão o mesmo valor à vida que nós”, para justificar que não era muito importante se alguém morresse. Num famoso documentário,Corações e Mentes, aparece esse general fazendo essa declaração, e em vez de algo ser dito, vemos a imagem de uma mãe vietnamita, chorando a morte do filho. Se tal declaração nos parece hoje absurda, quanto aos animais, estamos bastante convictos de que não possuem sentimentos da mesma forma que nós.

Caiu-me nas mãos um livro que se chama A Era da Empatia. Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro. Segundo esse livro, experimentos com animais começam a demonstrar cabalmente o contrário. Em uma destas experiências, (detestável como muitas delas)  é colocado um rato numa pequena gaiola onde, para comer, tem que apertar uma pequena alavanca. Uma vez que esteja condicionado a isso, é colocada junto à gaiola dele uma gaiola com outro rato ligado a fios. Cada vez que o primeiro rato aciona a alavanca para pegar comida, o segundo rato recebe um choque e grita de dor. Ao perceber que, para comer, o outro tem que sentir dor, o rato pára de se alimentar. Isso significa que ele se importa, de alguma maneira, com a dor do outro.

 Os primatas têm comportamento assim também, muitas vezes foram registrados atos altruístas, não somente com relação a seus companheiros de espécie, mas, também, com relação a outros seres, como no caso de um chipanzé, que foi observado pegando um pássaro caído, colocando-o num galho de árvore e abrindo suas asas. O que significa isso? Ele sabe que se trata de um pássaro e sabe como esse animal se comporta. Há, portanto, registros de animais salvando vidas de outros animais e de seres humanos, às vezes até com sacrifício da sua própria vida. Isso indica que nós não somos tão especiais em termos de sentimentos e que não podemos dizer que os outros não têm os mesmos sentimentos ou que não sofrem como nós. Se até os animais têm comportamento de empatia, solidariedade e consolo, sendo capazes de consolar os que sofrem, não é surpreendente que os seres humanos tenham desenvolvido esse tipo de comportamento.
(continua)