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segunda-feira, 23 de abril de 2018

O Budismo é Não-Teísta


De certa forma, quando alguém fala em Deus, não se pode dizer que o budismo é ateu, e, por esta razão, eu prefiro a resposta “o budismo é não-teísta”. É outra resposta. Ele não fala nem considera sobre esse assunto. Hoje, como eu estava falando para teístas, e não queria ofender ninguém, eu disse que o budismo tem uma teologia apofática e isso significa que ele não fala nada sobre Deus. Já houve um ramo do cristianismo com teologia apofática. Quando você lê Meister Eckhart, por exemplo, vê que ele diz: “Deus não existiria se eu não tivesse querido”. Isto é uma declaração e tanto para um monge católico. “Deus não existiria se eu não tivesse querido” - faz parte dos sermões alemães, vocês podem ver, são muito interessantes para quem tiver interesse nessa comparação. 

Eckhart é praticamente contemporâneo de Dogen, pois nasceu logo depois da morte deste e viveu na Alemanha. Seus sermões, suas declarações, parecem ter a marca do próprio zen budismo. Depois a Inquisição mandou queimar seus livros, não durante sua vida, mas depois. E é como se Dogen tivesse se manifestado em plena Alemanha do século XIII, Sacro Império Romano-Germânico, como frade dominicano e tivesse ensinado. Esses sermões ele fez para freiras. Vocês podem encontrar na internet. Leiam se tiverem interesse, são de um ser muito realizado espiritualmente.

[Trecho de Palestra proferida pelo Monge Genshô Sensei]

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O budismo é ateu?


Frequentemente nós temos problemas com a questão do Budismo ser teísta ou ateísta. Com isso, as pessoas geralmente perguntam: “Qual a postura do Budismo com relação aos deuses?”  A única questão na qual o Budismo é mais enfático é a inexistência de um Deus Criador, que fez o mundo e todas as coisas. Este conceito é absolutamente estranho ao budismo. O budismo nasceu na Índia, onde a religião predominante possui mais de 300 milhões de deidades1. Esta religião indiana – hinduísmo – também apresenta a ideia de um Deus Criador e sua Trindade (Trimurti) composta por Brahma, o Criador, Vishnu, o Preservador e Shiva, o Destruidor2.
O budismo negou a existência de um Deus Criador, um deus que criasse, julgasse e decidisse tudo. Na realidade, este é o ideal de Deus que permeia toda nossa cultura judaico-cristã e ocidental, nós temos um Deus Criador, um Demiurgo. Contudo, Buda não se estendeu sobre esta questão, por não estar disposto a discutir assuntos não-verificáveis. Logo, algumas pessoas insistem em afirmar que o budismo é ateu. O budismo não pode ser classificado como ateu, uma vez que representaria uma postura ativa de negação de um deus. Ou seja, o ateu estaria disposto a confrontar e provar a inexistência deste deus e o budismo não se propõe a isso. A melhor descrição, talvez, da posição budista seria: O budismo é não-teista, ou seja, ele não fala sobre deuses, mas também não assume a postura ativa de negação, caracterizada pelo ateísmo.
Esta postura está estendida a todos os tipos de deuses. No entanto, surge uma outra confusão, porque quando falamos sobre os 6 Reinos do Budismo: Inferno, Fantamas Famintos (Preta), Animal, Humano, Semi-Deuses (Asura) e Deuses (Deva). Na realidade o termo deuses vem de devas, sem o significado normalmente entendido para deus. O reino dos deuses é uma condição a qual os homens com grande mérito podem ascender. Uma espécie de vida prazeirosa, sem dificuldades, onde tudo é fácil. Esta seria a condição de deva. Porém, eles também têm karma, também decairão, etc… Portanto, não se trata em absoluto do conceito que temos de deuses eternos, ou algo como a concepção hindu.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Um criador e o agora


Pergunta – Eu vi um vídeo de uma palestra sua juntamente com um grupo espírita em que o Senhor dizia que o budismo é uma religião sem Deus, o senhor poderia esclarecer isso?

Monge Genshô – O budismo não fala em deuses, mas tão pouco se dedica a negar sua existência, apenas não pensa que seja útil ficar se referindo a coisas não verificáveis. A idéia de um deus criador é completamente absurda para o budismo. O deus criador tem três grandes atributos, veja bem, isso é uma discussão e visão minha para responder sua pergunta, pois o budismo não se dá a esse trabalho.

Um deus criador é onisciente, onipotente e infinitamente bom. Se ele é onipotente poderia ter feito um mundo perfeito e bem feito. Não fez. Algumas pessoas poderão dizer: “mas há o livre arbítrio”. Mas veja bem, se eu colocar um cachorro, uma criança ou um macaco dentro de uma loja de cristais eu não sei o que irá acontecer? Então ele coloca um homem e uma mulher num local e avisa que daquele fruto é absolutamente proibido comer. Ele sabia o que iria acontecer, pois ele é onisciente, conhece passado, presente e futuro. Agora, ele fez algo sabendo qual seria o resultado, pois é onipresente e onisciente, então provavelmente não seja infinitamente bom. No caso deste Deus criador esses atributos são paradoxais, de modo que esse deus criador é uma contradição que filosoficamente é inaceitável. 

Esse assunto é extensamente discutido no livro de um Jesuíta que abandonou a fé, Tomás Antônio da Fonseca, “Doze Provas da Inexistência de Deus”. Ele se refere a este Deus, com um plano, um ser pensante, com uma intenção e que fez algo. Essa idéia desse tipo de deus é completamente estranha para o budismo. Mas se pensarmos como uma inteligência que perpassa todo o universo, não interferente, não criador e sem planos, então é uma idéia admissível e não contraditaria o budismo. O budismo não chega a ser ateu, não se dedica a negação, mas é “não teísta”, ou seja, não fala sobre deuses. Falar em um deus criador é diminuí-lo em razão das contradições, pois lhe damos responsabilidades que mostram que obviamente algo não deu certo. Não adianta colocar a culpa no homem e no livre arbítrio, isso é uma tentativa de jogar no homem a culpa de algo que o antecede. Nós somos imperfeitos, mas quem nos fez dessa forma?  Mas o budismo não perde tempo com isso, o que preocupa o budismo é a mente, o sofrimento e o agora.

Pergunta – Essa nossa criação para o bem e para o mal tem a ver com passado e futuro?

Monge Genshô – Não, essa questão de passado e futuro faz parte de nossas imaginações sobre coisas que nós mesmos criamos, são falsidades. O passado sobre o qual pensamos é uma construção e não aconteceu exatamente como pensamos. Um bom exemplo disso é esse exato momento. Se amanhã alguém perguntar sobre o que foi dito na palestra, teremos vários relatos diferentes e a medida que o tempo passa a memória também será alterada. O futuro é imaginação. Não adianta ficarmos pensando em como resolver hoje os problemas de amanhã. Os problemas de amanhã só serão resolvidos amanhã. Faz sentido imaginar o futuro frente à um tabuleiro de xadrez, posso pensar na probabilidade das quatro jogadas seguintes e calcular suas conseqüências, mas esse é um jogo de informação perfeita e muito simples se comparado com a vida.

A vida está sempre cheia de “cisnes negros”. Cisne negro é um evento que ninguém previu. Em 1986 estava na Alemanha e perguntei para um amigo sobre o muro de Berlim e se ele nunca iria ser derrubado. Sua resposta foi que não, isso sempre fora assim e nunca iria mudar. Três anos depois o muro foi demolido. Três meses atrás quem imaginaria que o povo brasileiro sairia às ruas para fazer reivindicações? Esses eventos são chamados “cisnes negros” porque em geral os cisnes são brancos, mas de repente aparece um cisne negro. Então, o futuro é imprevisível, mas sentamos para meditar e ficamos fantasiando sobre o futuro. O Zen sempre fala sobre isso, temos algo com o que lidar que é extremamente importante - o agora. Omar Kayyãm dizia, “dois dias me são particularmente indiferentes, o ontem e o amanhã”. É isso que o Zen ensina, olhe para o agora, é isso que você está perdendo.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

São precisos deuses para existir moral?


Comentário em lista, do Prof. Dr. Ricardo Mário Gonçalves à respeito de anunciada campanha de combate aos ateus, como se a crença em deuses, e seus prêmios e castigos, fosse a  base de toda a moralidade:

"1.A maioria dos ocidentais ainda não consegue pensar em outras religiões sem recorrer ao modelo cristão. Isso porque desconhece a ciência das Religiões, que recorre a conceitos mais abrangentes do que o de Deus, como, por exemplo, o de Sagrado, que é utílizável tanto por monoteístas como por politeístas, animistas, xamanistas e mesmo por adeptos de religiões não-teístas como o Budismo.

2.O budismo é uma religião muito peculiar justamente por ser não-teísta. A maior parte dos ocidentais está tão presa ao modelo cristão que nem sequer consegue pensar na possibilidade de uma religião sem deus(es).

3.Sendo uma religião não-teísta, o budismo está na interface entre as religiões e o ateísmo. Por isso mesmo filósofos ateus contemporâneos como Sam Harris tendem a se aproximar do budismo a partir da Neurociência e da Física de ponta.

4.Identificar moralidade com crença em Deus é uma grande bobagem. Alguns dos maiores crimes registrados na História da Humanidade foram cometidos em nome de Deus: Cruzadas, Inquisição, etc., etc. Já na Antiga Roma o velho e bom poeta Lucrécio denunciava os crimes alicerçados na religião em seu poema didático "De Natura Rerum". Por outro lado, a História registra também ateus notórios e militantes anticlericais que foram homens de grandes virtudes, como por exemplo o filósofo ateu Paul-Henri Thiry, Barão d'Holbach (1723-1789).

gasshô,

Shaku Riman"

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Deus, o budismo, o Vazio




Este Deus a que estamos acostumados no ocidente, o deus criador, um ser com vontades, desejos, projetos, não existe no budismo. Por causa disto alguns dizem que o budismo é ateu, mas isto é uma simplificação, seria mais correto dizer que o budismo é "não teísta". O budismo não é nihilista, o Vazio budista não é um nada, mas sim a qualidade de tudo ser interdependente, vazio de existências inerentes, de "eus" individuais. O Vazio é não causal, não condicionado, não pessoal, não é um algo do qual surgem os fenômenos. Este vazio é a própria forma, não é diferente dela. Pensamos que somos indivíduos mas este é um engano, temos a ilusão da individualidade e queremos que ela seja permanente, na verdade somos apenas manifestações cármicas temporárias. Compreender e ser capaz de integrar-se é a iluminação. Por tudo isto reificar o Vazio é uma incompreensão da doutrina budista.
No caso da palavra deus, ela tornou-se tão elástica que pode abranger desde um ser pessoal, a semelhança do homem, até algo tão imaterial e não interferente no universo que não possa ser referido.
A opção original budista foi considerar deus um assunto fora dos temas de que o budismo trata, visto este estar focado somente no agora e no despertar do homem. Despertar do quê? De todas as ilusões.