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quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Livre arbítrio
Pergunta: Como a meditação nos ajuda a atingir o despertar?
Monge Genshô – Te dando lucidez. A meditação ajuda para obter clareza. Quando eu digo isto sobre a floresta e sobre o mar, numa analogia à humanidade, é porque sentado em meditação eu senti isso. Então eu posso falar. Você usa o seu corpo como âncora para estabilizar a sua mente, e à medida que com a sua mente você vai a níveis mais profundos de consciência, passa a compreender coisas que não compreendia antes, não com o seu raciocínio, mas com seu sentimento. Se você for a um nível mais profundo, nenhuma pergunta resta sem resposta. Uma vez eu me reuni com um empresário de palestras, e ele me falou que “perguntas e respostas são sempre perigosas”, porque imagine se alguém faz uma pergunta e o palestrante não sabe responder? Mas, na verdade, para um professor do zen, qualquer pergunta é admissível, e você tem que responder todas.
Pergunta – Tem como o senhor falar um pouco sobre a visão que o senhor tem do livre arbítrio? Nós temos livre arbítrio?
Monge Genshô – Em parte, sim. Mas de maneira muito limitada. O livre arbítrio foi apresentado como uma construção para tornar um criador inocente das consequências (da criação). Se o criador fosse responsável por todas as consequências de tudo o que ele fez, se ele soubesse de tudo, ele seria tão responsável quanto qualquer artífice que faz uma coisa que dá errado. O livre arbítrio me faz lembrar-se de uma frase do João Ubaldo Ribeiro, que morreu estes dias, no livro sobre luxúria: - “Como alguém pode se sentir culpado de sentir algo que foi criado para sentir?”. Então quando nós dizemos livre arbítrio, você tem que se perguntar se você o tem realmente sobre o crescimento de sua barba, por exemplo. Não, não tem. Diante de quem? Da testosterona? Dos hormônios do seu corpo, que podem alterar o seu humor e seus desejos? Você é livre realmente, ou em grande parte sua conduta é ditada pela sua própria condição de ser humano? Então em que medida nós estamos realmente livres nas nossas decisões? Normalmente nós fizemos uma corrente de acontecimentos que nos conduzem numa determinada direção. Às vezes nesta corrente existe um remanso e você tem a oportunidade de nadar para o lado, de mudar o rumo da sua vida. Às vezes você tem grandes momentos de escolhas, uma escolha pequena que pode causar um enorme resultado, como aquele exemplo do efeito borboleta. Mas em grande parte a nossa vida vai transcorrendo numa corrente lógica. Vocês precisam comer, então precisam trabalhar, precisam ter renda, e precisam disso e daquilo. Então, as escolhas que fazemos têm que ser amadurecidas e às vezes levam anos para que possam ser executadas, devido à própria contingência da condição humana. Mudar o carma é complicado, precisa grande esforço. É possível? Sim, é possível. Claro que é possível. Mas vai demandar esforço, tempo... agora dizer que uma pessoa é verdadeiramente livre, é ignorar as condições em volta. Você vai dizer a um rapaz criado numa periferia violenta de uma grande cidade que ele teve livre arbítrio? Nós temos que pensar no carma. Quais foram as circunstâncias pregressas que resultaram nesta condição? O objetivo de agora em diante, portanto, é saber como conseguir se livrar destes condicionamentos e energias aprisionantes a certas formas de reação.
Pergunta – Mas quando se fala em livre-arbítrio, eu me reporto àquela ideia de que todos os dias nós temos a possibilidade de escolher este ou aquele caminho, de ir para a direita ou esquerda, por exemplo... se não, a impressão que fica é que estamos totalmente presos, sem possibilidade de mudança...
Monge Genshô – Sim, nós temos alguma opção, mas isso não pode ser confundido com liberdade plena. Eu não posso chegar e dizer assim: - “Você é culpada por tudo o que está acontecendo na sua vida, desde o seu nascimento”. Não é verdade! Você já nasceu no Brasil, isso já muda as coisas. Se você tivesse nascido na Noruega seria diferente. Uma coisa é você nascer na Faixa de Gaza, outra coisa é você nascer em Luxemburgo. Então o livre arbítrio ocorre em termos, porque você tem alguma liberdade, mas ela não é tanta assim. E a maioria das pessoas que eu conheço, têm suas vidas condicionadas desde a infância, com coisas que começaram muito remotamente. Com papai, com mamãe, com dado país. Até o fato de você ter nascido mulher, dá para mudar? Olha, até dá, mas é complicado à beça. Então você é completamente livre? Não! Grande parte do que você é já está predeterminado agora. Na verdade este conceito de livre arbítrio não pertence ao budismo. Nós estamos comentando aqui, mas ele veio de outra cultura. Ele vem de um raciocínio medieval para solucionar a questão da responsabilidade do criador na existência do mal. É isto! Mas o budismo não tem criador, portanto esta questão em essência não se coloca.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Monges e deuses
(continuação)
Pergunta – Eu queria saber se é possível que uma pessoa que acredite na existência de Deus possa virar Monge Budista, ou isso é uma contradição em termos?
Monge Genshô - Depende. Se esse deus for Thor, o deus viking que fazia os trovões batendo com seu martelo nas nuvens, fica um pouco complicado, porque a gente já conhece a eletricidade, sabe o que é um raio, e o que é um trovão. E por causa disso o deus Thor foi abandonado. Você precisaria me descrever qual é o deus que estamos falando. Se esse deus que você esta falando fosse assim, uma luz infinita que tudo permeia mas que não toma decisão nenhuma nem interfere na vida dos homens, não teria muito problema. Mas como o budismo nunca fala sobre deus, também não teria que ter discussão sobre o assunto.
Mas se você trouxesse um deus “criador” esse deus fica complicado, porque um deus criador assim, não vai caber muito bem dentro dos raciocínios budistas, uma vez que automaticamente você vai dizer assim: “mas se esse deus é criador, porque que não fez bem feito”? “Ah, porque havia o livre arbítrio, foi o homem que agiu errado”. E você pergunta: “Livre arbítrio”? Mas se você coloca um elefante dentro de uma loja de cristais você é responsável ou não pela quebradeira? Você vai dizer: “Sou responsável”. Por quê? “Porque sabia o que ia acontecer colocando o elefante dentro da loja de cristais”. Bom, então o deus criador sabia o que ia acontecer? Sabia. Então ele é responsável.
Se você começa a cair em raciocínios desse tipo isso dá uma enorme confusão. O budismo não está interessado nesses debates, porque eles são muito antigos. Essa discussão é muito velha e o deus criador já no tempo de Buda, não era uma consideração válida.
Vejam que o budismo nasceu dentro de um meio hindu, e no hinduísmo nós tínhamos um deus criador, um deus destruidor, tínhamos Krishna, Yndra, Bhrama, ele nasceu num contexto teísta, e o budismo é um rompimento absoluto com o teísmo hindu.
Nasce no meio do hinduísmo e rompe com tudo. Rompe com o sistema de castas, rompe com o sexismo entre homens e mulheres, rompe com os deuses, transforma os deuses em ouvintes de Buda. Então, o rompimento é muito absoluto: “essa é a primeira religião que surgiu sem deuses”. Depois dela, não surgiu nenhuma religião assim. Então o budismo está isolado como um fenômeno estranho e é interessante porque é anterior à maioria das grandes religiões do mundo.
Pergunta – Monge, uma vez perguntaram pro Dalai Lama se o budismo seria uma religião, e ele respondeu que o budismo poderia ser chamado de uma “ciência da mente”. O Zen encararia o budismo também dessa forma?
Monge Genshô - Está mais próximo porque a palavra “religião” vem da palavra em latim “religare”, ou, em outras versões do latim “religio”. A primeira tem o significado de religar o homem com uma realidade da qual ele está desconectado, mas a declaração do budismo não é essa não, pois nunca estivemos desconectados, nós nunca estivemos separados, você é que não está vendo que é um com tudo. Você pertence a esse universo junto com todos os seres agora, você está perdido na ilusão de um eu e é por isso que você não está enxergando a sua verdadeira natureza, então neste sentido, é uma ciência da mente.
( Final de palestra pública em Goiânia, decupada da gravação por Rachel San)
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
O budismo é ateu?
Frequentemente nós temos problemas com a questão do Budismo ser teísta ou ateísta. Com isso, as pessoas geralmente perguntam: “Qual a postura do Budismo com relação aos deuses?” A única questão na qual o Budismo é mais enfático é a inexistência de um Deus Criador, que fez o mundo e todas as coisas. Este conceito é absolutamente estranho ao budismo. O budismo nasceu na Índia, onde a religião predominante possui mais de 300 milhões de deidades1. Esta religião indiana – hinduísmo – também apresenta a ideia de um Deus Criador e sua Trindade (Trimurti) composta por Brahma, o Criador, Vishnu, o Preservador e Shiva, o Destruidor2.
O budismo negou a existência de um Deus Criador, um deus que criasse, julgasse e decidisse tudo. Na realidade, este é o ideal de Deus que permeia toda nossa cultura judaico-cristã e ocidental, nós temos um Deus Criador, um Demiurgo. Contudo, Buda não se estendeu sobre esta questão, por não estar disposto a discutir assuntos não-verificáveis. Logo, algumas pessoas insistem em afirmar que o budismo é ateu. O budismo não pode ser classificado como ateu, uma vez que representaria uma postura ativa de negação de um deus. Ou seja, o ateu estaria disposto a confrontar e provar a inexistência deste deus e o budismo não se propõe a isso. A melhor descrição, talvez, da posição budista seria: O budismo é não-teista, ou seja, ele não fala sobre deuses, mas também não assume a postura ativa de negação, caracterizada pelo ateísmo.
Esta postura está estendida a todos os tipos de deuses. No entanto, surge uma outra confusão, porque quando falamos sobre os 6 Reinos do Budismo: Inferno, Fantamas Famintos (Preta), Animal, Humano, Semi-Deuses (Asura) e Deuses (Deva). Na realidade o termo deuses vem de devas, sem o significado normalmente entendido para deus. O reino dos deuses é uma condição a qual os homens com grande mérito podem ascender. Uma espécie de vida prazeirosa, sem dificuldades, onde tudo é fácil. Esta seria a condição de deva. Porém, eles também têm karma, também decairão, etc… Portanto, não se trata em absoluto do conceito que temos de deuses eternos, ou algo como a concepção hindu.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Um criador e o agora
Pergunta – Eu vi um vídeo de uma palestra sua juntamente com um grupo espírita em que o Senhor dizia que o budismo é uma religião sem Deus, o senhor poderia esclarecer isso?
Monge Genshô – O budismo não fala em deuses, mas tão pouco se dedica a negar sua existência, apenas não pensa que seja útil ficar se referindo a coisas não verificáveis. A idéia de um deus criador é completamente absurda para o budismo. O deus criador tem três grandes atributos, veja bem, isso é uma discussão e visão minha para responder sua pergunta, pois o budismo não se dá a esse trabalho.
Um deus criador é onisciente, onipotente e infinitamente bom. Se ele é onipotente poderia ter feito um mundo perfeito e bem feito. Não fez. Algumas pessoas poderão dizer: “mas há o livre arbítrio”. Mas veja bem, se eu colocar um cachorro, uma criança ou um macaco dentro de uma loja de cristais eu não sei o que irá acontecer? Então ele coloca um homem e uma mulher num local e avisa que daquele fruto é absolutamente proibido comer. Ele sabia o que iria acontecer, pois ele é onisciente, conhece passado, presente e futuro. Agora, ele fez algo sabendo qual seria o resultado, pois é onipresente e onisciente, então provavelmente não seja infinitamente bom. No caso deste Deus criador esses atributos são paradoxais, de modo que esse deus criador é uma contradição que filosoficamente é inaceitável.
Esse assunto é extensamente discutido no livro de um Jesuíta que abandonou a fé, Tomás Antônio da Fonseca, “Doze Provas da Inexistência de Deus”. Ele se refere a este Deus, com um plano, um ser pensante, com uma intenção e que fez algo. Essa idéia desse tipo de deus é completamente estranha para o budismo. Mas se pensarmos como uma inteligência que perpassa todo o universo, não interferente, não criador e sem planos, então é uma idéia admissível e não contraditaria o budismo. O budismo não chega a ser ateu, não se dedica a negação, mas é “não teísta”, ou seja, não fala sobre deuses. Falar em um deus criador é diminuí-lo em razão das contradições, pois lhe damos responsabilidades que mostram que obviamente algo não deu certo. Não adianta colocar a culpa no homem e no livre arbítrio, isso é uma tentativa de jogar no homem a culpa de algo que o antecede. Nós somos imperfeitos, mas quem nos fez dessa forma? Mas o budismo não perde tempo com isso, o que preocupa o budismo é a mente, o sofrimento e o agora.
Pergunta – Essa nossa criação para o bem e para o mal tem a ver com passado e futuro?
Monge Genshô – Não, essa questão de passado e futuro faz parte de nossas imaginações sobre coisas que nós mesmos criamos, são falsidades. O passado sobre o qual pensamos é uma construção e não aconteceu exatamente como pensamos. Um bom exemplo disso é esse exato momento. Se amanhã alguém perguntar sobre o que foi dito na palestra, teremos vários relatos diferentes e a medida que o tempo passa a memória também será alterada. O futuro é imaginação. Não adianta ficarmos pensando em como resolver hoje os problemas de amanhã. Os problemas de amanhã só serão resolvidos amanhã. Faz sentido imaginar o futuro frente à um tabuleiro de xadrez, posso pensar na probabilidade das quatro jogadas seguintes e calcular suas conseqüências, mas esse é um jogo de informação perfeita e muito simples se comparado com a vida.
A vida está sempre cheia de “cisnes negros”. Cisne negro é um evento que ninguém previu. Em 1986 estava na Alemanha e perguntei para um amigo sobre o muro de Berlim e se ele nunca iria ser derrubado. Sua resposta foi que não, isso sempre fora assim e nunca iria mudar. Três anos depois o muro foi demolido. Três meses atrás quem imaginaria que o povo brasileiro sairia às ruas para fazer reivindicações? Esses eventos são chamados “cisnes negros” porque em geral os cisnes são brancos, mas de repente aparece um cisne negro. Então, o futuro é imprevisível, mas sentamos para meditar e ficamos fantasiando sobre o futuro. O Zen sempre fala sobre isso, temos algo com o que lidar que é extremamente importante - o agora. Omar Kayyãm dizia, “dois dias me são particularmente indiferentes, o ontem e o amanhã”. É isso que o Zen ensina, olhe para o agora, é isso que você está perdendo.
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quinta-feira, 18 de julho de 2013
Criado de dentro para fora
Aluno - E quem controla essa manifestação? Se não sou eu quem controla, de onde vem esse controle?
Monge Genshô – Quem controla a gravidade, a chuva e os ventos? Nós sempre desejamos um “quem” por trás de todas as coisas, mas nem em você existe um “quem”. Quem dentro de você pensa? Você saberia me dizer? Quem é essa dentro de você que pensa?
Aluno – A mente.
Monge Genshô – E quem é essa mente? Quem controla essa mente?
Aluno – Eu ou aquilo que a gente pensa que é.
Monge Genshô – Você pensa que controla sua mente. Mas se é sua mente que pensa, que mente que pensa e que mente que controla o pensamento? Você tem duas mentes? Uma controladora e outra pensadora?
Aluno – Não. Penso que seja uma manifestação maior que eu, que está por trás e que criou...
Monge Genshô – E quem controla essa manifestação?
Aluno – Deus?
Monge Genshô – E quem controla esse Deus? Se ele parar e pensar, “Eu penso, mas quem me controla”? Qual seria a resposta que ele encontraria?
Aluno – Não, ele é a expressão de tudo.
Monge Genshô – E por que você não é a expressão de tudo?
Aluno – Eu quero ser a expressão de tudo, mas tenho que me livrar desse “eu”.
Monge Genshô – Mas então por que você atribuiu esse “eu” a alguém fora de você e por que esse “eu” fora de você não tem o mesmo problema que você? Ele teria, não é mesmo?
Aluno – Não.
Monge Genshô – Por que não? Se ele tem uma mente e pensa, perguntaria: “quem me criou”?
Aluno – Não vejo dessa forma. Ele é, logo já sabe tudo...
Monge Genshô – Mas então por que você não é?
Aluno – Alguma coisa aconteceu que mudou tudo isso...
Monge Genshô – Não poderia ter acontecido a mesma coisa com ele?
Aluno – Não.
Monge Genshô – Por que não?
Aluno – Porque ele já é tudo, ele cria...
Monge Genshô – Você está querendo atribuir isso a uma definição. Existe alguém atrás de mim que sabe tudo, pensa tudo e que sabe o motivo de tudo.
Aluno – Não acredito que ele, por exemplo, fosse criar o sofrimento. Se eu soubesse que sou parte dessa célula, não iria criar sofrimento para eu própria sofrer...
Monge Genshô – Mas então por que esse ser atrás de você criou o sofrimento?
Aluno – Não sei se foi ele quem criou. Pode ter sido algo...
Monge Genshô – Ah, então existe outro além dele capaz de criar e que criou o sofrimento?
Aluno – Não sei, é o que eu gostaria de saber.
Monge Genshô – A resposta é não. Isso é uma regressão sem fim. Se eu criar alguém extremamente bom atrás de nós, precisarei criar alguém extremamente mau para poder explicar a existência do mal.
Aluno – E sobre o véu de Maya, o véu da ilusão?
Monge Genshô – O véu da ilusão é que cria todas essas armadilhas. Nós criamos soluções através de regressões, por exemplo, como não sei como isso surgiu, eu crio algo atrás de mim para explicar o surgimento disso. Veja bem, os gregos não sabiam o que era o sol, então criaram o Deus do Sol que era Apolo e guiava o carro do sol todos os dias. Dessa forma, eles atribuíram à Apolo a solução do sol. Mas alguém poderia perguntar: “Mas e Apolo, de onde surgiu”? Para resolver esse problema, Apolo é filho de Zeus. Mas Zeus é filho de quem? Então criaram um Deus que era pai de Zeus a quem Zeus matou. E assim por diante.
Quando você cria uma explicação, tem que criar uma regressão para explicar o surgimento da explicação. Para resolver esse problema o Budismo nunca fala sobre essas coisas. Nós estamos raciocinando para ver como é a historia do pensamento, mas o Budismo não tem esse tipo de respostas ou perguntas, “quem foi que fez isso”? Ninguém controla sua mente, ela é sua. Você tem o poder de ser senhor de sua mente, completamente, não existe ninguém comandando sua mente do lado de fora. Você pode induzir sua mente a se sintonizar e trabalhar com outras coisas, por exemplo, você falar palavras boas e criar um mundo bom ou pode viver a reclamar e insultar e criar um mundo semelhante a isso, atraindo pessoas com energia semelhante. Você cria seu mundo. No Budismo o mundo não é criado de fora para dentro, mas sim de dentro para fora. Não atribuímos nada a uma força externa.
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Explicação não é budismo, é ciência
P: Fico me perguntando: qual a explicação que o Budismo dá para o surgimento do ser humano de forma tão “perfeita”, pois no cristianismo existe a figura de uma “cabeça pensante” que fez tudo isso. Como aconteceu essa evolução no Budismo? Qual a explicação?
Monge Genshô: Em primeiro lugar o Budismo não se dedica a dar explicações. Segundo lugar, a ciência hoje, tem explicações bastante boas. E, pessoalmente, eu acho que a evolução das espécies está muito bem comprovada historicamente. Como acontece? Através do tempo. As pessoas dizem assim: “Ah, mas eu não vejo evolução acontecer”. Como você não vê? Estamos criando novas raças de cachorros todos os dias. Temos animais e plantas que sem o homem nem sobreviveriam. O trigo atual se você deixar sozinho ele desaparece porque a semente não cai, porque escolhemos selecionar sementes que não caem porque são melhores pra colher. E assim por diante. E assim também com os seres humanos. A nossa “matriz” é toda africana. Nossos antepassados de 200 mil anos atrás, você olharia e diria: não, não é um ser humano.
Em algum momento, nós começamos a parecer humanos, mas, se você recua no passado, não é tanto tempo. 200, 300 mil anos atrás, ocorreu o surgimento da espécie do homosapiens. Então, houve evolução lenta, e nós dizemos que nosso corpo é magnífico, perfeito, etc, mas, é não olhar bem pro corpo. Ele funciona muito mal, espinha fraca para andar em pé, pelos corporais diminuindo porque não são mais necessários, calvície, 5% das pessoas tendo episódios alucinatórios na vida etc...
Pergunta: não, mas não foi este o contexto do “ser humano perfeito”, e sim, que em algum momento, pra termos chegado nessa evolução, temos que ter sido no mínimo uma ameba, e alguém tem que ter criado isso ou isso veio de “poeira das estrelas”?
Monge Genshô: Não, mas isso não é budismo, ok? Tem um experimento famoso dos anos 60, quando alguém colocou num vaso substancias que ele deduziu que eram presentes na terra inicialmente. Metano, carbono, outras substâncias. Colocou num vaso e com faíscas elétricas, essa experiência foi repetida muitas vezes em outros lugares. Essas substâncias químicas, depois de algumas horas, começam a formar na parede do vaso uma película marrom. Essa película marrom é constituída de aminoácidos, os prercurssores da proteína. A experiência é a “sopa primordial”, bem conhecida. Então, o que quero dizer é o seguinte: ao que parece, dado o tempo e determinadas condições, você juntando elementos corretos, a vida começa a surgir expontâneamente. E a vida vai fazendo experiências assim, de existência. Mutações, surgimentos, cada vez mais complexos. Nós vemos os surgimentos agora, vírus novos surgem a todo instante. Esse processo continua na vida. Você levando este processo a 2 bilhões e meio de anos que é um tempo inimaginável pra nós, surgem indivíduos suficientemente complexos. Cada vez mais complexos. E vão mudando. Nós estamos mudando. Os testes de Q.I. mostram que, do início do Século XX pra cá, há uma mudança de 20 pontos. Aquelas pessoas que eram consideradas normais em 1920, hoje são consideradas lentas, têm Q.I. 80. As pessoas que eram consideradas de inteligência superior, com 120 pontos, hoje são consideradas normais. Interessante isso. Nós viemos mudando rapidamente.
Na verdade a humanidade vem mudando tanto que por ex, as cesarianas,( nós estamos no limite da capacidade da mulher deixar passar na pélvis uma cabeça do feto). Se você deixa livremente, há uma mortalidade por enquanto discreta mas que seria proibitiva com um crânio maior. Porque a cabeça foi crescendo e está num ponto quase limite para o parto normal.
E isto é evolução chegando nos seus limites possíveis. O corpo feminino já foi sacrificado no seu funcionamento para privilegiar a reprodução, problemas que o homem não tem. Caso da articulação de ninar, nas pernas, ao correr, as mulheres as jogam para fora por causa da largura do quadril.
Então tem um monte de coisas a serem consideradas a este respeito mas eu posso te dizer, que ao que parece, a vida surge expontaneamente e vai caminhando em direção a uma maior complexidade. O Budismo surge porque há sofrimento. Aí surge a descoberta do Dharma. O que o Budismo é pra mim ou o que Buda foi pra mim, foi um grande gênio. Porque ele teve a coragem de quebrar TODOS os paradigmas e dizer: eu não sei, não acreditem em mim, vou ensinar não baseado em fé, etc, e ensinou baseado em raciocínios, nessa maneira de pensar. Me sinto muito bem dentro do Budismo porque posso dizer assim: “eu não sinto conflito com a ciência, que é o que eu sentia todo o tempo quando estive em outras religiões”. Um conflito tremendo com a ciência. E isso o Budismo não tem. Ao contrário, a ciência está cada dia mais se aproximando do budismo. Cada coisa que acontece dizem: “ah, mas o Budismo já dizia isso no passado”. Aconteceu com a física quântica, psicologia etc.
Mas isso não é Budismo, é ciência. E espero que seja útil este pensamento racional, porque nós Budistas não precisamos entrar em conflito com a ciência e dizer: “ah isso é dogma, é crença”, e é assim porque é, ou é mistério”. Mistério não nos interessa. O que a gente não sabe dizemos: não sei. O budismo não se dedica a dar respostas sobre assuntos não verificáveis.
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quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Posso acreditar?

Alguns estão sempre voltando ao tema do que acreditar, ora, o que se acredita não tem muita importância na prática budista, o zen é uma doutrina do despertar não uma de acreditar, de modo que se alguém precisa muito de uma figura externa para se apoiar, e quer acreditar nela, fazê-lo é um mero passo intermediário, com o tempo ela se dissolverá a medida que a prática se consolida com a percepção de um absoluto que integra tudo mas que não tem qualquer pessoalidade.
Porém se se vê algum monge preconizando a existência de uma divindade criadora, com certeza ele não está falando da doutrina ensinada por Buddha.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Como surgiu o primeiro impulso?
Esse é o tipo de pergunta que Buddha se recusou a responder. Se tudo tem uma causa qual a causa primeira? É um dos argumentos escolásticos para um Criador, mas resta então a pergunta de qual a causa do Criador, um raciocínio de regressão sem fim.
Uma vez perguntei assim a Saikawa Roshi em um mondo (desafio público entre mestre e alunos)
- Como surgiu o primeiro karma?
E o mestre:
- Quando você souber me conte.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Deus, o budismo, o Vazio

Este Deus a que estamos acostumados no ocidente, o deus criador, um ser com vontades, desejos, projetos, não existe no budismo. Por causa disto alguns dizem que o budismo é ateu, mas isto é uma simplificação, seria mais correto dizer que o budismo é "não teísta". O budismo não é nihilista, o Vazio budista não é um nada, mas sim a qualidade de tudo ser interdependente, vazio de existências inerentes, de "eus" individuais. O Vazio é não causal, não condicionado, não pessoal, não é um algo do qual surgem os fenômenos. Este vazio é a própria forma, não é diferente dela. Pensamos que somos indivíduos mas este é um engano, temos a ilusão da individualidade e queremos que ela seja permanente, na verdade somos apenas manifestações cármicas temporárias. Compreender e ser capaz de integrar-se é a iluminação. Por tudo isto reificar o Vazio é uma incompreensão da doutrina budista.
No caso da palavra deus, ela tornou-se tão elástica que pode abranger desde um ser pessoal, a semelhança do homem, até algo tão imaterial e não interferente no universo que não possa ser referido.
A opção original budista foi considerar deus um assunto fora dos temas de que o budismo trata, visto este estar focado somente no agora e no despertar do homem. Despertar do quê? De todas as ilusões.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
Carta do Colegiado Buddhista Brasileiro, à Veja, dirimindo enganos sobre o budismo.
Relendo um texto jornalístico em que o budismo é dito "uma superstição que se baseia na reencarnação" resolvi postar aqui a carta oficial enviada à imprensa sobre o tema:
A matéria, A força da Fé, erra em suas referências ao budismo, o etnocentrismo faz o redator transferir ao budismo termos e conceitos de outras culturas. Em primeiro lugar o budismo não tem dogmas, nem preconiza um Criador ou uma divindade, e não se baseia em uma fé, exceto na de que o homem , por seus próprios meios, pode despertar de suas ilusões.
Mais adiante o redator afirma que os budistas crêem em uma semente herdada de uma encarnação anterior, basta esclarecer que o budismo descarta almas, espíritos ou sementes permanentes que encarnem, sendo a crença de que o budismo seja reencarnacionista mais uma transferência de axiomas de outras religiões.
Para o budismo é a mente em funcionamento que cria a sensação de identidades pessoais. Em especial, o budismo é uma religião de despertar, não uma religião de acreditar.
Segundo o Sutra do Diamante, o mais antigo documento impresso localizado, nada permanece tal como alma ou coisa que carrega e transmite algo. E no Cannon Páli que reune as mais antigas escrituras, compilado por volta de 300 AC, fica clara a doutrina de Anatman (não há partícula permanente) em contraposição ao Atman (há alma, ou algo para reencarnar) doutrina do hinduísmo.
O Carma (os impulsos decorrentes de ação) é que gera uma identidade, e não uma identidade carrega um carma. Cada ser que surge, embora manifeste impulsos cármicos, é inteiramente novo em sua identidade, em seu eu ilusório pessoal.
Encarnações, como a palavra indica, implica que algo entra em um corpo, e não é isto que o budismo ensina, e sim que por um corpo se manifestar ele gera a noção de uma identidade, de um eu, e este eu se pensa algo separado, isto cessa inteiramente com a morte.
Os textos budistas que eventualmente usam a palavra reencarnações, por erro semântico, transferiram ao budismo um conceito que a este não pertence, e que o destaca de todas as outras grandes religiões.
Repetimos, para o budismo:
1) Não há divindade, nem criador.
2)Não há alma nem nada que sobreviva à morte, senão os efeitos do carma (que significa ação em sânscrito) ou seja, ação gera consequências.
3) Reencarnação tem sentido no espiritismo é um erro usá-lo no budismo onde não há nada para reencarnar, há continuidade cármica (fenomênica) somente.
4) O budismo não se vê como uma fé, mas como um método de libertação, aponta a saída para o próprio budismo, que deve ser abandonado quando uma mente se liberta inteiramente.
PS: Sugerimos, antes de escrever sobre o budismo, consultar a entidade Colegiado Buddhista Brasileiro, CBB, http://cbb.bodhimandala.com/ o qual reúne professores das diferentes correntes tradicionais da mais antiga das grandes religiões.
Assinam o presente documento os diretores em conjunto do Colegiado Buddhista Brasileiro, com sua qualificação após seus nomes.
A matéria, A força da Fé, erra em suas referências ao budismo, o etnocentrismo faz o redator transferir ao budismo termos e conceitos de outras culturas. Em primeiro lugar o budismo não tem dogmas, nem preconiza um Criador ou uma divindade, e não se baseia em uma fé, exceto na de que o homem , por seus próprios meios, pode despertar de suas ilusões.
Mais adiante o redator afirma que os budistas crêem em uma semente herdada de uma encarnação anterior, basta esclarecer que o budismo descarta almas, espíritos ou sementes permanentes que encarnem, sendo a crença de que o budismo seja reencarnacionista mais uma transferência de axiomas de outras religiões.
Para o budismo é a mente em funcionamento que cria a sensação de identidades pessoais. Em especial, o budismo é uma religião de despertar, não uma religião de acreditar.
Segundo o Sutra do Diamante, o mais antigo documento impresso localizado, nada permanece tal como alma ou coisa que carrega e transmite algo. E no Cannon Páli que reune as mais antigas escrituras, compilado por volta de 300 AC, fica clara a doutrina de Anatman (não há partícula permanente) em contraposição ao Atman (há alma, ou algo para reencarnar) doutrina do hinduísmo.
O Carma (os impulsos decorrentes de ação) é que gera uma identidade, e não uma identidade carrega um carma. Cada ser que surge, embora manifeste impulsos cármicos, é inteiramente novo em sua identidade, em seu eu ilusório pessoal.
Encarnações, como a palavra indica, implica que algo entra em um corpo, e não é isto que o budismo ensina, e sim que por um corpo se manifestar ele gera a noção de uma identidade, de um eu, e este eu se pensa algo separado, isto cessa inteiramente com a morte.
Os textos budistas que eventualmente usam a palavra reencarnações, por erro semântico, transferiram ao budismo um conceito que a este não pertence, e que o destaca de todas as outras grandes religiões.
Repetimos, para o budismo:
1) Não há divindade, nem criador.
2)Não há alma nem nada que sobreviva à morte, senão os efeitos do carma (que significa ação em sânscrito) ou seja, ação gera consequências.
3) Reencarnação tem sentido no espiritismo é um erro usá-lo no budismo onde não há nada para reencarnar, há continuidade cármica (fenomênica) somente.
4) O budismo não se vê como uma fé, mas como um método de libertação, aponta a saída para o próprio budismo, que deve ser abandonado quando uma mente se liberta inteiramente.
PS: Sugerimos, antes de escrever sobre o budismo, consultar a entidade Colegiado Buddhista Brasileiro, CBB, http://cbb.bodhimandala.com/ o qual reúne professores das diferentes correntes tradicionais da mais antiga das grandes religiões.
Assinam o presente documento os diretores em conjunto do Colegiado Buddhista Brasileiro, com sua qualificação após seus nomes.
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