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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Um criador e o agora


Pergunta – Eu vi um vídeo de uma palestra sua juntamente com um grupo espírita em que o Senhor dizia que o budismo é uma religião sem Deus, o senhor poderia esclarecer isso?

Monge Genshô – O budismo não fala em deuses, mas tão pouco se dedica a negar sua existência, apenas não pensa que seja útil ficar se referindo a coisas não verificáveis. A idéia de um deus criador é completamente absurda para o budismo. O deus criador tem três grandes atributos, veja bem, isso é uma discussão e visão minha para responder sua pergunta, pois o budismo não se dá a esse trabalho.

Um deus criador é onisciente, onipotente e infinitamente bom. Se ele é onipotente poderia ter feito um mundo perfeito e bem feito. Não fez. Algumas pessoas poderão dizer: “mas há o livre arbítrio”. Mas veja bem, se eu colocar um cachorro, uma criança ou um macaco dentro de uma loja de cristais eu não sei o que irá acontecer? Então ele coloca um homem e uma mulher num local e avisa que daquele fruto é absolutamente proibido comer. Ele sabia o que iria acontecer, pois ele é onisciente, conhece passado, presente e futuro. Agora, ele fez algo sabendo qual seria o resultado, pois é onipresente e onisciente, então provavelmente não seja infinitamente bom. No caso deste Deus criador esses atributos são paradoxais, de modo que esse deus criador é uma contradição que filosoficamente é inaceitável. 

Esse assunto é extensamente discutido no livro de um Jesuíta que abandonou a fé, Tomás Antônio da Fonseca, “Doze Provas da Inexistência de Deus”. Ele se refere a este Deus, com um plano, um ser pensante, com uma intenção e que fez algo. Essa idéia desse tipo de deus é completamente estranha para o budismo. Mas se pensarmos como uma inteligência que perpassa todo o universo, não interferente, não criador e sem planos, então é uma idéia admissível e não contraditaria o budismo. O budismo não chega a ser ateu, não se dedica a negação, mas é “não teísta”, ou seja, não fala sobre deuses. Falar em um deus criador é diminuí-lo em razão das contradições, pois lhe damos responsabilidades que mostram que obviamente algo não deu certo. Não adianta colocar a culpa no homem e no livre arbítrio, isso é uma tentativa de jogar no homem a culpa de algo que o antecede. Nós somos imperfeitos, mas quem nos fez dessa forma?  Mas o budismo não perde tempo com isso, o que preocupa o budismo é a mente, o sofrimento e o agora.

Pergunta – Essa nossa criação para o bem e para o mal tem a ver com passado e futuro?

Monge Genshô – Não, essa questão de passado e futuro faz parte de nossas imaginações sobre coisas que nós mesmos criamos, são falsidades. O passado sobre o qual pensamos é uma construção e não aconteceu exatamente como pensamos. Um bom exemplo disso é esse exato momento. Se amanhã alguém perguntar sobre o que foi dito na palestra, teremos vários relatos diferentes e a medida que o tempo passa a memória também será alterada. O futuro é imaginação. Não adianta ficarmos pensando em como resolver hoje os problemas de amanhã. Os problemas de amanhã só serão resolvidos amanhã. Faz sentido imaginar o futuro frente à um tabuleiro de xadrez, posso pensar na probabilidade das quatro jogadas seguintes e calcular suas conseqüências, mas esse é um jogo de informação perfeita e muito simples se comparado com a vida.

A vida está sempre cheia de “cisnes negros”. Cisne negro é um evento que ninguém previu. Em 1986 estava na Alemanha e perguntei para um amigo sobre o muro de Berlim e se ele nunca iria ser derrubado. Sua resposta foi que não, isso sempre fora assim e nunca iria mudar. Três anos depois o muro foi demolido. Três meses atrás quem imaginaria que o povo brasileiro sairia às ruas para fazer reivindicações? Esses eventos são chamados “cisnes negros” porque em geral os cisnes são brancos, mas de repente aparece um cisne negro. Então, o futuro é imprevisível, mas sentamos para meditar e ficamos fantasiando sobre o futuro. O Zen sempre fala sobre isso, temos algo com o que lidar que é extremamente importante - o agora. Omar Kayyãm dizia, “dois dias me são particularmente indiferentes, o ontem e o amanhã”. É isso que o Zen ensina, olhe para o agora, é isso que você está perdendo.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Estava escrito


Pergunta: A pessoa deseja mudar seu destino através de sua vontade, mas às vezes a gente ouve falar que nascemos com um destino e assim será até morrer. A simples vontade é suficiente para mudar isso? Não falo só da iluminação, mas de tudo. Como fazer para que essa vontade modifique verdadeiramente sua situação?

Monge Genshô - Primeiro temos que compreender que destino não existe. Essa coisa de que “está escrito e assim será”, não existe. É frequente ouvir as pessoas dizerem quando alguém morre, que quando chega a hora não tem jeito ou então “foi Deus quem quis”, todas essas idéias são profundamente erradas. Se algo estivesse escrito e houvesse destino, não haveria responsabilidade alguma por parte das pessoas. Por exemplo, um criminoso poria a culpa no destino pelo seu crime e diria não ser possível evitar o ato cometido, pois já estava escrito. Não haveria culpa. Por outro lado também não haveria o mérito, por exemplo, alguém que faça algo muito bom, também estava escrito que ele faria isso, mérito zero. Não existiria nada de bom ou ruim, seríamos como autômatos seguindo uma peça já escrita por alguém, na verdade escrita muito mal, não é verdade? Pois este mundo está cheio de sofrimentos.

O que existe nas pessoas é carma, mas o que é carma? Carma são as energias de hábito e o acúmulo das consequências dos nossos atos pregressos, ou seja, aquilo que causamos. Eu tendo a agir em uma determinada situação de acordo com meu carma. Uma pessoa que seja muito brigona e que nada possa ser dito que ela já começa a se exaltar, o que é isso, destino? Não, é carma. Ela tem esse impulso e acredita que essa seja a maneira de resolver seus problemas, é possível mudar? Essa é tua pergunta. Claro, basta que mude sua mente. É fácil mudar a mente? Não, para mudar a mente precisa um treinamento, por exemplo, meditação. Para que praticamos meditação? Para perceber o que surge em nossa mente. Por isso não desperdicem todo o sofrimento de ficar sentados durante quarenta minutos de frente para a parede. Percebam o que surge em suas mentes, isso que surge é o retrato de seus condicionamentos mentais. Querem mudar suas vidas? Mudem suas mentes. Mudando suas mentes, seus sentimentos e ações mudarão, até mesmo o mundo muda, pois interpretamos o mundo de acordo com nossa mente. Como no exemplo do ciúme, porque uma pessoa sente ciúme e sofre? Por um condicionamento mental, porque dentro de sua mente existe a crença num “eu”, existe a crença de posse e desejos. É muito trabalhoso e difícil, mas toda mente pode ser mudada. Se alguém transformar totalmente sua mente e passar a ter sentimentos de alegria, compaixão, paciência e equanimidade, será um Buda. Terá condições e comportamento de um Buda.

A primeira idéia então, é que destino não existe, tudo é causa e consequência. Tudo tem um motivo ou uma causa anterior. Vocês estão bebendo chá porque alguém colocou água no fogo e fez chá, chás não surgem do nada. Na minha vida aconteceram grandes sofrimentos, mas quando olho para trás não enxergo culpados, eu fiz por onde me meter em situações das quais surgiram aqueles sofrimentos. Ninguém, além de mim, tem culpa. Temos que ter vontade de mudar nossas vidas e somos capazes de fazê-lo. Esse é o ensinamento do budismo, não existem Deuses lá fora ajudando os homens,   se houvesse um Deus ajudando os homens na Terra seria necessário pedir? Se ele fosse um onipotente e se fosse bom, não haveria miséria ou sofrimento. Então mesmo que exista um Deus uma coisa é certa: ele não interfere no mundo. Só quem pode mudar nossas vidas somos nós mesmos. O budismo está baseado nesse tipo de raciocínios e não em crenças.