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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Apreciar a beleza é ouvir a voz de Buda



Aluno: Em relação às paixões, as coisas que não são fruto da criação do homem como a natureza, os animais... Nós podemos cuidar delas? Podemos gostar delas, mas não ver com olhos de ser uma paixão?
Monge Genshô: Gostar em si, apreciar e ver a beleza em si não é uma paixão, a paixão é aquilo que arrasta, imagine que você é uma folha e o vento sopra e toca de um lado para outro e você vai batendo em paredes, árvores, coisas assim e sendo arrastado. A paixão é assim, é como loucura, ela não tem discernimento, não tem lucidez, isso é que é a paixão. Mas apreciar a beleza é ouvir a voz de Buda, é ver a voz de Buda, por isso o mestre diz: Ouves o som do regato? Sim? Então não tenho mais nada a te ensinar.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Parar o corpo ajuda a parar a mente


Aluno: Praticar vipassana ou samatha não é praticar zazen, então?
Monge Genshô:
Não é. Mas quem está praticando zazen de fato aqui nesta sala? Vocês estão praticando zazen alguns segundos ou minutos dentro de cada sessão. O que está acontecendo é: você senta, imobiliza o corpo, começa determinadamente tentando fazer tudo certinho até que o corpo cansa, então você se curva, a cabeça cai, a perna dói, etc. Tudo isso faz parte do processo, mas o problema está na mente porque essa parte da postura, embora seja complicada e difícil de executar bem, ainda é viável. A mente é o verdadeiro problema. Parar o corpo ajuda a parar a mente, mas ela quer viajar, você traz ela para cá, tenta ouvir o som do ar-condicionado, ouvir os pássaros, olha fixamente para a parede, mas começa a ver figuras, encontra dois pontinhos e acha parecido com um rosto, então procura a boca e assim por diante. Na verdade você tem que sentar e não ver nada. Mas se eu quiser ver, então vou ver. A pergunta é sempre: onde estão essas coisas que vejo? Na sua cabeça. Os pensamentos estão na sua cabeça e não fora. Você pode lutar com seus pensamentos e tentar parar de pensar? Isso seria tolo, você não consegue fazer isso. Nós apenas ignoramos, se a mente quer viajar ela que vá, eu não preciso dar nenhum sustento para ela. Ela pensa em cavalos e eu não tenho nada a ver com cavalos, então faço nada. Apenas deixo passar. Seja lá qual for o pensamento eu não preciso acompanhá-lo. Se a mente pensa em árvores eu não procuro os frutos, não desenvolvo o pensamento e se eu me comportar assim a cada nova tentativa da mente eu volto para cá, até que ela cansa. Se a mente consegue se repousar no não pensamento de ficar aqui, ouvindo os sons, apenas sendo e vivendo neste mundo, isto sim é zazen.

Quanto mais tempo você ficar assim, mais você treinou a sua mente e se tornou senhor dela. Nós chamamos esse estado de samadhi, que é um estado onde você não é arrastado por paixões, você só aceita tudo que está vindo. Por que fazemos isso? Isso vai fazer com que o zazen produza um insight? Não. Provavelmente não durante o zazen, mas fora, andando, comendo, vendo algo ou mesmo depois do sesshin. Depois do sesshin, durante dois ou três dias, você consegue manter um estado especial. Mas depois que para de sentar sua mente volta para a loucura.

Eu comparei ainda há pouco com um redemoinho, você é um redemoinho girando sem parar, levantando poeira e destruindo coisas, mas a sua natureza não é de redemoinho. O redemoinho é apenas o movimento da nossa mente, é o nosso carma. O eixo é o nosso eu, que você olha e reconhece como o olho do furacão, mas que na verdade não é algo e sim ilusão. Ele está lá, mas não tem uma natureza inerente, ele só existe porque existe redemoinho, então é efeito do movimento. Qual é a nossa verdadeira natureza? É atmosfera. Nós somos atmosfera. Imensa, com milhões de possibilidades, mas estamos perdidos na consciência de um redemoinho e por isso não vemos essa verdadeira natureza. Se nós desfizéssemos o movimento do redemoinho e acalmássemos a mente completamente, o redemoinho desapareceria. Desaparecendo o redemoinho desaparece junto aquele eu pequeno, então surge a possibilidade de darmo-nos conta de que nós somos imensos, grandes, muito mais do que um eu pequeno. Nós somos todo abrangentes e todas as tempestades não são mais nada do que nós mesmos. Nós não percebemos que somos atmosfera porque estamos perdidos acreditando que somos redemoinhos. Todos aqui agora são pequenos redemoinhos de movimento cármico manifestado em carne e osso.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O que é Buda?


Pergunta - O que é Buda?

Monge Genshô – Buda é mente. Essa é uma das respostas possíveis, outras respostas seriam, Buda significa "acordado", não é o nome de uma pessoa, foi um “título” dado a Sidarta Gautama porque ele acordou, despertou, logo, ele é “O Buda”. Tradicionalmente um grande professor, mas um homem não diferente de nós. Por Buda também podemos entender nossa “natureza búdica”. Todos temos a natureza dos seres que sonham, ou seja, temos a possibilidade de despertar. Buda também é um ideal, o ideal de ter uma mente lúcida e clara sem se deixar enganar por nenhuma ilusão. Em absoluto não é uma estátua, as estátuas existem porque as pessoas gostam de estátuas. Buda também não ajuda ninguém, não adianta lhe pedir nada. Se Buda pudesse ajudar e visse o sofrimento dos seres, ele ajudaria. 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

A UNIDADE

O zazen permite o despertar diretamente e o manter-se passivelmente no verdadeiro lugar unificado, ou o lugar da unidade. 

O zazen permite, com este despertar, vermos verdadeiramente a unidade, a nossa unidade com todas as coisas. É o que se denomina “mostrar o próprio rosto original”, se desligando dos aspectos da própria natureza (a que você enxerga), mas olhando para a natureza fundamental. 

Aquele que faz isso, abandonou o corpo e mente e carece de apegos, não pensa mais no bem nem no mal e pode, seguindo, transcender o profano e o sagrado e ir além de toda concepção de ilusão, despertando-se, libertando-se de toda ideia de fronteira entre os seres sensíveis e os Budas. 

Zazen Yojinki, por
Keizan Jokin Daioshô 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Porque acreditamos em eus por isso choramos





(continuação)
Monge Genshô: O que vimos até agora? O eu é construído, baseado principalmente em memórias, não sendo estável. Você acredita nele e acha que é importante. Pior que isso, quer continuar existindo para sempre e por isso vem procurar palestras espirituais, porque tem a mesma angústia de Buddha (velhice, doença e morte) e quer uma solução para a morte. Por isso os homens inventam religiões. E nas religiões os homens continuam existindo depois de morrer. Quando Bodhidharma pergunta e pede para mostrar a alma e Hui-K'o não sabe mostrar, ele diz “já te despertei”, pois ele mostra uma coisa muito mais profunda do que ter uma partícula permanente que sobrevive à morte. Ele mostra que, na realidade, o eu é uma ilusão e que nós pertencemos a um algo muito maior e estamos acreditando no eu, e por isso não despertamos, por isso temos medo da morte. Se nós compreendermos verdadeiramente o que é o eu, nem nascimento nem morte tem mais sentido pois teremos finalmente visto nossa verdadeira natureza que não é este pequeno eu a que tanto nos apegamos.

Se alguém realmente entendeu isso levante a mão. Então, vamos fazer uma analogia: nós vemos o mar, as ondas na superfície do mar. O mar existe sempre, as ondas surgem e desaparecem, certo? O mar é durável, as ondas não. Se as ondas souberem que elas não são ondas separadas e sim o próprio mar, elas livraram-se do nascimento e morte das ondas. Pois quem acredita no nascimento e morte das ondas deveria chorar na praia a cada onda que morre.

Por que os homens choram quando uma pessoa é velada? Porque acreditamos nos eus. Como acreditamos nos eus, nós choramos. Como essa angústia é muito grande, criamos crenças de sobrevivência pós morte porque acreditamos numa ilusão chamada eu. Isso é budismo mesmo. Isso é verdadeiramente o budismo. Por isso podemos saber porque  o budismo não fala nem em deuses e nem em almas. Essas também são construções nossas para fazer com que o eu sobreviva. (Fim)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A prática é a iluminação? Sim e não.

 

Dogen Zenji diz que a prática já é iluminação, o que é uma maneira de dizer que não devemos ambicionar nada para nós através da prática e que desejar a iluminação é o mesmo que tentar adquiri-la, um objetivo egóico. 
O que não quer dizer em absoluto que por fazer qualquer prática você é um iluminado. Resumindo: ao sentar para fazer zazen você é um iluminado, quando você levanta é o mesmo idiota de sempre e se sair dizendo que obteve a iluminação você mergulhou em uma pior ilusão do que a anterior, um sonho de grandeza pessoal, parecido com o de um Bonaparte de hospício. 
 Quanto a todos os seres possuirem ou terem natureza búdica o significado é simples, BUD é a raiz sânscrita para  "acordar", todos os seres que estão dormindo tem a natureza dos seres que acordam.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A disciplina da plena atenção



 (Final da palestra do Ven. Dhammadipa no DaissenJi em Florianópolis)
A seguir temos a importância da plena atenção. Buddha ensina que apenas teremos sucesso na prática se praticarmos quatro posturas. Praticar nas quatro posturas significa praticar enquanto sentado, enquanto em pé, enquanto andando e enquanto deitado. O sutra explica que a única forma de obter claridade é praticar com devoção e ininterruptamente. Esta é a prática da plena atenção. Caso consiga praticar a plena atenção nas quatro posturas ininterruptamente, estará plenamente Iluminado. Devemos praticar nessa direção enquanto estivermos conscientes. Caso permaneça neste tipo de plena atenção, está vivendo no Brahmaloka – no paraíso – mesmo estando aqui.

Temos agora a última e curta parte, abordando a sabedoria. Então, ao praticar neste sentido, você deverá “ditthiñca anupaggamma”, deverá abandonar todas as visões. Você deve ser sīlavā, deve ser disciplinado. Como abandonar todas as visões? E como ser verdadeiramente disciplinado? Ambas as virtudes serão atingidas quando compreendermos a originação dependente com intimidade. Tudo que existe, existe em relação a algo. Existir em relação a algo significa ser impermanente. A impermanência apenas existe onde há vazio, pois se algo permanece na sua experiência é, então, imutável. De acordo com o budismo, devemos entender a impermanência a fim de compreender o que está além da impermanência. Tudo muda por não ter uma natureza própria. Apenas pode mudar por conter o vazio. Se algo possui natureza própria, não é capaz de mudar. Logo, a única coisa que possui natureza própria é o vazio em si. É por isso que o Sutra do Coração ensina que a forma, os sentimentos, os cinco agregados são de fato o vazio, não diferentes do vazio em si. Caso consiga ver isso, você é “dassanena sampanno”, aquele com o darśana, a visão direta. Com isso, “kāmesu vinaya gedham”, você estará livre de todos os apegos e não mais retornará ao samsara.

Você deve compreender que este sutra foi proferido a 500 bhikkhus determinados a tornar-se aharants. Caso deseje seguir o caminho do boddhisatva, deve entender claramente o estado de existência de um aharant. Devido a sua compaixão, o boddhisatva não se torna um aharant. Este é o caminho do boddhisatva.
(Traduzido na palestra por Hakudô San e decupado posteriormente da gravação)

terça-feira, 22 de abril de 2014

A natureza relativa e absoluta do mundo




Existe algo precioso nos retiros que é a oportunidade de experiências e muito me alegra quando as pessoas me falam de suas próprias experiências. Nas entrevistas é muito mais importante o que você leva, do que fazer perguntas. As perguntas podem ser mais úteis durante as palestras, mas nas entrevistas o mais interessante é mostrar o resultado de nossa prática no zafu ou mesmo em nossa vida. Isso é muito importante para que você possa receber alguma orientação de como prosseguir.

O budismo é experiência acima de tudo. No Zen isso é ainda mais radical, pois em algumas escolas as escrituras são consideradas de tal forma importantes que chegam a ser colocadas sobre o altar, de maneira que as reverências são feitas também para as escrituras. Para o Zen as experiências dos outros são inúteis para nós, a menos que tenhamos grande humildade em ouvir as experiências dos outros e aprender com elas de modo que nos sirvam de guia.

É bom que tenhamos professores com idade avançada e grandes experiências, pois  quando o aluno levar suas experiências até o Mestre este saberá do quê o aluno fala. Muitas vezes poderemos fazer uma pergunta ao Mestre e sua resposta será voltada para nosso despertar. No Zen existe uma tendência para chocar o aluno, uma vez um discípulo ia para o banheiro e encontra o Mestre saindo do banheiro. Antigamente os banheiros eram do lado de fora e não passavam de fossas que de tempo em tempo eram limpas com pás. O aluno então pergunta ao Mestre: “O que é Buda”? O mestre olha em volta, aponta para uma pá ainda suja e diz: “Esterco seco na pá”.

Essa é uma clássica resposta Zen. As pessoas gostam de fazer distinções, sujo e limpo, felicidade e tristeza, dor e prazer, isso de fato não existe, Buda não está somente aqui no Zendo e ali no altar em forma de estátua. Buda é uma experiência que está em todos os lugares, está no esterco seco na pá. Se você conseguir ver que o esterco na pá irá se transformar em adubo, que o adubo ajudará a fertilização de vegetais e flores e que tudo está interconectado, que nada existe separado, o alimento colhido na horta será comido e se transformará novamente em adubo, então você entendeu.

De um ponto de vista, nós somos adubo e temporariamente estamos ocupando corpos, mas sofremos de uma doença terminal chamada vida. Mas nossa mente quer distinguir. Sofremos pelas pessoas doentes que irão morrer porque não conseguimos ver com clareza o ciclo transcorrendo continuamente. Nos entristecemos pois só vemos aquele momento, embora ele seja inevitável. Isso não significa que aqueles que enxergam os ciclos e têm a capacidade de aceitar a dissolução de todas as coisas, não sofram e não devam chorar pelos mortos, não compartilham o sofrimento. Essa pessoa também se comove e chora. São dois lados - de um lado há a relatividade do mundo e do outro a natureza absoluta do mundo.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Escute aqui seu idiota!





5)  O senhor começou sua palestra falando sobre aproveitar sua vida, seja feliz pelo momento e fiquei pensando, não tem como não sofrer, até o mestre iluminado se a mãe dele morrer ele irá chorar. Então seria assim, eu aproveito minha vida, não significa deixar de viver para não sofrer, então vou aproveitar o máximo minha vida, vou amar, mas eu sei que o sofrimento vem junto. Na verdade amar e sofrer seriam duas coisas iguais?

Monge Genshô – Sim, é verdade, estão dentro uma da outra. E aproveite sua vida já que você tem uma vida. Quando tiver sofrimento, sofra. Morre sua mãe, o que você faz? Chora, não há mais nada para ser feito.

Aluno - Mas se compreender, não chora. Compreende e não chora.  Porque teremos a compreensão de que a vida é assim, cresce, adoece e morre.  É da natureza.

Monge Genshô - Não é assim, compreende e chora assim mesmo. Nós poderíamos dizer – “Ah, meu filho morreu, é como uma folha que caiu” – mas isso não é realista. Na verdade você sofre e sofre mesmo, entregue-se ao sofrimento e sofra de verdade, porque faz parte da vida.

Aluno - Me veio à mente a imagem do filme de Dogen, que quando ele morre todos os monges caem em pranto. Naquele momento eles choram compulsivamente,  sofrem e muitos já estariam até iluminados, já teriam uma compreensão, já sabiam que ele iria morrer e mesmo assim sofreram.


Monge Genshô -  A melhor história para isso, talvez, seja a do mestre que recebe uma carta com o comunicado de uma morte na família. Ele senta-se numa pedra e começa a chorar. Um discípulo vai até ele e faz esse discurso – “Mas como o Senhor nos ensinou sobre apego e agora o recebe uma carta sobre a morte de alguém da família e está aí chorando”? -  o Mestre dobra a carta olha para ele diz – “Escute aqui seu idiota! Estou chorando porque quero” – vira-se para o outro lado e volta a chorar.  Esse é o Zen.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O dedo do budismo aponta para a liberdade


Pergunta - Então porque a vida inventou o pensamento?

Monge Genshô – A vida não inventou o pensamento. O pensamento é só uma função da vida. Porque as plantas fazem fotossíntese? É uma função das plantas fazerem fotossíntese. Porque nós temos sentidos, os nossos sentidos nos dão informações, eu toco e percebo, esse contato produz uma sensação, essa sensação viaja pelos meus nervos até meu cérebro e assim eu tenho um percepção – Ah, o braço da cadeira – essa percepção junto com outras percepções faz as formações mentais, porque eu tenho percepções mentais eu crio uma consciência que diz – Eu sinto o braço da cadeira – preciso do eu para sentir o braço da cadeira, não é que o eu seja uma coisa inútil, eu preciso dele para viver. Senão nem posso falar, me movimentar, fazer as coisas. Só que confundo o eu com minha verdadeira natureza. Minha verdadeira natureza não é o eu. Minha verdadeira natureza é a unidade de toda a vida. A minha verdadeira natureza não é sensação, contato, percepção, sensação, formação mental, consciência. O eu é construído com esses sentidos, agora, se eu tirar isso, o que resta? É por isso que os homens inventaram as religiões, porque eles ficam apavorados com essa sensação, “meu eu irá desaparecer, eu sou o meu eu!” Quem eu sou se tirar o eu? Então surge a angustia da morte, porque todos percebem que os corpos se desfazem, a gente morre, e gente quer que o eu continue. Por isso criamos as historias de paraísos, reencarnações, almas eternas.

Nós queremos uma solução para todas as coisas da vida. Então as religiões mais bem sucedidas são as que apresentam uma solução mais bem acabada, mais fácil para a impermanência. Imaginem, a religião mais popular no nosso meio que é o cristianismo, ela nos trouxe um conceito explorado principalmente por Paulo, a idéia de um Deus que veio à terra, é um Salvador  que carrega os pecados do mundo. Isso resolve todo problema cármico porque eu não pago mais pelos meus pecados, há um salvador que paga para mim se eu fiz algo errado. Eu matei, mas me arrependo, vem um salvador paga pelos meus pecados e eu não preciso pagar as conseqüências, então eu retiro o carma pois há um salvador para pagar por mim. Então isso retirou dos homens a culpa, porque o pecado tem perdão, tem um salvador, tem um redentor. Vejam que isso é uma solução muito bem sucedida, pois você com isso, liberto de todas as conseqüências de todos os seus pecados vai para o paraíso para ser feliz para sempre, para toda a eternidade. Nunca mais nenhuma morte, para sempre, pela eternidade sem fim, sempre com um eu, minha alma pessoal junto da divindade. É a solução, tudo resolvido.

 Uma solução dessas torna-se muito popular, é muito mais bem sucedida que as religiões que a antecederam que não tinham soluções assim. Havia os Deuses do império romano ou dos gregos, que eram seres que maltratavam homens e as pessoas ficavam submetidas aos desejos desses deuses que eram não racionais ou não bondosos, você era joguete dos deuses, era uma solução falha. E o cristianismo tem todo o mérito de vir com uma solução assim que tudo resolve. Mas o budismo não tem essas soluções. A idéia do Zen budismo é, vou tirar todos os tapetes e bengalas nos quais você se apóia. Não há nenhum salvador e não há perdão, o que você fez tem conseqüências e essas conseqüências são inescapáveis, não há ninguém lá fora para socorrer você. O budismo diz que você está enganado quando pensa que você é um eu. Você é muito mais que isso, se você sair desse enredamento você se liberta. O dedo do budismo aponta para liberdade, para o despertar. Mas ele exige grande esforço, nada virá de graça, através de uma concessão divina ou intervenção de alguém, então você tem que trabalhar para se libertar. É o que a gente faz no sesshin. Não existe um caminho fácil no zen budismo, todo ele tem esforço. E não existe nenhuma promessa de fé ou qualquer coisa assim, não existe mágica no zen.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A felicidade contemplativa



Pergunta – O senhor fala de acalmar a mente, mas como fica a questão, por exemplo, como eu que muitas vezes faço várias coisas ao mesmo tempo e se tento mudar isso, fico desmotivado. Me sinto mais vivo quando estou agitado fazendo três ou quatro coisas ao mesmo tempo. Como agir?

Monge Genshô – Eu compreendo e muitas pessoas procuram por essa forma de aceleração como uma maneira de sentirem-se estimulados. Em um dos extremos, as pessoas usam drogas estimulantes. Porém a felicidade vem de uma atitude contemplativa. Você pode ter uma vida agitada, mas precisa saber quando é o momento de cada coisa e precisa saber transitar facilmente entre estas situações. Minha vida é de certa maneira assim também, quando estou viajando tenho reuniões uma atrás da outra e tenho que resolver muitas coisas rapidamente. Mas quando chego ao hotel não ligo a televisão. É outro momento e você precisa saber quando agir de uma forma e quando agir de outra sem se deixar arrastar por essa aceleração, pois isso não é da natureza do homem. Observe uma pessoa fora das grandes cidades, como é seu ritmo? Muitíssimo mais lento, não é verdade?

Essa história de tempo é muito recente, os primeiros relógios não tinham ponteiros de minutos, muito menos de segundos. Foi a partir da industrialização que começamos a correr, nos apressar e marcar o tempo com essa precisão. Não é de se admirar que as pessoas estejam cansadas e que tomem tantos calmantes, são muitos estímulos. Quando você fala em parar, sentar numa almofada e meditar as pessoas pensam que é loucura. Quando estamos acelerados não estamos no presente, ficarmos realmente no momento presente é muito difícil.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Uma bola de ferro incandescente para ser engolida



Em um famoso diálogo Zen, o aluno chega para o Mestre e pergunta: “O que o senhor tem para me oferecer no Dharma?”, e o Mestre responde: “gostaria muito de lhe oferecer algo, mas no Dharma só há uma bola de ferro incandescente para ser engolida”. Essa bola é: “Você que tanto se ama não passa de uma ilusão de sua mente”.

Se você deseja despertar como o Buda, tem que acordar do sonho. Por isso Sidharta Gautama era um homem comum que quando desperta passa a chamar-se Buda, “o desperto”. Como ele era um homem comum como todos nós, todos temos a mesma capacidade de despertar. Aquele que acorda livra-se instantaneamente de toda dor, ilusão e sofrimento.

Nós construímos essa individualidade e nos agarramos à ela. Olhos iluminados vêem a vida e dizem “Que linda”. Alguns podem pensar que existem pessoas morrendo e sofrendo no mundo e que isso é trágico, mas eu lhes pergunto se as florestas são trágicas? Há nesse momento folhas e árvores morrendo nas florestas, existe tragédia nesse acontecimento? Não, não é mesmo? Olhamos as florestas e não lamentamos os troncos e folhas mortas. Essas folhas se transformarão em húmus e os troncos caídos e mortos servirão de abrigo e morada para outros seres vivos. Vemos todos esses fenômenos que ocorrem nas florestas como naturais e pensamos, “Que maravilha que é a natureza”. Porque não temos a mesma visão sobre a vida dos homens? Porque a vemos com olhos iludidos. Essa é a essência do Budismo, desculpem-me se isso parece terrível.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Mais perto porque não sabe



P: De certo modo, uma ave que é simplesmente uma ave, está mais próxima de sua natureza búdica do que os seres humanos?

Monge Genshô – Por não saber de si mesma está. Por sabermos de nós mesmos, nos perdemos. Imaginem que fôssemos pássaros. Se eu fosse um pássaro, chegasse à beira do ninho e pensasse, “nunca voei, mas posso voar”, teria um grande medo. Pelo fato de pensar no vôo e na queda, teríamos medo. Uma águia na beira do ninho não pensa, e por isso alça vôo.

Estava ouvindo um concerto de “Rachmaninoff”, o concerto numero três, que é um dos concertos mais difíceis de ser executado, é uma espécie de terror dos pianistas. Extremamente complexo, com uma tempestade de notas. Quando prestamos atenção no terceiro movimento e vemos as mãos voando no teclado, logo entendemos que não pode haver um pensamento por trás. Se em algum momento o pianista pensar na próxima nota, é impossível tocar.

Há uma piada Zen em que alguém pergunta para uma centopeia: “Qual é a perna que você mexe primeiro”? Desde então ela não conseguiu mais andar. Isso está presente em nossas vidas o tempo todo. Mesmo que não prestemos atenção, pode aparecer alguém com uma crise de ansiedade e dizer que tem medo de esquecer-se de respirar, coisa que uma pessoa sadia não pensaria. A mesma coisa acontece com uma pessoa que, ao deitar-se, deseja ficar bem atento ao exato momento em que irá adormecer. Há este momento em que acontece uma mudança no cérebro e a pessoa adormece, se você prestar muita atenção não irá dormir, porque para dormir precisa esquecer. Em geral estamos perdidos e não conseguimos viver completamente, em razão desta questão. Então a resposta é sim, o pássaro está mais perto porque não sabe.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Nada de especial mas tudo diferente



Nós estamos sonhando as nossas vidas. Não são assim tão reais. Nós somos a própria vida ou o próprio universo, só que nós não enxergamos. Só enxergamos a nós mesmos. Abrimos os olhos, olhamos os outros, tocamos nas coisas e pensamos “EU SOU”, e isso é a nossa angústia existencial, porque não queremos que esse “EU” desapareça temos pavor da morte.

Só que se você enxergar sua verdadeira natureza, desaparece o medo de morrer. E toda angústia existencial e as questões sobre a vida, todas se dissolvem, todas as respostas surgem. E isso é o KENSHO, a experiência iluminada, que pode acontecer a qualquer momento e durar muito pouco tempo. Você praticou zazen, sai, vê uma árvore, e durante alguns segundos, você “viu”, sua verdadeira natureza. Não existe separação entre você e nada, e tudo é lindo e perfeito. Tudo é maravilhoso. E aí, no primeiro pensamento, você perde. Na primeira consideração, você perde o Kensho.

Por isso é uma experiência limitada no tempo. Você viu sua verdadeira natureza, mas perde logo em seguida. Não é nada tão absurdo assim. Muitas pessoas que nem praticam, às vezes têm uma experiência de Kensho. Levantam de manhã, estão com a mente vazia, abre a janela, sentem um perfume, uma onda de felicidade, e alguém diz: “vem tomar café!”. Pronto. Perdeu tudo.  Aquilo foi Kensho. Imagine viver a vida toda com essa sensação? Isto, viver a vida toda com essa sensação ou poder recuperá-la quando quiser, chama-se SATORI, e este é o despertar verdadeiro.

Então você pratica o Zazen, pratica o Samadhi, que cria o terreno, para as experiências de Kensho, que acumuladas, tornam-se cada vez mais fortes e permanentes e nós chamamos de Satori. E isso é o despertar.

E aí ficam tranquilos, serenos, felizes, sem se perturbar com as coisas. Porque vêem a vida como ela é. Um mero jogo, um mero transcorrer do fluxo, não há nada tão importante. Tudo vai passar. Isso é Satori. É a iluminação, nada de especial mas tudo é diferente.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Samadhi e Kenshô

                                        Noviço raspa os cabelos para a ordenação monástica


Quando fazemos zazen, tentamos obter esta condição chamada SAMADHI, que é essa concentração onde você esquece o passado, esquece o futuro e está aqui no momento presente, realmente imóvel e tranquilo.

Quando você levanta do zazen, o mundo mudou um pouco, porque você foi lá e conseguiu “parar” de gerar carma. Você está sentado ali, não está gerando carma, pois sua boca está fechada, você não está pensando nem planejando e você não está agindo.  E, à medida que você apaga e vê que as coisas não têm a importância que pareciam ter, suas marcas cármicas vão sendo dissolvidas, vão sendo amenizadas, você tem uma mente que você pode reconstruir com novas energias.

Eu treinei energias ruins, depois treinei energias boas, aí, essas energias boas tomaram conta. Fui “me tornando” Monge. Qualquer lugar em que  vou: “Monge”, exclamam as pessoas. Vamos sentar, “Monge”, vamos fazer Zazenkai “Monge”, vamos fazer Sesshin “Monge”, etc. Sempre sentando com os outros porque o fato de ser Monge arrasta você. E esta é a vantagem de ser Monge, é ser “arrastado” para a prática, porque os outros estão pedindo isto de você.

Aí você  fala sobre o Dharma, fala, fala,  o Dharma está dentro de você todo o tempo, aí me deito pra dormir, e sonho, com o Dharma! Então, meu inconsciente também está mudando. Eu não sonho que estou dando tiros

. Isso não existe. Eu sonho que estou falando sobre o Dharma.

Então, SAMADHI primeiro, no zazen. Segundo, KENSHO. Kensho quer dizer: “KEN”, enxergar. E SHO quer dizer verdadeira natureza. “Enxergar sua verdadeira natureza”. A nossa verdadeira natureza não é nossa identidade, nosso corpo, nosso eu, não é. Nossa verdadeira natureza é outra coisa.

Vocês imaginam o mar e o mar tem ondas, não é? A onda passa e a água aqui não se move. Se você colocar uma cortiça sobre a água, ela sobe e desce, a água não se moveu, só passou uma energia, uma onda. Não é? Eu estou falando, faço o ar entrar, vocês ouvem. Mas, não tem vento. O ar não se moveu. É só uma vibração que se transmite de uma molécula pra outra do ar.

Nós somos uma onda no universo. Energias se movendo. Nós somos isso. Daí nós “pensamos” que isso é uma identidade. Só que a água está passando. A energia está passando pela água mas a água não está se movendo. O seu corpo é assim. Em 10 anos mudaram todos os componentes. Todo o cálcio do corpo foi embora e entrou outro. O ferro foi embora e entrou outro. Do seu corpo original não sobra praticamente nada. Foi tudo embora e está tudo reposto, reconstituído. Não é isso?

Então, nós “pensamos” que somos uma onda. Mas na nossa verdadeira natureza, não somos onda, mas sim, o oceano inteiro. Nós somos o oceano, pensamos que somos onda, porque temos uma mente funcionando, uma energia que está se transmitindo e esta energia olha pra si mesmo e diz: “eu sou”. Isto é um engano. Minha verdadeira natureza não é onda. Onda nasce e morre. Nossa verdadeira natureza está além de nascimento e morte. Não tem a ver com identidade. Nascimento e morte não existem, são ilusões de uma onda cármica se movendo no universo.

sexta-feira, 15 de março de 2013

As montanhas e os rios



(texto) “Está claro que uma identificação espiritual profunda com todas as coisas da natureza é precisamente o que caracteriza a exteriorização do interior. “No domínio mais ilimitado, prazer estético, essa espécie de identificação é normalmente vivida quando, por exemplo, se escuta intensamente uma bela música. Música tão profundamente escutada que já não a escutamos, posto que nós mesmos somos música enquanto dura”. Esse é um poema de Eliot. Tal como observa o professor Willian Johnson “esse intenso momento tão característico, a musica escutada tão profundamente que já não existe uma pessoa determinada que escuta nem música escutada, já não há um eu oposto a musica, existe simplesmente música, sem sujeito nem objeto. Em outras palavras, o universo inteiro esta pleno de música, é música, nesse estado espiritual de unificação absoluta que é, psicologicamente falando, uma espécie de inconsciência, implica o total desaparecimento da música como também o total desaparecimento do eu.” O que aqui se aplicou é algo absurdamente indiferenciado e indivisível, uma pura consciência sem sujeito nem objeto. Para que haja experiência de iluminação, o ser humano deve despertar essa consciência pura. O algo absurdamente indivisível se divide em eu , e por exemplo, flor.”

(comentário)Vamos prestar atenção que isso é uma experiência, mas não é realmente iluminação. Tornar-se um não é o final.

(texto)” E nesse preciso instante dessa divisão, a flor emerge de modo súbito como flor absoluta. É uma flor que se abre em uma atmosfera espiritual essencialmente diferente daquela em se abre uma flor comum ,e no entanto, ambas são uma só e única flor. Nada pode apresentar melhor e de modo mais típico o processo de instauração dessa visão Zen do mundo que as reflexões do Mestre Thing Yo. “Faz trinta anos antes que esse velho monge, quer dizer eu mesmo, começou a praticar o Zen. Eu contemplava uma montanha com se fosse uma montanha e um rio como se fosse um rio. Depois tive a sorte de encontrar mestres iluminados e pude, sob sua direção, alcançar certo grau de despertar. Em tal estado quando contemplava uma montanha, já não era uma montanha, e quando via um rio, já não se tratava de um rio. Agora me encontro num estado de quietude última, igualmente a meus primeiros anos, vejo uma montanha simplesmente como uma montanha e um rio como um rio”. Examinemos agora o processo inverso, quer dizer, interiorização do exterior, no qual o mundo da natureza, chamado mundo exterior, se interioriza e se põe enquanto paisagem interior.”

(comentário) O mais interessante disto, é que é tema recorrente entre os mestres Zen. Nós já estudamos um texto semelhante, com outro tipo de abordagem. Quanto mais lemos sobre isso, mais nos clarifica. Hoje vejo muitas pessoas perguntarem : – O que que eu posso obter com a meditação, posso ficar mais tranqüilo? – a resposta é sim. Mas isso não quer dizer nada sobre o Zen. É um subproduto da prática meditativa e que pode ser obtida em muitas diferentes metodologias meditativas. Esse não é um objetivo do Zen. O objetivo de nossa prática aqui e agora, é uma realização espiritual. Que, tranqüilidade e serenidade são um primeiro passo para isso, é certo. Acalmar-se é um primeiro passo necessário? Sim. Prestem atenção nos seus corpos também. Eles doem quando ficamos sentados muito tempo, e por que existe sofrimento nos nossos corpos e nas nossas mentes por ficarmos tão parados? Porque não conseguimos alcançar ainda um estado de serenidade. Então nossos corpo e mente protestam, estão profundamente ligados. Então, se protestam é porque tem coisas em nós que estão instáveis, ou que não querem ser eliminados. Acontecem até outros tipos de eventos em nós nos sesshins, embora a alimentação seja correta, embora tudo esteja calmo, há pessoas que ficam doentes, sistema digestivo, ficam com sérios problemas. Há pessoas que vomitam. Poderíamos fazer a interpretação de que a pessoa não quer largar nada, ou quer colocar para fora algo que está dentro e não consegue suportar. Cada dor física tem um significado. Mestres experientes podem dizer muito somente tocando nas costas. Então nesse momento temos uma grande experiência de investigação pessoal. E já que entramos nisso e, provavelmente já nos arrependemos algumas vezes - Que estou fazendo aqui, por que vim para o sesshin? (retiro) – já que entramos, não desistimos enquanto não solucionarmos. É assim que tem que ser, não desistirmos enquanto não solucionarmos. Alguma experiência tem que sair desse sacrifício. Algum insight tem que sair, não pode ser desperdiçado. Então, não sentem viajando, voltem sempre para cá. Insistam em colocar rédeas nesse touro desembestado. Como nos Dez Passos do Boi. Se você conseguir nesse sesshin, ver sua mente, porque ela se esconde o tempo todo de você, já é grande realização. Mas esse tempo é impreciso, alguém pode despertar agora nesse sesshin ou daqui a quinhentas vidas. Não há como medir, vai depender de como você conduz sua vida e como você trabalha seu carma. Se você, através da meditação, mudar seu carma, sua mente, seus impulsos e conseguir ser uma pessoa com outro tipo de impulso, então esse carma produzirá um ser numa situação melhor, por exemplo, onde o Dharma exista desde a infância.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Vendo sua verdadeira natureza



Pergunta – O senhor disse que o primeiro passo é a virtude, sendo o caminho os preceitos, que o caminho para o segundo passo ( a compassividade) é o zazen e para o terceiro passo (a não dualidade) é o zazen de uma forma mais profunda. O senhor poderia falar um pouco mais sobre isso?

Monge Genshô – A medida que nos aprofundamos no zazen, e vamos mais fundo na nossa compreensão, ultrapassamos a noção de eu e os outros, eu e o universo e vai chegar um momento em que tudo se dissolve. Quando o eu puder ser abandonado, mesmo que por alguns momentos, você experimentará o que é não dualidade e esse será um momento de kenshô (ken = ver, sho= verdadeira natureza), um momento iluminado. 
Na medida que você conseguir ter mais experiências como essa, talvez um dia você consiga obter o domínio sobre esse tipo de experiência, isso seria o satori ( a iluminação), você será proprietário da experiência da não dualidade e pode chamá-la a qualquer momento. Não significa que você fica transitando nesse mundo sem um eu, porque precisamos de um eu para fazer as coisas, para falar, trabalhar, agir. Mas para obter a iluminação você precisa ser capaz de descartá-lo a qualquer momento da mesma forma que você tira uma camisa. Você precisa da camisa, mas você não é a camisa. Você precisa de seu eu mas você não é seu eu. Perceba que a vida diária é pura dualidade.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Palavras no início do zazen




Sentamos em zazen para enxergarmos nossa verdadeira natureza. Nossa verdadeira natureza está além dessa existência, além desse ser que nasce e morre, nossa verdadeira natureza é compartilhada com os pássaros lá fora, com toda a vida da terra, com nossos ancestrais, com nossos descendentes. Somos muito mais do que esse fenômeno que nasceu e que irá morrer. Sentamos em zazen e não cogitamos mais passado e futuro. Não lutem com seus pensamentos, não raciocinem, não sigam idéias, apenas sentem nesse momento, ouçam os pássaros, o ruído do trafego e nossa própria respiração. Esse momento é a única realidade e se ficarmos nele adquiriremos paz. Essa paz nos permitirá enxergar mais profundamente e alcançarmos a verdadeira sabedoria. Não se trata de acreditar, mas sim de experimentar. Então, experimentem, fiquem aqui, não se deixem levar pelos seus pensamentos, retornem para cá a cada momento. Sejam senhores de suas mentes. 


(Palavras de Monge Genshô no início do zazen, gravadas e decupadas por Chudô San)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O caminho do Zen





Em primeiro lugar nós temos que entender o que é o Zen e o que é o caminho do Zen. O caminho do Zen é o caminho direto. O caminho direto foi ensinado por Buda pessoalmente, segundo conta a historia, a partir do sermão da flor. Quando Mahakashyapa sorriu quando Buda levantou uma flor. A percepção do que é o caminho é a compreensão de que tudo esta na mente. Que na verdade esse mundo, que nós vemos como mundo sansárico, é o mesmo mundo nirvânico, é o mesmo nirvana. Nós trabalhamos, comemos, dormimos, encontramos pessoas e tendemos a separar o mundo como o mundo do dharma de um lado, o mundo da paz, da serenidade, como agora quando estávamos em meditação e o mundo das aquisições, das coisas, dos trabalhos, das pessoas. Mas esse mundo que nós olhamos não é o nirvana porque a nossa mente não o vê. Assim como não vemos nas pessoas a pura natureza de Buda. Porque a única coisa que existe nas pessoas, a única coisa sólida e verdadeira, é a pura natureza búdica. Dentro de qualquer pessoa, a única coisa que não pode ser removida é a natureza búdica.

Toda sua mente, todos seus pensamentos, todos os acontecimentos, toda sua cultura, toda sua memória e seu corpo são temporárias e sendo temporárias, evanescentes e impermanentes, essas coisas não são o que poderíamos chamar de real. A única coisa que poderíamos chamar de real é a pura natureza búdica. A nossa dificuldade é que não podemos enxergar, por que? Porque nós temos ego. Como temos ego, esse eu, que usamos para transitar no mundo, confundimos tudo com uma realidade eterna e queremos que ele seja permanente. Confundimos todas as outras coisas com realidade sólida. Quando elas não são mais que bolhas, fumaça, sonhos, que passam e desaparecem como essa nossa reunião, como nossos corpos, como tudo. Mesmo nosso eu pessoal desaparecerá completamente.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A ética budista



Todas essas histórias, desde a da ponte do meio-balde até a dos chipanzés, têm relação com nossa atitude de integração e respeito com toda a natureza e com tudo o que nos cerca. O primeiro preceito budista diz “Não matar”. Isso não significa, somente, não matar seres humanos, mas tem relação com tudo o que nos cerca. Meu primeiro professor do Zen, Kanner San, dizia que esse preceito inclui não matar uma pedra, simplesmente porque também uma pedra pode ser danificada por um mero destruidor, por um capricho. Se não houver um motivo plausível, não temos o direito de destruir qualquer coisa ou de causar qualquer sofrimento. Esse é um questionamento que cada um deve fazer com relação a si mesmo e sua vida no mundo.

Quando penso em moralidade, penso que o budismo não tem uma moral no sentido de mandamentos que temos que seguir, preceitos existem, são como faróis para nos guiar e evitar uma vida com sofrimentos adicionais. Não é uma questão de moral no sentido convencional, como questionar-se sobre a roupa a vestir ou de como nos comportamos; não se trata de uma coisa assim caracterizada por rigidez, por algo que vem de fora ou de um deus a quem tememos. Trata-se de uma ética em relação ao sofrimento, logo, todo ato que cause sofrimento aos outros deve ser questionado, o que engloba gestos, palavras e em última análise, pensamentos – neste caso, porque o pensamento leva a que se cometam as palavras e os atos que irão gerar sofrimento.